“On The Road” – Um romance beatnik numa adaptação pro cinema cheia de jazz

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  • On The Road (Na Estrada)
  • Lançamento: 2012
  • Direção: Walter Salles
  • Roteiro: José Rivera (baseado no romance de Jack Kerouac)
  • Elenco Principal: Sam Riley, Garrett Hedlund e Kristen Stewart

O filme do diretor brasileiro Walter Salles, é uma adaptação do que é muito provavelmente, o mais importante romance da geração beatnik e um dos mais icônicos do século XX. A história conta das primeiras viagens pelas estradas americanas do jovem Kerouack (no livro sob o pseudônimo de Sal Paradise) e sobre sua amizade com Neal Cassady (no livro sob o pseudônimo de Dean Moriarty). Com a aparição de personagens que incorporam importantes figuras do círculo social do autor Jack Kerouack, como Allen Ginsberg e Wiillan Burroughs, o livro (e o filme) trazem toda uma ideologia de liberdade que foi a percursora da filosofia hippie.                                              

À esquerda – Sal Paradise e Dean Moriarty no filme de 2012. À direita – Jack Kerouac e Neal Cassady em 1952

Junto disso tudo, um dos elementos centrais na história é a música. Sendo Sal Paradise e seu amigo Dean Moriarty dois fanáticos pelo jazz dos bares baratos, a história é carregadíssima de referências ao gênero e o filme cheio de bebop na trilha sonora. Mas de todas as referências, a mais importante é bem possivelmente o Slim Gaillard.

Slim é citado como sendo o herói de Sal e Dean, (“Sim! Ele saca todas, ele saca todas!”), como um cara que entendeu o mundo. Ele é dito na história como uma espécie de xamã, um cara que entra num transe espiritual enquanto toca e meio que “viaja entre mundos”. Também conhecido como McVouty, o jazista ficou marcado por apresentações que misturavam seu talento multi-instrumental a uma comédia desencanada e pela invenção duma língua chamada “Vout-O-Reenee”, pra qual ele chegou a escrever um dicionário!

O filme ainda conta com uma série de outras de artistas citados no livro como Billie Holliday, Ella Fitzgerald, Charlie Parker e Dizzy Gilespie e também com músicas compostas especialmente pro longa pelo compositor argentino Gustavo Santaolalla, como a intrumental “The Open Road”, levada quase que inteiramente na percussão.

Segue em link o trailer do filme e a trilha sonora no Spotify:

Trailer:

“Cowboy Bebop” (1998): um anime futurista e cheio de jazz

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Cowboy Bebop
Cowboy Bebop

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Cowboy Bebop
Lançamento: 1998
Direção: Shinichiro Watanabe
Elenco Principal: Steven Blum, Beau Billingslea e Koichi Yamadera


“Cowboy Bebop” se passa em 2068, um futuro muito loko com portais intergalácticos que permitem viagens em minutos e numa estilera Blade Runner, cheio de jazz e meio blazè gostosão, Spike, um caçador de recompensas, vive junto do amigo/sócio no que parece uma espécie de trailer espacial. Com um cigarro na boca e um cabelo muito style, o personagem anda sempre atormentado pelo seu passado, que vai se revelando de modo meio misterioso a cada encontro que acontece, seja com quem vai ficar pro resto da história, seja com quem aparece só em flashbacks… (Meio clichê, mas da hora pacarai!)

Perfeito pra quem tá a fim de assistir uma coisa de boa e que não exija muito da cabeça, o anime de 98, apesar de se apropriar duma série de elementos e soluções de roteiro bastante mainstream, é com certeza uma delícia, e se não impressiona pela originalidade da estrutura, a trilha deixa qualquer um que assista boquiaberto.

O adjetivo escolhido pra caracterizar o cowboy no título da série é o que leva os fãs do beat Thelonious Monk a clicar no play. Com um jazz bebop fantástico, às vezes intercalado com algum delta blues, a série japonesa ataca com aquele climinha smooth que dá sempre uma ótima sensação.

Devo dizer, contudo, que a minha música favorita da trilha é uma valsinha no melhor estilo valsa-jazz, tipo “Waltz for Debbie” do Bill Evans: “Waltz for Zizi”, música que toca várias vezes ao longo da série, acompanhando as cenas de reflexões nostálgicas e lhes empresta um lindo caráter felizinho good vibes.

Além disso, a música também está presente no título dos episódios, muitas vezes referentes à icônicas faixas do jazz, do blues e do rock, como no episódio “Honky Tonk Women”, que leva o nome do som dos Stones.

Foi feita em 2014 pelo Adult Swim uma série chamada Space Dandy, uma referência/plágio/homenagem ao anime noventista, porém sem a trilha jazz bebop que enfeita a série do Cowboy.

Em cima: Bebop; embaixo: Dandy.

Segue em link o primeiro episódio legendado e a trilha sonora completa.

Ep.1: http://mais.uol.com.br/view/tyccl3p7nhf5/cowboy-bebop-01-04024C99376AE0A14326?types=A&

Trilha completa:

Ecléticas e envolventes: conheça as pérolas escondidas nas trilhas dos jogos da FIFA

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FIFA Soccer

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Hoje não vamos falar de cinema, muito menos de série. Mas nem por isso trilha sonora vai ficar de fora, é claro. Ainda em meio a clima olímpico e ouro inédito no futebol masculino vamos falar de outra paixão nacional: vídeo games.

