Humberto Finatti e a sua “Escadaria para o Inferno”

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Humberto Finatti é um personagem impar da cena musical brasileira. O jornalista começou na imprensa musical em 1986 e passou pelas redações (como repórter ou colaborador) de revistas como Somtrês, IstoÉ, Bizz, Interview e Rolling Stone Brasil, e também pelos jornais O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Folha da Tarde, Folha de São Paulo e Gazeta Mercantil. Atualmente é conselheiro edital da ONG Associação Cultural Dynamite e editor do site de cultura pop Zap’n’roll (www.zapnroll.com.br )

Em novembro do ano passado, Finatti lançou seu primeiro livro, intitulado “Escadaria para o inferno”, numa agradável noite de autógrafos realizada na Sensorial Discos, com shows das bandas Psychotria, Jonnata Doll & Os Garotos Solventes e Jenni Sex. O jornalista conversou sobre seu livro, jornalismo musical, financiamento coletivo e redes sociais. Confira:

– Depois de tantos anos e histórias no jornalismo musical, você nos brinda com a publicação do seu primeiro livro “Escadaria para o inferno”. Como surgiu essa idéia?

É um projeto que começou a ser gestado há alguns anos já. Na verdade eu tive uma existência pessoal e profissional bem maluca (risos). E não foi que eu quis ter vivido dessa forma, eu não planejei viver assim. As coisas simplesmente foram acontecendo ao longo da minha vida. Sempre tive uma formação intelectual sólida (por conta da mãe artista plástica e do pai publicitário) e uma educação bastante liberal em casa, em termos comportamentais. De modos que já na adolescência (por volta dos 16 anos de idade) comecei a enfiar o pé na lama em álcool e maconha (risos). E quando comecei no jornalismo em 1986, com 23 anos de idade, esse comportamento algo loki continuou me acompanhando. Vai daí que ao longo de três décadas atuando na grande imprensa como jornalista da área de música e cultura, comecei a colecionar uma série de histórias verdadeiramente malucas, algumas quase surreais de tão inacreditáveis. E todas existiram e aconteceram de fato, isso que é o mais incrível (risos). Histórias envolvendo consumo pesado de álcool, drogas (especialmente cocaína), sexo desenfreado etc. E muitas dessas histórias envolvendo gente conhecida do rock brasileiro e até internacional. Aí passamos então ao detalhe que me motivou a pensar no livro: toda vez que eu mencionava ou contava algumas dessas histórias para alguém, a reação era sempre a mesma: espanto total e a frase inevitável “isso dá um livro e você precisa escrever ele!”. Foi aí que, há uns 4 anos já, fiz uma primeira versão desse livro. Uma versão meio “preguiçosa” eu diria, pois resolvi apenas compilar uma série de posts do meu blog, o Zapnroll (um dos 4 mais acessados da web BR na área de rock alternativo e cultura pop, há 15 anos no ar já e com cerca de 70 mil acessos mensais), tal como eles foram publicados e onde eu invariavelmente contava essas histórias malucas. Reuni esse material e percorri algumas editoras pequenas, mostrando o que havia compilado. Foi quando o Marcelo Viegas, amigo meu há mais de 15 anos e ex-diretor editorial da Ideal Edições, um dia veio falar comigo me dando o toque: “Finas, o material é muito bom mas acho que você deveria mudar o foco da apresentação dele. Ao invés de reproduzir num livro exatamente o que você já postou no seu blog, seria muito mais interessante você pegar essas histórias malucas e reescrevê-las em forma de contos/crônicas curtas, romanceando um pouco o texto mas mantendo a essência e a narrativa factual do que rolou com você”. Segui o conselho dele e mudei tudo na parte narrativa do livro. Foi assim que ele nasceu tal como foi publicado e posso dizer que fiquei bastante satisfeito com o resultado.

– Fale um pouco sobre o processo de assinar com a Editora Kazuá. Como chegou até eles e como foi a recepção com o seu trabalho?

