O lado bom da tristeza: Nick Drake – “Five Leaves Left” (1970)

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Nick Drake - Five Leaves Left

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se fala de Nick Drake, a pergunta é sempre a mesma: como esse sujeito não conseguiu fazer um pingo de sucesso em sua época? Afinal, ele era um incrível compositor, talentosíssimo letrista, criativo no uso de afinações alternativas, dono de uma voz agradável e boa pinta. Tinha tudo que a maioria dos artistas se mata para conseguir ter.

Na breve carreira do britânico – três LPs ao todo – só tem pérolas. Não existe música ruim no universo de Nicholas Rodney Drake. Por outro lado, a felicidade quase inexiste e a melancolia reina absoluta, fato que por si só assombra uma boa parcela do público mais sedento por agitação. Além disso, demasiadamente recluso, quase não se apresentava ao vivo, o que deixava tudo mais difícil.

Estudante de literatura e esporádico atleta (classificado pelos colegas de rugby como um “calmo autoritário”), o jovem Nick sempre foi extremamente reservado, tímido e impenetrável. Dizem por aí que nunca chegou a ter um relacionamento amoroso, muito embora atraísse atenção por parte do público feminino. O cara era fechado mesmo. Quem o conhecia dizia que na poesia e na música é que se percebia sua alma mais evidente, seja tocando violão, piano ou até mesmo saxofone e clarinete.

Foi por volta de 1967 que ele viria a se arriscar em apresentações em pequenos clubes e cafés de Londres, e foi num desses shows que Ashley Hutchings, integrante do Fairport Convention, o descobriu. Passado algum tempo descolou um contrato com o selo Island Records e em 1969 saiu sua primeira gravação.

“Five Leaves Left”, álbum de estreia de Drake, é uma obra de arte irretocável. Fundamental para quem se liga em sons mais delicados, de caráter intimista. Você escuta qualquer música do disco e tudo o que você pensa é em bucolismo, outono, inverno, esse tipo de coisa. Traz um conforto inevitável. Seu refinado violão é um espetáculo por si só, e, como se não bastasse, Nick Drake juntou um time de primeira para fazer o acompanhamento da maioria das canções. Ali você pode conferir gente como Richard Thompson (Fairport Convention) nas guitarras e Danny Thompson (Pentangle) no baixo, além dos emocionantes arranjos orquestrais de Robert Kirby e Harry Robinson.

O produtor do LP, Joe Boyd, responsável por alguns trabalhos do Pink Floyd, Jimi Hendrix e R.E.M., já chegou a dizer que havia conflitos entre ele e Drake por conta da direção que o álbum deveria tomar. Enquanto Boyd defendia a ideia de explorar mais as possibilidades de estúdio, o músico queria um disco mais seco e orgânico. No fim resultou em um belo trabalho equilibrado, onde a voz do cantor e seu violão ganham o destaque absoluto, embora vez ou outra os arranjos de cordas conseguem nos deixar de boca aberta.

Essa fusão atinge a perfeição em “River Man”. Essa canção é simplesmente uma das coisas mais bonitas que já ouvi. Meu Deus… o que é aquilo? Uma faixa soturna, triste, como de praxe no catálogo do cantor, mas nesse caso acredito que até quem não se liga em sons melancólicos vai dizer que é uma baita música. Não tem como repreender uma coisa dessas. Apenas ouça.

“Three Hours” e seu ritmo de congas é outro ponto alto. A sonoridade, sempre de altíssimo requinte, nos hipnotiza enquanto Drake canta suas reflexões profundas. A faixa faz um par muito coerente com outra pérola, “’Cello Song”, que, como o próprio título diz, gira em torno de uma maravilhosa linha de violoncelo.

Como dito anteriormente, a tristeza é uma máxima no som do rapaz, de fato. É como se a vulnerabilidade que ali está fosse um sutil chamado de socorro. Ele sofria de depressão, o que mais tarde viria a ser determinante para o seu (suposto) suicídio. E “Way To Blue” é uma dessas canções que só quem está nessa vibe poderia fazer-la tão sincera. A orquestra que o acompanha é de chorar. Essa não é para os fracos, mesmo.

“Man In a Shed” traz alguma alegria em seu ritmo suave, o que faz um ótimo contraponto na tracklist, do mesmo modo que “The Thoughs Of Mary Jane” apresenta um som mais doce e diversifica a maneira de Nick Drake interpretar suas belas letras. “Fruit Tree”, assim como “Time Has Told Me” servem em alto nível um letrista inspiradíssimo, que somente por essas músicas já teria uma cadeira cativa entre os maiores cantores/compositores de seu tempo.

Igualmente interessante é a agridoce “Saturday Sun”, que encerra o álbum com um clima leve. Nick abandona o violão e vai para o piano, e a sensação que fica é a de que Nick Drake, com seu jeito nada incisivo e ao mesmo tempo absurdamente expressivo, nos prendeu sem nenhuma dificuldade por pouco mais de 40 minutos. E você vai querer escutar tudo de novo, pouco importa a quantidade de melancolia. É bonito demais.

“Five Leaves Left” não fez o menor sucesso. Uma série de fatores o levou a isso. Um deles foi a demora da gravadora ao lançá-lo e promove-lo. Além disso, Nick Drake fez poucas apresentações, e quando o fez foi para um público desinteressado, que não sacou muito bem qual era a daquele cara grandalhão que nem dizia “oi” para a plateia. Antes de cada bendita canção interpretada tinha que afinar diferente seu violão, o que quebrava o ritmo do show e irritava os presentes, já impacientes com sua suposta indiferença.

Vieram mais dois trabalhos: “Bryter Layter” (1971) e “Pink Moon” (1972). Não dá para dizer qual é o melhor dos três, todos são incríveis. Mas do mesmo modo que são um grande feito artístico, também são fracassos descomunais de vendas, o que feriu Drake bem no âmago.

Ele viria a falecer em 1974, com 26 anos. Infelizmente não pode ver a lenta aceitação de seu trabalho, que agora é lembrado por gente como Elton John, Norah Jones e The Mars Volta como um dos melhores catálogos da música folk/rock. Hoje em dia todos os seus três LPs são aclamados pela crítica e constantemente presentes em listas de melhores álbuns de todos os tempos.

Enquanto houver pessoas dispostas a ouvir reflexões, haverá espaço para a música sinceramente melancólica. Espero que seja para sempre.

Perfeição: Joni Mitchell – “Blue” (1971)

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Bolachas Finas, por Victor José

Hoje vou falar de algo extremamente consagrado e que por algum motivo absurdo não tem o devido reconhecimento no Brasil.

Recentemente escutei “Blue” (1971) três vezes seguidas e não encontrei um erro sequer, nada fora do lugar, nenhuma nota mal executada. A qualidade das faixas sempre me impressiona. Isso sem contar toda aquela sensibilidade em ebulição durante seus 35 minutos e poucos. São canções que emocionam facilmente qualquer um disposto a relaxar e curti-las, seja pelas melodias, seja pelas letras ou por qualquer outro detalhe. Analisando a esfera da música folk/pop rock, é muito justo afirmar que pouquíssimos artistas alcançaram excelência semelhante.

Naquela época de sua carreira, Joni Mitchell passava por mudanças significantes. Por conta do grande sucesso alcançado nos anos anteriores ao “Blue”, a cantora, sempre avessa à grandes públicos, havia decidido parar de se apresentar por um tempo. Além disso, ela havia terminado um longo relacionamento com Graham Nash, do grupo Crosby, Stills, Nash & Young e ex-The Hollies. Com isso, ela tirou umas férias e foi à Europa para acalmar os ânimos, e foi lá que ela escreveu quase todas as canções do álbum.

Em uma entrevista para a revista Rolling Stone em 1979, ela disse: “’Blue’ foi um momento decisivo de muitas maneiras. No Blue, quase não há uma nota desonesta nos vocais. Naquela época da minha vida, não possuía defesas pessoais. Me sentia como papel celofane num maço de cigarros. Sentia como se não tivesse segredos do mundo, e não pudesse fingir que minha vida era forte. Mas a vantagem disso na música era de que não havia defesas ali também”.

É justamente essa vulnerabilidade que seduz o ouvinte logo na primeira audição. Em “Blue”, Mitchell interpreta temas reflexivos como relacionamentos, solidão e anseios pessoais de modo tão honesto que passamos a aceitar a melancolia como um ingrediente extremamente agradável.

Apesar de vez ou outra conter nas faixas alguns músicos a mais (dentre eles, James Taylor nos violões), “Blue” é basicamente a voz de Joni Mitchell acompanhada por seu piano, violão ou às vezes um instrumento chamado dulcimer. O disco é essencialmente folk, mas nota-se também uma pitada de jazz nas estruturas musicais, detalhe que culminaria anos depois em álbuns com forte sonoridade fusion, como o “Hejira”, de 1976.

O disco começa com “All I Want”, perfeita para um início. Aqueles acordes de dulcimer misturados com a melodia entram na cabeça e custam a sair. A música, que como sugere o título trata de anseios pessoais, também parece ser um relato de alguém buscando uma identidade.

Depois vem a ingênua “My Old Man”. Apoiada pelo piano, Mitchell fala dubiamente sobre seu antigo relacionamento com Graham Nash, de modo que os versos exaltam os momentos em que ele esteve presente e o estribilho cai para o vazio de estar sozinha.

