Lâmina mostra que o movimento riot grrrl continua com os dois pés na porta no disco “Manifest”

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foto: Vini Bock

Graças à Kathleen Hannah e seu Bikini Kill o quarteto Lâmina surgiu. A banda coloca para fora seus ideais e protestos, falando sobre feminismo, política e questões sociais em suas letras e discurso. As principais influências, além da banda que simboliza o movimento riot grrrl, são L7, Runaways, Babes In Toyland, Sonic Youth e Nirvana. Em meados de 2003, Pryka Almeida (vocal) e Thais Regina (guitarra) começaram o grupo, que se estabilizou na formação atual em 2005, com Dailla Facchini no baixo e Vanessa Ribeiro na bateria. Em 2008, o quarteto entrou em hiato, voltando em 2014 e gravando 2 anos depois seu primeiro EP, “Roll”.

Neste ano lançaram mais um trabalho, “Manifest”, com sete músicas, iniciado com uma gravação no estúdio Family Mob durante o Converse Rubber Tracks e finalizado com uma nova gravação em um estúdio por canal realizada ao vivo e masterizadas por Hugo Silva. Agora, a banda prepara clipes para as músicas “Entertain You” e “Magazines” e a gravação de 5 outras músicas que já estão prontas. Conversei com a vocalista Pryka sobre a carreira da banda, sua ideologia, o disco “Manifest” e os planos para o futuro:

– Como começou a banda?

Por volta dos 13 anos, quando eu comecei minhas primeiras aulas de bateria, formei a banda Princesas Podres com colegas da escola e amigas do prédio, mas a banda não durou muito. Já começando a frequentar festivais e shows, queria muito montar uma banda que participasse dos rolês que eu curtia. Em 2003, juntamos um pessoal para fazer um som na Choque Cultural (que na época ainda estava virando a Choque Cultural. Ensaiávamos lá pois o Jotape, filho dos donos, tinha uma bateria) entre amigos, cada um tocando um instrumento, eu ainda na bateria, e mais ou menos alguns possíveis integrantes pra virar Lâmina. Nessa jam, em um momento assumi o microfone em alguma música do Bikini Kill, e eu nem nunca tinha cantado (risos). Mas todos insistiram que eu tinha que cantar também, porque a minha voz tinha tudo a ver com as músicas que queria fazer. Já tínhamos uma vocalista, então ficamos com duas, eu e a Livia. Daí nosso amigo Henrique assumiu a bateria. Tínhamos a Giuliana no baixo e Pedro e Renata nas guitarras. Uma big band (risos)!

– E de onde surgiu o nome Lâmina? Aliás, adorei o nome Princesas Podres!

Olha, não sei direito, viu (risos). Mas como eu estava atrás de nomes com a pegada punk, me veio Lâmina como algo que cortasse , que ferisse a sociedade sabe? Tipo mostrando as verdades (risos). E sim! Quem sabe um dia remonto uma banda com esse nome!

– Quais são as principais influências da Lâmina? (Além do Bikini Kill, que quase que foi a força propulsora, né.)

Sim, Bikini Kill foi o princípio de tudo (risos). Mas tem muito de Babes in Toyland, Lunachicks, L7, Runaways, Nirvana (que foi onde eu cheguei no Bikini Kill).

– Vocês já tem um trabalho lançado, é isso mesmo?

Isso, levou anos! Mas saiu finalmente nosso primeiro CD, “Manifest”.

– Me conta mais sobre ele!

Quando a banda voltou a se reunir em 2014, o intuito era gravar um CD, mas mil coisas rolaram e não conseguimos. Daí em 2016 conseguimos um dia de estúdio no Family Mob através da Converse Rubber Tracks. Como fazia parte da “promoção”, essa parte durou 1 dia de gravação, que nos rendeu 3 músicas: “My Air”, “How About” e “8 de Março”. Lançamos como o EP e corremos atrás pra gravar mais músicas para poder completar e fazer um CD. Daí só em abril desse ano conseguimos uma graninha pra fazer uma gravação que “cabia no nosso bolso” ao vivo e por canal. Gravamos mais 9 músicas, porém a qualidade que o estúdio nos entregou mixada não foi satisfatória, o que fez com que selecionássemos 4 músicas para o engenheiro musical Hugo Silva, da Family Mob, finalizar. Então tem mais 5 músicas aqui na gaveta pra assim que tivermos uma graninha extra finalizarmos.

– Opa! E o que pode adiantar sobre essas 5 músicas que ainda vão sair?

Temos 3 músicas antigas e 2 músicas que fizemos nesse nosso retorno. Mas elas são tocadas nos shows sempre.

– E como estão sendo os shows? Como está sendo a recepção desse trabalho?

Eu tive um imprevisto que foi quebrar o tornozelo, o que nos deixou de molho já tem 3 meses. Mas que também foram necessários pras meninas da banda que estão em trabalhos de conclusão de curso ou na correria de trampo de fim de ano. Como ainda não tô 100% estamos preferindo esperar um pouco… Porque não adianta, na hora da música a gente se empolga, pula… E pra quem quebrou tornozelo agora não é uma boa (risos). E nós mesmo não temos a proposta de fazer muitos shows quando voltamos, pois com os outros afazeres da vida, embola um pouco tudo. Deixamos o lançamento ser um tanto mais orgânico, mas está tendo um alcance bacana, as próprias meninas inseridas no riot grrrl nos ajudam a divulgar e isso vai fazendo o CD chegar pro nosso público.

– Como você vê essa ascensão conservadora e misógina que tem acontecido nos últimos tempos?

A gente fica chocada como as coisas não vão pra frente. Eu comecei com banda em 2003, tem bandas com integrantes mulheres que tão na estrada antes disso e que não pararam de tocar e ainda assim a gente sofre preconceito. O rock é mega machista, começando no rótulo de colocar mulher como groupie. Mas tamo aí sempre mostrando que a mulher pode ser protagonista da história e que a música não é esse bicho de 7 cabeças. É foda ser chamada pra evento e se tem banda de cara, ter que estudar as outras bandas e o público, porque a gente não quer ir em lugar pra passar raiva e ser a minoria que é apedrejada e sacaneada, sabe. Acho super válido tocar em festivais que não sejam só de minas, mas a gente sabe que tem rolês que pode ser que vá pra passar dor de cabeça.

Pryka Almeida, do Lâmina
foto: Bruno Dicolla

– Essa luta feminina na música permanece forte faz tempo. Dá pra ver que nos últimos tempos, mesmo com todo esse povo misógino, a luta tá sendo ganha cada vez mais, não? 🙂

Tá super! Hoje em dia temos muita banda com mulheres, uma super diversificada. Lá atrás, quando comecei, tinha bastante banda, mas sempre as mesmas. Hoje a gente faz festival e dá uma super diversificada no line up, isso é incrível. Muita menina tocando e aprendendo a tocar. Hoje em dia tem o Girls Rock Camp também, que faz esse movimento se fortalecer e tanto voluntárias quanto campistas se empoderarem.

– Quais os próximos passos da banda?

Nós estamos com 2 roteiros de vídeos mais ou menos prontos que gostaríamos de filmar e esse CDzinho que dá continuidade pra lançar, mas não temos nem prazo pra isso, tudo no papel ainda.

– Clipes do primeiro disco?

Isso! Tem dias músicas desse cd que tão com roteirinhos sendo trabalhados, a “Entertain You” e “Magazines”. Vamos ver se vai rolar sair do papel, né. Mas a ideia é que role!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Tem a Charlotte Matou Um Cara e In Venus que estão com CDs recém lançados. O The Biggs de Sorocaba que tá faz tempo na estrada, que faz um rockão maravilhoso. A Bloody Mary Una Chica Band, que toca sozinha bateria, guitarra e ainda canta. Katze Sound de Curitiba. Miêta de BH, que faz um rockão maravilhoso. Las Fantásticas Pupés da Argentina que faz um som psycho/garagem sensacional.
Ema Stoned que faz um som experimental incrível. Ah, tem a Weedra também, que é a junção da banda Wee com a Hidra, das antigas, e voltou a tocar após uns 10 anos parada. E tem muito mais (risos), então desculpa, que não ter banda com mulheres não existe!