Outra looooongaaaaa história (risos). Foram três anos enviando os originais do livro para algumas editoras. Algumas sequer retornaram meu contato. Uma adorou e queria publicar mas não tinha dinheiro para bancar a impressão e queria que eu enfiasse a mão no meu bolso nesse sentido, sendo que ela cuidaria da divulgação, vendas e distribuição. Eu disse que não tinha como bancar (e não tinha mesmo, sou um jornalista loki e falido aos 5.5 de vida e que vive com a corda no pescoço (risos)) e que buscava justamente uma editora que acreditasse no livro e bancasse os custos de produção e impressão do mesmo. Uma segunda editora também se animou mas achou o conteúdo algo “pesado” demais (risos) e queria mudar muita coisa na narrativa dos capítulos, inclusive sugeriu um título menos “sinistro” para a obra, hihi. Recusei, óbvio, pois não queria mudar uma vírgula no que concebi de texto para ser publicado. Foi quando entrou finalmente em cena a Kazuá, selo modesto da capital paulista mas que possui um grande apuro e cuidado gráfico e editorial com o acabamento final de cada lançamento deles. Cheguei até a editora através de um amigo de muitos anos, um músico e professor universitário de Letras e que iria lançar (lançou, no final do ano passado) seu terceiro livro de poemas pela Kazuá. Um dia, tomando uma cerveja com ele, me disse: “Finatti, acho que achei o lar ideal para o seu livro. Procura o Evandro, dono da Kazuá e por onde vou publicar meu novo livro, e explica pra ele o que é o seu livro. Ele vai abraçar a ideia, com certeza”. E assim foi: liguei um dia pra lá, pra falar com o Evandro. Esse meu amigo já tinha falado também com ele ao meu respeito. Expliquei o que era o livro, como foi minha trajetória no jornalismo etc. Marcamos um encontro pessoal e fomos tomar umas cervejas num dia à noite. Ao final desse encontro o Evandro, um gaúcho altão e que é formado em filosofia e cinema, me disse: “confio em você e no livro. Vamos publicar ele”. Isso foi em outubro do ano passado. No meio de novembro o livro estava pronto. E eu gosto da turma da editora porque eles pensam como eu, comportamentalmente, socialmente, culturalmente e ideologicamente. Turma maluca da porra (risos). A diretora de arte é uma gatona de 30 e poucos anos de idade, toda tatuada e que toca guitarra. A outra editora é uma gaúcha quase sessentona, atriz de teatro e loki também (risos). O Evandro é um maluco ao cubo e inteligentíssimo. E todos, claaaaaro, são politicamente de esquerda, odeiam esse (des) governo de merda ao qual todos nós estamos submetidos nesse triste momento do país tropical não abençoado por nenhum deus (risos). Posso dizer que hoje dou razão ao meu amigo músico, poeta e professor: encontrei o melhor lar editorial que poderia para publicar o livro. Claro, há sempre uma rusga aqui e ali, alguns arranca-rabos acontecem eventualmente entre eu e a editora. Qual relação de amor, amizade e profissional onde nunca sai uma briguinha? Mas são encrencas pontuais e que rapidamente se resolvem com uma boa conversa.

– Quando você anunciou a publicação do seu primeiro livro, a repercussão na internet foi enorme. Como foi receber isso? Esperava um retorno tão rápido?

Foi mesmo enorme? (Risos) Se você está dizendo… (risos). Falando sério, sim, a repercussão foi muito boa, mas precisa melhorar ainda mais (risos). E recebi isso sem expectativa na verdade. Achei que alguma repercussão com certeza haveria, afinal eu sou um jornalista bastante conhecido (sendo que metade da humanidade me ama, a outra metade me odeia (risos)) na minha área de atuação e ao longo dos anos fui colecionando amigos (alguns bem famosos como os meninos da banda Ira!, o Frejat que foi durante 30 anos vocalista e guitarrista do Barão Vermelho, o Clemente dos Inocentes, o músico e apresentador de TV João Gordo etc, etc, além de muitos anônimos) e inimigos na mesma proporção. Então eu sabia que iria repercutir de alguma forma e em algum momento, mas não sabia qual seria o tamanho dessa repercussão. Como na real não sei ainda até onde esta repercussão chegará.