Sabe-se que “Little Green” foi composta em 1967, portanto fica sendo provavelmente a canção mais antiga do álbum. Mesmo estando um pouco distante das demais composições em relação a tempo, a música, a mais folk dentre todas, se encaixou perfeitamente à atmosfera de “Blue”. Por outro lado, ela contém a letra mais subjetiva do disco, que permite diferentes interpretações.

Já em “Carey”, Mitchell está acompanhada de uma banda acústica e vocais fazem harmonias, a alegria dá as caras no tom desta faixa com jeito de road movie. “Carey” fala sobre despedidas de maneira leve. É evidente nesta composição a influência de suas férias na Europa quando ela canta: “Maybe I’ll go to Amsterdam, or maybe I’ll go to Rome”.

“Blue, songs are like tattoos”. Essa frase justifica toda a densidade do disco. O tal “Blue” que ela cita é David Blue, um expoente compositor de música folk da cena de Greenwich Village, em Nova Iorque. A canção pode ser interpretada como um ponto de vista da desesperança que assolou grande parte daquela geração no pós-hippie. Piano e voz fecha o lado A.

A honesta “California” talvez seja a melhor canção sobre esse estado norte-americano. Segue a linha nostálgica e road de “Carey”, além da banda acústica que a acompanha e o tom levemente descontraído.

A batida com afinação aberta de “This Flight Tonight” lembra bastante o que ela vinha fazendo anteriormente em sua carreira, como no hit “Big Yellow Taxi”. Dá a impressão de que esta seja a faixa mais descompromissada de “Blue”, o que dá uma sensação de respiro entre toda a emoção das demais músicas. Curiosamente, o grupo escocês Nazareth regravou alguns anos mais tarde “This Flight Tonight” de modo completamente distinto, versão que vale a pena ser conferida.

A partir de “River”, chegamos à parte mais dolorosa de “Blue”. “River” é atemporal, sua melodia é irresistível e funcionaria para qualquer época após seu lançamento. Dizem que nesta faixa, Joni Mitchell quis abordar sobre seu desconforto com o sucesso e a vontade de querer escapar da fama.

A preferida de muita gente, “A Case of You” permanece sendo um dos maiores clássicos da carreira de Mitchell. Regravada por uma série de cantores como Prince, Tori Amos e James Taylor (que participou das gravações), a música é explicitamente voltada para seu relacionamento com Graham Nash e escancara a habilidade da compositora em escrever letras capazes de proporcionar ao público uma identificação imediata com algum momento da vida.

“Blue” encerra com a melhor performance de Joni Mitchell no álbum. “The Last Time I Saw Richard” é a mais difícil de escutar, é preciso passar por todas as outras para chegar a esta obra-prima e assimilá-la bem. Sua letra corrida, novamente acompanhada apenas por piano e voz, parece ser sobre alguém caindo na real e tendo que mudar de postura para encontrar a felicidade. É bem claro que tudo foi feito para si mesma.

Blue foi um grande sucesso de crítica e público, chegando a vender mais de um milhão de cópias. Nas paradas de sucesso, “Blue” alcançou o 15º lugar na Billboard e o 3º nas paradas inglesas. “Carey” foi selecionada para ser o single de promoção.

Muitas vezes, o álbum é citado como um dos melhores de todos os tempos, como na lista de 2003 da Rolling Stone dos melhores discos, obtendo a 30ª posição. Recentemente, a revista fez outra lista, desta vez com os 50 melhores álbuns femininos da história da música, e Blue ficou em 2º lugar.

Alguns afirmam que, por ser delicado demais, este é um LP mais voltado para o público feminino. Pura bobagem. “Blue” se encaixa perfeitamente em qualquer apreciador do bom folk, pop rock ou para qualquer um disposto a se emocionar com música que não morre com o tempo.

Joia esquecida: Roy Harper – “Stormcock” (1971)

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Roy Harper - Stormcock

Bolachas Finas, por Victor José

Na primeira vez que ouvi este álbum, ficou claro que havia acabado de me deparar com uma obra-prima relativamente desconhecida. Stormcock” se resume a isso. É uma pérola injustiçada pela ação do tempo. Lançado em 1971, o quinto trabalho de Roy Harper é um daqueles discos especiais, que de uma forma ou de outra vai te surpreender artisticamente. A começar pela pequena quantidade faixas. São apenas quatro canções, todas longas, todas fantásticas, seja pelo som como pelas letras contundentes.

Pode-se dizer que o LP apresenta um caso incomum de folk progressivo. A combinação de arranjos elaborados com a simplicidade daquele típico som trovador predominante no folk britânico dá ao trabalho aquele sabor de algo inusitado, ao mesmo tempo em que soa absurdamente certeiro.

Mais conhecido pelos vocais em “Have A Cigar” do Pink Floyd e pela menção de seu nome na faixa “Hats Off to (Roy) Harper”, do Led Zeppelin, o músico é considerado uma lenda pelo público britânico. Desde o início de sua carreira, em meados da década de 1960, Roy vinha lançando discos de folk rock de relativo sucesso, dividindo a cena com nomes como Donovan, Bert Jansch e Fairport Convention. É curioso como Roy era bem relacionado, cheio de medalhões participando de seus trabalhos, e mesmo assim não conseguiu emplacar.

De Sophiticated Beggar” (1967) até Flat Baroque and Berserk” (1970), seus álbuns eram regulares, com um momento ou outro de grande impacto. Porém, foi somente com a chegada de “Stormcock” que ele iria realmente surpreender.

O álbum foi gravado estúdio Abbey Road, com uma equipe de primeira na produção e na engenharia de som. Entre os envolvidos estava Alan Parsons, o mesmo que produziu o clássico Dark Side of The Moon” e lançou em carreira solo vários singles de sucesso ao longo dos anos 1970.

A começar por “Hors d’œuvres”, você nota que vem pela frente uma forte dose de emoção. A música fala de um homem no corredor da morte, bastante inspirada no caso de Caryl Chessman, o “Bandido da Luz Vermelha” norte-americano, que estudou Direito na cadeia, dispensou advogados e fez sua própria defesa. Eu realmente não tenho muito o que dizer sobre essa música porque ela dispensa qualquer comentário. A simplicidade, a singularidade e o forte sentimento da gravação são capazes de nos remeter aos grandes momentos do folk ou do rock em geral, sem exagero.

Roy mantém o nível lá em cima com “Same Old Rock”, uma belíssima trama de violões com ninguém mais ninguém menos que Jimmy Page. A música passa por uma série de climas, e é impressionante o que acabou saindo daquela dupla. Talvez seja o ponto alto de “Stormcock”, em termos de instrumental e energia. No encarte do LP, Page foi creditado com o nome S. Flavius Mercurius, por questões contratuais.


Com seu violão agressivo, “One Man Rock And Roll Band” é exatamente o que o título menciona. Você consegue imaginar facilmente uma banda à la Zeppelin na base, mas Roy consegue sustentar tudo sozinho e não dá tempo de sentir falta de coisa alguma. Aliás, esse vazio permeia por todas as faixas e é uma das belezas do disco. Dá para afirmar que se trata de folk, mas a produção soa como rock.

Com pouco mais de 13 minutos, a épica “Me and My Woman” encerra o LP com grandiosidade. A música também passeia por diferentes emoções, com seu bem trabalhado arranjo de cordas e uma estrutura complexa. A extensa letra fala basicamente de meio ambiente. Sobre ela, Roy comentou uma vez: “Qual é o nosso destino? Importa? Está ligado ao ‘nosso’ planeta? Na minha opinião, sim”.

Assim como toda a carreira de Roy Harper, o disco vendeu modestamente, mas a crítica o recebeu com entusiasmo, amplamente apontado como o trabalho definitivo do cantor/compositor. Na verdade, o selo de Harper, a Harvest Records, não fez o menor esforço para divulgá-lo, e o disco vendeu muito pouco. Nas palavras do próprio músico: “Eles [o selo] odiaram. Nenhum single. Não havia como promover o disco no rádio”.

Pessoas como Johnny Marr (Smiths) e a banda norte-americana Fleet Foxes já mencionaram “Stormcock” como um de seus álbuns prediletos. A revista NME, em sua lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos divulgada em outubro de 2013, colocou “Stormcock” na 377ª posição.

Faz o seguinte: senta numa poltrona, coloca esse disco e presta atenção. Vale cada segundo.

Toda uma banda em um violão: John Fahey – “The Dance of Death & Other Plantation Favorites” (1965)

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John Fahey - The Dance of Death and Other Plantation Favorites

Bolachas Finas, por Victor José

Expoente e precursor daquilo que nos EUA se chama de “American Primitive Guitar”, John Fahey (1939-2001) é um desses notáveis pouco badalados. Mesmo distante do grande público, o violonista é constantemente citado como grande referência por gente como David Gilmour, Pete Townshend e Thurston Moore. Até mesmo a revista Rolling Stone o elegeu como um dos melhores guitarristas de todos os tempos.

O que mais impressiona ao escutar qualquer som de Fahey é perceber como as tradições musicais dos EUA se aproximam de coisas como a música caipira do Brasil ou a guarânia paraguaia com tanta propriedade. Os sons mais ancestrais de qualquer país parecem vir de uma única fonte desconhecida. Seria isso produto do se chama de inconsciente coletivo? Quem sabe… talvez The Dance of Death & Other Plantation Favorites”, terceiro álbum do músico, possa ser um exemplo concreto disso.

