Os Rolling Stones rasgando a camisa em “Shattered” (1978)

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Rolling Stones
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O período do meio para o fim dos anos 70 foi decisivo para o mundo pop. Você já deve ter percebido, este é um texto sobre o punk. Imaginemos só o quanto que coisa toda de hippie já estava dando no saco, pelo menos para grande parte dos jovens. Especialmente os jovens que não se viam representados mais pela estética, pelo discurso e pela música dos anos anteriores. John Lydon, o Johnny Rotten, diz que os hippies àquela altura eram elitistas, e muitos artistas ficaram ricos e isolados em mansões, e se viam com superioridade, o que acabava por esvaziar o discurso de paz e amor [aliás, quando li isso, logo me remeteu à “elite namastê” que existe hoje, mas isso não vem ao caso agora].

Musicalmente, os artistas eram quase sempre virtuosos, e as canções eram superproduzidas. Além disso, o rock’n’roll estava sendo tratado como um evento grandioso, ou seja, distante da vida normal e fodida dos jovens que viviam naquela época. Então, de repente esses jovens adultos se deparam com seus artistas favoritos, os ídolos da rebeldia dos anos 60 como, por exemplo, o Rolling Stones, e percebem que seus heróis já estão distantes, foram engolidos pelo showbizz.

Por sua vez, os Rolling Stones sentiram sua própria obsolescência diante das novas e pungentes tendências da música. Nesse contexto é que a canção “Shattered” aparece. A começar pela abordagem toda do disco Some Girls” (1978), que é propositalmente influenciada pela sonoridade do punk. A linha das guitarras de “Shattered” poderiam perfeitamente estar no Nevermind the Bollocks” (1977). Há algo de bonito nisso, como se o criador estivesse sendo influenciado pela criatura. Mas, principalmente, há algo de esperto.

Até a capa de Some Girls tem estética punk

Uma vez que o punk estourou para o mundo, a música, a moda, a estética nunca mais seriam as mesmas. O punk era tudo isso ao mesmo tempo, justamente para marcar uma mudança de atitude: tudo era uma afirmação – até mesmo a não afirmação, como fez Richard Hell com sua “blank generation”. Vale notar que inicialmente, não havia um padrão específico para identificar o visual punk, inclusive a moda era bastante livre e variada, sendo que cada pessoa inventava sua própria afirmação fashion.

O padrão da roupa rasgada e cabelo espetado veio pouco depois de os Pistols estourarem na Inglaterra – ou de Richard Hell ter começado a moda no underground novaiorquino, não se sabe ao certo quem começou. O fato é que era esse um dos visuais mais marcantes do jovem da época, a ideia é chamar a atenção para exacerbar a decadência. Look at me! I’m shattered [Olhe para mim! Estou em frangalhos]

Naquela época, Mick Jagger e Keith Richards adoravam frequentar Nova York, e inevitavelmente absorver elementos de uma nova cultura efervescente – aliás, em constante intercâmbio com Londres. Portanto o cenário decadente, boêmio de drogas e prostituição da cidade também servem de tema para “Shattered”:

Laughter, joy, and loneliness and sex and sex and sex and sex
Look at me, I’m in tatters
I’m a shattered
Shattered

[Risadas, alegria, e solidão e sexo e sexo e sexo e sexo/ Olhe para mim, eu tenho tatuagens, eu estou quebrado, quebrado]

Porém, é bem possível que essa música tenha a intenção apenas de retratar esse cenário novo, mas também de criticar o fato de o cenário todo ter se tornado tão “fashion”, como que valorizando a aparência em detrimento de algo mais aprofundado musicalmente – a famigerada “modinha”. Não sei vocês, mas eu vejo claramente um tom sarcástico na frase “Olhe para mim, estou quebrado”, como que alguém desesperado para chamar a atenção para seu visual.

De qualquer forma, musicalmente os Rolling Stones fizeram sua própria afirmação sobre tudo isso, mesmo que meio obrigados por uma questão de sobrevivência. O resultado foi um disco com uma pegada genuinamente renovada, que impõe o reconhecimento de que eles sabem identificar suas referências e que, no fundo, tudo o que gostamos dos punks, eles já fizeram.

A poderosa imagem de Patti Smith segundo KT Tunstall em “Suddenly I See”

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KT Tunstall
KT Tunstall

Eu sempre achei essa música, “Suddenly I See”, legal. Isso mesmo: apenas legal, agradável, uma bela canção pop com pegada meio bluesy ou soul – soul de branco, mas ainda soul. É daquelas que você fica cantarolando o dia inteiro sem perceber, e que sempre que toca no rádio dá um ânimo e uma alegriazinha. A letra sempre me remeteu à descrição de uma garota independente e jovem, mas de uma maneira meio genérica.

