Cantarolando: a música folk-rock-ambientalista de Alceu Valença em “Espelho Cristalino”(1977)

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Alceu Valença - "Espelho Cristalino"

Cantarolando, por Elisa Oieno

Conversando com alguns entusiastas da música ‘folk’ por esses dias, chegamos à conclusão de que, aqui no Brasil, não costumamos fazer uma associação direta entre música pop e o nosso folclore. Existe uma separação estética muito grande entre o folclore brasileiro e a música pop.

Porém, há exceções. Principalmente no contexto da efervescência criativa do Brasil nos anos 70, pela primeira vez na música brasileira houve um esforço consciente para trazer os sons, ritmos e temas tipicamente brasileiros e regionais ao contexto jovem, rebelde e desafiador que o rock representava.

Foi o que fez o pernambucano Alceu Valença, executando um som pesadíssimo, progressivo e ainda assim absolutamente nordestino. Com sua figura mezzo guerilheiro do sertão mezzo Ian Anderson do Jethro Tull, suas letras – escritas com erudição acadêmica e com a sagacidade herdada dos tradicionais repentistas – mesclavam fraseados libertários ‘subversivos’, críticos à ditadura militar, com temas e figuras típicas do folclore nordestino.

Além disso, eram frequentes em suas músicas também as críticas ao estilo de vida moderno e industrial, tecendo imagens vívidas da natureza brasileira em contraponto aos símbolos da cidade e ao estilo de vida frenético industrial. É o caso da faixa-título do disco “Espelho Cristalino”(1977).

Essa rua sem céu, sem horizontes
foi um rio de águas cristalinas
serra verde molhada de neblina
olho d’agua sangrava numa fonte
meu anel cravejado de brilhantes
são os olhos do Capitão Corisco
e é a luz que incendeia meu ofício
nessa selva de aço e de antenas
beija-flor estou chorando suas penas derretidas na insensatez do asfalto

Essa canção foi feita em homenagem ao ambientalista, naturalista, indigenista e especialista em beija-flores Augusto Ruschi. Ele foi uma figura muito importante em disputas contra empresas e órgãos públicos na defesa de questões do meio-ambiente, em uma época em que tais preocupações eram precariamente difundidas. Ruschi foi um dos pioneiros no combate ao desmatamento da Amazônia e um dos primeiros cientistas a alertarem sobre os impactos do uso indiscriminado de agrotóxicos.

A letra de “Espelho Cristalino”, como diversas de Alceu, é repleta de metáforas e imagens poéticas. Essa é uma das minhas letras favoritas. Viajando um pouco aqui, ela me lembra a vista da Serra do Mar aqui de São Paulo, a caminho da Baixada Santista. Da mesma forma que descreve a música, há a invasão da indústria e do “progresso” na paisagem serrana daqui, especialmente quando se chega perto de Cubatão.

Assim como no Cinema Novo de Glauber Rocha, elementos do cangaço também são frequentes nas canções de Alceu, como a alusão aos “olhos do Capitão Corisco”, que foi um dos mais famosos membros do bando de Lampião. O cangaço foi um dos principais e mais marcantes fenômenos sociais do Nordeste brasileiro, deixando marcas e memórias vívidas para toda uma cultura que, junto com outros inúmeros elementos, faz parte da nossa identidade. Tem coisa mais ‘folk-rock’ que isso?

Cantarolando: “He Was My Brother”, a homenagem a um ‘freedom rider’ de Simon & Garfunkel

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Simon e Garfunkel

Cantarolando, por Elisa Oieno

O single “He Was My Brother”, presente no disco de estréia do Simon & Garfunkel, “Wednesday Morning, 3 A.M” (1964) é uma canção folk super simples e muito comovente, não só pela melodia, mas também pelo tema: a morte de um estudante envolvido em um importante movimento pela igualdade racial e pela afirmação de direitos civis nos EUA.