ALLEJO
Allejo, o eterno “Pelé” do jogo International Superstar Soccer (SNES)

Recentemente vimos um vencedor de prêmio Puskas, o até então semi-desconhecido Wendell Lira, virar gamer profissional. O jogador que pouco tempo após o gol – marcado pelo Goianésia durante o modesto campeonato goiano –  foi dispensado do time que disputa a quarta divisão do campeonato nacional.

Após a fama “meteórica”, ele teve propostas de times do Brasil todo, acabou até fechando um contrato com o Vila Nova (Goiás) que após 3 jogos foi rescindido. Ele até teve propostas de outros clubes como o Audax (do Vampeta – ex-Corinthians e pentacampeão), mas aos 27 ele “aposentou as chuteiras” e migrou para o futebol de apartamento.

Sobre sua decisão, Wendell até falou um pouco para o Uol no fim de julho:

“Decidi que é hora de parar”, disse o jogador em vídeo promocional. “Várias situações me motivaram a essa decisão. O gol marcou minha carreira, foi inesquecível, mas eu tive muitas desilusões no futebol. Infelizmente há pessoas boas, mas há pessoas muito ruins no futebol, que não pensam na família ou no jogador.

Tive muitos problemas e como eu já era um apaixonado por games, recebi uma proposta muito boa para iniciar este projeto, que me levaria a ter um futuro melhor, já que no futebol teria mais três ou quatro anos de carreira em um nível intermediário. Todos sabem a dificuldade dos clubes menores. Foi a melhor decisão”

Caso se interesse por saber mais sobre o novo rumo de Wendell dentro das quatro linhas – virtuais – do FIFA fique por dentro através de seu canal de youtube WLPSKS.

FIFAR
“Os bugs” de FIFA costumam fazer sucesso na internet

No dia 27 de setembro (29 no resto do mundo) chegará ao mercado norte-americano a vigéssima quarta edição da franquia de games FIFA. Um game muito esperado, pois será a primeira que teremos o adendo do futebol feminino, algo que é pedido já a muitos anos e que FINALMENTE ganha espaço. Outra novidade será que veremos os treinadores “trabalhando” de dentro do campo e será possível interagir com eles.

Muita coisa mudou desde o início do jogo que foi ao mercado pela primeira vez no fim de 1993 e já passou por um número vasto de consoles, tendo até desdobramentos como Fifa Street e Fifa World Cup. Muitas ligas foram adicionadas, direitos de imagem foram negociados e os gráficos a cada ano que passam ficam mais realistas. Sem esquecer, claro, da jogabilidade, do modo “manager” de carreira e das trilhas sonoras. E é neste ponto que queria chegar: vocês já pararam para prestar atenção nas pérolas que as soundtracks de FIFA possuem?

Hoje irei fazer algo diferente: ao invés de dissecar faixa a faixa a trilha de uma edição, vou escolher algumas para destacar. Acredite se quiser, vocês irão se surpreender. E funcionará perfeitamente como aquecimento para revelação da trilha de FIFA ’17 – algo guardado a sete chaves pela equipe da EA SPORTS.

Em 2016 tivemos a aparição da banda brasileira sensação: Baiana System. Misturando o axé baiano, o som dos som sistemas, reggae, cumbia, afroxé e beats eletrônicos que têm conquistado não só o coração dos brasileiros, mas o mundo. No game, “Playsom” traz toda essa conexão Brasil-Kingston-Berlim para nossos ouvidos. Quem já pôde vê-los ao vivo nos conta que a energia da combinação destes ritmos é envolvente como a energia de uma escola de samba.

Ainda na trilha de 2016, quem traz a energia para as pistas de dança é o grupo colombiano Bomba Estéreo. Com a explosão do reggaeton e o sucesso de M.I.A., este tipo de som têm ganhado adeptos ao longo dos anos. Eles se denominam como eletro-tropical ou cumbia psicodélica. O que importa é que é ficar parado não é opção após o play:

Mas fiquem calmos que a última edição não tirou o espaço do rock alternativo – que sempre tem espaço nas trilhas do jogo – da área. E porque não uma banda portuguesa que tenho contato a alguns anos e transmite uma energia muito boa, o X-Wife?

A música que participa da soundtrack é “Movin Up”, que tem uma levada lo-fi descompromissada misturada com beats eletrônicos e metais. Segue aquela linha do Cansei de Ser Sexy e Bombay Bicycle Club. Certamente irá conquistar fãs de Arctic Monkeys, Kasabian e The Knife:

Direto da terra do Tame Impala e com influências de Of Montreal e Devendra Banhart e do polêmico Kanye West vem o The Griswolds. Aliás, ela é altamente recomendável para fãs de Passion Pit, tendo inclusive excursionado juntas. Na tracklist de FIFA ’15 eles aparecem com a festiva e inocente “16 years”.

Dez anos após o lançamento do icônico álbum de estreia, o duo canadense Death From Above 1979 lançou seu segundo disco. Muitas faixas estavam “engavetadas” do primeiro trabalho e soam como continuação do disquinho. Para coroar toda essa espera, a trilha de FIFA ’15 conta com “Crystal Ball”, uma canção para fritar na pista de dança.

