Cantarolando: os imigrantes durões em “Immigraniada” (2010), de Gogol Bordello

Read More
Gogol Bordello
Gogol Bordello

Cantarolando, por Elisa Oieno

Gogol Bordello é uma banda formada para ser provocativa e divertida. Provocativa, porque traz à tona os temas mais pertinentes da era globalizada, como o combate ao racismo e xenofobia. A composição da banda em si já é uma afirmação disso: todos os membros são imigrantes e carregam sotaques pesados de vários cantos do mundo. E são muitos membros. A banda é bem grande, atualmente com nove integrantes, boa parte deles de países do leste europeu como Russia e Bielo-Russia, Ucrânia, e também da América do Sul, África e Ásia.

Essa pluralidade dos integrantes da banda também ajudam a trazer para o som da banda diversos elementos e influências, não só pelo uso de instrumentos tradicionais mas pelas diferentes referências, também. Você sente notas latinas entre um violino russo, um acordeom francês e percussão asiática. À primeira vista, isso pode causar uma idéia de algo forçado, tão eclético que se torna genérico. Mas, pelo contrário, eles conseguem fazer um som bem característico permeando diferentes estilos de maneira muito natural e orgânica, e uma vibe meio maldita, marginal. Talvez seja pelas influências centrais da banda, como The Clash, Manu Chao e Fugazi.

O vocalista super performático que beira à hiperatividade no palco é Eugene Hutz, imigrante ucraniano. Descendente de ciganos da tribo Roma, ele e sua família assentaram-se nos EUA após terem

passado por diversos países da Europa, refugiados do desastre de Chernobyl.

Hutz é um ativista da cultura cigana dos Roma e aponta pelos direitos civis desta etnia, historicamente perseguida e marginalizada na Europa, e dizimada durante o Holocausto nazista. Vale lembrar que até hoje os ciganos são alvo de discriminação e de estereótipos pejorativos. Pouco se difunde realmente sobre a cultura cigana, a começar pelo fato de que não existe apenas uma cultura, e sim diversas tribos com características culturais e étnicas diferentes.

Por isso mesmo, a idéia de trazer a cultura cigana – especificamente a Roma – e chamar atenção para isso na música pop é uma grande afirmação. Lembro de uma camiseta que eles vendiam, em que tinha um desenho de uma moça cigana com os dizeres: “You love our music, but you hate our guts” (algo como “você ama nossa música, mas nos odeia pra caralho”). Ouch! A frase é um trecho da música deles “Break The Spell”, muito direta sobre o preconceito e a ignorância a respeito da cultura dos roma. Não à toa, a banda é considerada como gypsy-punk, ou ‘punk cigano’.

Porém, apesar de todo o peso dessa questão cultural, étnica e social, a idéia da banda é tratar desses temas sem nunca deixar de ser otimista e se divertir. Isso fica evidente na canção de hoje, “Immigraniada (We’re Coming Rougher)”. Essa música é um bom resumo da ideia que a banda defende, a de uma ‘cidadania universal’. O clipe até termina com a pertinentíssima frase “No Human Being is Illegal”, e um link para uma organização de direitos civis, que dá suporte a imigrantes.

O tom de “vocês vão ter que nos engolir” de “Immigraniada”, lançada em 2010 no disco “Trans-Continental Hustle”, ainda é – senão mais ainda do que antes – bastante oportuno, inclusive aqui no Brasil atualmente, já que o fluxo de imigrantes de diversos países tem aumentado bastante. Em épocas de Trump, bizarrices neo-nazistas e num momento em que discussões sobre se o nazismo foi de direita ou de esquerda se tornam mais importantes do que salientar a inadmissibilidade de qualquer violação humanitária, um bando de imigrantes gritando “Nós estamos chegando cada vez mais fortes!” é uma bela atitude punk.

Cantarolando: O teste de fidelidade de “Babooshka”, de Kate Bush (1980)

Read More
Kate Bush

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção “Babooshka”, um dos hits da Kate Bush, é a faixa que abre o terceiro disco da cantora “Never For Ever”, de 1980. Foi lançada como single – aliás, com uma capa bem legal, que lembra aquelas fotos que o Mick Rock tirou do Syd Barrett no apartamento.
Kate Bush é uma compositora carregada de referências literárias e cinematográficas. É possível perceber isso especialmente em suas letras e performances teatrais.