“Fluxo” mostra a força orgânica e colaborativa do som instrumental jazzístico de Zé Bigode

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Zé Bigode
Zé Bigode

“Fluxo”, novo trabalho da banda Zé Bigode, é uma divertida e orgânica junção de jazz com música brasileira pelas mãos de diversos músicos comandados pelo compositor e instrumentista José Roberto Rocha, guitarrista e mentor do projeto. Além dele, a formação atual da big band conta com Daniel Bento (baixo), Thiago DaGotta (bateria), Victor Hugo (percussão), Rodrigo Maré (percussão), Victor Lemos  (saxofone), Thiago Garcia (trompete), Tiago Torres (trombone), Ingra da Rosa (poesia e spoken word), Pedro Guinu (teclados) e Jayan Vitor (guitarra). Ufa!

O disco foi gravado ao vivo no Estúdio Cia dos Técnicos em Copacabana ao vivo, para capturar toda a essência da banda, que é o trabalho musical em grupo, utilizando a cooperação entre os membros e seus instrumentos se entrelaçando de forma fluida. “O nome do álbum veio baseado na concepção de que as coisas acontecem naturalmente e foi o que rolou: reuni a banda, fomos pro estúdio e em dois dias saímos com 90% dele pronto, apenas seguimos o fluxo”, explica José. Conversei com ele sobre o trabalho, a carreira da banda, a cena musical hoje em dia e muito mais:

– Me contem um pouco mais sobre “Fluxo”, que vocês lançaram este ano!

José Roberto: “Fluxo” foi o marco inicial da banda, o primeiro trabalho já com a formação que dura até hoje. O nome dele veio baseado na concepção de que as coisas acontecem naturalmente e foi o que rolou: reuni a banda, fomos pro estúdio e em dois dias saímos com 90% dele pronto, apenas seguimos o fluxo.

– Como foi a gravação desse trabalho?

José Roberto: Foi gravado ao vivo no Estúdio Cia dos Técnicos em Copacabana. Pegamos duas sessões de 6 horas e gravamos as músicas. Foi tudo ao vivo, pra captar melhor a energia das musicas ao vivo, no nosso caso música instrumental mais voltada ao jazz e raízes populares. A energia está muito concentrada na troca de se tocar junto e isso influencia muito o som final, então era inviável fazer do jeito que a indústria tem feito nos últimos anos, que é um grava de cada vez depois junta tudo e está pronta a música.

– E como foi a criação das músicas que estão no disco?

Victor: O Zé chegava nos ensaios e nos apresentava a ideia inicial da composição, o esqueleto dela e então nós juntos trabalhávamos nela, no arranjo. Acho que todas elas foram feitas mais ou menos dessa maneira. E além disso tem os improvisos que saíram na hora da gravação mesmo.

– E como estão sendo os shows?

Victor: Tão sendo bem maneiros. O repertório é basicamente as músicas do “Fluxo”, quase todas, e algumas novas!

José Roberto: Os shows tem como base de repertório o disco “Fluxo”, porém tem rolado algumas musicas novas que sairão no formado de single no ano que vem. Ao vivo contamos também com a Ingra da Rosa que faz intervenções poéticas.

– Me contem como a banda começou.

José Roberto: A ideia do projeto veio comigo, no final de 2015 numa viagem a Recife, quando senti que era hora de fazer um trabalho que fosse mais na onda das coisas que eu vinha ouvindo e não tentar entrar em uma outra gig ou coisa do tipo. Assim que cheguei no Rio comecei a trabalhar em algumas músicas e gravei um EP chamado “Zé Bigode”, que foi basicamente feito todo por mim e contou com algumas participações como o Lucas Barata, o Rodrigo Maré e o Victor Caldas. Não sabia como o EP ia ser aceito, então deixei pra montar a banda depois do lançamento, e aí fui chamando os amigos dos quais tinha afinidade e vontade de trabalhar. As coisas foram acontecendo, mais gente foi chegando pra somar, até que a banda se formou.

– E como é a dinâmica em uma banda que tem tantos integrantes?

José Roberto: De uma forma geral é tranquila. Nós temos as coisas bem definidas, como dia e hora de ensaio. A grande maioria é parceira de sair pra beber e essas coisas, e todos tem interesses similares em relação ao que a música representa. De um tempo pra cá tem rolado uma formação reduzida pra alguns eventos que se constitui em um quinteto, mas é só quando o local em que vamos tocar não comporta todos da banda, ou caso role alguma viagem que seja mais na correria e dependa de um esforço financeiro maior dos músicos. O famoso “tirar do bolso” (risos).

– Hoje em dia vemos que existe um crescimento das bandas instrumentais no meio independente. Como esse formato foi redescoberto?

José Roberto: É, não sei se redescoberto é a palavra certa, porque sempre rolou som instrumental, só que agora a galera tem investido mais em outras coisas além da música, numa arte legal, num conceito, em como fazer a musica instrumental ser algo rentável… Muita gente tem na cabeça que música sem voz é apenas pra músico, o que às vezes tem um certo fundo de verdade. Muito músico se preocupa apenas em ser um bom músico tecnicamente e afins, e esquece que a música instrumental é também uma forma de expressão. Dá pra você fazer um som instrumental e estar inserido no contexto, afinal é tudo música. Quem vem com esse papo aí de separar as coisas por etiqueta é o mercado, né…

– Quais as principais influências da banda?

José Roberto: Acredito que não tem uma influência soberana, todos procuram escutar bastante música e coisas novas, então as referências estão sempre mudando. Mas rolam os pontos em comum, que é o lance de cultura popular como Maracatu, o Fela Kuti, Miles Davis, Rumpilezz, Moacir Santos, Lauryn Hill, e essa galera que tem feito o som contemporâneo, Abayomi, Nômade Orquestra, Bixiga 70

– Como vocês veem o mundo da música hoje em dia, especialmente no meio independente?

José Roberto: Tem muita coisa rolando, muita coisa boa, o que é ótimo. Hoje qualquer pessoa pode gravar suas musicas, não precisa de uma gravadora nem nada. Democratizou nesse sentido, mas o que acaba rolando é que o fluxo de novos artistas é tão intenso que muitos passam batido e acabam não sendo “visualizados”. Aí volta um pouco a antiga lógica: quem tem grana pra investir é quem aparece mais, ou quem tem os contatos. Se todo dia tem uma pá de disco novo, como é que tu vai aparecer? Claro que a musica é fundamental nesse processo, o independente é mais sincero nesse sentido, mas ainda vale um pouco daquela lógica quem tem grana sai uns passos na frente de quem não tem.

– Ou seja: mesmo sem as gravadoras, ainda continua do mesmo jeito. Quem tem o bom e velho apoio de alguém grande segue uns degraus acima.

José Roberto: Sim, sem contar os filhos de fulano e beltrano que automaticamente já elevam o status a algo que vale a pena, sendo que muitas vezes a pessoa nem tem um trabalho pronto. É complicado, mas acho que faz parte, né? É nesse sistema que nós vivemos, mas da galera que eu tenho visto aí circulando a grande maioria tem uma boa música e uma boa mensagem pra passar. Então, a balança equilibra, coisa que no mainstream é raro encontrar.

– Quais os próximos passos da banda?

José Roberto: Estamos finalizando as datas de show aqui no Rio, iremos participar de uma coletânea em homenagem ao Guilherme Arantes no inicio de 2018, e irão vir uns 2 singles com clipe um no primeiro semestre e outro no segundo semestre e tocar fora do Rio. Alô Recife, alô Nordeste: chama nóis! (risos)

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

José Roberto: Tem o pessoal do O Quadro da Bahia, IFÁ, da Bahia também, Orquestra Contemporânea de Olinda em Pernambuco… Aqui no Rio tem a Foli Griô Orquestra, Relogio de Dali, Amplexos… Em Sampa tem a Nômade Orquestra, a Xenia França, Luedji Luna, Rincon Sapiência, em BH o pessoal do Zimun… Como eu disse, muita coisa rolando.

https://open.spotify.com/album/1ksBypufTDA6n88DP9ZT3U

Um biscoito da sorte foi a faísca do disco “Good Fortune”, do trio The Forty Nineteens

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Um verdadeiro liquidificador que mistura Dramarama, Elvis Costello, Smithereens e Iggy and the Stooges. Este é o The Forty Nineteens, da California, que lançou recentemente seu disco “Good Fortune”, produzido por David Newton do Mighty Lemon Drops, praticamente um membro não-oficial da banda.