Freedom rider
They cursed my brother to his face
“go home, outsider”
This town’s gonna be your burying place

“Freedom rider”, algo como “cavaleiro da liberdade”, já seria uma expressão estilosa o suficiente para falar de alguém lutando pelos direitos civis, aquela coisa romântica que fazemos com alguma figura que admiramos muito. Mas na verdade, se refere ao movimento dos “Freedom Riders”, pessoas que viajavam pelos EUA para se dirigir aos hostis terrenos do Sul, não com seus cavalos – ou motocicletas, como o nosso inconsciente pode presumir -, mas de ônibus interestaduais, com a finalidade de forçar o cumprimento de uma decisão inédita da Suprema Corte dos EUA.

Esse novo precedente da Suprema Corte reconhecia que leis estaduais de políticas de segregação racial – as quais ainda eram vigentes em diversos estados no Sul dos Estados Unidos – não se aplicavam em estabelecimentos localizados em terminais rodoviários, uma vez que a segregação racial em ônibus interestaduais já era considerada inconstitucional. Tratou-se de um primeiro passo para o enfraquecimento de leis racistas naqueles territórios.

Assim, os Freedom Riders, compostos necessariamente por negros e brancos sentados em bancos misturados nos ônibus, cruzavam o país de ônibus e se dirigiam aos estabelecimentos que serviam as rodoviárias para simplesmente exercerem seu direito de, por exemplo, sendo negros, sentarem-se em uma área do balcão da lanchonete “só para brancos” e serem servidos normalmente. Claro que os donos de estabelecimentos, moradores e autoridades locais não gostaram muito da idéia, causando a hostilização e a prisão e de diversos riders.

Houve também a reação violenta de grupos organizados, as mobs, tais como o infame Ku Klux Klan, responsáveis por ataques ferozes aos ônibus, linchamentos e até mortes. Como foi o caso de três ativistas, mortos em 1964, no Mississipi. Entre eles, estava Andrew Goodman, que era amigo e colega de faculdade de Paul Simon e Art Garfunkel. Apesar de não se saber ao certo se a música foi escrita antes ou após o incidente da morte, a homenagem ao amigo é óbvia.

 

He was singing on his knees
An angry mob trailed along
They shot my brother dead
Because he hated what was wrong

Apesar da reprovação massiva da mídia, tratando o movimento como “suscitação à violência”, “incentivo à perturbação da paz” – ainda bem que isso não acontece por aqui, né – , e com as autoridades do Sul contando com uma bela ‘passada de pano’ do governo Kennedy, os Freedom Riders abriram caminho para mudanças reais e o fortalecimento de diversos movimentos Black Power e da influência do discurso de Martin Luther King.

Assim, mais do que uma canção simpática a uma causa, seguindo o protocolo do quase sempre obrigatório engajamento do artista folk dos anos 60, “He Was My Brother” é um relato meio emocionado e comovido, cheio de admiração sobre um amigo que simplesmente não se conformava com o que estava errado. Esse sentimento ainda soa tão atual, e pelo menos em mim dá aquele misto de inconformação, emoçãozinha e esperança.

Cantarolando: as cenas bucólicas de “Diamond Day”, de Vashti Bunyan (1970)

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British folk singer Vashti Bunyan, May 1965. (Photo by Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images)

Cantarolando, por Elisa Oieno

Ouvindo essa linda melodia de apelo pop e imergindo em suas imagens sinceras pontualmente rurais e pastoris, é difícil entender porque na época do seu lançamento, em 1970, a canção “Diamond Day”, presente no disco “Just Another Diamond Day”, não se tornou um sucesso instantâneo e um hit que acompanharia a crista da onda do folk britânico.

Muito difícil entender, ainda mais considerando que o disco foi produzido pelo experiente Joe Boyd, que reuniu arranjadores de cacife que tinham expertise no gênero como Robin Williamson, do Incredible String Band, e Dave Swarbrick e Simon Nicol do Fairport Convention – bandas que estavam no auge e tinham importante relevância na disseminação do folk britânico para o mundo.

Não deu certo, pelo menos não até mais ou menos 35 anos depois do lançamento, quando o disco retomou a atenção da crítica e adquiriu um improvável público com seu status de clássico cult. Hoje em dia, por causa desta “redescoberta” de seu disco, a cantora até eventualmente faz pequenas em turnês e lançou outros álbuns: “Lookaftering” (2005) e “Heartleap” (2014).