Porém, ao descobrir a verdadeira inspiração de KT Tunstall para escrever seu maior hit, a singela canção torna-se muito mais do que genericamente “legal”, mas uma comovente declaração sobre inspiração e referência artística. É um daqueles casos em que saber o real significado da canção para o autor contribui e muito para a beleza da letra. De fato, ela fala sobre uma garota independente e jovem, mas sobre uma específica: Patti Smith.

A letra de “Suddenly I See” descreve o momento em que KT, com seus 27 anos, descobre o porquê de estar fazendo o que ela está fazendo, e buscando o que estava buscando. No caso, ela estava há quase dez anos vivendo uma vida de perrengue, abrindo mão de dinheiro, viagens, conforto, para se dedicar à música, tocando em barzinhos e na rua. Até que ela decidiu que deveria gravar um disco e buscar um contrato em uma gravadora. É aquele ponto em que sentimos uma necessidade estranha de justificar nossas escolhas, tanto perante o mundo, quanto perante nós mesmos, e decidimos dar um passo adiante. Isso a fez refletir algo do tipo “Afinal, que tipo de artista eu quero ser?”. E, segundo a cantora, a resposta veio através da capa do “Horses” (1975).

Patti Smith é uma das artistas favoritas de KT. Naquele momento de reflexão, enquanto contemplava a capa de “Horses”, a icônica foto da Patti Smith mostrou uma jovem cheia de ‘maturidade e sabedoria’ [palavras da própria KT, estilosa e convicta. Suddenly I see this is what I want for me/ De repente eu vejo que é isso que eu quero para mim.

A partir daí, a letra de “Suddenly I See” surgiu como uma declaração de admiração, e com um tom afirmativo do que a artista não só admira, mas também busca para ela mesma. A maneira fascinada com que a jovem KT descreve a jovem Patti chega a ser comovente e contagiante. E, principalmente, é linda a maneira com que sua heroína lhe inspira e dá forças.

And she’s taller than most
And she’s looking at me
I can see her eyes looking from a page in a magazine

[Adoro essa última parte:]

She makes me feel like I could be a tower
A big strong tower, yeah
The power to be
The power to give
The power to see

[E ela é mais alta que a maioria/e ela está olhando para mim/eu consigo ver seus olhos me olhando de uma página em uma revista/ela me faz sentir como se eu pudesse ser uma torre, uma torre grande e forte/o poder de ser/ o poder de dar/ o poder de ver]

Afinal, a melhor admiração é aquela que, além de nos inspirar, nos faz sentir fortes e nos ajuda a encontrarmos a nossa própria essência. E é essa a lição que KT Tunstall nos ensina com sua homenagem à ‘ídola’ Patti Smith.

Odiando a polícia com o Mudhoney em “Hate The Police” (1990)

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Mudhoney
Mudhoney

Cantarolando, por Elisa Oieno

Todo adolescente que se preze odeia a polícia. Numa análise imediata e superficial, o arquétipo da polícia logo de cara remete a autoridade, vigilância, opressão e o combate à delinquência, ou seja, basicamente tudo aquilo que o adolescente mais detesta. Talvez seja por isso que era tão satisfatório para mim cantar aos berros essa música no colegial.

Abrindo um parênteses aqui, é engraçado que raramente o paradigma de polícia nos faz lembrar de segurança – pelo contrário, né? É como naquela famosa dos Titãs: Dizem que ela existe prá ajudar/Dizem que ela existe prá proteger/Eu sei que ela pode te parar/ Eu sei que ela pode te prender!

Na verdade, se levarmos em consideração o que alguns caras como Michel Foucault pensam sobre isso, dá para concluir MUITO SIMPLIFICADAMENTE que a delinquência é de fato fabricada, criada pela própria estrutura que a condena – e mantida através da difusão do medo da criminalidade – , exatamente com o objetivo de ser combatida e, assim, demonstrar a necessidade social do poder da polícia, consequentemente validando toda a estrutura que legitimou este poder.

Mas nem é preciso exercitar toda essa reflexão para um indivíduo não morrer de amores pela autoridade policial – e o que ela representa. Sabemos que a truculência, a simpatia pela violência e o racismo não raramente afloram através da polícia. E é sobre esse aspecto que a canção cantarolada de hoje diz respeito.

“Hate The Police”, originalmente gravada pela banda punk The Dicks em 1980, conta a historia de um jovem adulto que acaba de entrar para a polícia, e chega em casa para contar a novidade para seus pais orgulhosos.