– “Escadaria para o inferno” reúne muitas histórias envolvendo celebridades. Sofreu algum tipo de censura por parte dos envolvidos? Alguma história prevista inicialmente ficou de fora?

Por partes: primeiramente nope, nenhuma das “celebridades” mencionadas nas histórias do livro se incomodou, ao menos até o momento. Um exemplo: quando eu estava com o livro pronto e oferecendo o dito cujo a editoras, fui num show do Ira! Depois da apresentação da banda, já no camarim, comentei com o Nasi (vocalista do grupo e meu amigo pessoal há pelo menos 35 anos) que uma das histórias que eu narrava em um dos capítulos havia rolado na casa dele, durante uma entrevista que fui fazer com ele, isso lá por 1993 (lá se vão 25 anos…). Perguntei se ele se incomodava em eu contar essa história. A resposta dele: “de forma alguma. Todo mundo sabe como foi minha vida e tudo o que rolou comigo eu mesmo já contei na minha biografia”. E ainda completou, rindo: “aliás Finatti, eu já levei alguns processos por conta da minha biografia. E você, está com quantas ações judiciais nas costas?”. (risos) Fora ele há episódios envolvendo gente como o americano Evan Dando (que foi vocalista dos Lemonheads) e o “pai dos punks”, o John Lydon (que um dia foi Johnny Rotten, quando cantou nos Sex Pistols). Mas como duvido que algum dia eles cheguem a ter conhecimento do livro… por fim tem mr. Lobão, né? (risos) Sobre minha briga com ele e como eu a mostro no livro (dedicando palavras e comentários nada abonadores ao músico), chegou a haver um certo receio por parte do departamento jurídico da Kazuá, quando eles leram os originais. Mas como o Lamartine, diretor jurídico da editora, também é do rock (risos), ele um dia me disse durante uma reunião com ele: “foda-se, vamos em frente e seja o que Deus quiser”. Segundamente: olha, tenho uma tonelada de histórias bizarras que rolaram comigo ao longo da minha trajetória profissional. E essas histórias dariam com folga mais uns 2 ou 3 livros. Mas a prioridade nessa estreia literária era fazer relatos de casos em que me envolvi com gente muito conhecida, até pela questão de marketing editorial, certo? Afinal as pessoas gostam de saber de “fofocas” envolvendo gente conhecida, né. É da natureza humana ser assim, ter essa curiosidade pelos bastidores “sórdidos” (risos) de quem é famoso. Posto isso, selecionei e escrevi 20 capítulos redondos. Poderia ter sido mais mas eu queria que o livro tivesse isso, 20 capítulos. De modos que ficaram de fora dois capítulos que podem muito bem entrar como adendo numa segunda edição/reimpressão do livro, se ela acontecer. São dois capítulos também muito engraçados. Um deles conta o “pelé” que dei uma vez numa entrevista marcada com o genial e querido Tom Zé, sendo que eu iria entrevistá-lo para fazer uma matéria para a célebre revista Bizz. Pois na véspera da entrevista fui pra “night” e enfiei o pé na lama, claro. No dia seguinte eu estava literalmente fora de combate e a entrevista foi pro saco, ahahahaha. Tive que ligar pra ele, inventei uma história de que havia passado mal de saúde (o que não deixou de ser verdade, hihi) e felizmente consegui remarcar a entrevista, sendo que na segunda tentativa não furei e deu tudo certo (risos). A outra história que ficou de fora foi um bate-boca que tive com o Lulu Santos ainda no comecinho da minha carreira de jornalista. Foi durante uma entrevista coletiva com ele onde eu perturbei o cantor carioca o tempo todo, ahahaha. Perturbei tanto que a ex-mulher dele, a finada Scarlet Moon, perdeu a paciência comigo e disse: “se você não parar de provocá-lo vou pedir que se RETIRE da sala!”. Levantei no mesmo instante e respondi: “não precisa pedir, já estou de saída”. E levantei e fui embora, ahahahaha.