Formada por John (vocais), Chuck (guitarra e vocais) e Nick (bateria e vocais), a banda começou sua carreira lançando “No Expiration Date” em 2012, seguido por “Spin It” em 2014 e finalmente “Rebooted” em 2016. A música “I’m Free”, deste último, chegou a ser nomeada a “Música Mais Legal do Mundo” pelo programa de rádio Little Steven’s Underground Garage. Agora, a banda prepare-se para uma turnê em apoio ao lançamento de “Good Fortune” e sonha em vir ao Brasil. “Nos falem mais sobre agentes de ou promotores para irmos atrás!”, falou Nick, com quem conversei um pouco.

– Como você começou sua carreira?
Eu comecei a tocar bateria com 14 anos, depois de assistir bandas tocarem na minha comunidade local em dias de piquenique. Polka, country, rock’n’roll. Fui atraído pela bateria e me sentava atrás dos bateristas observando como eles se apresentavam. Com 10 a 12 anos, juntei-me à banda do ensino médio e aprendi o controle do pescoço e leitura da vista. Nosso professor era o irmão de Henry Mancini. Ele foi paciente e fez com que a música fosse divertida. Nós só tocávamos em almofadas de prática, então, infelizmente, fiquei entediado e encerrei a banda. Dois anos depois, veio a coceira novamente e comprei uma bateria de baixo custo. Eu tocava 3 horas por dia, sete dias por semana. Mamãe e papai saíam de casa por uma hora ou duas para eu poder praticar. Minha família era muito solidária, e também músicos. Papai tocava gaita e bateria, minha mãe e meu irmão tocaram guitarra, minha irmã tocava violão. A música sempre estava em volta da casa. Meu cachorro acabou se acalmando depois de alguns meses e me observava praticar. Aparentemente, me tornei um baterista melhor, e comecei a tocar com bandas pela cidade. Uma coisa levou a outra e me mudei para Los Angeles para começar minha carreira musical.

– Como surgiu o nome The Forty Nineteens?
O vocalista John e o Chuck trabalham no campo legal, e 4019 é o código legal da Califórnia para créditos de bom comportamento. Exemplo: digamos que alguém está cumprindo uma pena de 6 meses por fazer bebidas ilegamente, você recebe um dia de folga em sua sentença por todos os dias que você fica sem problemas. É o nosso lema. “Todo mundo merece algum tempo por bom comportamento”.

– Quais são as maiores influências da banda?
O John curte Graham Parker, The Beatles, The Romantics. Já o Chuck gosta de bandas californianas de punk como Social Distortion. Eu gosto de The Who, rock’n’roll dos 1950s e garage rock.

– Me contem um pouco mais sobre “Good Fortune”.
John estava comendo em um restaurante chinês e seu biscoito da sorte dizia “seu talento musical será exibido em breve”. Com uma mensagem tão positiva, ele sugeriu que “Good Fortune” fosse o título do novo disco. Nós concordamos. A banda não é política, mas promovemos a positividade com nossas músicas e perspectivas em geral. Você não pode esperar que as pessoas mudem, mas você tem a capacidade de se mudar para melhor. Como sugere a faixa 7, “se você deixar amor, o amor ganhará”. O disco tem sido tocando por Genya Ravan e Rodney Bingenheimer na Little Steven’s Underground Garage Sirius XM e no programa de Bill Kelly na WFMU Jersey City.

– E o que vocês já tinham lançado antes desse trabalho, como foi?
Todos os nossos discos foram produzidos por David Newton, do The Mighty Lemon Drops. Ele é um ótimo produtor/engenheiro, além de um grande cara. Ele nos ajuda tremendamente. No ano passado, lançamos “Rebooted”, com 12 músicas que entraram nas paradas das college radios e nas rádios comerciais. Little Steven’s Undergound Garage escolheu “I’m Free” como “Música Mais Legal do Mundo” na semana de 3 de junho de 2016. Nós tocamos no Yankee Stadium neste ano e nos divertimos muito. Em 2014 lançamos “Spin It”, com 8 faixas que também tocaram nas rádios. “No Expiration Date”, de 2012, tem 11 faixas. Este disco é o que fez a bola rolar para nós. Foi nossa primeira gravação com Dave Newton, e também nosso tecladista Kevin McCourt. Ele fez turnês com Stevie Wonder, entre outros. Paul du Greis fez a masterização dos discos. Ele começou sua carreira trabalhando com X, Bruce Springsteen, The Blasters e muitos outros artistas de destaque. Nós sempre estivemos com ele.

– Como é seu processo de composição?
John geralmente vem com os riffs ou ideias de música. Eu costumo levar as músicas e organizá-las. Chuck também acrescenta muito. Nós descobrimos acordes ou arranjos juntos também. Depende apenas de quando a idéia flui. Todos nós tentamos fazemos o melhor que podemos. Dave traz seus muitos anos de experiência e nos oferece essa experiência de uma forma muito fácil e divertida. Nós adoramos gravar com ele, e estamos ansiosos para o próximo projeto.

– O que você acha da a cena musical independente hoje em dia?
As bandas têm ferramentas incríveis disponíveis para a sua criação de música, promoção e outros. A(s) cena(s) são brilhantes. Eu, por exemplo, curto muito os sons indie que saem de Cleveland. Muitas grandes bandas, que espero que sejam ouvidas fora de Cleveland.

– Qual é a sua opinião sobre a era de streaming em que vivemos?
Eu gosto. No passado, fazíamos mixtapes e passávamos para amigos ou vice-versa. Agora você pode chegar ao mundo e ouvir mil bandas diferentes em apenas um dia, se você tiver tempo. É muito legal isso!

– Descreva um show do Forty Nineteens para alguém que nunca viu. Talvez possamos nos ver no Brasil algum dia?
Aprendemos a fazer shows abrindo para bandas como Red Hot Chili Peppers, Bash and Pop, The Blasters, Beat Farmers e muitos outros. Nós tentamos mostrar esse espírito de curtição em nossos shows. A vida é muito curta para se preocupar com as coisas em um show de rock. Só queremos que todos se divirtam, dancem e esqueçam um pouco do mundo. Gostaríamos de apresentar no Brasil, nos falem sobre agentes de ou promotores para irmos atrás. Nós tocamos no Double Nueve no Peru também, então espero que possamos chegar ao seu lindo país! Esperamos em um futuro muito próximo, obrigado por perguntar!

– Quais são os seus próximos passos musicais?
A banda está nos estágios iniciais de escrever o próximo disco. Nós também planejamos fazer uma turnê de nosso novo álbum, e estamos nos preparando para estar em fevereiro para a costa oeste, e abril para o leste dos Estados Unidos e, possivelmente, o Brasil!

– Recomende algumas bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção ultimamente.
Eu realmente gosto de uma banda de Pittsburgh chamada The Gothees. Eles são um cruzamento entre The Monkees e Joy Division. Vão atrás de ouvir.

Os Chás oferece uma xícara bem cheia de lisergia em seu primeiro disco, “Já Delírio”

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Os Chás
Os Chás

“Já Delírio” é o disco de estreia da banda Os Chás, formada em 2016 em Mogi das Cruzes, em São Paulo. Formada em 2016 por Gabriel Mattos (guitarra e voz), Diogo Menichelli (bateria e percussão) – ambos ex-Hierofante Púrpura, Thiago Fernandes (baixo e voz) e Wesley Franco (baixo), a banda oferece generosas colheradas de lisergia e psicodelia no álbum, gravado e mixado por Taian Cavalca e masterizado por Hugo Falcão no estúdio Mono Mono. O disco, lançado pela Transfusão Noise Records, traz as participações especiais de Priscila Ynoue (piano, órgão e sintetizador) e Mário Gascó (sitar indiano e didgeridoo), colocando mais pitadas alucinógenas nas seis faixas.