Ele se sente poderoso carregando uma arma, se exibindo para sua mãe, mostrando o quão intimidador ele pode ser:

Mamãe, mamãe, mamãe
olhe para o seu filho
você pode ter me amado,
mas agora que eu tenho uma arma, é melhor você sair do meu caminho
Eu acho que tive um dia ruim
Eu tive um dia ruim

E conta ao seu pai sobre as aventuras de seu novo trabalho:

Papai, papai, papai
Orgulhoso de seu filho
Conseguiu um bom emprego
Matando pretos e mexicanos
Eu vou te contar uma coisa, é verdade
Você não encontra justiça, ela é que te encontra.

 

A canção ficou mais conhecida por sua versão do Mudhoney, que está no disco – na verdade é um EP e uma compilações de singles – “Superfuzz Bigmuff” (1990), entitulado em homenagem ao icônico pedal de fuzz usado e abusado pelo guitarrista Steve Turner, marca registrada do som da banda.

Se quase 10 anos após o lançamento da música pelos The Dicks, a canção ainda fazia sentido a ponto de ter estourado através do Mudhoney, hoje, 30 anos depois, ela ainda está atual, e pode muito bem servir para as particularidades da nossa polícia por aqui.

De qualquer forma, mesmo se você não sofre de tanta antipatia pela instuição policial, todos havemos de concordar que a presença da polícia nas nossas vidas geralmente não é agradável. A idéia é que alguma coisa está errada. É esse sentimento que torna a “Hate The Police” tão atraente para os jovens ouvidos – e para aqueles ouvidos que se recusam a envelhecer.

Cantarolando: Moça, vai lá fazer seu roque! “I Wanna Be Your Joey Ramone”, de Sleater-Kinney

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Sleater-Kinney
Sleater-Kinney

Cantarolando, por Elisa Oieno

Estava conversando com uma amiga, que está à procura de uma guitarrista solo para uma banda. Ela logo em seguida me disse que está sendo bastante difícil, não só encontrar uma guitarrista que se encaixe no som e na proposta da banda, mas simplesmente encontrar uma guitarrista solo. A conclusão que se chega é que isso na verdade é um sintoma do quanto que as garotas ainda são desestimuladas a se aperfeiçoarem e a se projetarem como lead guitar, um território ainda tão masculino.

Pensando no aspecto histórico da herança desse desestímulo sobre as garotas, podemos citar do emblemático caso da irmã do Mozart, Marianne. Reconhecido como um dos maiores gênios prodígios da história da música, Wolfgang Mozart tinha uma irmã mais velha, potencialmente tão talentosa quanto ele – pelo menos é o que dizem os registros da época. Ela foi uma grande influência para Mozart, que a tinha como modelo. Desde criança, Marianne, assim como o irmão, realizava concertos de piano e harpa, e suas performances ganharam fama o suficiente para saírem em turnê pela Europa.

Porém, ao atingir a idade para se casar, ela foi pressionada a largar a música. O pensamento da época era que não é apropriado para uma moça crescida se ocupar com a música ao invés de cumprir seus deveres de esposa. O pai também desaprovava a escolha de Wolfgang de seguir a carreira musical, o que resultou numa briga entre eles, mas o jovem Mozart seguiu mesmo assim. Porém, Marianne acabou cedendo aos desejos da família – e da sociedade.

Há registros de trocas de correspondências entre Wolfgang e Marianne, em que ele elogia suas composições, o que demonstra que ela também compunha, porém estas acabaram se perdendo. Talvez teria sido uma compositora tão importante quanto o irmão, se tivesse tido o estímulo, o apoio e o reconhecimento.

Isso que aconteceu com a irmã do Mozart é muito comum, e de certa forma ainda ressoa. O resultado disso é poucas referências femininas nas artes e na música, gerando uma dissociação muito grande entre o que se admira e o que é possível se espelhar para ativamente criar e ser. Dito isso, voltemos para a breve ‘girl talk’ que tive no estúdio sobre mulheres guitarristas. E é aí que entra a música homenageada de hoje, da Sleater-Kinney. Carrie Brownstein é uma das guitarristas mais reconhecidas do indie.

A canção ‘I want to be your Johnny Ramone’ passa a ideia de uma garota olhando para um quarto cheio de pôsteres dos ídolos do rock – todos homens – e querendo ser como eles, nem que seja para ser admirada pela amiga ou namorada – ou amigo/namorado – tanto quanto eles. Esse é basicamente o resumo do sentimento de uma menina adolescente que sente um misto de atração sexual e vontade de ser esses garotos das bandas que tanto amamos.

Já falei sobre – a escassez de – referências femininas no rock outras vezes, e é uma tecla que já está ficando gasta de tanto bater. Nesse sentido, Sleater-Kinney é um daqueles grupos que fez um favor para diversas garotas se encorajarem a montar suas bandas e conseguirem se ver sendo fodonas com uma guitarra.