Porém, “Babooshka” veio de uma inspiração bem mais pop, para não dizer popularesca: um famigerado ‘teste de fidelidade’ que ela assistiu na TV. A canção conta a historinha de uma mulher que decide fazer o teste com seu marido, lhe enviando cartas perfumadas assinadas “Toda sua, Babooshka” – o grudento refrão da música “all yours, Babooshka”. Ela resolve marcar um encontro, e o marido até estranha o quanto que Babooshka, essa guerreira amazona russa sensual, lembra sua esposa quando ela era jovem e bonita, antes de ser uma senhora deprimida e de ter ‘esfriado’ com ele. O marido ficou derretidão e, claro, não passou no teste.

She wanted to test her husband
She knew exactly what to do
A pseudonym to fool him
She couldn’t have made a worse move

She sent him scented letters
And he received them with a strange delight
Just like his wife
But how she was before the tears
And how she was before the years flew by
And how she was when she was beautiful
She signed the letter
All yours
Babooshka, Babooshka, Babooshka-ya-ya!

O clipe dessa música também é interessante. É daqueles bem simples, bastando a presença corporal da cantora para termos idéia da música: ela vestida de preto, com um véu recatado interagindo com o contra-baixo, que seria o marido. Aliás, diversas vezes o baixo nas músicas tem a intenção de ser o contraponto masculino para sua voz. No refrão, ela se transforma em Babooshka, uma figura quase oposta à da esposa.

Apadrinhada pelo David Gilmour, com 16 anos Kate Bush já havia composto dezenas de músicas, gravou algumas faixas demo e conseguiu um contrato pela EMI para gravar um álbum no estúdio Abbey Road. Porém, só depois de dois anos de contrato é que o disco começou a ser gravado. O produtor disse que ela era muito jovem, eles estavam ‘maturando’ a artista para então lançá-la como a grande aposta da gravadora. Sobre isso, a própria Kate diz que eles assinaram com ela para segurá-la na gravadora, para que nenhuma outra a contratasse. De qualquer forma, funcionou – ela se desenvolveu ainda mais como artista e fez aulas de dança interpretativa com a professora do David Bowie.

Todas as canções deste disco foram compostas por Kate no piano, e o disco foi co-produzido por ela. A partir daí, o sucesso e prestígio de Kate Bush só aumentou, sendo ela uma das mais autênticas artistas do mundo pop. Dá para dizer que Kate Bush fez a escola das grandes artistas da atualidade, pelo menos as que têm a intenção de incorporar aspectos artísticos, experimentais ou performáticos, como Lady Gaga e Lorde.

Cantarolando: a cabeça confusa ou não de Walter Franco em “Cabeça” (1972)

Read More
Walter Franco
Walter Franco

Cantarolando, por Elisa Oieno

Outro dia cheguei à conclusão de que a minha ideia pessoal de arte é que, para ela ser ao menos interessante, deve conter algum elemento provocativo ou arriscado. Nesse sentido, o Walter Franco é um dos mais instigantes e criativos artistas brasileiros. Com sua cara de bonzinho e postura zen – e talvez até por isso mesmo – é um artista que apareceu para ser ‘maldito’. Ainda mais em um ambiente de descarada privação e vigília da classe artística, como foi Brasil da ditadura militar, a vontade é de provocar, cutucar a onça.

Provavelmente foi essa a intenção quando ele inscreveu a música “Cabeça” para o VII Festival Internacional da Canção (FIC) da Rede Globo, em setembro de 1972. Foi sua primeira grande apresentação, antes de lançar seu primeiro disco cheio, Ou Não (1973). Naquela época tais festivais eram veículos importantes para os artistas mostrarem suas canções a um alcance nacional, e eram submetidas a um juri e à opinião popular da plateia. Vale comentar que a platéia de festivais era conhecida por não ser exatamente comedida ao expressar suas opiniões a respeito dos artistas e suas performances. Se gostavam, aplaudiam apaixonadamente. Se não gostavam, ou discordavam das decisões do júri, vaias ensurdecedoras e até raivosas. Diz-se que esse comportamento específico das platéias demonstra quase que um desabafo, uma necessidade de opinar e ter voz, uma reação inconsciente das pessoas ao ambiente controlado e reprimido imposto à sociedade sob a ditadura.

“Cabeça” é uma faixa estranha pra caramba, gravada em várias camadas sintetizadas de voz, e foi apresentada no festival com Walter Franco fazendo uma das camadas ao vivo, sobre as gravações em fita. Já esperando as óbvias vaias, ele ficou satisfeitíssimo com sua performance, que conquistou também o juri.