Em 2014 quem chegou “tombando” tudo foi Karol Conka. Mas a canção que embala o tom da prosa não foi “Tombei”, e sim “Boa Noite”. A rapper curitibana mostrou seu poder e som contagiante desde então em uma subida que parece não ter limites:

Mas é nas diferenças que as trilhas de FIFA ganham seu brilho. Representando a música inglesa e seu rico cenário eletrônico temos o Crystal Fighters que em 2013 chegou junto com seu eletro-folk tribal. A festa ficou ainda mais contagiante ao som da eletrizante, “Follow”:

Misturando rumba, flamenco, música eletrônica e música latina direto da Espanha temos a Macaco. Assim como o Gogol Bordello, o conjunto catalão contém membros de países do mundo todo (Brasil, Suécia, Camarões, Venezuela e Espanha), e tem na mistura sua força motriz. No FIFA ’12, “Una Sola Voz” está presente na trilha. O grupo já esteve presente no FIFA ’09 e FIFA ’10 com respectivamente “Moving” e “Hacen Falta Dos”.

A  Ana Tijoux é francesa de nascimento mas escolheu o Chile como terra de coração e solta suas rimas com primor em “1977”, faixa que faz parte de seu quinto álbum solo, que teve sucesso tanto na América Latina como nos EUA. A soundtrack de FIFA ’11 não foi a única que a utilizou: a série Breaking Bad também adicionou a cantora a seus discos de cabeceira.

Uma das mais emblemáticas e importantes bandas do ska argentino não ia ficar de fora dessa festa: com todo gingado boleiro, Los Fabulosos Cadillacs faz um gol de placa – na trilha de FIFA ’10 – com “La Luz del Ritmo”.

O consagrado duo norueguês de música eletrônica Röyksopp dominou no peito e após driblar o adversário bateu para o gol com a viajante “It’s What You Want”. O som deles mistura o ambient, o house, o drum & bass com ritmos latinos. Um destaque que quem joga não verá – se não procurar no Google – é o visual excêntrico dos estranhões que em sua carreira tem uma indicação para o Grammy.

As descobertas não param e direto da Bélgica – um país que tem uma diversidade musical incrível – temos Zap Mama. Se eu não tivesse lido que a artista é de lá eu jamais chutaria que é belga, porém o som me deixou intrigado desde a primeira nota. É uma loucura sonora de um mistura interessantíssima: hip-hop, nu soul com elementos de jazz e pop. Com raízes musicais africanas, ela canta em inglês e em francês. Na trilha de FIFA ’10 ela aparece com “Vibrations”.

Voltemos ao bom e velho rock’n’roll: em 09′ quem deu as caras foram os escoceses do The Fratellis com “Tell Me a Lie”, canção presente no segundo disco do grupo – Here We Stand” (2008). O grupo liderado por John Fratelli ficou sem lançar nada até 2013, após neste período anunciar um longo hiato e John se arriscar em carreira solo.

Uma das canções mais conhecidas das gêmeas idênticas do The Veronicas, “Untouched”, está presente –  no jogo de ’09 – com seu eletropop/alternativo. Uma curiosidade é que , ex-Holly Tree, lá em 2008 tocou como guitarrista no conjunto.

Em 2008 uma das bandas que eu mais gosto da Australia, The Cat Empire, entrou na trilha do game com o hit “Sly”. O mais curioso é que o som da banda tem uma veia latina fortíssima com seu jazz que mistura ritmos latinos com o ska, o funk, o rock e até um pouco da salsa. Já pude presenciar o show deles em três oportunidades e digo e repito: Não perca de jeito nenhum em uma futura visita ao país.

No mesmo ano temos uma banda da Alemanha, mas calma: não vou anunciar mais um gol do Khedira, por mais que o grupo represente muito bem a música pop germânica. Lembro quando ouvi pela primeira vez a canção “Nur Ein Wort” na MTV Europa e ter escrito num post-it para baixar depois – em meados de julho de 2005 (9 anos antes do fatídico 7×1).

Enfim, na trilha temos Endlich Ein Grund Zur Panik”, canção que conta com um divertido clipe que “tira onda” com a imagem dos super heróis e vale a pena apertar o play. 

Em 07′ a Coréia do Sul foi representada pelos “bizarros” e aleatórios Epik High. A canção não é muito minha cara com seu hip hop made in Seoul. Porém a título de curiosidade segue o o clipe de “Fly”:

Mas se estamos falando de música diferente feita ao redor do mundo, porque não um Nu Metal italiano? E assim chegamos a soundtrack de FIFA 06′ com Inno All’Odio” do LINEA77. Eu não sei vocês, mas eu nunca tinha parado para imaginar Nu Metal feito em italiano e achei de certa forma cômico. 

Para fechar a lista de alguns dos muitos destaques e pérolas dos últimos 10 anos da trilha sonora da série de games FIFA, um clássico. Sim, já podemos afirmar tranquilamente que “Daft Punk Is Playing at My House” do LCD Soundsystem, um dos grandes clássicos dos 00’s.

E desta forma encerramos os trabalhos por hoje com novos sons para agitar sua playlist e também fazer a trilha daquela pelada no fim de semana. Arranje uma caixa de som e bom jogo!

A epopeia musical de “O Lobo de Wall Street” de Martin Scorsese

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O Lobo de Wall Street
Leonardo DiCaprio em "O Lobo de Wall Street"

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Hoje vamos falar sobre a trilha de um filme que é um tremendo absurdo ter saído do Oscar de mãos vazias. Perseguição por parte da academia de seu diretor? Talvez. Ter um ator da magnitude de Leonardo DiCaprio no elenco e até então – Antes do O Regresso” não ser premiado? Outra possibilidade válida. Ter competido com um filme em que todos apostavam as fichas (Gravidade”)? Provavelmente um belo de um azar no quesito timing.