– O guitarrista e co-fundador da Legião Urbana, Dado Villa-Lobos, disse num comentário sobre você “Às vezes ele é um imbecil, mas necessário. O último jornalista do Rock”. Concorda com a afirmação? O que você acha que o motivou para tal afirmação?

ahahahaha, eu sei exatamente o que motivou esse comentário dele (a frase dele foi dita pro meu queridíssimo amigo pessoal e músico Jonnata Araújo, vocalista da banda Jonnata Doll & Os Garotos Solventes, uma das poucas bandas que valem a pena no atual cenário rock alternativo BR; e o “Joninha” me contou depois sobre a declaração dele e achei que a mesma cairia bem na contra-capa do livro). Na real conheço o Dado desde que a Legião começou e lançou seu primeiro disco, no final de 1984. No auge da banda e quando eu trabalhei na revista IstoÉ, chegamos a ser bem próximos, embora eu tenha sido de fato amigo do Renato Russo. Pois bem. Renato se foi, a Legião idem e Dado seguiu em frente, tocando seus projetos musicais solo, cuidando de um selo independente (o Rock It, que não existe mais) etc. Até que lá por 2009 ele lançou um disco solo, que era trilha sonora de um filme nacional (não me lembro agora o nome, acho que era “Lisbela e o prisioneiro”). O cd veio parar na minha mão e fiz a resenha dele para a revista Rolling Stone Brasil, onde eu estava colaborando. E na resenha falei que o disco era ok musicalmente mas que não dava pra tangenciar o fato de que Dado NÃO nasceu pra CANTAR – ele cantava (canta) em duas faixas do cd (se me lembro bem) e de maneira bastante sofrível, eu diria. E ele ficou realmente PUTO quando leu aquilo e levou anos pra me desculpar, ahahaha. Aliás nem sei se desculpou (risos). Chegou a me mandar um e-mail (que tenho guardado até hoje) me espinafrando por causa da resenha publicada na RS. Mas enfim, nos reencontramos tempos atrás quando ele lançou sua auto-biografia, e ele me tratou com simpatia. Até tiramos uma foto juntos, ahahaha. E se concordo com o que ele disse ao meu respeito? Ora, quem nunca foi um IMBECIL em algum momento de sua vida? Então eu concordo (risos). Fora que é uma ótima frase de efeito e que mereceu entrar na contra capa do livro (risos).

– Humberto Finatti é uma lenda na cena musical. Você divide opiniões entre os que te amam e os que te odeiam. Como lida com isso?

Hoje em dia procuro lidar da melhor forma possível (risos). É a velha questão de você se tornar uma persona pública, né – e jornalistas, a partir do momento que expõem suas opiniões sobre algum assunto para que pessoas o leiam em algum veículo de mídia (impressa, virtual, seja o que for), se tornam personas públicas. E angariam amor e ódio, simpatia e antipatia em proporções equânimes, e de quem sequer conhecemos pessoalmente. De modos que hoje em dia lido bem com essa dualidade de opiniões sobre o que faço e escrevo. Mas houve uma época, há uns dez anos eu diria, que era foda. A perseguição em cima de mim chegou a ser tão cruel e violenta que até comunidade no falecido Orkut criaram, com o objetivo de me foder o mais que pudessem. Era uma comunidade repleta de fakes, de postagens anônimas, e onde ninguém tinha coragem de mostrar a fuça para dizer o que dizia ao meu respeito mostrando a cara. Me xingavam de tudo ali (risos). E inventavam as maiores barbaridades e bizarrices ao meu respeito. Teve uma época que aquilo chegou a começar a me fazer mal, emocionalmente falando. Mas como tudo acaba um dia, o Orkut foi pro saco e com ele também a tal comunidade. Mas aquilo no final das contas foi um aprendizado pra mim e me ensinou a lidar melhor com esse tipo de situação e com criticas e comentários negativos ao meu respeito. Também fizeram um Twitter falso meu, que no fundo era até divertido e eu dava muita risada com alguns tuites (risos). Agora como esse bando de covardes e cuzões não têm mais onde latir contra mim na covardia (assinando com perfil fake), eles vivem tentando me insultar no painel do leitor do meu blog, o Zapnroll. Só que lá eles se fodem porque eu é quem modero os comentários e então somente eu posso lê-los na íntegra, editá-los e publicá-los, se eu quiser. E acredite, pinta cada asneira e vomitório imundo lá que chega a me espantar. Fico espantado com o nível de inveja, psicopatia e ódio gratuito (e covarde, é sempre bom frisar, já que quem manda esse tipo de mensagem escrota nunca se identifica com o nome verdadeiro) dos caras. É assustador às vezes.