Cantarolando: os imigrantes durões em “Immigraniada” (2010), de Gogol Bordello

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Gogol Bordello
Gogol Bordello

Cantarolando, por Elisa Oieno

Gogol Bordello é uma banda formada para ser provocativa e divertida. Provocativa, porque traz à tona os temas mais pertinentes da era globalizada, como o combate ao racismo e xenofobia. A composição da banda em si já é uma afirmação disso: todos os membros são imigrantes e carregam sotaques pesados de vários cantos do mundo. E são muitos membros. A banda é bem grande, atualmente com nove integrantes, boa parte deles de países do leste europeu como Russia e Bielo-Russia, Ucrânia, e também da América do Sul, África e Ásia.

Essa pluralidade dos integrantes da banda também ajudam a trazer para o som da banda diversos elementos e influências, não só pelo uso de instrumentos tradicionais mas pelas diferentes referências, também. Você sente notas latinas entre um violino russo, um acordeom francês e percussão asiática. À primeira vista, isso pode causar uma idéia de algo forçado, tão eclético que se torna genérico. Mas, pelo contrário, eles conseguem fazer um som bem característico permeando diferentes estilos de maneira muito natural e orgânica, e uma vibe meio maldita, marginal. Talvez seja pelas influências centrais da banda, como The Clash, Manu Chao e Fugazi.

O vocalista super performático que beira à hiperatividade no palco é Eugene Hutz, imigrante ucraniano. Descendente de ciganos da tribo Roma, ele e sua família assentaram-se nos EUA após terem

passado por diversos países da Europa, refugiados do desastre de Chernobyl.

Hutz é um ativista da cultura cigana dos Roma e aponta pelos direitos civis desta etnia, historicamente perseguida e marginalizada na Europa, e dizimada durante o Holocausto nazista. Vale lembrar que até hoje os ciganos são alvo de discriminação e de estereótipos pejorativos. Pouco se difunde realmente sobre a cultura cigana, a começar pelo fato de que não existe apenas uma cultura, e sim diversas tribos com características culturais e étnicas diferentes.

Por isso mesmo, a idéia de trazer a cultura cigana – especificamente a Roma – e chamar atenção para isso na música pop é uma grande afirmação. Lembro de uma camiseta que eles vendiam, em que tinha um desenho de uma moça cigana com os dizeres: “You love our music, but you hate our guts” (algo como “você ama nossa música, mas nos odeia pra caralho”). Ouch! A frase é um trecho da música deles “Break The Spell”, muito direta sobre o preconceito e a ignorância a respeito da cultura dos roma. Não à toa, a banda é considerada como gypsy-punk, ou ‘punk cigano’.

Porém, apesar de todo o peso dessa questão cultural, étnica e social, a idéia da banda é tratar desses temas sem nunca deixar de ser otimista e se divertir. Isso fica evidente na canção de hoje, “Immigraniada (We’re Coming Rougher)”. Essa música é um bom resumo da ideia que a banda defende, a de uma ‘cidadania universal’. O clipe até termina com a pertinentíssima frase “No Human Being is Illegal”, e um link para uma organização de direitos civis, que dá suporte a imigrantes.

O tom de “vocês vão ter que nos engolir” de “Immigraniada”, lançada em 2010 no disco “Trans-Continental Hustle”, ainda é – senão mais ainda do que antes – bastante oportuno, inclusive aqui no Brasil atualmente, já que o fluxo de imigrantes de diversos países tem aumentado bastante. Em épocas de Trump, bizarrices neo-nazistas e num momento em que discussões sobre se o nazismo foi de direita ou de esquerda se tornam mais importantes do que salientar a inadmissibilidade de qualquer violação humanitária, um bando de imigrantes gritando “Nós estamos chegando cada vez mais fortes!” é uma bela atitude punk.

Cantarolando: O teste de fidelidade de “Babooshka”, de Kate Bush (1980)

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Kate Bush

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção “Babooshka”, um dos hits da Kate Bush, é a faixa que abre o terceiro disco da cantora “Never For Ever”, de 1980. Foi lançada como single – aliás, com uma capa bem legal, que lembra aquelas fotos que o Mick Rock tirou do Syd Barrett no apartamento.
Kate Bush é uma compositora carregada de referências literárias e cinematográficas. É possível perceber isso especialmente em suas letras e performances teatrais.