Já que o filme foi indicado para o Oscar nas categorias:

1- Melhor Filme
2- Melhor Diretor
3- Melhor Roteiro
4- Melhor Ator (Leonardo Di Caprio)
5- Melhor Ator Coadjuvante (Jonah Hill)

O filme não ganhou em nenhuma categoria. O prêmio de consolação de DiCaprio foi ter sido nomeado – e vencido – na disputa para melhor ator na categoria filme musical ou comédia na edição daquele ano (2014) do Globo de Ouro. Porém, entre os críticos, o filme foi bastante aceito e prestigiado. O roteiro é agressivo e bem anti-heroi, algo que Hollywood não costuma premiar. Prefere dar prêmios para os bons “moços”, vai entender, né?

Ao menos eu não engoli até hoje terem dado Oscar para o vazio – metido a intelectual mas comum – Her” e deixarem esse tremendo drama/comédia biográfica que foi “O Lobo de Wall Street” (2013). O filme é baseado no livro The Wolf Of Wall Street”, uma autobiografia escrita por Jordan Belford, lançada em 2007.

Leonardo DiCaprio is Jordan Belfort in the movie THE WOLF OF WALL STREET, from Paramount Pictures and Red Granite Pictures. TWOWS-FF-002R

Para não me alongar muito em descrever o roteiro do filme e dar maior atenção para a trilha, segue a sinopse redigida pelo pessoal do excelente AdoroCinema:

“Durante seis meses, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) trabalhou duro em uma corretora de Wall Street, seguindo os ensinamentos de seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey). Quando finalmente consegue ser contratado como corretor da firma, acontece o Black Monday, que faz com que as bolsas de vários países caiam repentinamente. Sem emprego e bastante ambicioso, ele acaba trabalhando para uma empresa de fundo de quintal que lida com papéis de baixo valor, que não estão na bolsa de valores.

É lá que Belfort tem a ideia de montar uma empresa focada neste tipo de negócio, cujas vendas são de valores mais baixos mas, em compensação, o retorno para o corretor é bem mais vantajoso. Ao lado de Donnie (Jonah Hill) e outros amigos dos velhos tempos, ele cria a Stratton Oakmont, uma empresa que faz com que todos enriqueçam rapidamente e, também, levem uma vida dedicada ao prazer.”

A montagem, a escolha de elenco, a trama, a narrativa dos altos e baixos e a energia de instantâneo Blockbuster já deveria ser aplaudida. Além de claro, sua trilha. Aliás trilha sonora é a praia de seu diretor, Martin Scorsese. Não é de se surpreender que ele neste ano tenha se envolvido com Mick Jagger para o audacioso e ferroz “Vinyl”, série transmitida pelo HBO.

A trilha sonora do filme conta com 54 canções ao longo das mais de 3 horas de trama. Destas 54, 16 foram selecionadas para estrelar a versão física do disco que foi lançado em dezembro de 2013 via Virgin. Logo, antes de adentrar ao seleto grupo das 16 que contemplam o disquinho, falarei por alto das que não entraram no álbum, porém estão no filme.

Temos a clássica “Dust My Broom” e “Dust My Blues” de um dos reis da guitarra, Elmore James, “Hit Me with Your Rhythm Stick” do astro do punk Ian Dury e seus Blockheads e “Movin’ Out (Anthony’s Song)” do clássico The Stranger” (1977)  de Billy JoelMalcolm McLaren, um dos maiores ícones da música mundial – empresário dos Sex Pistols e de uma vasta legião de bandas – em 1983 lançou Duck Rock” este que continha a canção “Double Dutch”, que Scorsese escolheu para a trilha do filme.

A refinada “No Greater Love” (1958), do pianista de jazz Ahmad Jamal Trio, também figura na trilha, assim como John Lee Hooker com o clássico do blues “Boom”, uma das 500 músicas da lista da fama da revista Rolling Stone. Johnn Lee inclusive ganhou 2 Grammys como melhor álbum de blues tradicional pelos trabalhos I’m in the Mood” (1990) com Bonnie Raitt e Don’t Look Back” (1998). Teve a sorte de ter seu trabalho reconhecido em vida. Faleceu em 2001.

“Mongoloid” dos nerds mais cools do rock, o DEVO, e seus sintetizadores e epifanias preenchem uma das cenas mais malucas do filme. Me First And The Gimme Gimmes aparecem na trilha fazendo cover de Beach Boys, Mais precisamente da canção “Sloop John B”, escrita pelo lengendário Brian Wilson. O filme se passa em Nova Iorque e seria uma tremenda bola fora deixar a galera do rap fora dessa. Então vamos de clássico! Scorsese escolheu “Hip Hop Hooray” do grupo Naughty By Nature para deixar tudo nos conformes. Outro grande pianista do jazz também entra na trilha, Charles Mingus, com sua envolvente “Wednesday Night Player Meeting”.

O hit do italiano Umberto Tozzi, “Gloria” de 1979, também faz parte. Duvido que nunca escutou a canção do músico na Antena 1. Mas temos new wave também, sim, por favor! Com o grupo francês Plastic Bertrand e “Ça Plane Pour Moi” (1978), um hit de discoteca que tem versões interessantes de grupos como Sonic Youth, Nouvelle Vague The Presidents Of The United States Of America. Uma curiosidade é que poucos meses antes dos vocais da canção serem gravados, a gravadora usou a mesma trilha com os mesmos músicos para lançar “Jet Boy, Jet Girl”. Os vocais da versão em inglês são de Alan Ward, que para quem não sabe é o vocalista do Elton Motello.Uma curiosidade é que poucos meses antes dos vocais da canção serem gravados, a gravadora usou a mesma trilha com os mesmos músicos para lançar “Jet Boy, Jet Girl”. Os vocais da versão em inglês são de Alan Ward, que para quem não sabe é o vocalista do Elton Motello

Uma das curiosidades da trilha foi essa participação do ator Matthew McConaughey na faixa “The Money Chant” composta por ele em parceria com Robbie Robertson, um dos fundadores do The Band. Saiba mais aqui.