O LP é resultado de uma sessão realizada em 22 de agosto de 1964 no Adelphi Studios, em Silver Spring. Muito pouco se sabe sobre esse disco. John Fahey tinha a fama de ser um cara bem recluso, discreto. Mas uma vez, relembrando a gravação que resultou no álbum, ele comentou: “Foi uma sessão interessante, foi a única vez que eu gravei sob efeito de maconha e uísque, então estava bem contente, você sabe…”

Dono de um estilo único e extremamente autossuficiente, John Fahey vinha explorando diferentes afinações e mesclando gêneros com uma habilidade de causar inveja. Fica evidente que ele procura combinar tudo aquilo que há de mais rústico no interior norte-americano: blues, folk, country… E o mais incrível é que a música do sujeito consegue ser isso tudo com apenas um violão. Tanto em “Wine and Roses” como em “Variations on the Coocoo” dá para reconhecer ecos de um country acelerado e um ar soturno do blues, como se fosse uma banda de cordas de um homem só. Realmente, parece algo que já se ouviu antes, mas não. Ali tem algo único.

Por outro lado, “How Long”, ao mesmo tempo em que caminha para um blues, curiosamente se assemelha de forma absurda com o som das nossas violas caipiras do Brasil. E não tem como não mencionar a importância das afinações malucas que Fahey costumava usar. Isso fazia toda a diferença em seu som, e agora se percebe de onde Sonic Youth tirou essa ideia, mesmo que de maneira sutil.

“Poor Boy” começa como se fosse uma canção folk como qualquer outra de Elizabeth Cotten ou desse pessoal bem das antigas, mas logo Fahey introduz um slide e tudo muda para um som inclassificável, ao mesmo tempo em que se comporta como algo estritamente tradicional. “What the Sun Said” é um catado de um monte de invenções. São dez minutos de um baita violonista brincando com instrumento, vendo o que sai.

“On the Banks of the Owchita” é a única faixa que contém mais de um instrumento. Nesta, Bill Barth faz um dueto de violão com Fahey. Outra pérola é “Dance of Death”, música que encerra o disco. Nela, o músico passeia por um bocado de variações e no fim parece que você já está escutando outra canção. Vale destacar o som gasto presente em todo o álbum. É uma mixagem que dá um charme ainda mais pitoresco ao registro. No fim das contas, o disco vibra ligeiramente sombrio mesmo sem parecer triste e brilhante mesmo sem soar feliz. É uma combinação equilibrada e muito bonita.

“The Dance of Death & Other Plantation Favorites” acabou saindo em 1965, pelo selo do próprio Fahey, o Takoma Records. Vendeu pouquíssimo, e hoje é item de colecionador. Apesar de ter sido reeditado em CD na década de 1990. Seu público era bastante restrito. Para se ter uma ideia, no lançamento de seu primeiro LP, Blind Joe Death”, foram prensadas somente cem cópias na primeira tiragem. Por algum motivo, ele acabou se tornando um daqueles gênios que acabam sendo de fato descobertos muitos anos depois. Até lá, foi uma escalada muito lenta e árdua, talvez por isso John Fahey tenha atingido status de lenda. Mas ele merece todos os elogios. É um mestre.

Ouça esse disco e tente classificá-lo. É impossível.

Construindo Antiprisma: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som do duo

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Construindo: Antiprisma

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Para começar, temos o duo Antiprisma, de Victor José e Elisa Oieno, que indica suas 20 canções indispensáveis. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

The Rolling Stones“Street Fighting Man”
Victor: É a minha banda de coração desde criança, e desse tipo de coisa você não se livra nunca, e nem quero me livrar! Acho que para o Antiprisma o disco “Beggar’s Banquet” tem sido uma referência desde o início. A sonoridade acústica que produziram em boa parte desse álbum soa áspera, gasta, meio envelhecida… Ali não tem frescura e nem fofura, e de certa forma é um pouco desse caminho que a gente procura seguir.

The Byrds“Going Back”
Victor: Várias vezes a gente conversa sobre como fazer soar uma música e quase sempre resvalamos em Byrds. Talvez seja nossa influência mais gritante. Não me conformo como é que tem gente que não liga pra essa banda… The Notorious Byrd Brothers” é uma referência muito forte para o Antiprisma.

Stone Roses“Waterfall”
Elisa: Aqui está o representante britpop da nossa lista. Gostamos muito de Stone Roses, especialmente o primeiro álbum, que nos lembra muito o Byrds. Para nós, é um bom exemplo de como fazer coisas novas a partir de suas influências. Nós gravamos e lançamos uma versão desta música “Waterfall”, junto com nosso EP.

Big Star“The Ballad Of El Goodo”
Victor: As melodias te conquistam na primeira escutada. O som é redondinho, com harmonias bonitas, violões e guitarras legais. Parece uma fórmula simples, mas não é. Essa faixa do primeiro álbum explica bem o que é essa banda. Big Star tem um som bonito, e mesmo no terceiro disco, que é meio esquisitão, você reconhece essa qualidade.

Love“Andmoreagain”
Victor: O Love chama atenção porque mescla essa vibe de folk rock com pop barroco com uma capacidade absurda, e Forever Changes é uma obra-prima perfeita de cabo a rabo, não tem como melhorar aquilo. Se conseguisse fazer uma música dessa categoria algum dia me dava por satisfeito. Além disso, a banda sabia impor o peso do rock quando precisava soar agressiva. Arthur Lee foi um baita compositor de música pop.

Bert Jansch “Poison”
Elisa: Esse é daqueles caras que dá até um orgulhinho de ouvir. As músicas dele são essencialmente folk, várias delas muito calcadas na música tradicional escocesa, e com melodias lindas. Isso junto com o violão típico de Bert Jansch e sua pegada blues e jazz, solto e ‘cool’. Me lembro de ter lido em algum lugar que o Bert Jansch está para o violão assim como o Jimi Hendrix está para a guitarra elétrica. Ouvir Bert Jansch com certeza é uma escola para o Antiprisma.

Velvet Underground “All Tomorrow´s Parties”
Elisa: Velvet é uma banda muito importante para o Antiprisma. Acho que o nosso lado mais experimental, o estilo que procuramos em algumas músicas, a liberdade artística que nunca podemos nos esquecer… isso vem muito do Velvet Underground.

Grateful Dead“St Stephen”
Victor: A liberdade que a gente percebe na música do Grateful Dead é inspiradora. Sem contar a capacidade para improvisos e a versatilidade que eles têm para saltar de um gênero para outro. Poucas bandas têm essa personalidade tão forte quanto eles. A cena de São Francisco dos anos 1960 no geral é muito cativante, é algo que sempre escutamos hora ou outra.

Milton Nascimento“San Vicente”
Victor: Essa a gente até já se aventurou a tocar em alguns shows. Milton Nascimento é uma coisa que não dá pra definir. Principalmente na fase dos anos 1970, ele fez discos misturando rock com jazz, música latinoamericana, caipira, progressivo e mais um monte de coisas, mas sempre soando autêntico, sem se perder. É legal quando não dá pra classificar algo coeso, e ele é único.

Kurt Vile“Baby´s Arms”
Elisa: Quando conhecemos Kurt Vile, acabamos nos identificando muito com o som que ele faz. O disco “Smoke Ring For My Halo”, parece ter referências muito parecidas com as nossas, seja nas canções em si ou na escolha de timbres, que passa pelo folk dos anos 60 e pelo pós-punk e anos 90. Aliás, foi por causa de uma entrevista que vi do Kurt Vile, em que ele estava em uma loja escolhendo alguns discos e falando sobre eles, que conheci Bert Jansch e Fairport Convention. A partir disso, eu e o Victor entramos em um período em que descobrimos e ouvimos muita, mas muita coisa mesmo de folk britânico, o que acabou sendo um dos embriões para a formação do nosso som.

John Fahey“On The Sunny Side Of The Ocean”
Victor: Quando a gente começou a tocar junto entramos nessa fase de moldar nosso estilo próprio escutando tudo quanto é referência. E foi daí que veio John Fahey. Desde então me inspiro muito no seu modo de tocar, e por incrível que pareça ele foi um dos motivos para acrescentarmos a viola caipira em algumas canções. Parece estranho, mas muito do que ele faz no violão soa extremamente brasileiro, tipo aqueles violeiros das antigas. Aí existe uma conexão bem estranha.

Bert Jansch – “Winter is Blue”
Elisa: Quando eu conheci o som da Vashti Bunyan, me identifiquei imediatamente. O vocal tranquilo, meio envergonhado e quase sussurrado me inspira bastante, e as canções dela têm melodias fortes e bonitas. O disco “Just Another Diamond Day” é lindo, intimista e sincero, um belo exemplo de álbum folk, se quiser chamar assim. Ela lançou também uma compilação de singles (“Some Things Just Stick in Your Mind”) onde está a “Winter is Blue”, em que as canções têm uma roupagem até mais pop do que folk, muito bom.

Beatles“Norwegian Wood”
Victor: Se você faz música com algum viés pop e valoriza muito as melodias é praticamente impossível não pensar em Beatles em alguma parte do processo de compor. Beatles é uma escola, né. Todas as fases da banda são importantes pra nós, e estudar as gravações também nos ajudou muito desde o comecinho.