Mas na época, isso foi uma grande decepção para a jovenzinha Vashti Bunyan, que já havia se decepcionado antes, com o total fracasso comercial do single “Some Things Just Stick In Your Mind” (1965), canção assinada por Jagger/Richards e produzida por Andrew Loog Oldham com a intenção de tornar Vashti uma nova Marianne Faithfull.

Desiludida com a indústria da música e seguindo suas inclinações mais reclusas, Vashti então partiu para uma road trip a cavalo e carroça com seu namorado e um cachorro através da Inglaterra para se instalar em uma comunidade “hippie” organizada pelo músico Donovan. A viagem durou quase um ano e meio, e, apesar de não ter alcançado o destino planejado – a idéia da ‘comuna’ não chegou a prosperar – rendeu a Vashti diversas canções que fariam parte do Diamond Day. Por causa disso, as cenas típicas da vida do campo no disco são bastante literais e cantadas com intimidade.

Just another field to plough
Just a grain of wheat
Just a sack of seed to sow
And the children eat
(só mais um campo para arar/só um grão de trigo/ só um saco de sementes para semear/ e as crianças comem)

Curiosamente, Vashti afirma que naquela época estava buscando uma carreira como cantora pop, e chegou a se decepcionar com o som alcançado em “Diamond Day”, que ficou com uma abordagem muito mais folk. Naquela época, os arranjos das músicas pop eram orquestrados e elaborados, em contraponto aos arranjos minimalistas e intimistas de “Diamond Day”.

Porém, hoje sabe-se que o disco não poderia servir melhor à personalidade e à voz de Vashti, que nesta canção soa tão íntima e sincera, com uma vibe campestre difícil de se conseguir a não ser que você realmente tenha estado lá, como ela esteve.

No fim das contas, na verdade, ouvindo “Diamond Day” é difícil imaginar Vashti Bunyan vivendo qualquer outra vida senão a que ela vive: longe do showbizz, praticamente reclusa e feliz no campo com sua família.

Cantarolando: o quase jazz de “Your Last Affront”, do Black Flag (1985)

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Cantarolando, por Elisa Oieno

Há um tempo peguei para ouvir o disco “The Inner Mounting Flame” (1971), do Mahavishnu Orchestra. Estava ouvindo essa banda com um som meio progressivo, meio jazz fusion, com todo o pacote de ritmos quebrados, acordes dissonantes, uma liberdade fluida e um balanço, e a guitarra do John McLaughlin fazendo intervenções que, apesar de absurdamente habilidosas, nada têm de firulas e de ‘punhetagem’. Que beleza. Conhecido por tocar na banda da “fase elétrica” do Miles DavisTony Willians Lifetime -, sua guitarra tem um fraseado de fuzz intenso, rasgado e criativo que lembra… Black Flag?

Segui ouvindo o disco até que, então, a suspeita se confirma com a faixa “You Know You Know”: as notas são idênticas ao começo da “Life of Pain” do Black Flag.

De fato, Greg Ginn se declara fã assumido de Mahavishnu Orchestra, tendo o John McLaughlin como uma de suas maiores referências na guitarra. Sua banda preferida é o Grateful Dead, tipicamente improvisacional e livre em estrutura. Fazer um som que lembra jazz e querer fazer improvisos ‘psicodélicos’ não combinava com a cena de hardcore punk do início dos anos 80. 

Tanto que, no início da cena punk, Greg Ginn era desencorajado a fazer longos ensaios com a banda e não havia espaço para improvisos nas músicas, que deviam ser simples e diretas, já que o punk e o hardcore tinham como parte de suas afirmações musicais justamente a contraposição às composições complexas e virtuosas que imperaram no rock da década anterior.
Porém, ao longo da carreira do Black Flag, ele conseguiu introduzir a referência aos colegas de banda, principalmente na época de Kira Roessler no baixo e Bill Stevenson na bateria, que acabaram abraçando elementos do Mahavishnu Orchestra e King Crimson. Principalmente nos discos Family Man” (1984) e The Process of Weeding Out” (1985), em que está a canção homenageada de hoje.