A dupla de eletrônica Dimitri Vegas & Like Mike inclusive fez uma versão insana e a apresentou no Tomorrowland de 2014.

Caso queira saber mais sobre a trilha completa, basta uma rápida pesquisa na rede social, IMDB. Então, finalmente vamos chegar ao seleto grupo das 16 faixas do disco da Virgin.

Lançado logo após o filme, no dia 17 de Dezembro de 2013, é em geral uma coletânea bastante eclética, assim como as anteriores que falamos por aqui. O que só deixa ela ainda mais interessante.

“Mercy, Mercy, Mercy” do Cannonball Adderley Quintet, liderado por Julian Edwin “Cannonball” Adderley, um jazzísta e mestre do saxophone da hard bop era (50’s, 60’s). Inclusive este é o single que mais o tornou conhecido, além, claro, de seu trabalho ao lado de Miles Davis – ele fez parte do lendário álbum Kind Of Blue” (1959) do astro do jazz. A canção conta na banda com seu irmão na corneta, Nat Adderley, e foi lançada no formato de quinteto no ano de 1966, gravada no Capitol Studios de Los Angeles. É um jazz classudo e visceral, um clássico.

Em seguida temos Elmore James com a canção que já falamos acima, a belíssima “Dust My Bloom”. A próxima é “Bang, Bang” de Joe Cuba, um americano descendente de porto riquenho que com sua ginga fez a América dançar com sua envolvente salsa!

“Movin’ Out (Anthony’s Song)”, de Billy Joel, é a seguinte na trilha, e na sequência temos a maravilhosa canção burlesca que flerta com jazz “C’est Si Bon” da americana Eartha Mae Keith. Uma voz delicada e autêntica, ela tem origens do teatro e era cantora de musicais, comediante de stand-up, ativista e dançarina. Ufa, alguém com muito a nos acrescentar e de quem vale a pena conhecer a história. A canção em francês foi lançada no ano de 1953.

“Goldfinger” é um cover, originalmente estrelada por Shirley Bassey na trilha de 007, tema do filme de mesmo nome. Porém, a versão que captou o coração de Scorsese feito uma flecha foi a performada por Sharon Jones & the Dap-Kings, um grupo de funk/soul do bairro do Brooklyn, com influência do melhor do gênero nos anos 70. Um ano após o lançamento da trilha, o grupo foi nomeado para o Grammy.

Sou suspeito demais para falar sobre a próxima faixa, pois envolve um dos meus músicos favoritos de todos os templos, o mestre Bo Diddley. A canção do bluseiro escolhida pelo diretor foi “Pretty Thing”, de 1955. Curiosidade: Foi seu primeiro single a emplacar nas paradas do UK.

O pianista de jazz Ahmad Jamal emplacou mais uma faixa na trilha, Moonlight In Vermont”, uma densa faixa trabalhada no piano e com potencial de te levar para outro plano. É calma, cadenciada, ao mesmo tempo em que é criativa.

A próxima faixa é uma tremenda covardia com as demais, um senhor hit do melhor do blues já feito em Chicago: Smokestack Lightning”, performada por uma das vozes mais marcantes daquela geração, Howlin’ Wolf. A canção está presente no álbum do músico From Moanin’ In The Moonlight” (1959).

Se a próxima música não te colocar para dançar, nenhuma outra o fará. Quem vem com seu funk/disco energético direto do túnel do tempo dos anos 60 quebrar tudo é o saxofonista Jimmy Castor Bunch com “Hey Leroy, Your Mama’s Calling You”, do ábum Leroy” (1968).

Em seguida temos a já comentada “Double Dutch” de Michael McLaren. Logo depois temos mais uma canção new wave/post punker: “Never Say Never”do Romeo Void de 1981. Vocal feminino, beats dançantes e muita fúria degenerativa direto dos criativos anos 80. Voltamos para os dias de hoje com a ultrajante, american rock & blues, caipirona e competente banda 7horse. Recomendo ouvir Meth Lab Zoso Sticker” bebendo um drink com Jack Daniels – ou depois de uma maratona de Breaking Bad. A vibe se transforma no meio do caos hibilly. O primeiro álbum do grupo, Let the 7Horse Run”, veio ao mundo no ano de 2011 e te convida a balançar os quadris.

Eu vou até vou dispensar comentários sobre “Road Runner” de Bo Diddley, pois acredito que um clássico fala por si só.

“Mrs. Robinson” é uma canção originalmente composta pelo duo Simon & Garfunkel em 1968 – e teve seu álbum altamente premiado. Porém, a versão que marcou a geração dos anos 90 foi a dos The Lemonheads, e esta foi escolhida pelo time de Scorsese para o filme. Já para quem é mais velho, deve lembrar da belíssima versão que Frank Sinatra fez em My Way” (1969). Os estranhos do folk/punk Andrew Jackson Jihad também tem uma versão digna. Já os hard rockers do Bon Jovi vira e mexe em shows costumam tocá-la.