Siouxsie and The Banshees“Israel”
Victor: A referência pode não aparecer muito no nosso álbum ou no EP, mas pós-punk é uma coisa bastante forte nas nossas influências. Essa fase que chamam toscamente de “gótica” é muito criativa. Vários discos são realmente muito artísticos, e Siouxsie é uma baita banda foda. É legal ver como uma composição essencialmente punk, de estrutura simples, ganha outro aspecto quando se pensa em arranjos estranhos e sons inusitados. Acho que aprendemos muito com isso.

Cat Power“Nude as The News”
Elisa: O que mais gostamos nas músicas da Cat Power é o fato de elas parecerem super básicas, mesmo não sendo, e isso acaba refletindo talvez na maneira de estruturarmos criações do Antiprisma. Essa canção “Nude As The News” é foda. Tem uma base simples de guitarra que permeia a música inteira, mas mesmo assim a Chan Marshall consegue trazer várias partes diferentes e muita dinâmica.

Simon and Garfunkel“Scarborough Fair”
Elisa: Simon & Garfunkel é uma referência muito importante para o Antiprisma, principalmente o jogo de harmonias vocais que eles fazem. Acabamos sempre tendo eles meio que como um paradigma de qualidade, um ideal a ser alcançado e para nós é muito divertido “estudar” o que eles fazem nas músicas.

Sonic Youth“I Love You Golden Blue”
Elisa: Talvez não apareça tanto no Antiprisma, apesar de muita gente já ter perguntado se gostamos de Sonic Youth. Para mim, é uma inspiração constante. Desde a maneira de tocar, os arranjos e até o estilo dos vocais. Eu adoro esse jeito meio blasé, meio displicente de cantar da Kim Gordon.

Secos e Molhados“Fala”
Victor: Aquele primeiro disco é uma coisa que não tem como evitar. As letras são ótimas, a proposta visual eu acho que nunca vai morrer por completo e as músicas por si só sobreviverão pra sempre. O fato de ser do Brasil algo assim faz a gente lembrar como nosso país é foda na música.

Fairport Convention“Percy´s Song”
Elisa: Essa é uma banda que gostamos muito. O som do Fairport Convention é bastante único, sendo uma banda de rock com identidade forte na música tradicional britânica. As melodias inspiradas no estilo folk tradicional britânico e o uso de guitarras e violões com o efeito “drone” (em que fica soando uma nota constante na música), muito presentes no Fairport, são coisas que gostamos de usar no Antiprisma. Essa música “Percy´s Song”, na verdade é do Bob Dylan, mas gostamos muito dessa versão deles e do jeito de cantar da Sandy Denny (vocalista da banda).

Pink Floyd “Echoes”
Elisa: Escolher só 20 músicas é difícil. Era para ter entrado nesta lista também o Syd Barrett. Afinal, tanto as canções dele solo quanto as do começo do Pink Floyd são influências fortes para nós. Mas tudo bem, escolhemos a “Echoes”, cuja melodia lembra muito o Pink Floyd com o Syd, mas já tem a estrutura “espaçada” e melancólica, típica dos anos seguintes da banda. Com certeza, mesmo sem perceber, acabamos sempre colocando algo de Pink Floyd no nosso som.

Ouça aqui a playlist do Antiprisma e siga o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify:

O multi-homem Rubens, do Mescalines e Mustache & os Apaches, mostra suas “filantrópicas” músicas solo

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Rubens

Provavelmente você já ouviu um pouco do trabalho de Rubens Vinícius, seja quebrando tudo com a guitarra no duo instrumental Mescalines ou se revezando no bandolim, lap steel, dobro, guitarra e voz no grupo Mustache & os Apaches. Pois agora ele está se aventurando em um projeto solo, disponível no Soundcloud, com músicas autorais como “Durepóxi” e “Existe Um Cachorro Faminto Em Minha Barriga”. “Acho que meu trabalho solo é minha essência, propriamente dita, algo que sempre me acompanhou, que gira em torno da poesia e do meu ser”, explica.

Em breve teremos o primeiro álbum solo do bandoleiro, que já também pode ser conhecido pelo nome Jack Rubens. “Vou entrar em estúdio próximo mês, acompanhado do meu violão e com esse companheiro pegar a estrada sempre que puder”, conta.

Conversei com Rubens sobre seu projeto solo, seus outros projetos, um pouco mais sobre as músicas disponíveis em seu Soundcloud e o cenário independente do Brasil:

– Como você começou sua carreira?

Lá na terra onde nasci até hoje imperam os festivais de música nativa, gaúcha. Então cresci ouvindo “La Guitarra” e Bombo Leguero. No mais, comecei a tocar junto com um tio meu que sempre levava o violão nas reuniões de família. Formei minha primeira banda de rock com uns 15 anos, se chamava Olhos Rebeldes.

– Pois é, você teve (e tem!) diversos projetos. Me fale um pouco deles.

Depois de ter passado por São Paulo a primeira vez, toquei numa banda chamada X Galinha em Porto Alegre. Depois fui pro Rio onde comecei a tocar bandolim nas ruas e recrutei uns amigos pra formar o Sopro do Inferno que depois virou Jack Rubens & os Vagabundos Iluminados. Nome inspirado nas caronas que pegava com frequência. Depois de 4 anos no Rio, vim para São Paulo, com a roupa do corpo e o bandolim, que me levou até o Mustache & os Apaches. De lá para cá, já estou na produção do 3º álbum dos Apaches , do 2º dos Mescalines, duo instrumental, e do meu 1º.

– Como as outras bandas desencadearam seu trabalho solo e como ele difere delas?

Acho que meu trabalho solo é minha essência, propriamente dita, algo que sempre me acompanhou, que gira em torno da poesia e do meu ser. No Mustache & os Apaches é polivox, cada um cumpre uma função em determinada música e é divertidíssimo, ora fazer backing, ora arranjar com guitarras e bandolins, ora cantar em uníssono, sem contar quando vamos pra rua, que é sempre uma aventura muito boa. Já nos Mescalines é um duo instrumental onde eu tenho total liberdade nas cordas e o Mario na percussão, nos permitimos a improvisar um monte, é meu trabalho mais selvagem, onde tento explorar novas caminhos dentro do Blues e das afinações abertas na guitarra.

– Me fala um pouco mais do material que você já lançou como artista solo.

Eu ainda não lancei nada de relevância, engavetei um disco ainda como Jack Rubens. O processo todo demorou muito, fiquei sóbrio e vi que não era um material bom pra se lançar. As faixas no Soundcloud são produções caseiras, coisas espontânea que compus inspirado pelo momento político de poucos tempos pra cá, como jornalismo.

Rubens

– Me fala um pouco mais de cada uma delas.

Ah, tem “Durepóxi” e “Existe um Cachorro Faminto na Minha Barriga”, canções também espontâneas pra minha musa. “Durepóxi” já vem sendo tocada nos shows do Mustache & os Apaches, e “Existe um Cachorro Faminto na Minha Barriga” provavelmente estará no meu álbum e no dos Apaches. “Existe um Cachorro Faminto na Minha Barriga” foi composta na primeira noite em que dormi com minha musa, minha barriga começou a roncar e não tinha nada pra comer em casa. “Durepóxi” veio dessa vontade de estar amarrado na pessoa amada. “Caixa de Sapato” foi de quando morava num apê de 18m² e da época de ocupação do Parque Augusta, quando veio à tona a discussão sobre especulação imobiliária. A “Febre da Burguesia” eu fiz na noite em que o Dória foi eleito e me imaginei na pele de um político empresário. “Terra de Ninguém” fala sobre reforma agrária, na época em que ouvia muito Woody Guthrie.

– Quais as principais influências musicais do seu trabalho solo?

São inúmeras as inspirações além do campo musical e da poesia, mas vão de Blind Willie Johnson, Fela Kuti, Dorival Caymmi, Atahualpa Yupanqui, Maikovski, Bolívar

– Como você definiria seu som?

Filantrópico.

– Como você vê a cena independente brasileira hoje em dia?

Eu vejo que de uns anos pra cá uma grande teia vem se construindo, unindo coletivos de capitais com interiores, também está rolando uma interação maior entre artistas de várias áreas e também entre ativistas de várias áreas, movimentos culturais, políticos etc. A ocupação dos espaços públicos deu abertura ao diálogo e ao avanço de ideias e ideais. Até as empresas, oportunistas, de uns tempos pra cá vem querendo associar suas marcas à artistas de rua, seja no grafitti ou na música de rua. O lado bom que é o financeiro, mas o perigo é que a arte pode ser adestrada.

– Esse negócio de “parada de sucessos” ainda é válido para um artista autoral que não seja focado no “pop”?

É mais válido para ver o que não fazer, do que o que fazer. Ainda temos as rádios e esse lance de listas em blogs, isso só alimenta o ego do artista e o faz se ensardinhar. Precisamos fazer música de um outro viés. Nos desvencilhamos das grandes gravadoras e dos grandes estúdios, mas esses ainda acabam sendo nossos termômetros e continuamos a repetir suas fórmulas para uma indústria falida.

– Então você acredita que a “queda” das gravadoras foi algo bom, certo?

Sim. Elas tiverem seus momentos de extrema importância, mas já não cabiam mais.

Rubens

– Quais os próximos passos desse projeto solo?