A faixa “Your Last Affront” abre o disco (na verdade, um EP) e já deixa clara a intenção: muito mais experimental e improvisada do que o hardcore, mas sem deixar de ser direto e pungente.

Cantarolando: A experiência de “That’s it For The Other One”– Grateful Dead (1968)

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Grateful Dead

Cantarolando, por Elisa Oieno

A faixa que abre o disco “Anthem For The Sun” (1968), foi a que me fez gostar de Grateful Dead definitivamente. Eu me lembro bem da primeira vez que ouvi. Estava com os fones de ouvido andando na rua e conforme a música foi tocando eu literalmente fiquei paralisada: tive que parar de andar e sentar em um canto na rua para ouvir tudo com calma, como uma experiência. Cheguei atrasada para a aula, mas com a cabeça completamente mexida.

Na verdade, “That’s it For The Other One” é uma suíte formada por duas músicas que eles tocavam ao vivo. A primeira parte é uma canção do Jerry Garcia chamada “The Cryptical Envelopment”, seguida por uma transição que leva à segunda parte, escrita pelo Bob Weir, apelidada de “The Other One”. Logo depois, a música retorna para um trecho curto de “The Cryptical Envelopment”, seguida novamente por uma explosão instrumental até o fim.

Uma das coisas que chamam atenção nessa música – aliás, nesse disco inteiro – é a mixagem. Em uma mesma faixa, podemos perceber várias texturas diferentes especialmente nas transições entre as partes. Isso acontece porque na gravação do disco eles utilizaram trechos camadas de vários takes diferentes, inclusive de ‘jams’ e shows ao vivo. A gravação desse disco no estudio foi resultado de muita experimentação – de sons e substâncias, em uma época em que a cultura do LSD estava no auge.

O Grateful Dead foi uma das principais bandas da cena ‘hippie’ de São Francisco. Eram moradores de um apartamento em Height-Ashbury, talvez a esquina mais lendária quando se fala em movimento de contracultura americano e em ‘verão do amor’. Eles foram trilha sonora constante das festinhas comunitárias e lisérgicas da região, improvisando por horas e horas, enquanto o pessoal dançava, se divertia e até descrevia experiências transcedentais com o som da banda.

A parte do Bob Weir da “That’s It For The Other One”, dizem, descreve uma viagem de ácido e todas as suas nuances rítmicas, imagens e um clímax. Há também referências claras ao ônibus dos “Merry Pranksters”, em que o escritor Ken Kasey organizou uma viagem que atravessou os Estados Unidos em 1964, consumindo livremente o LSD, que ainda não era proibido, e difundindo uma imagem de liberdade, comunidade e diversão, pouco antes de tais ideais se desdobrarem no movimento ‘hippie’.

Também faziam parte do grupo, entre muitos outros membros, o escritor Tom Wolfe, que descreveu a experiência do ônibus no livro “O Teste do Ácido de Refresco Elétrico” (“Electric Kool-Aid Acid Test”), e Neil Cassady, o “muso” beatnik. Conforme descrito exaustivamente no livro “On The Road” de Jack Kerouac, Cassady sempre se colocava no volante, dirigindo e falando freneticamente por horas a fio. Na música de hoje do Grateful Dead, ele aparece como o Cowbow Neil:

The bus came by and I got on, that’s when it all began
There was Cowboy Neal at the wheel of the bus to never ever land

Neil Cassady

Curiosamente, a letra definitiva de “The Other One” foi escrita por Weir em uma tacada só, exatamente na noite em que Neil Cassady faleceu. Para ele, acabou sendo como uma homenagem e resultado de algum tipo de sincronia cósmica. De qualquer forma, uma coisa é certa: o Grateful Dead acabaram conseguindo fazer uma música estranha e atraente, que te faz a parar, curtir e viajar junto com eles.