– Como a banda começou?
A banda começou com uma idéia que tive com o Thiago Gal de voltarmos a fazer um som juntos, pois tivemos nossa primeira banda, que foi o Agentes, ativa entre 2002 e 2005. Sentimos essa necessidade de voltar a tocar e realmente começar a compor, pensar nas pessoas que podiam fazer parte e de fato começar o projeto novo. O Wesley (guitarra) era um parceiro próximo que naturalmente foi convocado e o Diogo (bateria) é um parceiro que toquei junto no Hierofante Púrpura entre 2005 quando montamos a banda até mais ou menos 2012 quando ele saiu da banda. Assim nasceu a banda, mais ou menos em abril de 2016.

– E como essas bandas anteriores influenciaram o som d’Os Chás?
Acredito que cada banda influencia cada um de nós de formas diferentes. O Agentes eu acredito que seja a base daquele lance de amizade criada a partir de banda, uma coisa descompromissada e isso que nos fez voltar a fazer um som juntos, eu e meu irmão Thiago Gal. Depois do Agentes o Thiago montou uma banda chamada Conte-me Uma Mentira que também faz um som influenciado por anos 60 e isso acaba pegando nas composições que ele apresenta pra gente trabalhar. O Diogo antes do Hierofante Púrpura veio de uma banda de hardcore chamada Noupe, o som em especial que ele fazia creio que hoje em dia não tenha influenciado, já o Hierofante sim, influencia a gente fortemente, já que eu pelo menos estive praticamente 12 anos tocando e isso acaba se mostrando nas composições. O Wesley veio de uma banda chamada Luzco, uma turma mais nova da cidade, já que estamos todos na casa dos 33, 35 anos e Wesley é nosso garotão com seus 25 anos (risos).

– Me fala mais do disco que vocês lançaram este ano!
Até hoje pra ser sincero eu não sei se é um disco de 25 minutos ou um EP (risos). Mas enfim, ele se chama “Já Delírio”, foi gravado nos dias 28 e 29 de janeiro no MonoMono Estudio pelo parceiro Taian Cavalca. O processo de mixagem foi feito por ele também e a masterização, que foi feita pelo Hugo Falcão, rolou entre fevereiro e maio de 2017, então acertamos com a Transfusão Noise Records do RJ pra lançarmos em julho de 2017. O disco tem 6 músicas com letras escritas em parceria entre nós todos, praticamente, e os arranjos também todos feitos entre abril e dezembro de 2016. Esse disco foi concebido em versão física (CD) graças ao edital municipal de prensagem de CD pronto, então recebemos 500 CDs com encarte e tal, é um material bem bonito mesmo que teve toda arte gráfica desenvolvida pelo Thiago Gal. O disco tem participação fundamental nas teclas da Priscila Ynoue em pelo menos 4 músicas e o amigo Mario Gascó também participou na musica “Morocco” tocando didgeridoo e sitar indiano.

– Quais as principais influências musicais da banda?
Basicamente influencia dos anos 60/70 mas também temos nossa escola forte que foi o punk dos anos 80 e toda febre que foi os anos 90. O que acontece agora é maravilhoso também, não somos aqueles caras que só ouvem coisas antigas, estamos sempre ligados no que esta rolando. Eu adoro essa onda de sintetizadores (coisas sempre usadas no Hierofante Púrpura) que está rolando por agora.
Não ficamos presos numa coisa tipo “nosso som só vai ter aquela pegada psicodélica anos 60″, não, nós vamos compondo e naturalmente as coisas vão acontecendo.

Os Chás

– Como vocês veem esse retorno da psicodelia que está rolando nos últimos anos?
Eu vejo como um rótulo, até pra ser bem sincero já me sinto um pouco cansado de tanto falar em psicodelia. Quando começamos o Hierofante em 2005 falávamos em “psicodelia rural” já que somos do interior e aqui você ainda vê charrete e outras coisas bem psicodélicas que só o interior te proporciona. Então convivo com esse rótulo já tem um tempo, mas realmente acho que o Tame Impala é uma banda que trouxe isso de volta com força total. De qualquer forma rótulos aparecem, desaparecem, surgem outros e assim caminhamos. O importante é não parar de produzir discos e boas canções.

– Então em breve podemos esperar a volta de novos rótulos, talvez?
A volta não sei, mas a criação pode ter certeza que sim (risos)!

– Então essa “queda” do rock no mainstream pode ser passageira? Ou você acha que o lugar do rock não é nas paradas de sucesso?
Eu adoraria que o rock fosse o centro das atenções, mas sou bem ciente que nosso país valoriza muito mais outros gêneros musicais (em termos de “mainstream”, como você escreveu). Vou te falar que eu não sei muito bem o que acontece no mainstream brasileiro, essa é a real, eu sou bem alienado em relação a isso. Eu acompanho nosso universo paralelo underground (que nem é tão underground assim hoje em dia, levando em consideração tanta banda que hoje tem assessoria de imprensa, de mídia, produtor exclusivo e afins).

– Já que falamos nisso, como você vê o cenário independente hoje em dia?
Vejo como o mainstream do rock brasileiro (risos). O termo independente é ótimo esta na moda!
Vejo bons discos, boas ideias, bons clipes e a quantidade de disco e de banda que tem por aí é o que mais me impressiona. Como os trabalhos são deixados de lado num piscar de olhos, pois a quantidade de coisa aparecendo é tão grande que praticamente ninguém consegue acompanhar tudo que esta acontecendo. Acredito que a capital poderia ter muito mas muito mais casas de shows abrindo espaço pra bandas que lançam discos autorais, pois enxergo São Paulo como algo muito gigantesco em comparação aos espaços já conhecidos.

– Já estão trabalhando em novas músicas? Dá pra adiantar alguma coisa?
Sim, fechadas temos mais duas músicas e milhares de outras idéias para serem arranjadas.
Estivemos no Rio de Janeiro nos dias 17,18,19 e 20 e fizemos 3 shows e a gravação de uma musica inédita no “Escritório” da Transfusão Noise Records para o projeto “Cassete Club”, que consiste em gravar em fitas cassete faixas inéditas de bandas do selo para, no futuro, organizar tudo num grande disco compilado.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamara sua atenção nos últimos tempos!
Giovani Cidreira pra mim lançou o disco do ano que é o “Japanese Food”, gosto muito do disco “Vida Ventureira” da Barbara Eugênia/Tatá Aeroplano, o disco de estréia do Oruã chamado “Sem Bênção / Sem Crença” é viajandão também. Tem o disco do meu amigo Gevard do ABC Love que também gostei muito, tem o Leza que é uma banda de SP que em breve vai lançar um disco bem legal também.
Curumin lançou um disco maravilhoso, Kiko Dinucci (“Cortes Curtos”), tem Ema Stoned que é aquela viagem, tem o Bratislava, tem o Negro Leo, O Terno, Boogarins e mais uma porrada de coisa legal.

Festival LGBT Mix Music acontece de 15 a 26 de novembro em São Paulo

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Mix Music é o primeiro festival de música voltado para o público LGBT no Brasil e existe desde 2000, como o braço musical do festival de cinema e artes integradas Mix Brasil. Organizado pela Associação Cultural Dynamite e criado pelo produtor e ativista André Pomba , este ano, o festival completa 18 anos realizados ininterruptamente.

Desde a primeira edição, o festival sempre busca mesclar novos talentos com artistas consagrados como Liniker, que será a atração principal deste ano, num show que promete colorir o Parque do Ibirapuera em pleno feriado da Proclamação da República . Já os novos talentos participam de um concurso com prêmio de 1000 reais para cada uma das categorias: dança / coreografia , cantores(as) e drag queens . Confira a programação completa dessa edição:

15/11 quarta-feira (feriado) 16h- Liniker e os Caramelows @ Auditório do Ibirapuera (platéia externa)
17/11 sexta-feira 19h – Danna Lisboa e Saint-Hills @ CCSP
18/11 sábado 15h – Novos Talentos Coreografia @ CCSP
18/11 sábado 17h – Novos Talentos Cantorxs @ CCSP
18/11 sábado 19h – Novos Talentos Drag Queens @ CCSP
26/11 domingo 18h – Queer Explode, Gisele Almodóvar, Luana Hansen, Tiely Queen e Rimas & Melodias @ CCSP

Todos os eventos são gratuitos! No Centro Cultural São Paulo os ingressos devem ser retirados uma hora antes de cada evento. Aproveitamos a ocasião para conversar com o André Pomba, criador do Mix Music:

– Você idealizou o primeiro festival de música voltado ao público LGBT. Como surgiu essa idéia?