As vaias eram esperadas, porém para coroar o elemento ‘maldito’ de sua apresentação, Walter foi premiado com a desclassificação de sua música do festival, e com a demissão do juri inteiro, que pretendia dar a ele o primeiro lugar. O juri era formado por Nara Leão, Rogério Duprat, o poeta concretista Décio Pignatari, os jornalistas Roberto Freire e Sergio Cabral, e o pianista João Carlos Martins. Sobre a desclassificação, nunca houve uma explicação. Na verdade, nem sobre a demissão do juri, que foi substituído por um outro que deu o primeiro prêmio ao ‘Fio Maravilha’, do Jorge Ben.

A canção “Cabeça” parece mesmo uma música da cabeça humana em seu estado caótico. A ideia é representar ‘vários personagens que nos habitam interiormente, várias inflexões, aquela coisa toda’, como o próprio definiu em uma entrevista certa vez. Parece muito a sensação que dá quando nos sentamos para ficar em silêncio meditativo. Logo a cabeça começa a gritar, assustar, bagunçar, achar engraçado, entender, desentender… é muito fácil ficar com a cabeça confusa.

“Que é que tem nessa cabeça irmão/ Que é que tem nessa cabeça ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir ou não”

Icônica capa do disco “Ou Não”, de 1973, em que está a faixa “Cabeça”

Há também diversas interpretações. Dizem que, além do sentido universalmente humano, também é uma forma de representar os tempos caóticos e confusos da época. Aliás, a frase “que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir, irmão” é meio ameaçadora, e, colocando em um contexto de ditadura militar, ganha ainda mais um sentido especial. Ainda mais considerando que ele próprio já havia sido preso, daquelas prisões aleatórias que vira e mexe atormentavam especialmente a classe artística. Qualquer governo morre de medo do que tem na cabeça de um artista, não? Talvez até de forma inconsciente uma experiência e um ambiente desses certamente influencia o que se produz artisticamente.

Talvez por isso mesmo que naquela época tenha surgido tanta coisa inovadora, verdadeiramente provocadora e interessante. Talvez por isso mesmo… Ou não.

Cantarolando o antigo cântico fúnebre de “Lyke Wake Dirge”, do Pentangle (1968)

Read More
Pentangle
Pentangle

Cantarolando, por Elisa Oieno

Pentangle era uma banda fascinada por temas medievais, pela mitologia e música tradicional britânicas. O som deles é tão distinto que a classificação ‘folk-jazz’ parece muito simplista, mas até que dá uma boa ideia. A marcante voz feminina do grupo pertence a Jacqui McShee, co-fundadora do grupo ao lado do violonista John Rebourn.  Àquela altura, John já dividia um flat com Bert Jansch e os dois já se apresentavam em diversos cafés, os pequenos ‘clubes de folk’ pela Inglaterra, os recantos hipsters da época. Com um estilo de violão de escola clássica e tradicional, mas combinada com o moderno jazz e incorporando elementos do blues, Bert e John formariam uma parceria ilustre no mundo do ‘folk revival’ dos anos 60 [a propósito, já falei um pouco sobre ‘folk revival’e do Bert Jansch aqui nesta coluna há um tempinho, vejam lá!]. Naturalmente, Bert passou a integrar a formação do Pentangle.

John Rebourn e Bert Jansch

Vale lembrar que Bert Jansch foi um dos mais influentes artistas do folk britânico. Ele muitas vezes cantava e tocava canções antigas e tradicionais fazendo-as soar modernas e ‘cool’, ao invés de teatrais e bobinhas. Isso tudo com uma habilidade impressionante no violão, mas que passa longe, muito longe do firulento. A influência do Bert Jansch também ultrapassa o estilo meramente ‘folk’ – Jimmy Page, Johnny Marr, Paul Simon e Neil Young, por exemplo, já se declararam fãs e admitiram influência dele em seus próprios estilos. Certa vez, Neil Young afirmou que o Bert Jansh está para o violão assim como o Jimi Hendrix está para a guitarra elétrica.

Dito isso, vamos à canção cantarolada de hoje. Apesar da distinta cama de violões do Pentangle e de sua ‘cozinha’ jazzística do contra-baixo de Danny Thompson e da bateria de Terry Cox, o forte da faixa “Lyke Wake Dirge” é a longa melodia e as vozes em coro. A parte instrumental é singela, e serve apenas para dar um suporte ao tom solene e ancestral desse cântico fúnebre.

