“Axé: Canto do Povo de um Lugar” (2017): o auge e a decadência do gênero que chegou a ser o mais popular no país

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Direção: Chico Kertész
Duração: 1h54min
Ano: 2017

Foram pouco mais de duas décadas de sucesso. De suas origens afro no Carnaval da Bahia no final da década de 80 até o final da década de 2000, o axé dominou os meios de televisão e rádio. Mesmo para quem odeia o gênero, o longa é interessante para quem produz ou vive de música, ou mesmo tem curiosidade de saber como movimentos musicais não surgem da noite para o dia. “Axé: Canto do Povo de um Lugar” faz questionar essa curiosa trajetória: Por que o gênero fez tanto sucesso? Por que não se renovou? Essas perguntas e algumas respostas são entregues nesse curioso documentário.

Todos os cantores, produtores e empresários que tiveram importância nessa história dão seu depoimento. Há destaque para momentos como a explosão do Olodum (com destaque para o show com Paul Simon no Central Park e a gravação do clipe em Salvador com Michael Jackson), o “fenômeno” do É o Tchan e a carreira milionária de Ivete Sangalo, que em 2007 gravou o DVD mais vendido da história, seguido apenas pelo U2.

Sincero em seus momentos finais ao abordar o porquê da decadência: A exclusão dos cantores negros, a ganância dos produtores e empresários, a exploração até os limites e a falta de renovação e investimento no cenário, “Axé: Canto do Povo de um Lugar” mostra com eficiência que sim, de 1986 até 2010 (culminando na gravação de Ivete Sangalo no Madison Square Garden), o boom do axé music de fato existiu e o gênero mesmo cambaleante, está ai até hoje. Você pode até torcer o nariz, mas é inegável que ele fez parte da história da cultura popular do país.

Vencedor do Emmy “George Harrison: Living in the Material World” estreia na Netflix

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George Harrison

George Harrison Living In The Material World

Ano: 2011
Gênero: Documentário
Duração: 208 min
Direção: Martin Scorsese

Quando falam que George Harrison é o Beatle que mais mudou não é por menos. Dividido entre o mundo material e o espiritual, o irmão do meio do grupo britânico não era nem estrela como Paul McCartney, nem prolífico como John Lennon. O homem dos acordes solitários sentiu o mesmo peso d afama que os demais integrantes, mas foi ele quem passou pela transformação mais curiosa. Após anos ofuscado pelo talento de Mcartney e Lennnon para a composição das letras, “Something” revelou um artista genial.

Martin Scorsese nos brinda com mais um excelente documentário. Indo da explosão da Beatlemania, seus efeitos nos integrantes e a consequente dissolução da banda. Mas é ao abordar à fase solo do artista que o longa ganha sua energia. O documentário parece mesmo interessado em nos revelar o caráter espiritual de George Harrison e a forma como o hinduísmo modificou sua vida e carreira. Das viagens de ácido à meditação, sua parceria com o indiano Ravi Shankar e os questionamentos a respeito da fé, são detalhados em entrevistas e imagens de arquivo, onde jornalistas questionam essa devoção. É curioso ver quando anos depois em sua colaboração com o grupo de comédia britânico Monty Python, ele produz “A Vida de Brian”, sátira religiosa que gerou desavença com grupos católicos mais fervorosos.

Recheado com entrevistas e imagens de arquivo, o documentário ainda traz passagens importantes, como gravação de “All Things Must Pass” em 1970, seu lendário álbum triplo com a colaboração com o produtor Phill Spector, O concerto em Bangladesh e shows com o grupo The Traveling Wildburys (que contava com ninguém menos que Bob Dylan e Roy Orbison) Mas nada tão angustiante como o relato surpreendente de quando um homem invadiu sua casa em 1999, ferindo ele e sua esposa Olivia. Aquela violência e a proximidade com a morte fazem o artista repensar a vida.

Não é de estranhar portanto que o maior medo do “Beatle quieto” fosse com a forma como iria fazer a transição. Em Berlim, antes da fama, quando o grupo conhece os artistas Klaus Voorman e Astrid Kirchherr (passagem essa retratada no filme “Backbeat – Os Cinco Rapazes de Liverpool”) a fotografa diz que através da foto que tirou de George num momento de luto pela morte repentina de Stu Sutcliffe, outrora baixista dos Beatles, conseguiu captar um momento de iluminação do rapaz. Não obstante em seu leito de morte, a esposa de Harrison, Olivia, revela que o quarto se iluminou com a passagem do marido. E foi essa luz que George Harrison deixou conosco em suas letras e riffs geniais.