Na realidade a ideia não foi minha. O diretor do festival de cinema Mix Brasil, André Fischer, disse que queria expandir o evento e ter shows musicais. Assumi logo de cara o desafio e em 2000 foi criado o Mix Music.

– Manter um festival por 18 anos deve ser uma tarefa árdua num pais que não valoriza a cultura como deveria. Além dos habituais, quais desafios você enfrenta por se tratar de um evento LGBT?

O desafio é típico de qualquer produtor independente e ainda mais ativista da causa LGBT. Tem anos que temos apoio bom, anos que temos pouca verba, ano que não temos nenhuma verba e até já banquei do bolso algumas edições.

– O Concurso de Novos Talentos é sempre um destaque dentro da programação do Mix Music. Qual a sensação de abrir espaço para novos artistas? Como é a recepção do público?

Hoje em dia é a parte do Mix Music que eu mais me orgulho e me reciclo. No primeiro ano, foram somente 3 drag queens e quase ninguém na plateia e lembro de ter até feio um desabafo pela falta de compreensão. Porém a cada ano, essa parte aumenta de público, de disputa e agora temos 3 categorias (drag queen, cantorxs e coreografia/Dança).

– Eventos como o Mix Music ajudam a difundir o respeito as diferenças. Dentro da Militância LGBT, você enxerga uma união e avanços?

Não tenho dúvida que a cultura é a principal demolidora de preconceitos, é a forma com que tocamos a sociedade mais profundamente e a mudamos. Infelizmente, a militância LGBT se afundou numa guerra entre letrinhas de um lado e ideológicas/partidárias de outro. Num momento em que enfrentamos o conservadorismo nos atacando, sequer estamos unidos para combatê-los.

– Quais momentos você destacaria na trajetória do Mix Music? Sonha com alguma participação que ainda não aconteceu?

A primeira edição foi no próprio Centro Cultural, lembro até hoje do show da Vange Leonel (hoje falecida) que foi no formato piano e voz e só aconteceu lá. Teve os shows no SESC Pompeia com artistas como Perla, Maria Alcina, Ângela Rô Rô, inesquecíveis. Acho que meu sonho seria ter o Ney Matogrosso, por tudo o que ele representa para a música brasileira e a população LGBT. Teve um ano que ele estava de diretor de uma peça no Mix Brasil e assistiu a vários shows do Mix Music, sempre discreto e atento.

O Festival Mix Music é realizado com apoio do Edital de Apoio a Criação Artística Linguagem Música da Prefeitura de São Paulo

Uma viagem ao desconhecido: Barba Ruiva lança disco homônimo com influências de jazz e rock alternativo

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foto: Tai Fonseca

A banda carioca Barba Ruiva lançou recentemente seu primeiro álbum homônimo, que faz um panorama do trabalho em progresso desde sua formação, em 2005, até hoje. O trio Rafael Figueira (lead vocal e guitarra), Leonardo de Castro (baixo e voz) e Aline Vivas (bateria e voz) selecionou algumas canções que criaram desde o começo e que ainda dialogam com o atual momento do grupo, fazendo a gravação em duas etapas.

Primeiro, no Estúdio Superfuzz, em 2013, com Lisciel Franco, eles registraram bateria, vozes e algumas guitarras. Posteriormente, em 2017, com o produtor musical Maurício Negão (Marcelo D2, Frejat) e produtor executivo Dudu Oliveira, que colaboraram na regravação, remixagem e masterização das faixas, e junto do técnico de som Pedro Montano, do Estúdio Kultrix, onde foram gravados o baixo e as demais guitarras. O resultado é um disco diversificado e cheio de personalidade, com influências notáveis de rock alternativo, o popular rock oitentista, com uma pitada de jazz e blues, estilos que a banda adora. Conversei com o trio sobre o primeiro trabalho, a história da banda e suas influências:

– Vocês acabaram de lançar um disco. Podem me contar um pouco mais sobre ele?

Aline: As músicas foram criadas a partir de poesias do Rafael. As composições também são dele. Somente uma música foi em parceria comigo, “Praia”. Gravamos a bateria e vozes no estúdio Superfuzz, com Lisciel Franco e Elton Bozza, depois gravamos baixo e guitarras no estúdio Kultrix, sob a produção musical de Maurício Negão. A mixagem e masterização foram de Pedro Montano.

Leon: As composições são do Rafael e os arranjos e desenvolvimento foi um processo coletivo. Esse álbum é uma compilação de músicas que tocamos desde 2005. Isso faz com que tenhamos um vasto repertório gritando pra ser gravado já!

Aline: A gente compôs muitas músicas nesses anos de banda. Acabamos selecionando essas canções de uma forma bem orgânica. Eu acho que elas são bem diferentes entre si, mas de certa forma têm conexão e afinidade. Ah, tivemos também a produção executiva do Dudu Oliveira, na segunda etapa da gravação do álbum e assessorando nossa divulgação.

– E como vocês descreveriam esse disco pra quem ainda não ouviu?

Aline: Uma viagem pra dentro de si. Difícil essa pergunta! (risos) Eu colocaria para ouvir no carro… Talvez durante uma viagem. Tem momentos bem humorados e outros de introspecção.

– Quais as maiores influências musicais da banda?

Aline: É legal perceber algumas influências de estilos diferentes que se misturam ao rock
nas músicas do álbum. Elas têm uma influência do jazz, blues, samba, rock psicodélico, entre outras.

Leon: Influências bem diversas: eu, por exemplo, me alimento muito mais da MPB raiz, do blues e jazz, do que do rock em si.

Aline: Podemos citar aqui alguns artistas bandas e estilos. Bob Dylan, Nirvana, Doors

Rafael: Sim, minhas influências são bem próximas às da banda, pois também tem o fato de sermos uma “familia”, bebermos nas mesmas fontes.

Aline: Miles Davis!

Leon: Tenho ouvido muita coisa meio rural… Xangai, Marlui Miranda, coisa de índio, João Bosco (risos).

Aline: John Coltrane, Milton Nascimento, Smiths

Leon: Mas eu bebi MUITO da fonte do jazz instrumental.

Aline: Janis Joplin, Nina Simone

Tai Fonseca

– De onde surgiu o nome Barba Ruiva?

Leon: Estávamos procurando um nome quando descobrimos que a BARBA do meu irmão (Rafael) e a minha era RUIVA. Foi uma surpresa. Tava começando a ter barba.

Aline: Quando resolvemos montar uma banda, há muito muito tempo (risos), fizemos uma longa viagem citando nomes possíveis.  Quando eles falaram barba ruiva, acabou a conversa! (risos) Não conseguimos pensar em mais nada! Encaixou como uma luva. Foi amor à primeira ouvida. Tem uma imagem de pirata nesse nome que a gente curte muito. Tem a ver com essa jornada que estamos fazendo na vida rumo ao desconhecido. E também a um certo aspecto bruto que tem a ver com nosso som.

– Então a banda começou faz tempo. Como foi esse começo?

Aline: Nós dividimos uma casa nos Estados Unidos, há muitos anos. Lá mesmo, eu e Rafael estávamos imaginando como seria legal criar uma banda de rock no Brasil. Num impulso, voltamos para o Brasil pra correr atrás de realizar esse sonho. Naquele momento, não podíamos imaginar como seria difícil! (risos) Doideira.

– Me contem um pouco mais sobre o que vocês já lançaram antes do primeiro disco.

Leon: Já havíamos gravado algumas demos que ajudaram a gente a amadurecer musicalmente e em todo o processo de gravação, composição e atitudes de uma banda perante o mercado/cenário musical.

– Então vocês estudaram bastante o cenário independente antes de se jogar de cabeça.

Leon: Não. A gente viveu o cenário independente, um bom tempo, antes de perceber algumas coisas que são necessárias pra de profissionalizar.