“Lyke Wake Dirge” é tipicamente uma canção folk. A letra é em inglês arcaico, um dialeto da região de Yorkshire, norte da Inglaterra. O sotaque do pessoal dessa região é fortemente influenciado por esse dialeto. Trata-se de um poema tradicional medieval, porém é provável que tanto o poema quanto o cântico tenha origens pré-Cristãs, ou seja, deve ter surgido originalmente de um ritual ou tradição do povo celta. Do jeitinho que os artistas do folk revival gostam.

Porém, as imagens e a idéia da letra que se tem registro é totalmente cristã. É um cântico para ser entoado no momento em que se vela um falecido. A palavra ‘lyke’ significa cadáver, inclusive uma de suas variações é “lich”, uma criatura mitológica do morto-vivo, o ser cadavérico, como o Lich da Hora da Aventura, por exemplo. Mas nesse caso quer dizer simplesmente ‘morto’ mesmo. “Wake” é no sentido de ‘watch’, velar o corpo. E ‘dirge’, traduz-se como hino fúnebre.

A mensagem não é lá muito confortante, como era de se esperar, já que é um cântico da Idade das Trevas. É meio que um aviso que se você, no caso o falecido, não levou uma vida de caridade, irá espetar os pés nos espinhos do pântano do purgatório. E vai doer. Você também não conseguirá passar pela ponte estreita em direção aos céus, e irá cair em chamas. Porém, os versos sempre terminam com a reza “E que Cristo receba sua alma” [And Christe receive thy saule]. Quem fica, pelo menos está na torcida pra que dê tudo certo para o coitado.

Apesar de a temática ser fúnebre e sombria, a Lyke Wake Dirge do Pentangle não se esforça para manter um tom soturno e triste, mas sim preza pela beleza da melodia e pela homenagem à tradição. E faz isso de uma maneira inconfundível. A faixa está no disco ESSENCIAL “Basket of Light”, de 1969.

Cantarolando: os climas pesados de “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones (1969)

Read More
Rolling Stones

Cantarolando, por Elisa Oieno

O ambiente da clássica “Gimme Shelter” é tenso. Uma eletricidade estática no ar, um clima carregado como naqueles momentos antes de cair uma tempestade. Também pudera, já que os tempos estavam começando a ficar sombrios: era o auge da Guerra do Vietnã, a garotada estava sendo convocada pra morrer, protestos violentamente reprimidos ao redor do mundo.

Esse contexto geral influenciou o mood do disco “Let it Bleed”, mas também havia o clima interno da banda, que estava meio pesado com a expulsão de Brian Jones em razão de sua deterioração física e psicológica por conta do abuso das drogas. Um mês após sua demissão, Brian Jones morreu – ou foi assassinado, como alguns afirmam.

Para coroar, no fim daquele ano ocorreu o Festival de Altamont, que reuniu alguns dos principais artistas da época e uma multidão de jovens. A intenção era ser como um outro Woodstock, mas algo havia mudado. O clima não era mais de paz e amor, era de revolta e desilusão. Estava carregado de tensão e hoje o festival é mais lembrado como um evento violento e trágico. Durante os shows estavam surgindo diversos focos de brigas e confusão. Até que no show do Rolling Stones, um rapaz que supostamente estava armado foi espancado até a morte pelos seguranças – aliás, a segurança era feita pelo grupo de motoqueiros Hell’s Angels, conhecidos pela conduta violenta… alguma merda ia dar, né. Além da morte desse rapaz, houve um atropelamento e um afogamento durante o festival.Resultado de imagem para rolling stones altamont 1969

Mas, além do cenário apocalíptico, das imagens violentas e do clima tenso e elétrico de Gimme Shelter, a gravação desta faixa também tem uma peculiaridade sombria, especificamente na desoladora e brilhante performance da cantora de soul Merry Clayton, que canta o refrão da música.

 

Merry foi chamada por acaso para a gravação dos vocais, no meio da madrugada. Eles precisavam uma voz feminina para o refrão e a cantora que queriam não estava disponível. Mesmo estando em um estágio avançado da gravidez, ela aceitou. Apareceu no estúdio com bobes nos cabelos e um barrigão, terminou a gravação em apenas três takes. Queria voltar logo para casa e dormir, e entregou uma performance de deixar o queixo caído. Neste áudio isolado dos vocais, dá para ouvir os Stones impressionados no estúdio.