Vou entrar em estúdio próximo mês, acompanhado do meu violão e com esse companheiro pegar a estrada sempre que puder.

– Recomende bandas e artistas que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Eu tenho ouvido Tinariwen, Ali Farka Touré, ouvi um disco esses dias na Rádio Cultura, de Clima e Nuno Ramos, muy bueno!

O Brasil será indadido por Wild Billy James, uma raivosa “monobanda” de folk blues do Uruguai

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Wild Billy James
Wild Billy James

Sozinho, o uruguaio Wild Billy James faz uma barulheira com seu blues/folk/rock infernal. Munido de violão, gaita, percussão e um loopstation, ele mostra ao vivo todo seu talento em versões que incorporam espontaneidade e improviso aos sons de seu EP “Going Home”, lançado em 2015, além de novas músicas que em breve estarão presente em um novo lançamento.

Em novembro o dono da “monobanda” estará por aqui em sua primeira turnê brasileira. “Recentemente, tive a ideia de fazer uma turnê em diversas cidades brasileiras e aqui estou planejando minha primeira turnê no Brasil. Eu já estava em contato com algumas pessoas da cena underground, comecei a escrever e entrar em contato com mais pessoas. Todo mundo estava disposto a ajudar, de uma forma ou de outra, eu acho que é uma maneira de ser do brasileiro e é realmente grandiosa. Vai começar no dia 12 de novembro, em São Paulo, no festival “Sinfonia de Cães”. Eu vou estar tocando até o final de novembro no estado de São Paulo e então irei para o Sul, em cidades dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Será divertido!”, diz o uruguaio.

Conversei com ele sobre sua carreira, seus imprevisíveis shows, a turnê pelo Brasil e o EP “Going Home”:

– Quando você começou sua carreira?

Eu não vejo a música realmente como uma carreira, é um modo de viver para mim. Sim, eu a levo a sério, mas sem perder o divertimento. A música tem sido uma vida pra mim, na minha casa havia música sempre. Minha mãe estudou piano. Na casa da minha avó, havia um piano. Meu tio é um músico local com quem sempre aprendi muito, ele toca muitos instrumentos, eu acho que a partir daí que eu pensei na “one man band” de alguma forma. Eu ganhei minha primeira guitarra aos 16 anos depois de acidentalmente encontrar um documentário sobre Jimi Hendrix que me deixou atordoado. Assim começou minha pesquisa lá atrás, nos pântanos de blues. Peguei emprestado o álbum “20 Classic Blues” do Muddy Waters e lá eu comecei a ouvir e colecionar discos e sons primitivos de blues, rock and roll, jazz. Eu tentei formar várias bandas, mas nunca funcionou além de alguns ensaios. Lá eu percebi que tinha um longo caminho a percorrer, então eu troquei minha guitarra elétrica por um violão e gaita, comecei a tocar folk e delta blues e todos os gêneros derivados. Imediatamente eu comecei a tocar e toquei nesse formato onde eu conseguia, em minha cidade local, na rua e em pequenos lugares para poucas pessoas. Às vezes eu usava um pandeiro para acompanhar com o pé. Em 2012, quando eu tinha ainda 20 anos eu estava apenas com um violão e uma mala de viagem para Buenos Aires e lá eu continuei a melhorar o meu estilo. No final de 2013, fui convidado para abrir para uma banda em um pequeno bar e dentro de uma semana eu comecei a tocar como Billy James & his One Man Band, desde aquela apresentação não parei de tocar como uma banda de um homem só, tentando melhorar o meu estilo sempre. Há alguns meses, eu mudei o nome para Wild Billy James e a história continua…

– Quais as suas maiores influências musicais?

Deixe-me ver… Tem muitos… Todos os artistas Delta Blues: Charlie Patton, Son House, Lightnin ‘Hopkins, Bukka White, Big Joe Williams, Mississippi Fred McDowell, para citar alguns. Piedmont blues: Rev. Gary Davis, Mississippi John Hurt. Também os clássicos, você sabe: John Lee Hooker, Hound Dog Taylor, Howlin ‘Wolf, Muddy Waters… A lista é longa. O estilo de bluesman “north Mississippi hill country blues”: RL Burnside, Junior Kimbrough, Robert Belfour. Artistas da África como Ali Farka Touré, Bombino, Tinariwen. Gravações de Alan Lomax: ”Field Recordings”. Primitive rock and roll, soul music, gospel. E sobre alguns artistas mais atuais, teria de dizer Guadalupe Plata, Lonesome Shack, Tom Waits, Seasick Steve, Soledad Brothers, Dan Melchior, Billy Childish. E também artistas da cena “monobanda”, eu tento ouvir a todos.

– Como você decidiu que seria uma one man band?

No meu caso eu não decidi, foi algo que se deu naturalmente. Eu comecei a tocar quase imediatamente quando eu mudei a guitarra elétrica para o violão e uma gaita. A ideia de ter uma banda foi excluída da minha cabeça naquele momento… Eu percebi que não tinha necessidade de contar com mais pessoas para fazer a música que eu queria e levar as minhas ideias ao público. Isso foi em 2010, 2011. Eu já sabia do movimento de One Man Bands e em 2012 isso foi fundamental para eu conhecer e assistir ao vivo The Amazing One Man Band, uma referência na cena. Quando falei com ele, disse que eu estava tocando blues e folk e ele me incentivou a colocar um bumbo e ir em frente com isso. Tocar juntos pela primeira vez no domingo, 23 de outubro, no Uruguai. No final do mês tocamos no Festival Monobanda do Uruguai que estamos organizando, somos 6 “monobanders” incluindo a The Amazing One Man Band. A ideia ficou na minha cabeça até Novembro de 2013, quando me apresentei como One Man Band/Monobanda pela primeira vez em Buenos Aires. De lá eu continuei por esse caminho, só adicionando mais e mais coisas e ideias para o meu show. Tocar como One Man Band não têm limite. É a maior expressão da liberdade no mundo do rock de hoje. Ninguém diz o que você tem que fazer, quando e onde; você faz se quiser e quando quiser, essa é a atitude de um monobanda, mas sempre, sempre avançando e evoluindo. Você tem que sempre ir para a frente, sozinho diante do público. Tentar surpreender o público é um plano comum e um desafio para mim como One Man Band. Tocar com os outros é bonito, mas também se torna difícil. Não depender dos humores dos outros membros de uma banda pode ser benéfico.

– Me fala um pouco sobre o material que você já lançou!

Bem, é um EP com 5 músicas. Foi gravado no Velozet Estudios em Buenos Aires em dezembro 2014 por Dylan Lerner em uma sessão de uma tarde, ao vivo no estúdio, tentando capturar o mais fiel possível ao som de shows ao vivo, tocando todos os instrumentos ao mesmo tempo, sem excesso de gravação e edição, um ou dois takes por música e predominando o primeiro. Foi lançado oficialmente em janeiro de 2015 no programa de rádio “Get Rhythm” do Radiolux (França) com o single “Highway 51”. Além disso, o EP também tocou em algumas estações de rádio independentes do Reino Unido. “Highway 51” foi incluída em uma compilação de monobandas, “Invasione Monobanda” (Itália), lançado por um netlabel italiana, “In Your Ears”, o disco pode ser baixado no site do selo. A sessão de gravação foi filmada, mas no youtube há apenas um trailer. Alguns contratempos atrasaram a publicação de toda a sessão, mas em breve estará disponível no meu canal do Youtube. Ele também foi eleito um dos melhores EPs de 2015 pelo site Zambombazo! Este EP tem me dado muitas alegrias, suas músicas ainda são tocados ao vivo e ele define meu estilo, mas o show e formato evoluíram, estou cada vez mais em expansão. Agora comecei a usar um loopstation, com o qual eu jogo sons já gravados, também gravo coisas e reproduzo ao vivo, agreguei mais percussão (surdo e tom-tom), maracas, conseguindo um show mais interessante na minha opinião, realizando o que eu imaginava em minha mente.

Wild Billy James

– E já está trabalhando em novas músicas?

Sim, eu estou trabalhando há vários meses. Levou tempo para montar tudo de novo, me deu um trabalho usar o loopstation para o que eu imaginava, mas está saindo bem, percussão é fundamental. Agora, a mudança de nome para Wild Billy James tem muito a ver com isso, precisamente os shows são mais selvagem e intensos. Será interessante entrar em estúdio novamente. A minha ideia é sempre a surpreender o público, os shows ao vivo nem sempre são iguais, dando origem a espontaneidade e improvisação. Muitos arranjos de canções geralmente saem dos shows, é realmente lá  onde tudo acontece. Bem, para alcançar essa independência os ensaios são essenciais também. Eu parei de tocar ao vivo há algum tempo, vários meses para tentar reunir tudo isso. Agora estou de volta com toda a energia, eu quero tocar o máximo que puder.

– Como é um show de Wild Billy James? Descreve pra quem ainda não teve a oportunidade de ir.

Bem, eu não quero para estragar a surpresa, mas usa muitos recursos… Por exemplo, eu entro no público com a percussão, é como uma espécie de “rito” simbólico e é um jogo. Faço solos de gaita através de um megafone, costumo abrir meus shows com isso, eu gosto de aparecer do nada e levar o público para o palco. As canções passam e as pessoas dançam, movem-se, gritos, aplausos. Aí a forte batida da bateria, eu chutando o hi-hat com o pé de vez em quando. Alguns barulhos de guitarra propositadamente, “slide guitar solos” inevitáveis, silêncios inesperados. Um show para dançar e pensar.