– Você transitou entre as mais renomadas publicações musicais do Brasil. Como você descreve o jornalismo musical atual?

Eu e mestre Luis Antonio Giron (o autor do prefácio do meu livro, atual editor de Cultura da revista IstoÉ, um dos maiores nomes do jornalismo cultural brasileiro e quem carinhosamente me abriu as portas do Caderno 2 do jornal Estadão, quando trabalhei lá em 1988) temos a mesma opinião: o jornalismo cultural/musical acabou. Morreu na era da web. Hoje qualquer um tem blog e posta suas opiniões (na maioria das vezes completamente rasa, estúpida e sem profundidade e conhecimento algum do que se está opinando) em qualquer lugar, no FaceTRUQUE etc. Talvez eu tenha feito parte (e com orgulho digo isso) da última grande geração do jornalismo cultural brasileiro, aquela que teve o próprio Giron, o Fernando Naporano, André Forastieri, André Barcinski, Ademir Assunção, Alessandro Gianini, Luiz Cesar Pimentel (autor do texto que está na “orelha” do meu livro) e mais alguns poucos. Todos queridos amigos meus, inclusive. Foi uma geração que se formou solidamente na questão cultural/intelectual, que possuía um texto brilhante e que buscava se informar e se formar lendo toneladas de livros de importância capital na literatura mundial, assistindo clássicos cinematográficos aos montes e ouvindo todos os grandes discos que importavam e importaram na história da música, especialmente na MPB e no rock. Hoje tudo isso acabou, né. As pessoas possuem toda a informação do mundo nas mãos, ao alcance de um click no computador ou no celular, e no entanto só ficam obcecadas em postar e ler imbecilidades no FaceCU, no Twitter e no whats porra app. Assim ninguém se aprofunda em nada e isso se reflete na cultura pop e na música atual, que nunca esteve tão irrelevante e ruim, qualitativamente falando. Não é à toa também que, pouco antes de morrer, o gênio e filósofo italiano Umberto Eco disparou uma frase que já se tornou um clássico do pensamento da era da internet: “a era da web produziu uma legião de IDIOTAS”. Simples assim.

– Você sempre levantou a bandeira do rock e ajudou a impulsionar a carreira de vários novos nomes. Como você encara isso? Se sente reconhecido pelos nomes que impulsionou?

Sempre encarei de maneira normal e como fazendo parte do meu oficio como jornalista. Claro que sempre amei e continuo amando rock, de modos que eu unia e uni o útil (minha paixão pelo rocknroll) ao agradável (trabalhar como jornalista), mesmo que isso não tenha lá me trazido grande retorno financeiro. Se me sinto reconhecido pelo que fiz e por ter ajudado um monte de bandas? Sim e não. Sim, porque fiz ótimas amizades no meio e que sempre têm um carinho enorme por mim. E não porque observo que o ser humano está mais egoísta e individualista do que nunca nos tempos atuais. Então o que mais continuo recebendo quase todos os dias são pedidos de bandas (por e-mail, pelo FB) para que eu ouça o trabalho delas, dê uma força e tal. Mas basta eu precisar de uma força igual de algum artista (como no caso do financiamento coletivo que acabei de abrir para levantar uma grana que me permita cobrir os custos de novas noites de lançamento do livro, que precisarei fazer o mais breve possível) que todo mundo literalmente some.