Cantarolando: a voz etérea de “Ivo” (1984), do Cocteau Twins

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Cocteau Twins
Cocteau Twins

A primeira vez que ouvi a banda escocesa Cocteau Twins, eu e meu namorado estávamos vagando por um sebo na Paulista. Nos auto-falantes da loja começou a tocar uma música com o vocal cheio de reverb e um muro de noise atrás, a linha de baixo bem marcada e uma bateria eletrônica. De primeira e com um ouvido descuidado, presumi que se tratava de uma banda daquela leva do ‘revival’ dreampop e pós-punk dos anos 2000. Mas logo deu para notar que os timbres eram inconfundivelmente anos 80. A moça da loja nos disse que aquilo era Cocteau Twins, e mal sabia eu que, a partir de então, iria ficar cantarolando suas músicas quase que diariamente, em alguma hora qualquer do dia.

Também pudera: as linhas melódicas cantadas pela Elizabeth Fraser, vocalista da banda, são tão originais mas ao mesmo tempo acessíveis e repetitivas, que é difícil esquecer depois de ouvir.

A canção “Ivo” é um bom exemplo disso. Faz parte do disco “Treasure” (1984) sendo o terceiro álbum da banda, mas o primeiro a ser lançado no Brasil. Esse disco, assim como toda a discografia do Cocteau Twins até 1990, foi lançada pelo selo inglês 4AD, famoso por lançar discos de artistas da cena alternativa dos anos 80 e 90 como Bauhaus, Throwing Muses e Pixies, firmando-se como um grande selo alternativo até os dias de hoje. O presidente do selo se chama Ivo Watts-Russel, possivelmente homenageado na canção do Cocteau Twins.

A origem escocesa da banda e suas letras com palavras de origem gaélica, dão uma atmosfera meio misteriosa, meio celta tradicional para as melodias do Cocteau Twins. Por causa dessa atmosfera, eles chegaram até a ser chamados de “new age”, rótulo que fortemente repudiavam.

Elizabeth Fraser chegou a ser considerada uma das melhores cantoras britânicas pelos críticos, que se referiam à sua voz como a “Voz de Deus”, mas isso sempre a deixou meio constrangida.

As letras geralmente são compostas por palavras escolhidas por sua sonoridade, não necessariamente por seu significado. Tanto que uma das características marcantes das letras – que deixavam os jornalistas musicais espumando de curiosidade por um significado – é a chamada glossolália, o uso de palavras e frases que simplesmente não existem.

Assim, os vocais de Fraser devem ser ouvidos como um instrumento da banda, mais como uma textura melódica para o som do que como portadores de uma mensagem específica. O que, no fim das contas, nós acabamos fazendo com a maioria das músicas que escutamos em inglês – a maioria de nós, eu digo, que não é fluente ou nativo da língua – ou em outro idioma: quando não há aquela identificação imediata entre o significado da letra e a música, mas os vocais e a pronúncia das palavras são tão importantes para o som quanto a guitarra, o baixo e a bateria.

Cantarolando: “Waiting for The Band”, do Nicky Hopkins (1973)

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Cantarolando, por Elisa Oieno

Os pianos do Nicky Hopkins merecem uma atenção toda especial. Para mim, ele dá a alma certa para muitas músicas que ouvimos tantas vezes, e nem nos damos conta de sua importância. Dá para dizer que ele foi um dos principais pianistas do rock nos anos 60 e 70, escreveu e tocou linhas de piano icônicas para muitas músicas que adoramos de diversas bandas importantes e, mesmo assim, permaneceu praticamente anônimo. Ossos do ofício de um músico de estúdio.

.Suas contribuições mais marcantes provavelmente foram nos Rolling Stones, como por exemplo o pianão cheio de groovie do “Simpathy For The Devil” (1968), e o piano lindo das baladas tipo “Angie” (1973). Ele participou de boa parte da discografia dos Stones, e chegou a fazer turnês com eles entre 1971 e 1973.

Ele também fez parte da formação de estúdio dos Kinks, e gravou com eles os discos “The Kink Kontroversy” (1965), ”Face to Face” (1966), “Something Else by The Kinks” (1967) e “The Kinks Are the Village Green Preservation Society” (1968).

Além disso, chegou a fazer parte do Quicksilver Messenger Service por um período curto de tempo, porém sua contribuição foi especialmente marcante para a banda no disco “Shady Grove” (1969). Isso sem contar as participações avulsas em gravações de artistas desde Beatles (e seus integrantes em trabalho solo), Jefferson Airplane, Joe Cocker… o currículo desse cara é gigantesco. Vejam a impressionante lista das participações do Nicky Hopkins aqui.