Porém, “Babooshka” veio de uma inspiração bem mais pop, para não dizer popularesca: um famigerado ‘teste de fidelidade’ que ela assistiu na TV. A canção conta a historinha de uma mulher que decide fazer o teste com seu marido, lhe enviando cartas perfumadas assinadas “Toda sua, Babooshka” – o grudento refrão da música “all yours, Babooshka”. Ela resolve marcar um encontro, e o marido até estranha o quanto que Babooshka, essa guerreira amazona russa sensual, lembra sua esposa quando ela era jovem e bonita, antes de ser uma senhora deprimida e de ter ‘esfriado’ com ele. O marido ficou derretidão e, claro, não passou no teste.

She wanted to test her husband
She knew exactly what to do
A pseudonym to fool him
She couldn’t have made a worse move

She sent him scented letters
And he received them with a strange delight
Just like his wife
But how she was before the tears
And how she was before the years flew by
And how she was when she was beautiful
She signed the letter
All yours
Babooshka, Babooshka, Babooshka-ya-ya!

O clipe dessa música também é interessante. É daqueles bem simples, bastando a presença corporal da cantora para termos idéia da música: ela vestida de preto, com um véu recatado interagindo com o contra-baixo, que seria o marido. Aliás, diversas vezes o baixo nas músicas tem a intenção de ser o contraponto masculino para sua voz. No refrão, ela se transforma em Babooshka, uma figura quase oposta à da esposa.

Apadrinhada pelo David Gilmour, com 16 anos Kate Bush já havia composto dezenas de músicas, gravou algumas faixas demo e conseguiu um contrato pela EMI para gravar um álbum no estúdio Abbey Road. Porém, só depois de dois anos de contrato é que o disco começou a ser gravado. O produtor disse que ela era muito jovem, eles estavam ‘maturando’ a artista para então lançá-la como a grande aposta da gravadora. Sobre isso, a própria Kate diz que eles assinaram com ela para segurá-la na gravadora, para que nenhuma outra a contratasse. De qualquer forma, funcionou – ela se desenvolveu ainda mais como artista e fez aulas de dança interpretativa com a professora do David Bowie.

Todas as canções deste disco foram compostas por Kate no piano, e o disco foi co-produzido por ela. A partir daí, o sucesso e prestígio de Kate Bush só aumentou, sendo ela uma das mais autênticas artistas do mundo pop. Dá para dizer que Kate Bush fez a escola das grandes artistas da atualidade, pelo menos as que têm a intenção de incorporar aspectos artísticos, experimentais ou performáticos, como Lady Gaga e Lorde.

Cantarolando: a cabeça confusa ou não de Walter Franco em “Cabeça” (1972)

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Walter Franco
Walter Franco

Cantarolando, por Elisa Oieno

Outro dia cheguei à conclusão de que a minha ideia pessoal de arte é que, para ela ser ao menos interessante, deve conter algum elemento provocativo ou arriscado. Nesse sentido, o Walter Franco é um dos mais instigantes e criativos artistas brasileiros. Com sua cara de bonzinho e postura zen – e talvez até por isso mesmo – é um artista que apareceu para ser ‘maldito’. Ainda mais em um ambiente de descarada privação e vigília da classe artística, como foi Brasil da ditadura militar, a vontade é de provocar, cutucar a onça.

Provavelmente foi essa a intenção quando ele inscreveu a música “Cabeça” para o VII Festival Internacional da Canção (FIC) da Rede Globo, em setembro de 1972. Foi sua primeira grande apresentação, antes de lançar seu primeiro disco cheio, Ou Não (1973). Naquela época tais festivais eram veículos importantes para os artistas mostrarem suas canções a um alcance nacional, e eram submetidas a um juri e à opinião popular da plateia. Vale comentar que a platéia de festivais era conhecida por não ser exatamente comedida ao expressar suas opiniões a respeito dos artistas e suas performances. Se gostavam, aplaudiam apaixonadamente. Se não gostavam, ou discordavam das decisões do júri, vaias ensurdecedoras e até raivosas. Diz-se que esse comportamento específico das platéias demonstra quase que um desabafo, uma necessidade de opinar e ter voz, uma reação inconsciente das pessoas ao ambiente controlado e reprimido imposto à sociedade sob a ditadura.

“Cabeça” é uma faixa estranha pra caramba, gravada em várias camadas sintetizadas de voz, e foi apresentada no festival com Walter Franco fazendo uma das camadas ao vivo, sobre as gravações em fita. Já esperando as óbvias vaias, ele ficou satisfeitíssimo com sua performance, que conquistou também o juri.