Aline: Foi uma imersão mesmo. Estamos vivendo toda a luta de ser uma banda independente.

– E como vocês veem essa cena hoje em dia?

Leon: No Rio de Janeiro rola uma escassez de espaços pra tocar. Falta remuneração. Falta reconhecimento da música autoral como fonte de entretenimento. Por outro lado, vejo bandas e artistas movimentando os próprios eventos, formando coletivos e alguns até conseguindo se bancar com isso, dando mil piruetas. Tocando na rua, dando aulas… Além do mais, estamos vivendo um período de dificuldades, com o prefeito e Governo vetando a cultura.

– Porque vocês acham que isso tem acontecido e como pode melhorar?

Leon: Acredito na profissionalização do trabalho. Acredito que possamos ser valorizados como arte e entretenimento. Mas tenho certeza que isso não pode ser concentrado no Rio de Janeiro somente. Tem que haver um planejamento legal de circulação. Acredito que no mundo inteiro tem gente que se interessaria pelo nosso trabalho. Temos que chegar neles.

– Vocês já estão em turnê do novo disco? O que o público pode esperar de uma apresentação do Barba Ruiva?

Leon: Estamos preparando um novo show e começando a planejar a turnê. O novo show será surpresa, mas certamente esperamos causar emoções, sensações de prazer e reflexão. Nosso show costuma ser bem visceral em termos de interpretação, e até hipnótico em certos pontos. Estamos desenvolvendo essa questão do show, pra tentar seduzir o público e tentar atingir não somente os ouvidos. Assim como eu espero ser arrebatado quando vou a algum espetáculo.

Rafael: Ainda não estamos em turnê. Podem esperar cada dia um novo show, com bastante espontaneidade e muito suor, sempre há muita entrega da banda nos shows. Procuramos não deixar um show muito “fechado” , sempre com possibilidade do inusitado e do imponderável.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Rafael: Apanhador Só, Astrovenga, Facção Caipira, Wagner José.

Leon: Amplexos, Duda Brack.

Aline: Whipallas, Sound Bullet, Taranta, Gabriel Gerszti, Negro Leo, Chico Chico, Ventre, Tacy de Campos

Kera and the Lesbians tenta ver o mundo com otimismo no single “Bright Future Ahead”

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Quando Kera Armendariz ganhou seu primeiro violão e começou a arranhar o instrumento no seu quarto, com 13 anos de idade, o embrião da banda californiana Kera and the Lesbians já estava formado. Em sua adolescência em San Diego, procurava criar uma banda punk só de mulheres, mas quem cruzou seu caminho foi Phil MacNitt, que começou imediatamente a trabalhar em músicas junto com ela. Logo apareceu Michael Delaney, um baterista que além de destruir na percussão ainda ajudou a criar os clipes e o logo da banda. E assim, estava formada a banda, que a líder descreve como “bipolar folk”.

 

O trio já lançou um EP em 2014, “Year Past 23”e um disco, auto-intitulado, em 2016. Agora, a banda prepara um curta-metragem, “Fall. Apart” para o começo do ano que vem, com três novas músicas. A LA Weekly chegou a falar que a banda era uma das principais da cena de Los Angeles para ficar de olho em 2015, o que catapultou Kera para shows dividindo o palco com Heathers, Girlpool e Devendra Banhart, que ela diz ser seu “guru”. Conversei com ela sobre a carreira da banda, o novo single “Bright Future Ahead” e os planos para o futuro:

 

 

– Como você começou sua carreira?
Eu acho que poderia dizer que começou no dia em que meus pais me compraram meu primeiro violão de Natal, daí eu tive meu começo precoce em vários projetos. Na verdade não existe dinheiro na música, então eu acho que você poderia dizer que este é meu projeto de paixão por enquanto. No entanto, estou esperando fazer mais turnês sob meu nome em um futuro próximo!

– Quais são suas principais influências musicais?
Isso varia e é muito difícil para mim escolher em um gênero. O que encontrei com artistas que admiro não é necessariamente a música, mas mais do que eles representam e como eles optam por expressá-la.

– Como descreveria seu som para alguém que nunca ouviu falar?
No passado descrevi minha música como bi-polar folk, mas sinto que meu som ainda está evoluindo. É tudo subjetivo, então deixarei o indivíduo decidir.

– Me conta mais sobre o material que você lançou até agora.
Eu lancei muito poucas coisas, mas tudo o que lancei me deixam muito orgulhosa. Eu nunca quero me sentir obrigada a escrever uma música. Até agora, eu lancei o EP “Year Past 23”, um disco completo e no início do próximo ano vou lançar meu primeiro curta, intitulado “Fall. Apart”, com três músicas novas!

– Você acabou de lançar “Bright Future Ahead”. O que você pode nos contar sobre essa música?
Eu escrevi essa música em um momento em que me senti mais vulnerável e sem esperança. Eu posso ser muito difícil para mim mesma, e de certa forma me lembrou de ter mais auto-compaixão para mim e para os outros. Eu escrevi isso como uma lembrança do empoderamento, especialmente nestes tempos sombrios.

– Você vê um futuro brilhante à nossa frente?
É tudo uma escolha de acreditar ou não na esperança ou sucumbir a ela. Eu escolho acreditar na esperança e no futuro brilhante.

– O mundo está mostrando aos poucos sua pior face e vemos muito preconceito se espalhando hoje em dia. Como você luta contra isso?
Esses preconceitos sempre existiram, e a retórica do racismo neste país, especialmente, nunca foi abordada diretamente. Eu tive que me perguntar em qual moral escolho viver, e como eu acho que os outros devem ser tratados. Eu não sou perfeita. É tudo um processo, mas eu escolho lutar contra isso tudo tentando o meu melhor para viver apaixonada.

– O que você acha sobre a indústria musical hoje em dia?
Uma piada.

– Quais são os seus próximos passos?
Eu adoro tocar com os outros, então vou fazer mais disso, e também lançar alguns singles novos.

– Recomende algumas bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção ultimamente.
Miya Folick, Molly Burch, Szalt (Companhia de Dança) e Jackie Shane.

Caio Moura prepara seu primeiro EP calcado na música negra brasileira, “Coração Balança”

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Caio Moura

O cantor, compositor e dançarino Caio Moura prepara um trabalho que transpira música negra. Com seu timbre característico e voz potente, ele lançará em breve seu primeiro disco, “Coração Balança”, com influências de funk, soul, MPB, samba e rock, tudo com muito balanço e suíngue.

Sua carreira começou como parte do coral da escola onde fazia o ensino fundamental. Após isso, fez o teste para ingressar no Coro Juvenil da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, onde trabalhou o canto erudito e se aprofundou mais na técnica vocal. Entrando na faculdade, montou a banda ZumBlack, misturando música brasileira com diversos outros ritmos.

O disco “Coração Balança” é produzido por João Guilherme, músico, compositor e filho da grande sambista Yara Rocha. O álbum conta com músicas que trazem em seu DNA muitas características do samba rock, samba e black music. Além disso, Caio já está começando a trabalhar em novas músicas, em um novo projeto rebuscando músicas regionais e locais, principalmente da periferia.

– Me fala um pouco mais do seu trabalho que está prestes a sair!

Meu trabalho chama “Coração Balança”, onde nas músicas falo de amor em várias formas, com muito swing que a música negra traz.

– Seu foco é principalmente a música negra? Como você definiria seu som?

Sim, pois a música negra permeia todos outros estilos musicais. Defino meu som como “Música Negra Brasileira” (risos).

– Quais as suas maiores influências musicais?

Minhas maiores influências são o samba, samba rock, soul music, black music internacional e a MPB.
Tenho como referência o Tim Maia, Seu Jorge, Djavan, Pedro Mariano, Michael Jackson, Stevie Wonder, Wilson Simonal, Simoninha, Gregory Porter, Walmir Borges, entre outros.

– E como foi a gravação desse disco?