Para fechar a trilha com dignidade, calmaria e classe temos Allen Toussaint, um mestre da soul music/R&B/funk/blues/jazz da cidade da música, New Orleans. “Cast Your Fate To The Wind” (1962) do astro do jazz Vince Guaraldi e seu Trio. Através dela mostram o poder da música em expressar sentimentos através de suas notas. 

wolf

A trilha merece ser ouvida e reouvida com certa periodicidade para que assim seja possível extrair seu melhor. Ela é difícil para pessoas que não estão acostumadas com o encanto do jazz, do blues e da soul music, porém ela é urgente. Não deixe de também usar esse texto como abertura para se aventurar pelo jazz. Em São Paulo, por exemplo, temos O JazzB (Vila Buarque) e o Bourbon Street (Moema), onde podemos desfrutar do estilo. No sábado (18), no Dia da Música, o Parque Villa Lobos receberá a segunda edição do festival BB Seguridade de Blues e Jazz, mais uma dica para quem quer aproveitar a cultura da cidade com entrada 0800. E agora o que nos resta é saber qual vai ser a próxima epopeia musical de Martin Scorcese

A cantora Yoyo Borobia lança em fevereiro seu primeiro disco autoral, financiado por crowdfunding

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Yoyo Borobia

Yoyo Borobia é uma cantora com tantas influências que fica difícil definir o sem som. Influenciada pelo jazz, rock, salsa, soul e bossa nova, ela canta o que vier. Nascida na Venezuela, viveu metade da sua vida em Caracas, outra parte em Madri, Espanha, além de ter morado em Paris e agora, São Paulo.

Seu projeto autoral começou em 2014, participando de eventos em diversas cidades do Brasil (Recife, Caxias do Sul no Festival Brasileiro de Musica de Rua) e também fez em 2015 uma turnê na Europa, se apresentando na Espanha, Portugal, França e Bélgica. Logo depois, rolou o crowdfunding de seu primeiro disco com produção do DJ DeepLick, a ser lançado em fevereiro deste ano. A data do evento de lançamento já está marcada: dia 03 de março, no Armarzém Cultural, aqui em São Paulo.  Confira a entrevista com a artista:

– Como você começou sua carreira?
Comecei tocando cuatro, instrumento venezuelano, e cantando aos 7 anos na Venezuela. Posteriormente meus pais se trasladaram para Espanha comigo e teve alguns anos sem tocar o instrumento. Entre tanto, começando a faculdade comecei a cantar em diversas bandas e a intensidade de música e da vontade de viver de música cresceu até ganhar uma bolsa de estudos no Brasil, quando resolvi me dar essa oportunidade.

– Quais as suas principais influências musicais?
Inspiro e expiro música, escuto um pouco de tudo, isto me levou a participar de projetos diversos, desde jazz, até salsa passando pelo rock, pelo soul, pela bossa nova.

– Como você definiria seu som?
É a eterna questão sem resposta. Meu som é uma mistura das influências de todos os lugares nos quais morei, aonde eu viajei. Não sou muito fã de colocar etiquetas na coisas nem nas pessoas, então acho que não devo colocar na minha música.

– Me fale um pouco mais sobre o material que você já lançou.
Até agora tenho lançado dois clipes de musicas minhas e tenho produzido meu primeiro CD que está pronto para ser lançado digital (janeiro) e fisicamente (ao longo do ano em várias cidades, em março em São Paulo).

Yoyo Borobia

– Como é ser artista independente no Brasil? Quais são as maiores vantagens e desvantagens?
Acredito que vantagem é que você faz para você, por você, você que colhe, você que pega seus frutos. A desvantagem e… Exatamente a mesma, é uma luta consigo mesmo, de perseverança, tudo depende de você, vejo nisso um lado bom e ruim, tudo depende do ponto de vista.

– Você já passou por tantos países, sempre se apresentando. O que você vê de diferença entre cada um deles?
Me apresentando na verdade foi em São Paulo, Recife, Florianopolis e Caxias do Sul e serra gaúcha no Brasil, e depois na Europa esse ano em mais cidades. Não acredito na diferença dos países/cidades para diferenciar as apresentações, mas sim na diferença dos locais, já toquei em bares mega alternativos em Madri, ou mega chics em Sampa, ou incríveis arquiteturas em Porto, Portugal, tudo depende saindo você consegue vender um espetáculo, no final das contas, são experiências diferentes e todas elas ricas de alguma maneira.

– A internet é um aliado ou vilão na vida dos artistas independentes no Brasil?
Internet é um grande aliado na minha vida, divulgação, comunicação, contatos, e sempre útil para crescer, e te brinda a possibilidade de chegar a milhões de ouvidos sem precisar de uma outra distribuição, isso há algumas décadas era impossível. Também violão, mas isso na minha vida pessoal que sempre acho que me invade muito e não me deixa viver o mundo real, até escrevi uma música ao respeito.

– Você está trabalhando em algum lançamento?
Sim, para esse ano, meu primeiro CD autoral que foi financiado por um crowdfunding feito no primeiro semestre do ano e tem sido um projeto intenso e um sonho feito realidade dos últimos meses…. Fazia só um ano que resolvi que queria gravar um CD, acredito que foi rápido pela eficácia e a determinação em fazer o projeto tomar vida.

Yoyo Borobia

– Quais os seus planos para 2016?
Por em quanto, o lançamento do disco. Atualmente Uruguai e Argentina, posteriormente de volta no Brasil, São Paulo e Recife com certeza e ainda confirmando outras cidades. Posteriormente, começando a primavera da Europa irei para apresentá-lo lá ! Estão aparecendo alguns convites que vão deixar a muitos boquiabertos, mas, ainda não posso divulgar nada, logo logo saberão mais.