As vaias eram esperadas, porém para coroar o elemento ‘maldito’ de sua apresentação, Walter foi premiado com a desclassificação de sua música do festival, e com a demissão do juri inteiro, que pretendia dar a ele o primeiro lugar. O juri era formado por Nara Leão, Rogério Duprat, o poeta concretista Décio Pignatari, os jornalistas Roberto Freire e Sergio Cabral, e o pianista João Carlos Martins. Sobre a desclassificação, nunca houve uma explicação. Na verdade, nem sobre a demissão do juri, que foi substituído por um outro que deu o primeiro prêmio ao ‘Fio Maravilha’, do Jorge Ben.

A canção “Cabeça” parece mesmo uma música da cabeça humana em seu estado caótico. A ideia é representar ‘vários personagens que nos habitam interiormente, várias inflexões, aquela coisa toda’, como o próprio definiu em uma entrevista certa vez. Parece muito a sensação que dá quando nos sentamos para ficar em silêncio meditativo. Logo a cabeça começa a gritar, assustar, bagunçar, achar engraçado, entender, desentender… é muito fácil ficar com a cabeça confusa.

“Que é que tem nessa cabeça irmão/ Que é que tem nessa cabeça ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir ou não”

Icônica capa do disco “Ou Não”, de 1973, em que está a faixa “Cabeça”

Há também diversas interpretações. Dizem que, além do sentido universalmente humano, também é uma forma de representar os tempos caóticos e confusos da época. Aliás, a frase “que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir, irmão” é meio ameaçadora, e, colocando em um contexto de ditadura militar, ganha ainda mais um sentido especial. Ainda mais considerando que ele próprio já havia sido preso, daquelas prisões aleatórias que vira e mexe atormentavam especialmente a classe artística. Qualquer governo morre de medo do que tem na cabeça de um artista, não? Talvez até de forma inconsciente uma experiência e um ambiente desses certamente influencia o que se produz artisticamente.

Talvez por isso mesmo que naquela época tenha surgido tanta coisa inovadora, verdadeiramente provocadora e interessante. Talvez por isso mesmo… Ou não.

Cantarolando o antigo cântico fúnebre de “Lyke Wake Dirge”, do Pentangle (1968)

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Pentangle
Pentangle

Cantarolando, por Elisa Oieno

Pentangle era uma banda fascinada por temas medievais, pela mitologia e música tradicional britânicas. O som deles é tão distinto que a classificação ‘folk-jazz’ parece muito simplista, mas até que dá uma boa ideia. A marcante voz feminina do grupo pertence a Jacqui McShee, co-fundadora do grupo ao lado do violonista John Rebourn.  Àquela altura, John já dividia um flat com Bert Jansch e os dois já se apresentavam em diversos cafés, os pequenos ‘clubes de folk’ pela Inglaterra, os recantos hipsters da época. Com um estilo de violão de escola clássica e tradicional, mas combinada com o moderno jazz e incorporando elementos do blues, Bert e John formariam uma parceria ilustre no mundo do ‘folk revival’ dos anos 60 [a propósito, já falei um pouco sobre ‘folk revival’e do Bert Jansch aqui nesta coluna há um tempinho, vejam lá!]. Naturalmente, Bert passou a integrar a formação do Pentangle.

John Rebourn e Bert Jansch

Vale lembrar que Bert Jansch foi um dos mais influentes artistas do folk britânico. Ele muitas vezes cantava e tocava canções antigas e tradicionais fazendo-as soar modernas e ‘cool’, ao invés de teatrais e bobinhas. Isso tudo com uma habilidade impressionante no violão, mas que passa longe, muito longe do firulento. A influência do Bert Jansch também ultrapassa o estilo meramente ‘folk’ – Jimmy Page, Johnny Marr, Paul Simon e Neil Young, por exemplo, já se declararam fãs e admitiram influência dele em seus próprios estilos. Certa vez, Neil Young afirmou que o Bert Jansh está para o violão assim como o Jimi Hendrix está para a guitarra elétrica.

Dito isso, vamos à canção cantarolada de hoje. Apesar da distinta cama de violões do Pentangle e de sua ‘cozinha’ jazzística do contra-baixo de Danny Thompson e da bateria de Terry Cox, o forte da faixa “Lyke Wake Dirge” é a longa melodia e as vozes em coro. A parte instrumental é singela, e serve apenas para dar um suporte ao tom solene e ancestral desse cântico fúnebre.

“Lyke Wake Dirge” é tipicamente uma canção folk. A letra é em inglês arcaico, um dialeto da região de Yorkshire, norte da Inglaterra. O sotaque do pessoal dessa região é fortemente influenciado por esse dialeto. Trata-se de um poema tradicional medieval, porém é provável que tanto o poema quanto o cântico tenha origens pré-Cristãs, ou seja, deve ter surgido originalmente de um ritual ou tradição do povo celta. Do jeitinho que os artistas do folk revival gostam.