Todos os depoimentos que se encontra na internet a respeito do Nicky Hopkins, pelos artistas que já trabalharam com ele, dão a entender que ele era um cara muito gente boa, e que deixava seu ego de lado para tocar. Realmente, o som dele é super sofisticado, mas ao mesmo tempo sem firulas e está ali para dar brilho para as músicas. Dar brilho para as músicas dos outros, e muitas vezes sem levar crédito por isso. 

Mas em 1973, durante os intervalos das gravações do “Living in The Material World”, do George Harrisson, no qual participava, Nicky Hopkins gravou seu disco solo, autoral e cantado: “The Tin Man Was a Dreamer”. É neste disco que está a música de hoje, “Waiting For The Band”.

Esta música, com a participação do George Harrisson nos seus típicos slides de guitarra, descreve um sincero cenário de um músico de estúdio esperando por horas e horas a banda chegar. Muito fácil de imaginar ele agoniado esperando pelos “rock stars” madrugada adentro, até amanhecer.

And if the band don’t come by early in the morning
I’II have to find a way to have myself survive
Cause if the band don’t show by early in the morning
Then I’II be over darling, waiting for the band to come

Slower, I’m getting slower
I’ve heard these songs so much before
Lower, I’m sinking lower
Pretty soon you’ll find me on the floor
Under the piano waiting for the band to come

O Nicky Hopkins sofria de doença de Crohn, que o impedia de sequer tentar levar uma vida de “rockstar” e tentar montar sua própria banda e fazer longas turnês, fato que constatou durante uma das turnês que fez com os Stones. Mas isso não o impediu de deixar sua marca definitiva, mesmo que quase desconhecida, na história do rock.

Cantarolando: Incredible String Band – “No Sleep Blues” (1967)

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Cantarolando, por Elisa Oieno

“No Sleep Blues” do Incredible String Band talvez seja uma das minhas canções favoritas. É uma bela e sincera descrição de não conseguir dormir, naquele ponto em que ficamos meio dormindo e meio acordados, fazendo com que as coisas que vemos no nosso quarto se misturem com imagens da nossa cabeça e pensamentos aleatórios e trocadilhos bobos, daqueles que fazemos quando nossa mente está a mil por hora enquanto todos dormem.

As fendas estalam as janelas, os uivos prendem o assoalho
A chuva apodrece as vigas
e você tem mesmo que roncar?
É um clima muito inclemente, para a estação da noite
Aquele rato está jogando futebol? Oh, eu pensei que eles não gostavam da luz

O refrão é meio que um resmungo do coitado sujeito tentando dormir, que está começando a sentir aquela “tristezinha”, ou simplesmente o “blues” da insônia. Isso tudo em uma melodia que é super inusitada, como a maioria das músicas do Incredible String Band:

E o amanhecer vem entrando de fininho quando ele pensa que eu não estou vendo
Eu estou começando a sofrer, cara
eu sabia mas agora eu acredito, cara, dizem que dormir é um barato
Eu quero deitar, mas desculpe se te acordei, é que eu estou com o “blues” de não dormir.

Essa banda se tornou um grande expoente do folk britânico nos anos 60, mais conhecida como um duo, formado por Robin Williamson e Mike Heron. O som do Incredible String Band é muito característico, abrangendo melodias com influência folk celta e utilizando instrumentos orientais, como a cítara.

Mike Heron, Robin Willianson, Licorice McKechnie e Rose Simpson em sua fazenda comunitária

Considerados como uma banda de “folk psicodélico”, eles faziam parte do movimento de contracultura britânica. Tanto que, na época em que alcançaram prestígio no mainstream e emplacaram nas paradas britânicas e americanas com os discos “The Hangman’s Beautiful Daughter” (1968) e “Wee Tam and The Big Huge” (1969), eles estavam vivendo em uma fazenda com estido de vida comunitário no País de Gales, junto com suas namoradas Licorice McKechnie e Rose Simpson, que à esta altura já faziam parte da banda, participando das gravações dos discos e apresentações ao vivo.