O processo de gravação de meu disco foi bem moroso. Decidi gravar meu disco em 2014, quando fui passar o Reveillon no Rio. Foi tipo pular as 7 ondas e desejar que acontecesse no ano que estava entrando (risos). Logo quando voltei pra São Paulo, liguei para o João Guilherme, músico cantor, produtor musical e filho da grande sambista paulista Yara Rocha, acertamos todos os detalhes e começamos a produzir. Tive a sorte de ganhar a gravação através de um projeto que a Converse Rubber Tracks tinha aqui em São Paulo no Estúdio Family Mob, do baterista Jean Dolabella, ex baterista do Sepultura. Na Family Mob, pude fazer a captação das bases do meu disco. A captação das vozes foi feita no estúdio AMG do Marcelo Rodrigues, a mixagem e masterização também.

– E como foi o processo de composição dele?

O processo de composição dele foi através de parcerias com amigos que tive no passado, com o próprio produtor do meu disco e algumas canções que tinha com bandas que pertenci ao longo da minha carreira.

Caio Moura

– E como você começou sua carreira?

Comecei com 11 anos de idade, no Coral da Escola Marcílio Dias com a professora Léa Gomes Moratelli, escola onde fiz meu ensino fundamental. Devo minha vida artística a esta professora. Logo quando saí do ensino fundamental, pensei em parar de cantar pois via apenas como um hobby, mas meses depois minha tia me avisou sobre um teste que haveria no Coro Juvenil da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Me inscrevi, fiz o teste, passei e aí sim tive a certeza que queria ser cantor. Passei dois anos no coro e sair por conta que tinha que trabalhar , já tinha alcançado a maior idade. Nesse meio tempo entrei para um coral gospel chamado Projeto Afirma, foi quando me apresentaram a black music norte americana, a partir dali que pude firmar a minha característica de canto que utilizo. Fiquei dois anos no gospel e saí por questões ideológicas e de crenças. Anos depois, ingressei na Universidade Zumbi dos Palmares e já no primeiro ano, formei a Banda ZumBlack, com Fábricio Máximo e Moacyr Garrido, tocamos muita música preta naquela época e me ajudou bastante a definir meu estilo. Nesse tempo também fiz parte do coral da universidade. Junto com esse período universitário, comecei a trabalhar na Escola Técnica de Artes e aí foi um divisor de águas na minha vida pois conheci muita gente que contribuiu e contribui no meu trabalho até hoje. Me formei em Técnico em Canto na escola e partir daí comecei a dar andamento ao meu trabalho solo.

– Como você vê a cena independente?

Eu vejo a cena independente muito rica e com uma grande diversidade, tem muita coisa boa na rua mas acho que a galera devia ter um cuidado maior com os trabalhos apresentado.

– Quais os seus próximos passos musicalmente?

Em breve lançarei um single do disco e um clipe, o lançamento oficial do disco seria em dezembro mas vou lançar em março de 2018.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Camila Brasil, Jota Pê, Indy Naíse, Luedji Luna, Nina Oliveira, James Bantu, Ursso e Bruna Black.

Empoderamento feminino, cultura negra e os cenários capixabas no rap das Melanina MCs

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Melanina MCs
Melanina MCs

“Somos mulheres negras, nascidas e criadas em periferia, que fomos entender o feminismo na correria do dia a dia depois de bater muita cabeça”, conta a MC Mary Jane. E foi assim que se formou o grupo Melanina MCs, em 2013, buscando transmitir sua mensagem de empoderamento feminino, respeito à cultura negra e todas as coisas que devem ser valorizadas ou combatidas em sua área, a cidade de Vitória, no Espírito Santo.

Formada por Mary Jane, Lola, Geeh e Afari, a banda acaba de lançar o single “Cenários”, que ganhou clipe dirigido por Juane Vaillant. A música fará parte de “Sistema Feminino”, sucessor do EP “Tesouro Escondido”, lançado no ano passado. O disco de estreia do quarteto tem previsão de lançamento para este mês. “A gente se apresenta no disco, colocamos toda nossa essência nesse projeto e tentamos fazer com que fosse o mais plural possível. As músicas são sensíveis, mas ao mesmo tempo vem um tapa atrás do outro, porque é isso mesmo, sabe? O sistema feminino é uma rede e esperamos que cresça cada vez mais”, explica Geeh.

– Como a banda começou?

Lola: Duas de nós, eu e Mary Jane, através do convívio, descobrimos a cena cultural do rap no estado. Com o tempo formamos um grupo em 2013, a Geeh ja tinha envolvimento na cena, batalhava, somou no grupo e a Afari veio depois pra fechar o bonde (risos).

– Quais as principais influências do grupo?

Mary Jane: Desde que percebemos a importância de reconhecermos nossa identidade na música e ideológica ampliamos muito nossas influências. Somos mulheres negras, nascidas e criadas em periferia, que fomos entender o feminismo na correria do dia a dia depois de bater muita cabeça. Então hoje a gente tem como referência uma diversidade de nomes da música brasileira e internacional, ritmos pra além do rap e bandas da cena independente que conhecemos, mas que sobretudo dialogam com o que somos, gostamos de fazer e acreditamos. Bora citar uns nomes: diva Elza Soares, Flora Matos, Psalm One, Oshun, Ventre, Baco Exu do Blues, RZO.

– Vocês acabam de lançar o single “Cenários”. Podem me falar um pouco mais sobre o que esta música significa para vocês?

Afari: Essa foi uma das músicas mais marcantes pra nós, com certeza! Ali foi o momento de expor nosso cotidiano, o que pensamos, onde moramos e principalmente, nossa opinião mais sincera sobre todas as coisas que devem ser valorizadas e mudadas lá. Rotina mesmo sabe? Convidamos mais mulheres negras da Grande Vitória que são artistas e também vivem a correria de garantir o pouco de cada dia. Tivemos com a gente: dançarina, DJ, estilista, outras minas da música e por aí vai. E também não podemos deixar de citar o trabalho de todas as pessoas maravilhosas que fortaleceram a gente pra o som e o videoclipe. A participação da Anna Tréa, da Thaysa Pizzolato, Jone BL e do Henrique Paoli na faixa do single, além do trabalho do Rodolfo Simor, deram vida ao instrumental da música. O videoclipe nem se fala, né? Produção e equipe de audiovisual pesadona!

– Vocês são um grupo de rap, mas transitam por outros estilos. Quais estilos compõe o som da Melanina MCs?

Mary Jane: Nesse último projeto decidimos partir para músicas com composições mais orgânicas, tanto nos instrumentais, como nas letras. Todos esses detalhes têm influência do funk, do reggae e do rock, soul, músicas de raiz negra.

Melanina MCs

– O que podemos esperar do próximo disco, “Sistema Feminino”? Me falem como tá sendo a produção dele.

Geeh: O projeto desse disco foi muito especial. O disco é voltado pras mulheres, pra cultura negra, fala do cotidiano, o que vemos nele. Até por isso o processo das composições foi muito inspirador, fizemos nossas rimas pensando que poderiam ser de todas as mulheres. Mudou alguns conceitos, a estrutura das musicas, a naturalidade com que são transmitidas, e a pegada é bem mais orgânica do que de costume, isso deu uma nova identidade ao grupo. A gravação foi uma experiência nova, entendemos nesse processo o que era o sistema feminino na busca por autonomia e dia após dia fomos vendo o conceito do disco se materializar na produção, na equipe e entre nós. O que as pessoas podem esperar disso? A gente se apresenta no disco, colocamos toda nossa essência nesse projeto e tentamos fazer com que fosse o mais plural possível. As músicas são sensíveis, mas ao mesmo tempo vem um tapa atrás do outro, porque é isso mesmo, sabe? O sistema feminino é uma rede e esperamos que cresça cada vez mais.

– Podem me contar um pouco mais sobre “Tesouro Escondido”, do ano passado?

Lola: Tesouro Escondido foi nosso primeiro projeto divulgado. Foi ali que entendemos muito sobre nossa vontade de fortalecer nosso trabalho e viver dele. O lançamento foi exclusivamente virtual, mas chamou a atenção de muitas pessoas. Um grande passo pra nós do grupo, por ter marcado o fim de um ciclo, e o início de outro ainda melhor. Chegamos no “Sistema Feminino” através desse EP.

– Vocês são de Vitória, no Espírito Santo. Como é a cena do rap por aí?