Wild Billy James

– E como rolou essa turnê pelo Brasil?

Estar constantemente em turnê e atingir o maior número de lugares possível com a minha música é um dos meus objetivos, e estou nele. Brasil, sem dúvida, é um destino bastante interessante, e está ao alcance. Recentemente, tive a ideia de fazer uma turnê em diversas cidades brasileiras e aqui estou planejando minha primeira turnê no Brasil. É um grande país e seu povo faz dele grande. Eu já estava em contato com algumas pessoas da cena underground, comecei a escrever e entrar em contato com mais pessoas. Todo mundo estava disposto a ajudar, de uma forma ou de outra, eu acho que é uma maneira de ser do brasileiro e é realmente grandiosa. Estou muito grato a todos que tem ajudado a fazer isso funcionar. Vai começar no dia 12 de novembro, em São Paulo, no festival “Sinfonia de Cães”. Eu vou estar tocando até o final de novembro no estado de São Paulo e então irei para o Sul, em cidades dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Será divertido!

– Como é a vida de um artista independente hoje em dia?

Requer esforço, você tem que lidar com muitas coisas e fazer tudo sozinho. Muitos dizem que é difícil lidar com tudo sozinho, mas acho que é o caminho. Não é nada difícil, tudo é possível se você colocar sua mente realmente nisso. Pode ser cansativo às vezes, mas a satisfação é maior. Você tem que dedicar tempo a isso, e eu dedico minha vida. Dedicação é a coisa mais importante para o que você faz. Se você quer algo, faça-o.

– Quais os próximos passos de Wild Billy James?

Agora, o que segue é a turnê no Brasil em novembro e dezembro, eu respiro isso todos os dias. Vai começar no dia 12 de novembro, no “Festival de Cães” em São Paulo no período da tarde e à noite eu vou estar na primeira edição do Muddy Roots Brasil. Então eu volto para o Uruguai, onde vou continuar a tocar em janeiro. Estou pensando em gravar novo material, ainda não sei quando. Eu também estou pensando em fazer uma turnê pela Europa em 2017. Portanto, há muitas coisas ainda pela frente!

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos

A maioria dos artistas que eu gosto são independentes: Guadalupe Plata (Espanha), Sarcofagos Blues Duo e Gualicho Turbio (Argentina), La Big Rabia (Chile), Lonesome Shack, Daddy Long Legs, Mr Airplane Man, Soledad Brothers, Flat Duo Jets (EUA), C.W. Stoneking (Australia).

“Kurious Eyes” mostra o som “pós-punklore” performático do duo La Burca

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La Burca

O “pós-punklore” performático do La Burca vem diretamente de Bauru, no interior de São Paulo, e desde 2011 mistura em seu som diversas influências de pós-punk, folk, grunge e punk rock, entre muitas outras coisas. “Tem muita coisa, porque acho que desde o que escutei na infância, tipo Balão Mágico,  me influenciou (risos)”, conta Amanda Rocha (vocais e violão), que junto com Lucas S. (bateria) já lançou três discos: os EPs “La Burca” (2013) e “She Goos to Flowers” (2015) e o recém-lançado disco “Kurious Eyes” (2016).

Sobre o novo trabalho, Amanda conta que optaram por gravar o som ao vivo. “Usamos alguns ruídos e calmarias que podem permear um show. Um exemplo é a música ‘HHH’, um improviso-hino-randômico-ao-amor feito em parceria com Marcos Tamamati (Bertran de Born, Acromo) na guitarra, que também toca na instrumental ‘Goos’”. O disco contou também com as participações de Vanessa de Michelis (guitarra) e Jiulien Regine (percussão), do Post e da banda de Sara Não Tem Nome, na música “She Thrills”. As faixas contam com temas como o amor entre mulheres, preconceito, empoderamento e muito mais.

Conversei com Amanda sobre a carreira da banda, o “pós-punklore”, o machismo no meio musical e suas inspirações musicais:

– Como a banda começou?

Começamos em 2011. Eu pensava em algo mais acústico, meio neo folk… Tinha muito som parado e tava incomodada de não mostrar. Aí demos um break,  mudei de cidade e o Lucas se enrolou… Voltamos no final de 2012, ensaiamos uns 2 meses e gravamos ao vivo. Curiosidade: o primeiro show foi em fevereiro de 2013 com o lançamento do disco “La Burca”, D.I.Y. Antes de chamar o Lucas tentei algo cênico com um maluco, mas surtamos no primeiro ensaio e não rolou. Ia ser um acústico violento (risos).

– E porque “La Burca”?

Hmmmm… Foi tudo meio instintivo… Fiz um som instumental com esse nome e um desenho – que seria a capa do disco com o nome “La Burca”. Tem a ver com libertação/opressão/se salvar de si mesma. O nome da banda foi uma consequência ao que já tinha feito, “batizado”.

– E porque mudou de estilo? Como você definiria o som da banda?

Não cheguei a mudar, sé adaptei mais, porque tudo se comunica,  tenho sons mais pro folk e outros que ganharam peso com bateria. Aliás, bateria que passo mais ou menos o que quero e ele adapta. Então, pensei no termo post-punklore, porque são as misturas sonoras mais significativas pra mim: post punk, punk e folk.
Só faltou o grunge (risos). Eu escutei um som que o cara falava “this is punklore”, ou eu acho que escutei isso e ficou martelando… Porque casava com o que fazia/faço.

– Quais são as principais bandas e artistas que influenciaram o La Burca?

Vixe, tem muita coisa, porque acho que desde o que escutei na infância, tipo Balão Mágico,  me influenciou (risos). Escutei e escuto muito post punk, MercenáriasHermeto Paschoal,  música clássica surrealista… Ravel, Satie, Debussy… punk… Subhumans, Germs, Ramones, Slits, Husker Du, Minutemen, mas Dead Moon, Wipers e Hazel moram no coração… Fora o grunge, claro, afinal sou dos anos 90. Outra coisa que amo muito escutar é Durutti Column e… “Neil Young é meu pastor e nada me faltará!” Também curto muito no wave, Lydia Lunch, Mars, James Chance… Krautrock – Can, Faust, Amon Dull… Lucas escuta muita coisa também, Novos Baianos, hardcore,  big band orquestras… Ufa! Sou fotógrafa, e vou parafrasear um fotógrafo – Duane Michals – com esta frase: “Eu sou um reflexo, musicalizando outros reflexos com seus reflexos”.

La Burca

– A música ainda é um meio muito machista? Como você vê isso?

Sim,  a sociedade é machista e o rock não fica de fora. Acho que o tempo todo somos postas à prova.  Tipo “será que ela sabe tocar?”, “Vamo ver qualé dessa mina”. Ssei que é um pensamento corrente em mentes estúpidas.  Toco há 20 anos no underground e não estamos isentas num nicho a priori “libertário e alternativo”. Muitas barreiras vêm sendo quebradas nesse meio musical, sejam eventos voltado às minas, só com bandas de mulheres ou majoritamente, há um fortalecimento e empoderamento necessário em andamento, mas é uma luta constante contra o machismo. Às vezes penso que é infindável. O rock é um reflexo da sociedade, um produto dela e temos que reverter esse “produto” em algo igualitário, condizente com a realidade das mulheres que produzem, tocam, cantam.  Enfim, (r)existimos.

– Fale um pouco mais sobre o material que a banda já lançou.

Lançamos o primeiro álbum em 2013, o homônimo “La Burca”, no esquema do it yourself. Gravamos em um estúdio em Agudos e produzimos e distribuímos nós  mesmos. Lançamos ele junto ao nosso primeiro show.
São 9 sons que mostram essa pegada “post-punklore” com sons mais sussa e acelerados. Gosto muito dele porque foi tipo uma libertação pra mim, em vários sentidos.  Enfim. Lá tem “Similar” e “Diário de uma Sombra”, opostos que se comunicam.  Punk grungístico e som instrumental. Adoro musica instrumental-minimal. Esses dois sons tem uns clipes maneiros no nosso canal do YouTube (“maneiros”, gíria idosa). É um disco especial que já mostramos os lados que curtimos. Como “Kid Kid Kid”,  balada post punk “psicodélica” e “Excuse from the Universe”. São sons que eu tinha “empoeirados”,  guardamos desde 2001… que se misturaram e deram nele. Os desenhos do encarte desse disco foram influenciados pela HQ “Bloody”. Gosto muito de HQS literárias e tals…  O clipe de “Diário de uma Sombra” também tem uma pegada Sandman. Eu usei imagens do meu livro “A Imagem no Museu do Sonho – Uma Visão Imaginária de Sandman”. Lancei o clipe junto com o livro em 2014. Na real tento unir as artes que faço,   som e imagem. Já o EP “She Goos to Flowers” que antecede o “Kurious Eyes”, a capa foi feita por minha namorada Aline, que também é fotógrafa. Lançamos 3 sons nesse: “Goos”“Flowers of Romance” e “She Thrills” – esta música gravada com a Post Vanessa de Michellis na “outra” guitarra e Jiulian Regine na percussão, ensaiados uma hora antes de gravar e rolou. O nome-frase do disco é um analogia aos sons. Elas também tocam com a Sara Não Tem Nome. Ah, gravamos tudo ao vivo sempre, exceto a voz nesse segundo que preferi regravar separado. “Goos” também teve participação na guitarra com o Marcos Tamamati, que também toca em um duo, Bertran de Born. Lançamos tudo por nosso selo, punklorecords! “She Goos to Flowers” é do final de 2015. Agora em julho lançamos o álbum completo “Kurious Eyes”, também com 9 sons. Tamo aguardando pra setembro o vinil pela Lombra Records, de Brasília. Capa e arte também assino. Foi um disco mais trabalhoso, um parto, mas nasceu saudável (risos). A gente tava muito ansioso pra mostrar sons novos… Tocamos eles já faz um tempo em shows, com exceção de algumas.