Nesta época, eles foram convidados a participar do Woodstock, porém dizem que fizeram o pior show do festival. Isso aconteceu porque a apresentação deles foi prejudicada pelo fato de que eles tocaram em um dia bem rock do festival, em meio a bandas mais pesadas e elétricas, como Santana, Canned Heat, Janis Joplin e The Who. Totalmente outra vibe, dando meio que o efeito “Carlinhos Brown no Rock in Rio 2001”. Na verdade, eles estavam inscritos para tocarem no dia anterior, em que haviam bandas folk e outras performances acústicas, como Bert Sommers e Arlo Guthrie, mas a banda se recusou a tocar embaixo da chuva do dia, por medo de eletrocutamento. A apresentação deles acabou nem entrando para o filme, uma pena.

Apresentação no Woodstock

A partir do ano seguinte, o Incredible String Band entrou em um declínio criativo, e acabou se separando em 1974. Durou pouco, mas fez um belo barulho. A música “No Sleep Blues” está no disco “The 5000 Spirits or the Layers of the Onion” (1967), que sempre aparece em alguma lista dos “discos que você precisa conhecer” ou “melhores discos dos anos 60” e afins. Sim, o álbum é tão legal quanto a capa, vale a pena de verdade.

Cantarolando em russo: Kino – “Elektrichka” (1982)

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Kino Eletrichka

Cantarolando, por Elisa Oieno

Não devia ser fácil montar uma banda ou ser fã de rock na União Soviética. Basicamente, só era possível ter acesso a discos que fossem lançados pela Melodyia, a gigantesca gravadora estatal, ou através do contrabando de discos. E quem, após todo o esforço despendido para escutar uma música dos Beatles, se sentisse inspirado para montar sua própria banda, ainda tinha que tocar quase que secretamente. Isso porque o governo impunha diversas restrições às letras e apresentações, além de não permitir apresentações do “underground”, ou seja, apenas poderiam se apresentar “legalmente” aquelas bandas que faziam parte do acervo e controle da Melodiya.

Eventualmente, a Melodiya relançava álbuns do ocidente – meio que como uma pirataria estatal – e até lançava àlbuns de artistas ocidentais, como foi o caso do disco “CHOBA B CCCP” (1988), do Paul McCartney.

Porém, a clandestinidade de se assistir a uma banda de rock de devia tornar a coisa ainda mais interessante para os jovens soviéticos, que aos poucos formariam um forte cenário “underground”, especialmente a partir dos anos 80, com a chegada do punk e o pós-punk. Com isso, as letras das bandas frequentemente criticavam o governo e a sociedade russa, falando sobre violência doméstica, alcoolismo, e cenários frios e inertes.

O som pós-punk e new wave da década de 80 é o que se considera como o “rock russo” clássico. Faz sentido, já que essa sonoridade transmite muito uma vibe de insatisfação apática e ao mesmo tempo emotiva, com altas doses de poesia e de movimentos mecânicos com jeito de decadência industrial, assim como o pós-punk ocidental. Viajei muito? Então apenas ouça:

Essa música é da banda Kino, uma das principais bandas de pós-punk da Russia, liderada por Viktor Tsoi. A versão original da música foi gravada em 1982, e é gritante a diferença de qualidade do som (ouça aqui), em comparação com essa versão de 1989. Isso porque só em 1988 é que a banda teve acesso a equipamentos de primeira, trazidos “de fora” pela namorada americana de um dos integrantes.

“Elektrichka” é o nome que se dá para os trens elétricos que circulam entre os países da ex-União Soviética. A letra fala de um cara que está no vestíbulo deste trem elétrico, contra a sua vontade, e não se sente bem mas se mantém apático diante da situação. Não entendo nada de russo, mas talvez essa tradução esteja correta, para dar uma ideia.

Ontem eu fui dormir muito tarde
esta manhã eu acordei muito cedo
Ontem eu fui dormir muito tarde, quase não dormi
Eu provavelmente deveria ter ido ao médico, esta manhã
Mas agora o trem elétrico me leva para onde eu não quero ir

O trem elétrico me leva para onde eu não quero ir
No vestíbulo é frio mas ao mesmo tempo quente
No vestíbulo o ar é cheio de fumaça de cigarro, mas ao mesmo tempo é fresco
Por que eu fico em silêncio, por que eu não grito? Eu fico em silêncio.