Afari: A cena local é bem abrangente, mas é claro que poderia contar com mais investimento e políticas públicas pra fortalecer o rolê. Batalhas de MCs, apresentação de grupos de música, dança de rua, DJs, tudo isso tem enorme importância aqui e a galera reconhece. O público é fiel e comparece em todos os eventos, mobilizações e ações culturais. A cena do rap feminino ta crescendo agora, minas batalhando e se envolvendo cada vez mais, inclusive como grafiteiras e bgirls. Sentimos faltas de minas DJs, mas já temos visto várias botando a cara e aí ninguém vai segurar o bonde.

– Vocês tem uma proximidade com artistas da cena independente que inclusive não são do rap, como Anna Tréa, Larissa Conforto (Ventre), Carol Navarro (Supercombo), Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens), Henrique Paoli (My Magical Glowing Lens/ André Prando) e Fepaschoal, que participam da gravação do disco. Como é hoje em dia essa miscigenação maior de estilos?

Lola: Durante a produção surgiram muitas influências, fomos da Dinna Di ao Baiana System, muitas referências novas mas sem perder a linha underground do rap. Então o disco passa pelo rap, o trap, o R&B, o soul e ritmos latinos. Nossa parceria com o Paoli vem desde o EP. Além disso, participamos de festivais que não eram da cena hihop e acabamos ficando próximas de minas e bandas de tudo quanto é tipo de música. Foi natural trazer essa galera e influências pro disco. Fizemos o pré-lançamento no SESC Glória aqui em Vitória e fomos acompanhadas por uma banda maravilhosa, a Thaysa Pizzolato nos teclados, a Maria Oliveira na guitarra, a Natalia Arrivabene na bateria e o DJ Jone BL, o único da cena do rap. A real é que essa diversidade somou muito e entendemos isso, então enquanto o Sistema Feminino rodar, nós vamos juntas nessa porrada de sons.

Melanina MCs

– Quais os próximos passos da Melanina MCs?

Geeh: Bom, estamos planejando um lançamento pra logo! O disco ta no processo final, estamos só a ansiedade pra iniciar a circulação e mostrar o que saiu dessa roda de conversa. Estamos estudando alternativas pra apresentar o trabalho em outros estados, começando por São Paulo.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Todas: É muita gente, vamos lembrar de alguns: Rincon Sapiência, Flora Matos, Thassia Reis, Baco Exu do Blues, e tem o trampo novo do Fabriccio aí, sonzera demais!

Quinteto paulistano Grená apresenta ecos de rock e ritmos brasileiros em seu primeiro EP, “Azul”

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Grená

A Grená – formada por Uirá Ozzetti (violão, guitarra e vocal), Rodrigo Lavorato (baixo e vocal), Dau Morelli (teclado e efeitos), Thiago Boemeke (violão, guitarra e vocais) e Leandro Amorim (bateria e percussão) – é o fruto de uma amizade transformada em música. Formada em 2012, a banda lançou seu primeiro trabalho, o EP ‘Azul’ em 2016 e desde então tem se apresentado incansavelmente, levando sua mistura de rock, MPB e ritmos brasileiros a toda e qualquer plateia que esteja disposta a abrir seus ouvidos.

O Grená apareceu nas listas ‘Os Discos de Abril de 2016’ do site Criado Mundo e ‘Melhores Discos’ do Hominis Canidae e já começou a preparar seu primeiro disco. “Temos uma série de shows até o final do ano e no início de 2018 vamos gravar o disco. Em breve nós vamos lançar um crowdfunding e partiremos para a concepção fora do campo das ideias”, contam.

– Como a banda começou?
A Grená surgiu através da amizade do Rodrigo e Uirá e começou a se tornar projeto nos idos de 2012.

– Porque o nome Grená?
A história é super engraçada! O Uirá e o Rodrigo estavam reunidos, pensando numas músicas mas ainda não tinham um nome e não sabiam o que fazer. Com esses problema nas mãos tiveram uma ideal genial: Abrir o dicionário, numa página aleatória, e o nome da banda seria o primeiro nome que surgisse no canto superior esquerdo. Assim o nome da banda surgiu, a gente jura! (risos). Óbvio que se fosse um nome muito ruim nós não teríamos levado à frente, porém, à partir desse nome muito do universo que criamos para o projeto foi sendo definido.

– Como vocês definiriam o som da banda para quem nunca ouviu?
Misturamos sons do baião até o rock progressivo, onde elementos timbrísticos que tenham uma personalidade própria são muito bem vindos.

– Quais as principais influências musicais de vocês?
No geral, a música que a gente compõe, enquanto arranjo compartilhado, é ampla e que não estão, as vezes, completamente ligadas a música de forma idiomática. O Dau estuda Engenharia Civil na Politécnica da USP, o Rodrigo é cineasta e já tocou em grupos de jazz, o Thiago é designer e também já tocou em grupos instrumentais, o Leandro além de tocar bateria é percussionista contemporâneo e toca em orquestras, o Uirá é violinista e também já tocou em orquestras. Enfim, talvez a gente veja essa nossa relação com a composição de forma mais ampla, onde a relação do que chega ao público em forma de linguagem musical é essencialmente composta por uma infinitude de interações com outras áreas que podem ou não ser artísticas e, claro, tudo que a gente ouve está inserido nesse ambiente.

– Me contem um pouco mais sobre o material que vocês já lançaram.
O EP teve um processo natural de criação enquanto foi tomando forma no estúdio. Muito do que foi gravado lá e hoje compõe o que a gente apresenta como resultado do nosso trabalho foi acontecendo durante o tempo de gravação. Nós contamos muito com a ajuda do Bruno Prado na hora de inserir novas relações timbrísticas como as guitarras e a percussão e isso foi fundamental para que ele assinasse também a produção. Quando fizemos o lançamento em 2016, o Lê tinha acabado de entrar na banda e trouxe mais um elemento, a bateria.

– Vocês estão trabalhando em novos sons, é verdade?
Sim, estamos aumentando nosso repertório autoral e estamos com projeto para gravar nosso primeiro disco. Acreditamos que é um processo natural que lateja em meio a esse momento de criação que vem rolando desde o EP até o que estamos compondo agora.

Grená

– Vocês hoje em dia estão em turnê, fazendo shows em vários lugares. Como tá sendo?
Esse ano tem sido bastante especial, estamos rodando bastante com o show que contém as músicas do EP e as canções novas que vão pro disco e, tem sido bastante intenso trabalhar em função de cada show. Agora queremos expandir um pouco, tentar sair das fronteiras de São Paulo e continuar trabalhando.

– Como vocês veem o desenvolvimento da cena independente?
Depois dos anos 2000 essa é a cena que mais se fortaleceu em diversas regiões do País. Muito disso, sem dúvidas, faz parte da conexão imediata que a internet trás. É um percurso natural.

– Qual a opinião de vocês sobre a música mainstream hoje em dia? Porque ela se descolou tanto dos novos artistas que o mundo independente vem lançando?
O mainstream funciona como sempre foi, porém, sem tanto impulso de gravadoras. Ele tá aí e ainda é muito forte, no entanto os artistas que ainda despontam num mercado global são aqueles que trouxeram pra si o papel dessas gravadoras. É difícil definir porque se descolou mas quem já estava no mainstream antes da dissolução das gravadoras soube lidar com um caminho muito particular. Aparentemente, quem tá vindo precisa lidar com a escolha desse caminho e traçar um planejamento para que isso aconteça, não é nada tão de outro mundo assim, basta lembrar de uma entrevista do Cesinha (baterista e produtor de vários artistas independentes) há uns 4 anos atrás, ele falava algo como “faça você mesmo”, o cara fez cursos, se aperfeiçoou, aprendeu a gravar, montou um estúdio e foi seguindo o trabalho dele. A gente vai aprendendo com o mercado porque ele não é estático, ele é composto por todos nós.

Grená

– Quais os próximos passos da banda?
Temos uma série de shows até o final do ano e no início de 2018 vamos gravar o disco. Em breve nós vamos lançar um crowdfunding e partiremos para a concepção fora do campo das ideias.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!
Essa é uma bem difícil, e já deu para perceber que nós temos várias direções. Mas ouçam Divina Supernova, Marinho, Necro, Papisa, Versos que Compomos na Estrada, Amanticidas.