Porém, pouco depois de voltar para casa, Merry sofreu um aborto espontâneo, o que a fez passar por um período extremamente difícil. Ela afirma que passou anos sem conseguir ouvir a Gimme Shelter, após alguns anos acabou superando o trauma e até passou a cantar sua própria versão de Gimme Shelter, a canção que a fez famosa.

Merry Clayton fez sua carreira como cantora de suporte de diversos artistas como Ray Charles e Carole King, sendo uma voz muito reconhecida. Está na ativa até hoje, porém desde 2015 se recupera de um acidente de carro que a fez ter suas duas pernas amputadas. Pesado.


“Gimme Shelter” é totalmente conectada com o que estava acontecendo ao seu redor quando foi escrita, tanto que é tida como um dos símbolos do fim da era hippie “paz e amor”. E ainda permanece impactante, como uma canção clássica consegue.

As minas do rock de “Gente Fina é Outra Coisa” (1973), das Cilibrinas do Éden

Read More
Cilibrinas do Éden
Cilibrinas do Éden

Cantarolando, por Elisa Oieno

Após sair – ou ser saída – dos Mutantes, Rita Lee teve que começar tudo de novo. Desta vez, representando definitivamente sua emancipação musical e cortando o cordão umbilical que ainda restava com os irmãos Baptista, voltou de um período sabático em Londres com o icônico cabelo vermelhaço e foi convidada para fazer um show em um mega festival da gravadora Philips, ocasião em que pensou ser uma boa para montar uma banda nova.

O nome escolhido para a banda foi Cilibrinas do Éden, inicialmente uma dupla formada por Rita Lee e Lucia Turnbull. As canções eram acústicas e valorizavam as vozes de Rita e Lucia, com beleza e sutileza. As letras tinham uma conotação rebelde e o ponto de vista era sempre feminino, como nessa “Gente Fina é Outra Coisa”:

 

E eu sei que você está com medo de dar
E o que vão pensar
Não vá se misturar com esses meninos cabeludos
Que só pensam em tocar
E você escuta o papai dizendo

Que gente fina é outra coisa
Mas gente fina é outra coisa

Esse trecho representa praticamente todas as meninas adolescentes se rebelando contra os pais, que acabaram de descobrir o rock, e, consequentemente descobriram os meninos cabeludos que tocam rock. Na canção, uma garota está tentando convencer o amigo a não se render aos valores ‘caretas’ do pai dele. Nas palavras do censor – sim, a música foi censurada: “Na letra em exame, uma jovem insurge-se contra o pátrio-poder, ao tentar persuadir um amigo a desacreditar de seu pai para juntar-se a um grupo juvenil de comportamento duvidoso”.

A apresentação de estréia do Cilibrinas do Éden no festival foi um fracasso. Talvez porque em 1973 o público não estava em clima de sutilezas, as ‘minas do rock’ foram vaiadas impetuosamente. Possivelmente foi um problema parecido com a apresentação do Incredible String Band no Woodstock, sobre a qual eu já falei nessa coluna um tempo atrás..Image result for cilibrinas do éden phono 73

A própria Rita Lee, em sua biografia, diz que a apresentação foi frívola, tolinha, coisa de menininha, estando inclusive usando uma tiara de joaninha e Lucia, asas de anjinho no show – apesar de as músicas não terem nada de tolinho.

Porém, vale dizer que algo ser feminino e sutil é muito diferente de ser bobinho. Mas em 1973 – e, cá entre nós, até hoje é meio assim – o rock ainda não tinha percebido isso direito, então as mulheres tinham que fazer barulho e terem uma postura mais agressiva para serem ouvidas. Se uma mulher se metesse a tocar violão ou guitarra, ela tinha que ser a fodona para ser levada a sério. E Lucia Turnbull era – inclusive, na época em que andava com os Mutantes, sempre era desafiada por Sergio Dias, sabidamente vaidoso com sua habilidade no instrumento. Lucia é considerada a primeira guitarrista mulher do Brasil.

Então, após a apresentação do festival, Rita e Lucia resolveram deixar a banda mais elétrica e mais rock’n’roll. Convidou Luis Sérgio Carlini e do baixista Lee Marcucci e entraram no estúdio para gravar. Terminadas as sessões de gravação regadas a ácido, o resultado foi um disco que nunca foi lançado. Esse disco se tornou uma raridade, e foi relançado em 2000 como pirata, pelo selo Nosmokerecords.