– Recomende bandas e artistas (especialmente se forem independentes) que chamaram sua atenção ultimamente.
Justamente estou ouvindo agora o trabalho do Gavilan, artista de Montevidéu, gostei pra caramba!

Chamada de “a nova voz paulistana” pela Rolling Stone, Monique Maion trabalha em novo álbum

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Monique Maion

A cantora Monique Maion mistura jazz com blues desde 2005, quando começou sua carreira no Syndikat Jazz Club, em São Paulo. Suas performances dramáticas, cheias de personalidade e atitude glam rock a levaram a ganhar elogios de todos os lados, chegando a ser chamada pela revista Rolling Stone de “a nova voz paulistana”. Sua voz pode ter um timbre jazzy, mas a atitude é totalmente rocker. Hoje morando em Venice, em Los Angeles, Monique não pensa em voltar ao Brasil.

“Essa mudança mudou minha música completamente. A principio pensei que seria uma limitação, mas na prisma Californiana, de fato a vida é um oceano de possibilidades. Fiquei leve para rodar milhas, contrato de obrigações ficou menor. Finalmente aprimorei meu piano e aprendi a guitarra, ukelele. One girl band”, explicou a cantora. Monique já lançou discos com o projeto Sunset, em parceria com o músico Gustavo Garde, e também com a banda Os Fellas, além de seus registros solo. “Tenho material para mais um 5 discos”, revela a prolífica artista, que também tem projetos para livros.

Bati um papo com Monique sobre sua carreira, a vida em Los Angeles e a história de seu disco “Lola”:

– Como você começou sua carreira?
Considero os shows no Syndikat Jazz Club em 2005 o inicio da minha carreira. Tenho historias de shows anteriores na adolescência, mas foi uma fase laboratorial. Interiorizei a profissão após gravar uma demo amadora com standards jazz que usei para marcar a residência nesse petit JazzClub nos Jardins. Subi no myspace e em poucos meses recebi uma mensagem do Marcelo Viegas para a Rolling Stone. Depois de ver a primeira resenha na revista dos sonhos disse para mim mesma “Agora foi…” Caminho sem volta.

– Quais são suas principais influências?
Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Tom Waits, Arnaldo Baptista, Frank Zappa, The Residents, PJ Harvey, Cat Power.

– Me fale mais sobre seu disco de estreia.
“Lola” foi o parto da puta. Todo o karma concentrado em um embrião. Acreditei num plano de negócios do selo CurveMusic e era tudo mentira. A raiva era grande mas estava trabalhando em 3 outras bandas, não quis atrasar a carreira com brigas judiciais, me concentrei em apenas criar e pegar estrada. No total 4 discos e 1 EP vieram em 5 anos. Minha resposta para o caso “Lola” foi o EP “The Stolen Records” , inicio do meu último disco lançado pela Recohead em 2014 “Monique Maion & Banda estrelando Os Fellas”.

Monique Maion

– Conta melhor a história desse disco que foi roubado.
O “Lola” não foi roubado. “Lola” teve um contrato ruim com esse selo Brasil-Londres. Nunca recebi o CD fisico, foram vendidos 500 copias na Coreia, top vendas online na Rússia e não vi a cor desse dinheiro. Quando estávamos em turnê pelo Reino Unido, as máscaras caíram. Portanto, decidi trabalhar o novo EP sem o selo, direito que era meu analisando o contrato que atrelava apenas o Lola com a Curvemusic, nenhum direito a Afonso Marcondes para minhas futuras obras que então não aceitou meu “Não, eu não vou trabalhar mais com você, pode ficar com meu primeiro disco”. Ele se apropriou indevidamente de 4 masters do EP e imagens da turnê que investimos do nosso bolso. Afonso começou a mal dizer meu nome pelo mercado e teve a audácia de me ameaçar de processo, eu sabia que ele não tinha a copia do nosso contrato inicial porque estava tentando me fazer assinar “uma nova versão atualizada” com mudanças de cláusula enquanto finalizada a turnê em Berlin. Eu senti o cheiro do cocô de longe. Meu telefone toca ate hoje com artistas implorando para eu contar meu caso porque estão prestes a cometer o mesmo erro. Muita sorte que não comprei a briga e coloquei meus advogados nesse caso. A justiça foi feita a longo prazo, após muito trabalho interno, resgatei os arquivos roubados em baixa qualidade. Arthur Joly recuperou as tracks e lancei o EP “The Stolen Records” com o clipe de “I Killed a Man”, blend de memórias das nossas câmeras pessoais e imagens de Daniel Lima que Baga Defente compilou e editou magistralmente.

– Você está trabalhando em um novo álbum?
Sim. Tenho material novo para mais de 5 álbuns. Música pra dar e vender. Escrevi uns livros também. Tudo ainda na gaveta e caixas pelo mundo.

– Como foi essa mudança para Venice e como ela influenciou sua música?
Tenho muitos sonhos lúcidos reveladores. Basicamente imagens de tsunami, ursos polares saindo do mar como Power Rangers em ação e abelhas, muitas abelhas. Na época eu estava vivendo o sonho, casada numa casa com horta, jardins, estúdio, quartos para hospedes, festas e muitos banheiros. Tinha um apego pelo nosso estúdio 77, perto da minha mãe no Jaraguá, cozinhamos o disco lá, Mamma Cadela, Nevilton, Onagra Claudique, Seychelles, várias bandas ensaiando em nosso lar.