O trem elétrico me leva para onde eu não quero ir.

Há quem diga que a letra fala sobre o governo, e sobre estar “preso” na sociedade soviética. Mas não é preciso ir tão longe para nos identificarmos: pelo menos para mim, essa música poderia também falar sobre alguém no metrô de manhã, indo ao ao trabalho e se sentindo cansado, desanimado e um pouco desesperado, mas sem fazer nada a respeito e mantendo um olhar apático… quem nunca?

Cantarolando: Buzzcocks – “Everybody’s Happy Nowadays” (1979)

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Buzzcocks - Everybody's Happy Nowadays

Cantarolando, por Elisa Oieno

Desde o final dos anos 70, a cidade de Manchester, Inglaterra, tem sido berço de bandas marcantes para o rock e pop mundiais. Já para o final da década de 1970 e começo dos anos 80, com a vibe decadente e influenciado pela grave crise pós-industrial e o desemprego de millhões de jovens, o punk e pós-punk emergem nas cenas musicais. Com isso, surgiram bandas emblemáticas com essa cara jovem e divertida, e sempre com alguma dose de melancolia e desespero. A cara da cena de Manchester são os Smiths, Joy Division (e depois o New Order), Stone Roses, The Fall… só para citar alguns.

O Buzzcocks surge nesse contexto, mas nasceram mesmo do punk. Tanto que logo após formar a banda, os dois amigos Pete Shelley e Howard Devoto foram até Londres só para assistir a uma apresentação dos Sex Pistols, e conseguiram fazer com que eles tocassem em Manchester, em junho e julho de 1976. No segundo show dos Sex Pistols em Manchester, os Buzzcocks se apresentaram pela primeira vez. Logo após, eles foram convidados para tocar em um festival organizado por Malcolm McLaren, que incluia nomes como The Clash, Siouxie and The Banshees e The Damned.

No mesmo ano de 1976 o Buzzcocks gravou seu primeiro EP “Spiral Scratch”, produzido por Martin Hannet. Pouco tempo depois, Howard Devoto saiu da banda, por achar que o punk deles estava ficando muito “limpinho”. Pete Shelley assumiu os vocais, dando definitivamente uma cara mais melódica e pop para a banda, o que se torna a marca do Buzzcocks: melodiosa como o pop e com a energia imediata do punk.

A partir de então, lançaram três discos, “Another Music in a Different Kitchen” (1978), “Love Bites” (1978) e “A Different Kind of Tension” (1979), e fizeram turnês bem-sucedidas pela Europa e EUA. Diversos singles emplacaram nas paradas, “Orgasm Addict” e sua franqueza sexual, “What Do I Get” e “Ever Fallen in Love”. A banda se desfez em 1981, fazendo apenas alguns shows de reunião ao longo dos anos 80, e só voltaram a lançar novos discos a partir de 1993.

A música homenageada de hoje foi lançada em uma compilação de singles e lados-B, em 1979, chamada “Singles Going Steady”. Esta canção chamada “Everybody’s Happy Nowadays”.

A letra facilmente serviria como uma crítica contemporânea a nossas próprias vidas sociais, baseadas em fotos e postagens na internet, chegando a causar depressões e síndromes psicológicas diversas:

I was so tired of being upset
Always wanting something I never could get
Life’s an illusion, love is a dream
But I don’t know what it is

Everybody’s happy nowadays
Everybody’s happy nowadays

Essa música na verdade é uma referência a uma passagem do livro de ficção científica de Aldous Huxley “Admirável Mundo Novo”, em que as pessoas são robóticas e “felizes”, mas na verdade sem nenhum sentimento, exceto pelo protagonista que se sente infeliz e revoltado com o mundo em que vive. De qualquer forma, assim como a maioria das canções do Buzzcocks, ela é simples, ácida e direta e fácil de nos identificarmos em qualquer fase da vida.