Essa formação é o que viria a se tornar o Tutti Frutti, tendo a Rita Lee como destaque da banda, por imposição da gravadora. Isso acabou gerando desconfortos, e Lucia deixou o grupo após o primeiro disco “Atrás do Porto Tem Uma Cidade” (1974).

A partir de então, Rita Lee se tornou a Rita Lee popstar que conhecemos hoje. Lucia continuou gravando, e participou de discos importantes de diversos artistas, desde Guilherme Arantes até Gilberto Gil, mas hoje leva uma vida mais lo profile.

Rita Lee tem um papel importante e, durante muito tempo, quase que exclusivo no rock nacional: o de ser uma referência feminina dentro de um estilo tão masculino. Referências femininas ajudam a vida das meninas que querem – e precisam – se rebelar, se emancipar. Assim como a moça roqueira da “Gente Fina É Outra Coisa”, as referências femininas, em qualquer área da vida, são aquela voz amiga que não te deixa se conformar com valores ultrapassados, e te ajuda a se libertar. O que mais quer uma mina do rock, afinal?

Cantarolando: o folk torto de “Cyanide Breath Mint”, do Beck (1994)

Read More
Beck

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção cantarolada de hoje faz parte do disco “One Foot In The Grave”, de 1994 – o quarto álbum de Beck, gravado e lançado pelo selo independente K Records. Esse disco foi gravado logo antes, porém lançado depois de “Mellow Gold” (1994), o improvável álbum de sucesso completamente anti-comercial que contém o hit ‘Loser’, talvez até hoje o refrão mais conhecido de Beck.

Image result for beck folk 90s

Diferente de “Mellow Gold”, que incorpora em seu som elementos do folk, rock, psicodelia e hip-hop, “One Foot…” é essencialmente um disco folk. Prioriza as letras e as levadas simples acústicas e a estética lo-fi. Porém, com aquela vibe forte dos anos 90, de uma aparente – e completamente calculada – displicência, desencantamento e decadência, com letras irônicas e imagens ácidas e desiludidas. Muito de Dylan e muito de Nirvana.

Também diferente de “Mellow Gold”, o álbum foi um fracasso comercial, não emplacando nenhum single em parada de sucesso, apesar de ter ganhado a atenção da crítica.

“Cyanide Breath Mint” é uma das minhas favoritas do Beck, e talvez seja especial para ele também. Isso porque foi o nome que ele escolheu para sua própria editora de música, Cyanide Breath Mint Music, através da qual publicou e distribuiu diversos dos seus próprios álbuns e singles, além de trabalhos de outros artistas como Jon Spencer Blues Explosion e até um disco do Johnny Cash.

Beck

Talvez a escolha do nome para a editora também esteja relacionada com o sentido da própria canção, que possivelmente se refere à indústria de música. Meio que como um veneno que faz você ficar cheiroso e apresentável, a balinha de menta de cianeto.

Logo de cara, a primeira frase da canção é altamente identificável por qualquer adolescente e jovem adulto em praticamente qualquer situação: “Definitivamente este é o lugar errado para se estar”, mostrando imagens de decadência como sangue no colchão e um moleque bebendo fogo, talvez uma referência ao uso de drogas e à molecada meio perdida, cenário muito presente na música alternativa desiludida com o estilo de vida dos anos 90.

Depois, uma sequência de imagens que por incrível que pareça, faz muito sentido. Especialmente as pessoas apertando as mãos delas mesmas e cuidando delas mesmas. Uma imagem forte tanto de uma sociedade individualista, quanto de uma indústria ensimesmada, tal como a da música.

Definitely this is the wrong place to be

There’s blood on the futon

There’s a kid drinking fire

Going down to the sea

They got people to meet

Shaking hands with themselves

Looking out for themselves

Uma das minhas frases favoridas da letra é: “I’ve got a funny feeling, they got plastic in the afterlife” (eu tenho uma sensação estranha, que eles têm plástico na vida após a morte). O que ele vê é tão sintético e falso que dá a impressão até de ultrapassar a vida, como se o falso, ao menos para eles, fosse maior e mais importante que o verdadeiro. Isso pode ser encarado tanto como uma crítica ao estilo de vida de consumo, quanto à superficialidade do showbizz.