Então meu irmão poeta Marcelo Ariel interpretou os símbolos nos meu sonho e disse “é melhor fazer as malas, você mudará para uma casa tão pequena que acordara no piano”. No dia seguinte o proprietário pediu a casa de volta. Ae mudanças vieram ladeira abaixo: separação, minha irmã perdeu a casa num incêndio em Florianópolis e o choque da morte do meu grande amigo Paulo Queiroz e meu disco empacado na fábrica. Eu precisava de férias da minha vida.

Minha grande amiga Flávia Moraes abriu suas portas em Los Angeles para mim. Flavinha também me deu minha primeira guitarra, que foi minha companheira de viagem pela Califórnia. Pra cá vim em 2013, sem planos, apenas com a guitarra e o coração na mão. Então decidi não voltar mais a não ser para tocar no Brasil. Acabei num quarto tão pequeno que o piano virou cabeceira.

Essa mudança mudou minha música completamente. Não tenho mais a disponibilidade dos meus parceiros excepcionais criando o universo paralelo para eu cantar. A principio pensei que seria uma limitação, mas na prisma Californiana, de fato a vida é um oceano de possibilidades. Fiquei leve para rodar milhas, contrato de obrigações ficou menor. Finalmente aprimorei meu piano e aprendi a guitarra, ukelele. One girl band.

Hoje tenho um Circo sob rodas. Sou dona do meu palco, não toco por cerveja, sou respeitada nos Estados Unidos, não há trabalho sem contrato e depósito e luto pelos direitos humanos do artista ativo – segurança na alimentação e abrigo. Sou afiliada ao movimento Feed the People – Occupy Venice e tenho um trabalho ativo no criação e cultivo de hortas urbanas (Community Healing Gardens / The Learning Garden). Também contribuo com a MusicCare e Grammy Foundation que disponibiliza recursos para músicos em recuperação. Me sinto mais realizada aqui.

Monique Maion

– As pessoas ainda buscam os discos completos? Vale mais a pena apostar apenas em singles?
Sim, o real colecionador/pesquisador musical deseja bolacha na mão. Arthur Joly na Recohead é o canal no Brasil.

– Você chegou a ser chamada de “a nova voz paulistana” pela Revista Rolling Stone. Quem você indicaria como novas bandas e artistas que representam esta cena de SP que está surgindo?
Sou fã do Chucrobillyman, Filipe Catto, Karina Buhr, Karine Alexandrino, Thalma de Freitas, Os Haxixins, Blubell, meus amados Seychelles e sempre de olho nos mestres ativos André Abujamra, Arrigo Barnabé, Arnaldo Baptista, Tom Zé.

– A música pop ficou pior com o passar do tempo ou as críticas ao sertanejo e ao pop de hoje em dia são infundadas?
Acredito que hoje em dia, com o mundo digital, você é responsável pelo o que consome, portanto o mercado pop e sertanejo comercial não fazem parte do meu mundo, nem sei quais são as criticas de hoje dia porque simplesmente não existe para mim.
Eu gosto da música caipira de antigamente a la Viola minha Viola e gosto dos bons pops como Lykke Li, The Asteroids Galaxy Tour.

– Que bandas e artistas têm feito sua cabeça nos últimos tempos?
Acompanho todos os frutos dos produtores: Shawn Lee e Gregg Foreman. Sou fã. LA Witch, Ivory Deville e Kathy Meyers são minhas bandas prediletas em Los Angeles. Hidden Charms de UK me impressionou em seu show de estreia em Hollywood.

Ouça aqui o trabalho de Monique Maion:

Os maravilhosos samples obscuros que Moby usou em seu disco “Play”, de 1999

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Em 1999, Moby lançou seu elogiado disco “Play”, o quinto de sua carreira. O álbum chamou a atenção por ter todas as canções licenciadas pelo artista para utilização em comerciais e trilhas sonoras. Ou seja: Moby dominou as paradas e aparecia inclusive nos intervalos comerciais.

Vale a pena garimpar atrás dos samples que Moby usou nas músicas. Muitos deles saem diretamente de gravações antigas e obscuras de soul, blues, gospel e jazz.

“Natural Blues”, lançado como single em 2000 acompanhado por um divertido clipe em animação, foi um dos maiores hits do disco.

Vera Hall gravou “Trouble So Hard” em 1959 no disco “Sounds of The South”. Nascida em 1902 no Alabama, Vera era uma cantora de Folk que cresceu em Livingston e ganhou exposição nos anos 30 com sua voz poderosa.

“Bodyrock”, hit que virou single em 1999 e apareceu até em trilha de Fifa Soccer, veio do finalzinho de “Love Rap”, de 1980, de Spoonie Gee and The Treacherous Three. Você ouve a letra aos 5:32 da música.

“Find My Baby”, último single do disco, foi lançado em fevereiro de 2001, com um clipe cheio de bebês superstars.

A voz do hit veio de “Boy Blue”, um blues incrível de Joe Lee’s Rock, lançado em 1959 pela Atlantic Records.

O mega-hit deprê “Why Does My Heart Feels So Bad” saiu em novembro de 1999 e fez sucesso com mais um clipe de animação que conquistou os espectadores da Mtv.

De onde veio a voz calejada e cheia de dor? The Banks Brothers and The Greater Harvest Back Home Choir, em “He’ll Roll Your Burdens Away”, lançada em 1963. Mesmo a voz “de mulher” que rola na música do Moby vem dessa música, em uma versão com o pitch alterado.

A colaboração com Gwen Stefani “South Side” saiu em 2000 e difere um pouco do restante do álbum, se aproximando mais de um single pop.

A bateria da música vem do The Counts. Você pode ouví-la na música “What’s Up Front That Counts”, de 1971 (aos 6:40):