Porém, as imagens e a idéia da letra que se tem registro é totalmente cristã. É um cântico para ser entoado no momento em que se vela um falecido. A palavra ‘lyke’ significa cadáver, inclusive uma de suas variações é “lich”, uma criatura mitológica do morto-vivo, o ser cadavérico, como o Lich da Hora da Aventura, por exemplo. Mas nesse caso quer dizer simplesmente ‘morto’ mesmo. “Wake” é no sentido de ‘watch’, velar o corpo. E ‘dirge’, traduz-se como hino fúnebre.

A mensagem não é lá muito confortante, como era de se esperar, já que é um cântico da Idade das Trevas. É meio que um aviso que se você, no caso o falecido, não levou uma vida de caridade, irá espetar os pés nos espinhos do pântano do purgatório. E vai doer. Você também não conseguirá passar pela ponte estreita em direção aos céus, e irá cair em chamas. Porém, os versos sempre terminam com a reza “E que Cristo receba sua alma” [And Christe receive thy saule]. Quem fica, pelo menos está na torcida pra que dê tudo certo para o coitado.

Apesar de a temática ser fúnebre e sombria, a Lyke Wake Dirge do Pentangle não se esforça para manter um tom soturno e triste, mas sim preza pela beleza da melodia e pela homenagem à tradição. E faz isso de uma maneira inconfundível. A faixa está no disco ESSENCIAL “Basket of Light”, de 1969.

Cantarolando: os climas pesados de “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones (1969)

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Rolling Stones

Cantarolando, por Elisa Oieno

O ambiente da clássica “Gimme Shelter” é tenso. Uma eletricidade estática no ar, um clima carregado como naqueles momentos antes de cair uma tempestade. Também pudera, já que os tempos estavam começando a ficar sombrios: era o auge da Guerra do Vietnã, a garotada estava sendo convocada pra morrer, protestos violentamente reprimidos ao redor do mundo.

Esse contexto geral influenciou o mood do disco “Let it Bleed”, mas também havia o clima interno da banda, que estava meio pesado com a expulsão de Brian Jones em razão de sua deterioração física e psicológica por conta do abuso das drogas. Um mês após sua demissão, Brian Jones morreu – ou foi assassinado, como alguns afirmam.

Para coroar, no fim daquele ano ocorreu o Festival de Altamont, que reuniu alguns dos principais artistas da época e uma multidão de jovens. A intenção era ser como um outro Woodstock, mas algo havia mudado. O clima não era mais de paz e amor, era de revolta e desilusão. Estava carregado de tensão e hoje o festival é mais lembrado como um evento violento e trágico. Durante os shows estavam surgindo diversos focos de brigas e confusão. Até que no show do Rolling Stones, um rapaz que supostamente estava armado foi espancado até a morte pelos seguranças – aliás, a segurança era feita pelo grupo de motoqueiros Hell’s Angels, conhecidos pela conduta violenta… alguma merda ia dar, né. Além da morte desse rapaz, houve um atropelamento e um afogamento durante o festival.Resultado de imagem para rolling stones altamont 1969

Mas, além do cenário apocalíptico, das imagens violentas e do clima tenso e elétrico de Gimme Shelter, a gravação desta faixa também tem uma peculiaridade sombria, especificamente na desoladora e brilhante performance da cantora de soul Merry Clayton, que canta o refrão da música.

 

Merry foi chamada por acaso para a gravação dos vocais, no meio da madrugada. Eles precisavam uma voz feminina para o refrão e a cantora que queriam não estava disponível. Mesmo estando em um estágio avançado da gravidez, ela aceitou. Apareceu no estúdio com bobes nos cabelos e um barrigão, terminou a gravação em apenas três takes. Queria voltar logo para casa e dormir, e entregou uma performance de deixar o queixo caído. Neste áudio isolado dos vocais, dá para ouvir os Stones impressionados no estúdio.

Porém, pouco depois de voltar para casa, Merry sofreu um aborto espontâneo, o que a fez passar por um período extremamente difícil. Ela afirma que passou anos sem conseguir ouvir a Gimme Shelter, após alguns anos acabou superando o trauma e até passou a cantar sua própria versão de Gimme Shelter, a canção que a fez famosa.

Merry Clayton fez sua carreira como cantora de suporte de diversos artistas como Ray Charles e Carole King, sendo uma voz muito reconhecida. Está na ativa até hoje, porém desde 2015 se recupera de um acidente de carro que a fez ter suas duas pernas amputadas. Pesado.


“Gimme Shelter” é totalmente conectada com o que estava acontecendo ao seu redor quando foi escrita, tanto que é tida como um dos símbolos do fim da era hippie “paz e amor”. E ainda permanece impactante, como uma canção clássica consegue.