– O que você acha da atual cena independente no Brasil?

Acho que existem várias cenas, é bem amplo o aspecto de cenário brasileiro. Ficamos mais na região sudeste, centro oeste paulista, então a percepção daqui é uma… Fomos agora pro DF lançar o disco novo, baita rolê lindão, diga-se, e vimos bandas tão distintas e tão próximas também entre elas… Há um emaranhado sonoro complexo de bandas instrumentais ótimas, por exemplo, post punk, sludge doom.. tanto daqui quanto dali. E os duos também, há uma cena incrível de duos espalhada… Tipo Sulfúrica Billi do Maranhão, Cassandra de Curitiba, Post de Belo Horizonte, Magnetita e Projeto Trator de SP, Muñoz de MG, Betran de Bauru… O problema é ficar ensimesmado e não ter troca, ficar fechado numa cena só de uma cidade… Na panela gordurosa. Aí não vira. Há muita música acontecendo.

– Você falou sobre duos. Porque este formato ficou tão popular depois dos anos 2000?

Não sei ao certo, mas pra mim foi pela facilidade de tocar, estava já meio esgotada do formato quarteto ou trio.  Menos é mais, às vezes (risos). Menos gente, menos problema. Como pensava em algo mais intimista e minimal,  o duo foi uma solução já pronta.

– E você acha que a cena do rock pode algum dia sair do underground e voltar às paradas de sucesso, como já rolou nos anos 90?

Vixe,  quem sou eu pra responder,  né?  Creio que todxs do meio  gostariam de ouvir algo decente nas rádios e não o lixo que desce ondas abaixo.  Tudo o que é novidade vende.  O grunge foi assim e além de ser novidade na época era e é boa música.  Havia um contexto cultural efervescente e dinâmico de bandas,  produtores. Hoje há apenas o mercado e sem qualidade,  ficamos restritos a um cenário que “celebra a si mesmo”.  Acho difícil,  hoje tudo é nicho.

La Burca

– Mas você acha que isso é culpa da internet e a queda da cultura do álbum, da Mtv Brasil e do fácil acesso aos singles em streaming ou algum outro fator? A culpa é do público ou do mercado?

Tá todo mundo acomodado!  A culpa é do governo (risos). Hoje é outro contexto de se ouvir  música.  São novos tempos e creio que estamos em fases de adaptação.  Mas prefiro a velha escola.  Vinil,  K7, CD.

– Quais os próximos passos do La Burca em 2016?

Divulgar o novo disco – “Kurious Eyes” – onde pudermos, ir pra outros Estados, ampliarmos os palcos. E tamo aguardando o vinil pela Lombra Records também,  vai rolar show em SP em setembro possivelmente com o lançamento.

– Recomende bandas e artistas (de preferências independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Os duos Luvbugs e Fronte VioletaLiniker e os Caramelows, Sociopata, Mais Valia, Sara Não Tem Nome, Gattopardo, Jussara Marçal, Giallos, Post, Krokodil, Rakta! Porno Massacre também é louco. Glassbox. Tem muita banda que escuto randomicamente… Inclui Blear!  Tô pirando com o novo,  foda demais. Acho legal falar de bandas antigas também que cresci ouvindo e ainda ouço: Pin Ups, Brincando de Deus, Snooze, Eddie, Second Come… Isso graças aos zines que chegavam, tipo o Scream & Yell… Época linda e ingênua, sem a precocidade imediatista de sucesso da internet.

American Pie: a primeira trilha sonora adolescente é inesquecível

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American Pie

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Em 1999, o mundo conhecia “American Pie – A primeira vez é inesquecível”. Na mesma linha de filmes como Não é Mais um Besteirol Americano” (2001) e “Cara, Cadê Meu Carro?” (2000), o filme foi uma espécie de blockbuster. Para vocês terem uma ideia do sucesso estrondoso, o orçamento do filme era de 11 milhões de dólares e a bilheteria arrecadou US$ 235.483.004,00. Ou seja, sucesso absoluto entre o público jovem!

Com a direção dos irmãos Paul e Chris Heitz, o filme conta as aventuras de um grupo de cinco jovens: Jim Leveinstein (Jason Biggs), Kevin Myiers (Thomas Ian Nicholas), Chris “Oz” Ostreicher (Chris Klein), Paul Finch (Eddie Kaye Thomas) e Steve Stifler (Sean William Scott).

American pie

“Às vésperas do baile de formatura, quatro amigos virgens – Jim (Jason Biggs), Kevin (Thomas Ian Nicholas), Oz (Chris Klein) e Finch (Eddie Kaye Thomas) – fazem um pacto para perder a virgindade, custe o que custar, nas 24 horas seguintes.” Por: Adoro Cinema

Sim, o tema central do filme – como a maioria já sabe e provavelmente já viu – é o sexo. Neste primeiro filme do que mais tarde se tornaria uma saga, ele fica mais em evidência ainda, visto que o tema central é o da virgindade e sua luta incessante para perdê-la.

pai

Mais do que apenas mostrar o lado dos adolescentes o filme também mostra através do pai de Jim, Nohan Levenstein (Eugene Levy) os conflitos de gerações e a dificuldade de estabelecer um diálogo equilibrado sobre “sexo” dentro de casa.

A epopeia da turma acaba falando muito mais de como chegar lá. Os conflitos causados por essa ansiedade experiências traumáticas dão o rumo da jornada. Um fato engraçado é também notar que vemos o poder de um viral já em 1999 no início da popularização da internet, quando Jim é vitima de seu vídeo tendo uma “ejaculação precoce” viralize e vire motivo de chacota perante toda sua turma.

calcinha

Mas nem tudo é trauma na trama, cada um de certa forma de maneira mais convencional ou não, consegue. Claro, com aquela dose milimetricamente calculada de bom humor e entretenimento.

Depois desse filme ainda viriam American Pie 2″ (2001), American Wedding” (2003) e American Reunion” (2012) que fecha o ciclo e conseguiu deixar muito marmanjo chorando com a despedida de uma geração que pode acompanhar de perto.

Entre uma torta de maçã – uma piada do Stifler – e outra, também temos o destaque pela trilha sonora, é claro! E essa vem recheada com muitas curiosidades, hits radiofônicos e marca muito bem a época.

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A soundtrack do filme alcançou a posição número 50 na parada Billboard 200, um feito. Aliás, filmes nessa linha surpreendem por geralmente conseguirem estabelecer boas trilhas e como resultado boas vendas. Ou seja, lucro em dobro!

Da maneira mais descontraída e representando bem aquele espírito moleque skatista sossegado bicho grilo anos 90, temos logo de cara o Third Eyed Blind com “New Girl”. Música presente no terceiro disco da banda, Blue” (1999). A curiosidade é que nesse disco quem assume as baquetas é o baterista de outra banda que representa bastante esse fim de anos 90, Smash Mouth.

Misturando o pop de grupos como Backstreet Boys e NSync a uma levada próxima do new metal temos a desconhecida Tonic, com “You Wanted More”. Se vocês já ouviram falar de uma banda chamada Semisonic, provavelmente vão entender a levada “inofensiva” e descartável da canção.

O clipe inclusive é de certa forma bastante tosco e mostra a rotina de um colégio, com a banda tocando na quadra poliesportiva. Mais anos 90 do que isso só o Máskara sambando na nossa cara.

O Blink 182 foi a banda que realmente pôde ter seus 15 minutos de fama através de uma “pontinha” dentro do filme. E isso rolou quase por acaso. O agente de Tom Delonge comentou que o filme “precisava de uma banda”. E foi assim que surgiu o convite para eles estrelarem uma cena dentro do enredo.

Uma curiosidade: Nos créditos, Travis Barker é creditado como o ex-baterista do Blink 182, Scott Raynor. Mas a participação do Blink não ficou apenas por esta dramatização, a canção “Mutt” também entrou na soundtrack. E disso vem outra curiosidade que parece até perseguição com o Travis: seu nome nos créditos da canção está como Travis Barkor. A pergunta que fica é: o que o baterista tatuado aprontou para tanto?

Outra banda colecionadora de hits pop/rock dos anos 90 também se faz presente na trilha sonora. O que espanta é não ter sido uma canção que realmente “fez sucesso” dos tão californianos Sugar Ray.

Apesar disso, as raízes latinas que caracterizam o grupo ainda estão presentes na faixa “Glory” que explora o lado mais pop punk mesclado com pedais wah wah e brincam com o new metal mesmo sem ter “tato” para isso.

Em seguida temos Super TransAtlantic com “Super Down”. A desconhecida banda de Miami conseguiu estrelar na trilha do filme fazendo um som melódico e praieiro, mas totalmente descartável. Se tiver coragem, clique aqui e ouça.