– Quem te acompanha nas redes sociais sabe que sua relação com a internet parece conturbada. O que te incomoda na rede e como mudar?

Já sou um sujeito “véio”, Hani fofo (risos). E como tal sou cada vez mais rabugento, ranzinza, azedo e avesso a tecnologia e redes sociais, aplicativos, smartphones etc, sendo que tenho tudo isso porque sou praticamente obrigado a ter e a utilizar essas ferramentas, por conta do meu trabalho como jornalista, blogueiro e agora também escritor. Mas faço minha a frase dita pelo personagem Paterson, do filme homônimo (belíssimo por sinal, o mais recente dirigido pelo genial Jim Jarmush): “o mundo era melhor sem smartphones”, hahahaha. E era mesmo: as pessoas se encontravam mais pessoalmente, rolava mais paquera de verdade, amigos iam em grupos ao cinema, a shows, museus, exposições, teatros, em baladas, beber nos bares e restaurantes. Hoje você reúne uma turma de, vá lá, quatro amigos, e sai com eles pra ir tomar uma breja por exemplo. Dali a pouco você olha em volta na mesa em que você está com esses amigos (onde quer que seja) e cada um está lá, com seu celular na mão, completamente absorto nele e alheio ao resto, e teclando freneticamente nos apps ou em alguma rede social, e que se foda quem estiver ao lado dele (risos). Na verdade a internet e as redes sociais são uma ferramenta e tanto de comunicação, interação e divulgação para tudo, não há dúvida quanto a isso. O que me irrita nela e a falsidade, o mundo ilusório e do faz de conta, onde todos são mega felizes e estão de bem com a vida em todos os sentidos, o tempo todo. Ou seja: todo mundo querendo fazer INVEJA uns nos outros, sendo que sabemos que a humanidade está longe de ser esse paraíso idílico e total cor-de-rosa. Muito pelo contrário: o mundo e o Brasil estão passando por momentos sinistros ao cubo, com crises de toda ordem. Fora a gigantesca onda moralista babaca, conservadora e reacionária ao extremo que está tomando conta da sociedade aqui e lá fora, e levando a raça humana a níveis de (in) civilidade dignos da Idade Média, isso em pleno século XXI. Então eu não caio nessa onda de que tudo é lindo e todos são felizes e estão super de bem com a vida nas redes sociais mais falsas que Judas (risos). Pelo contrário, sou um inimigo feroz desse tipo de atitude e comportamento digital. Daí minha birra com redes sociais e afins. Como melhorar esse panorama? Sinceramente acho muito difícil que ele melhore, pelo menos a curto prazo.

– Essa semana foi lançado um financiamento coletivo visando arrecadar fundos para realizar novos lançamentos do livro “Escadaria para o inferno”. Como você enxerga o financiamento coletivo? Acha que é a solução num cenário cada vez mais independente?

Não sei se é a solução ideal, mas é a que tenho nesse momento. E estou torcendo para que dê certo porque estou realmente precisando (risos). Por isso aproveito para pedir que todos me deem essa força e colaborem com esse financiamento coletivo que lancei.

– Tenho certeza que existem mais histórias em suas gavetas. Cogita dar continuidade e lançar um novo livro? Quais seus planos profissionais?

Parte dessa pergunta (das histórias que ainda tenho pra contar) já está respondida mais aí em cima (risos). Meus planos profissionais? Ahahahahaha, ganhar na mega sena, comprar uma casa na praia, outra em São Thomé Das Letras, sumir de São Paulo e ir morar na Islândia, meu sonho de consumo (risos). E lá passar o que me resta de vida curtindo frio intenso (amo!) eterno, uma linda islandesa, vinho e marijuana diariamente. Se eu conseguir isso, será ótimo e irei embora desse hospício chamado Terra plenamente satisfeito (risos).

Para colaborar com o financiamento coletivo lançado pelo autor, acesse: https://www.kickante.com.br/campanhas/lancamentos-do-livro-escadaria-inferno

Foto: Jairo Lavia