Image result for beck 90s

Como vocês devem ter percebido, dá para ficar viajando nessa letra, assim como dá para achar significados tanto pessoais quanto sociais e específicos nas letras de Bob Dylan. Mas o mais interessante aqui é o tom de sinceridade e confidencialidade, o que torna efetivamente “Cyanide Breath Mint” uma canção folk que reflete com precisão o espírito de um jovem “perdedor” observando o mundo, não com melancolia, mas simplesmente de saco cheio.

Cantarolando: o sermão de “God is Alive, Magic is Afoot”, de Buffy St. Marie (1969)

Read More
Buffy St. Marie
Buffy St. Marie

Cantarolando, por Elisa Oieno

Originalmente escrita por Leonard Cohen, a letra dessa canção é na verdade um poema que faz parte do livro “Beautiful Losers”, romance escrito em 1966, antes de ele ingressar na carreira de cantor/compositor. O trecho, chamado “God Is Alive”, tem todo um jeito de sermão, de pregação, até mesmo de mantra. É um belo exemplo da a habilidade lírica de Cohen, às vezes misteriosa e mística, às vezes meio maldita e crítica ou, nesse caso, tudo isso ao mesmo tempo. Esse texto é considerado pela crítica literária um dos melhores de Leonard Cohen.

O poema virou canção interpretada pela conterrânea de Leonard Cohen, Buffy St. Marie. A cantora canadense folk foi popular nos anos 60, além de ser uma das grandes expoentes no mundo pop da etnia indígena Cree, nativos da América do Norte. Ela foi representante do movimento Red Power, que reivindicava o reconhecimento de direitos civis e de territórios indígenas. Os movimentos indígenas eram sistematicamente atacados e silenciados pelo governo. Por causa disso, no início dos anos 70, a cantora entrou para a ‘lista negra’ das rádios americanas, através de avisos enviados diretamente do governo aos DJ’s e apresentadores dos programas. Ou seja, sua música foi praticamente banida em território americano durante o período.

A versão gravada pela Buffy St. Marie é basicamente uma declamação desse poema, mas com toda a força e carga energética que a sua interpretação carrega. Para acompanhar sua voz de entonação poderosa, um violão expressivo e eventualmente alguns efeitos sintéticos na voz, algo raramente utilizado entre os cantores folk. Aliás, o álbum “Illuminations”, de que faz parte esta faixa, é um disco folk considerado experimental, pelo uso de sintetizadores e sons não convencionais, e foi o primeiro disco estéreo quadrofônico – que atualmente chamamos de “surround 4.0”.

 

“Magic is Afoot, God is Alive”, no fim das contas, é tão forte que não é necessário literalmente compreender um sentido para perceber o impacto de seu conteúdo. É possível que esteja falando ou não de um Deus. Pode estar falando de mágica bíblica, cristã, pagã, ancestral, ou de mágica nenhuma. Mas sem dúvida, dá aquela sensação meio hipnotizante típica de quando se ouve um sermão muito bem pregado, ou um mantra muito sonoro, daqueles que te levam para um estado profundo de atenção e reflexão.

Cantarolando: o Sex Pistols pós-punk de “Religion II” (1978), do PIL

Read More
PIL

Cantarolando, por Elisa Oieno

Essa canção provavelmente seria dos Sex Pistols, caso eles tivessem continuado. Foi escrita por John Lydon – o então Johnny Rotten – durante a turnê dos Sex Pistols nos Estados Unidos. Naquele ponto, pouco antes de a banda se separar no auge do sucesso comercial, eles já estavam minguando sem interesse de debuçarem em novas composições.

Os versos revoltados de “Religion II” são resultado de um período altamente criativo que acometeu Lydon durante aquela época, e que seria posteriormente direcionado para o PIL:

Vitrais mantém o frio lá fora enquanto os hipócritas se escondem dentro

Com as mentiras de estátuas em suas mentes

Onde a religião cristã os deixou cegos

Onde eles se escondem e rezam para Deus de uma cadela escrita ao contrário [dog], não por uma raça, um credo, um mundo, mas por dinheiro. Eficaz. Absurdo!

O único Pistol que se mostrou entusiasmado com a canção foi Sid Vicious, mas antes que fosse possível concretizar sua primeira contribuição criativa ao lado de Rotten, ele mergulhou fundo demais na heroína desembocando num estado caótico e o trágico resto da história vocês já sabem.