Uma outra banda que marcou época e é citada diversas vezes em How I Met Your Mother” e que conseguiu emplacar canções em diversos filmes e séries como “The Avengers” (1999), Smalville”, The O.C.”, e NCIS” é a Dishwalla!

A melancólica e acústica “Find Your Way Home”, que tem um clima bem californiano, figura na trilha. Alguns rotulam o som da banda como pós-grunge… seja lá o que isso for.

“Good Morning Baby” é a sétima canção que contempla o disco, uma parceria entre Dan Wilson, vocalista do Semisonic, e Bic Runga, uma artista pop da Nova Zelândia que é conhecida por ser multi-instrumentista. Pelo que li, ela é tão conhecida quanto a Sandy por lá.

Com um pézinho no punk/alternativo, temos Shades Apart, que sinceramente para mim me soou como um Creed um pouco mais “pesado”. O trio de New Jersey é mais conhecido pelo seu hit “Valentine” e uma versão de “Tainted Love” do Soft Cell. “Strangers By Day” foi a escolhida para o filme.

Com o visual cafona, sem medo de passar vergonha e com o ritmo e a brisa do mar temos Barchelor N0 One com “Summertime”. Sério, reparem nessas roupas coloridas e tão anos 90, de tênis na areia com óculos de lente colorida. Pode isso Arnaldo?

Com toda essa atmosfera, não dava para deixar o Goldfinger de fora. Califórnia, praia, skate, ska: Goldfinger. A canção dos ska punkers que estrela o filme é “Vintage Queen”.

John Feldman, que também é produtor nas horas vagas – produziu o novo disco do Blink 182, California” (2016) há pouco – tem muitos mais hits do que “Superman” e “Mable”. Vale a pena ir a um show, aproveitem que eles tem vindo direto para o Brasil!

Bic Runga também conseguiu emplacar uma canção solo na trilha. “Sway” é um single e ganhou um clipe. A canção saiu alguns anos antes do filme no disco Drive” (1997) e tem uma atmosfera parecida com o som da Norah Jones e da Alanis Morissette.

Colocando mais ritmo no caldeirão, temos um skacore na mesma linha do Reel Big Fish na trilha com os ska punkers do The Loose Nuts. A energia é contagiante e os metais dão a letra do ritmo da canção. Sinceramente eu não lembro de ter ouvido a canção no filme, mas fato é que ela entrou no disco.

Para deixar tudo em ritmo de dancehall, temos The Atomic Fireballs com toda a atitude de bandas como Voodoo Glow Skulls. O grupo foi formado por Bunkley, frontman de uma outra banda de ska chamada Gangster Fun.

Não é difícil não tirar os pés do chão ao ouvir a canção que sabe bem usar o piano, o vocal rouco e os metais para entreter feito uma parada. Talvez tenham sido influenciados pelo som do The Mighty Mighty Bosstones que vem pela primeira vez ao país agora no começo de agosto. Imperdível!

A banda, apesar de desconhecida para o público em geral, além da trilha de “American Pie” chegou a estrelar as trilhas de Scooby Doo”, Mansão Mal Assombrada” e Dawson’s Creek”.

Porém, a soundtrack também conta com injustiças que valem ser frisadas. Boas canções que tocam efetivamente no filme porém não compõe o disco da trilha sonora oficial. Por isso vou destacar algumas, outras vocês precisaram ir atrás para saber mais, mas é só clicar aqui.

“Walk Don’t Run” de uma das mais lendárias – e essenciais – bandas de surf rock de todos os tempos, The Ventures está presente na chamada. A fundamental banda garageira The Brian Jonestown Massacre incrivelmente tem trecho no filme – e não ganhou destaque. A canção é “Going To Hell”.

Outra das músicas que SIMPLESMENTE não conseguimos entender como um hit me fica de fora da coletânea que eterniza o filme é “Semi-Chamed Life” do Third Eyed Blind. Pois é, eles têm ao menos outra canção na trilha, mas essa é anos luz melhor. Um puxão de orelha no diretor artístico da soundtrack oficial para ontem.

Mas um erro compensa um acerto não é mesmo? Por isso ficou de fora do disco a presente no filme “I Walk Alone” da pouco conhecida Oleander, outra que também é rotulada como pós-grunge. Ah, os anos 90.

Outro dia mesmo falamos sobre trilhas pornôs por aqui, e claro que a cena de sexo de Jim ia ter um funk pornogroovesco de fundo. Para honrar os pornôs dos anos 70, The SEX O-RAMA band com a canção “Love Muscle” chega chegando de mansinho para dar aquele clima.

O maior hit do grupo da polêmica Courtney Love não poderia ficar de fora do filme. O Hole passa pela telona dos adolescentes cheios de hormônios com “Celebrity Skin” que dispensa apresentações, mas também ficou fora do álbum. Também deixados de lado, temos uma dobradinha de grupos noventistas que somente poderiam ser frutos da época como Everclear com “Everything To Everyone” e Harvey Danger com o indiscutível hit “Flagpole Sitta”.

Duke Daniels também tem rápida participação no filme com “Following A Star” com sua atmosfera rock caipira. A trilha é tão boa que conta até com um clássico da música mundial, “Mrs. Robinson” do Simon & Garfunkel em sua versão original e não a do Lemonheads, o que eu não entendo, porque Lemonheads encaixaria ainda melhor na trilha. A classe de Etta James também figura com a sensual e apaixonada “At Last” trazendo à tona todo o clima de romance dos casais do filme.

No campo da e-music temos o trance “Calling Your Name” do Anomally. Agora, injustiça mesmo de não estar nesta trilha oficial mas felizmente estrelar o longa é “Rockafeller Skank” do Fatboy Slim. Um dos maiores hits da década, com uma good vibe ímpar dentro do mundo da música.

Talvez a música que mais me lembre a saga ficou também de fora do disco. “Laid” do James é a canção que toca no desfecho e no fim tanto do primeiro filme, como no Reencontro (2012). E é quase uma música-tema para a primeira MILF a ser chamada por essa sigla, a popular mãe do Stifler.

Anos 90 sem Norah Jones dentro da música pop simplesmente não existem. A cantora cansou de emplacar hit atrás de hit e ser queridinha em diversas trilhas sonoras de Hollywood. No filme ela encaixa a dramática “The Long Day Is Over”.

Não existe filme sem muita dose de amor e xaveco na dose certa sem alguma canção do rei das baladas mais quentes ao pé do ouvido. E olha que Marvin Gaye não precisou nem colocar apelação para “Sexual Healing” alcançar este status. Neste filme, “How Sweet It Is (to be Loved By You)” dá o tom do puxar da valsa.

Outra campeã de trilhas e diretamente dos anos 80 vem “Don’t You Forget About Me” do Simple Minds. Inclusive já falamos sobre o hit por aqui, pois ele também está presente em “Donnie Darko”. E “Clube dos Cinco”, é claro. Talvez por isso tenha ficado de fora do disco…

Menções honrosas: As baladas românticas “I Never Thought That You Would Come” de Loni Rose, “Midnight At Oasis” de Maria Muldaur.

Os maravilhosos samples obscuros que Moby usou em seu disco “Play”, de 1999

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Em 1999, Moby lançou seu elogiado disco “Play”, o quinto de sua carreira. O álbum chamou a atenção por ter todas as canções licenciadas pelo artista para utilização em comerciais e trilhas sonoras. Ou seja: Moby dominou as paradas e aparecia inclusive nos intervalos comerciais.

Vale a pena garimpar atrás dos samples que Moby usou nas músicas. Muitos deles saem diretamente de gravações antigas e obscuras de soul, blues, gospel e jazz.

“Natural Blues”, lançado como single em 2000 acompanhado por um divertido clipe em animação, foi um dos maiores hits do disco.

Vera Hall gravou “Trouble So Hard” em 1959 no disco “Sounds of The South”. Nascida em 1902 no Alabama, Vera era uma cantora de Folk que cresceu em Livingston e ganhou exposição nos anos 30 com sua voz poderosa.

“Bodyrock”, hit que virou single em 1999 e apareceu até em trilha de Fifa Soccer, veio do finalzinho de “Love Rap”, de 1980, de Spoonie Gee and The Treacherous Three. Você ouve a letra aos 5:32 da música.

“Find My Baby”, último single do disco, foi lançado em fevereiro de 2001, com um clipe cheio de bebês superstars.

A voz do hit veio de “Boy Blue”, um blues incrível de Joe Lee’s Rock, lançado em 1959 pela Atlantic Records.

O mega-hit deprê “Why Does My Heart Feels So Bad” saiu em novembro de 1999 e fez sucesso com mais um clipe de animação que conquistou os espectadores da Mtv.

De onde veio a voz calejada e cheia de dor? The Banks Brothers and The Greater Harvest Back Home Choir, em “He’ll Roll Your Burdens Away”, lançada em 1963. Mesmo a voz “de mulher” que rola na música do Moby vem dessa música, em uma versão com o pitch alterado.

A colaboração com Gwen Stefani “South Side” saiu em 2000 e difere um pouco do restante do álbum, se aproximando mais de um single pop.

A bateria da música vem do The Counts. Você pode ouví-la na música “What’s Up Front That Counts”, de 1971 (aos 6:40):