As minas do rock de “Gente Fina é Outra Coisa” (1973), das Cilibrinas do Éden

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Cilibrinas do Éden
Cilibrinas do Éden

Cantarolando, por Elisa Oieno

Após sair – ou ser saída – dos Mutantes, Rita Lee teve que começar tudo de novo. Desta vez, representando definitivamente sua emancipação musical e cortando o cordão umbilical que ainda restava com os irmãos Baptista, voltou de um período sabático em Londres com o icônico cabelo vermelhaço e foi convidada para fazer um show em um mega festival da gravadora Philips, ocasião em que pensou ser uma boa para montar uma banda nova.

O nome escolhido para a banda foi Cilibrinas do Éden, inicialmente uma dupla formada por Rita Lee e Lucia Turnbull. As canções eram acústicas e valorizavam as vozes de Rita e Lucia, com beleza e sutileza. As letras tinham uma conotação rebelde e o ponto de vista era sempre feminino, como nessa “Gente Fina é Outra Coisa”:

 

E eu sei que você está com medo de dar
E o que vão pensar
Não vá se misturar com esses meninos cabeludos
Que só pensam em tocar
E você escuta o papai dizendo

Que gente fina é outra coisa
Mas gente fina é outra coisa

Esse trecho representa praticamente todas as meninas adolescentes se rebelando contra os pais, que acabaram de descobrir o rock, e, consequentemente descobriram os meninos cabeludos que tocam rock. Na canção, uma garota está tentando convencer o amigo a não se render aos valores ‘caretas’ do pai dele. Nas palavras do censor – sim, a música foi censurada: “Na letra em exame, uma jovem insurge-se contra o pátrio-poder, ao tentar persuadir um amigo a desacreditar de seu pai para juntar-se a um grupo juvenil de comportamento duvidoso”.

A apresentação de estréia do Cilibrinas do Éden no festival foi um fracasso. Talvez porque em 1973 o público não estava em clima de sutilezas, as ‘minas do rock’ foram vaiadas impetuosamente. Possivelmente foi um problema parecido com a apresentação do Incredible String Band no Woodstock, sobre a qual eu já falei nessa coluna um tempo atrás..Image result for cilibrinas do éden phono 73

A própria Rita Lee, em sua biografia, diz que a apresentação foi frívola, tolinha, coisa de menininha, estando inclusive usando uma tiara de joaninha e Lucia, asas de anjinho no show – apesar de as músicas não terem nada de tolinho.

Porém, vale dizer que algo ser feminino e sutil é muito diferente de ser bobinho. Mas em 1973 – e, cá entre nós, até hoje é meio assim – o rock ainda não tinha percebido isso direito, então as mulheres tinham que fazer barulho e terem uma postura mais agressiva para serem ouvidas. Se uma mulher se metesse a tocar violão ou guitarra, ela tinha que ser a fodona para ser levada a sério. E Lucia Turnbull era – inclusive, na época em que andava com os Mutantes, sempre era desafiada por Sergio Dias, sabidamente vaidoso com sua habilidade no instrumento. Lucia é considerada a primeira guitarrista mulher do Brasil.

Então, após a apresentação do festival, Rita e Lucia resolveram deixar a banda mais elétrica e mais rock’n’roll. Convidou Luis Sérgio Carlini e do baixista Lee Marcucci e entraram no estúdio para gravar. Terminadas as sessões de gravação regadas a ácido, o resultado foi um disco que nunca foi lançado. Esse disco se tornou uma raridade, e foi relançado em 2000 como pirata, pelo selo Nosmokerecords.

Essa formação é o que viria a se tornar o Tutti Frutti, tendo a Rita Lee como destaque da banda, por imposição da gravadora. Isso acabou gerando desconfortos, e Lucia deixou o grupo após o primeiro disco “Atrás do Porto Tem Uma Cidade” (1974).

A partir de então, Rita Lee se tornou a Rita Lee popstar que conhecemos hoje. Lucia continuou gravando, e participou de discos importantes de diversos artistas, desde Guilherme Arantes até Gilberto Gil, mas hoje leva uma vida mais lo profile.

Rita Lee tem um papel importante e, durante muito tempo, quase que exclusivo no rock nacional: o de ser uma referência feminina dentro de um estilo tão masculino. Referências femininas ajudam a vida das meninas que querem – e precisam – se rebelar, se emancipar. Assim como a moça roqueira da “Gente Fina É Outra Coisa”, as referências femininas, em qualquer área da vida, são aquela voz amiga que não te deixa se conformar com valores ultrapassados, e te ajuda a se libertar. O que mais quer uma mina do rock, afinal?