Após o fim dos Pistols, quebrado, John Lydon conseguiu reunir Keith Levene, um dos fundadores do Clash, na guitarra, o fã de rock progressivo Jah Wobble no baixo, e Jim Walker na bateria. Essa foi a primeira das inúmeras formações do PIL, mas pode-se dizer que é a formação “clássica”, já que as contribuições dos três membros para dar suporte à voz e aos versos incisivos de Lydon foram essenciais para o desenvolvimento da identidade sonora da banda.

A ideia era romper definitivamente com a experiência dos Sex Pistols enquanto banda, e ao mesmo tempo se aproveitar dela. A capa do disco, remetendo a uma capa de revista estampando o conhecido rosto de John Lydon, com um escrito enorme “imagem pública”, é certamente uma referência ao que os Sex Pistols se tornaram para ele, com a ajuda de Malcolm McLaren: uma questão de imagem, fama, moda. Ele dizia que estavam virando um Kiss. Essa provocação também está no próprio nome da banda, “Imagem Pública Ltd.”, parecendo a razão social de uma empresa, escancarando o que uma banda de rock realmente é, meio que como uma meta-crítica, para romper com qualquer discurso de hipocrisia.

O som desse primeiro disco do PIL é muito simbólico quanto à transição do Sex Pistols para essa outra coisa, mais experimental e artística. Uma transição do punk para o que seria chamado de pós-punk. Aliás, é um registro muito preciso do nascimento desse novo estilo que seria um dos mais importantes dos anos 80.

A faixa “Religion II” é um belo exemplo disso. Escrita com a pungência lírica de um Johnny Rotten dos Sex Pistols, irritado com a hipocrisia da Igreja Católica, especialmente no contexto do extenso e sangrento conflito civil entre Reino Unido e Irlanda, o resultado é o de uma canção incisiva, impactante e extremamente consciente, que nos entrega um John Lydon do PIL: a banda com um som completamente novo e experimental.

A canção espacial filhote de Syd Barrett: “Far Out”, do Blur (1994)

Read More
Blur

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção de hoje está no disco “Parklife” (1994), um clássico do britpop dos anos 90. A singela faixa, descaradamente barretteana, é a única do disco escrita e cantada pelo baixista Alex James.

A semelhança desta faixa às canções do Syd Barrett é talvez a primeira coisa que logo de cara chama a atenção: o estilo da melodia, a voz com aquele sotaque britânico carregadão, a temática espacial. Tãão Syd. Difícil não gostar. Isso tudo condensado em pouco mais de um minuto e meio. “Far Out” é daquelas pequenas joias musicais que vira e mexe aparecem em grandes álbuns. Apesar de curtas, são muito redondinhas e suficientes.

De fato, essa faixa é um belo trabalho de edição, já que decidiram retirar o refrão da versão original. O refrão é bem bom, na verdade, e originalmente a canção é mais rápida e energética (veja aqui). Mas a versão curtinha que entrou para o disco, na minha opinião, ficou mais interessante justamente por ter fugido um pouco do formato pop mais previsível, o que realçou a letra e principalmente a vibe.

A letra, uma lista bem-bolada de nomes de luas e estrelas, foi feita por um Alex James visivelmente entusiasta da astronomia:

I spy in the night sky, don’t I?
Phoebe, Io, Elara, Leda, Callisto, Sinope, 1980, S, 2, 7, Janus, Dione, Portia – so many moons!
Quiet in the sky at night, hot in the milky way
Outside in
Vega, Capella, Hadar, Rigel, Barnard’s Star, Antares, Aldebaran, Altair, Wolf 359, Betelgeuse, Sun

Aliás, o Blur é tão entusiasta de astronomia, que eles ajudaram a financiar e a popularizar o projeto da Agência Espacial Britânica chamado “Beagle 2”, o qual em 2003 levou um pequeno veículo espacial – vou chamar carinhosamente aqui de ‘carrinho’ – para Marte a fim de pesquisar sobre novas formas de vida. Nesse projeto, a banda compôs uma canção que seria levada pelo Beagle 2 até Marte, para tocar assim que o carrinho atingisse o solo marciano, avisando à base na Terra que chegou intacto para completar a missão. Infelizmente, o carrinho perdeu contato com a Terra, porém 12 depois, em 2015, a NASA o encontrou. Então provavelmente os marcianos puderam apreciar a canção do Blur, afinal.

Veja abaixo a versão ‘cheia’ de “Far Out”, mesclada à música de Marte. Curtinha ou ‘normal’, essa música é um belo britpop espacial, que às vezes é esquecida no meio dos 52 minutos intensos de Parklife.