O lixo, a miséria e a violência: dez anos de “Botinada – A Origem do Punk no Brasil”

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Botinada

Botinada - A História do Punk no Brasil
Gênero: Documentário

Ano: 2006
Direção: Gastão Moreira

Em certo ponto do documentário “Botinada – A Origem do Punk No Brasil”, dirigido por Gastão Moreira, um dos entrevistados compara a época brutal das gangues punks à das torcidas organizadas de futebol. Se o contexto para a nova crescente de violência nos estádios é a crise econômica e o desemprego, nos final dos anos 70 era o descaso e a repressão militar. A diferença é que hoje, nada parece surgir da arte, em especial do rock, para nos retirar deste terrível torpor. Mas em 1982, o movimento punk havia mudado a cara do Brasil.

Repleto de entrevistas e imagens de época nos é apresentada a trajetória do punk no Brasil. Tendo sua origem em São Paulo, embora alguns creditem o berço ao estado de Brasília, o movimento tem inicio de forma curiosa, quase que torpe (com o punk realmente tinha de ser assim) com a influência do filme Warriors de 1979, os primeiros vinis de difícil acesso de Ramones e Sex Pistols e qualquer informação deturpada em imagens de revistas da época que ainda não entendiam direito o que era ser punk.

Lutando para se levantar sob o rock progressista e a MPB e sobreviver a febre da discoteca, o movimento ganha força no rádio através de programas de rádio capitaneados como o “Rock Special” de Marcelo Nova em Salvador e principalmente pelo saudoso Kid Vinil que aparece aqui como uns dos principais divulgadores do movimento em São Paulo. LPs se transformam em fitas K7 e logo surgem as primeiras bandas como Cólera, AI-5, Condutores de Cadáver e Inocentes.

Mostrando a origem humilde com a Banda do Lixo, sem deixar de lado momentos obscuros (a rivalidade brutal entre os punks do ABC e os de São Paulo) passando pela gravação de “Grito Suburbano”, primeiro registro oficial em vinil das bandas punks nacionais, até o auge do movimento e sua consequente derrocada com o festival “O Começo do Fim do Mundo” em 1982, “Botinada: A História do Punk no Brasil” é um excelente registro desse cenário caótico e maravilhoso da história do Rock no país.

Cinephonia: “20.000 Dias na Terra” – Um dia de análise existencial na vida do cantor Nick Cave

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Cinephonia, por Rodrigo Reis e Bárbara Ribeiro

20.000 Days On Earth
Ano: 2014

Direção: Iain Forsyth e Jane Pollard
Duração: 1h e 38min.
Gênero: Documentário.

Dizem que o ser humano é a soma de todos os seus dias. Acontece que nem sempre temos a capacidade de distinguir se essa adição é advinda de eventos reais ou fantasiada da forma como gostaríamos de recordar. Aqui, nos é apresentado um registo biográfico quase que onírico, ainda que consciente da sua proposta. O objeto de estudo é um dia fictício na vida do músico Nick Cave, cujo resultado de seus supostos 20 mil dias de existência na Terra, é o interesse desse documentário.

Aqui os diretores Iain Forsyth e Jane Pollard em parceira com o próprio Cave fazem um registro não convencional. O músico narra sua própria trajetória desde o momento que acorda e tem conversas imaginarias enquanto dirige, com pessoas que fizerem parte dessa soma, como o ator Ray Winstone e a cantora Kylie Minogue. São, como ele mesmo afirma, “fantasmas do passado”, cuja sua maior preocupação é o papel deles na sua memória e se de alguma forma ele poderá honrar a passagem deles em sua vida.

As recordações, aliás, são o grande mote dessa autoanálise existencial que Nick Cave se propõe a fazer de sua vida. Durante uma sessão de terapia, é sintomático que em certo momento ele releve ao terapeuta que seu maior medo é “perder a memória”. Após anos de abuso com as drogas, ao analisar fotos antigas, diz “que é difícil se lembrar dos anos 80”. E é dai que o material ganha força, pois o cantor não é só fruto de suas lembranças, mas de suas sensações. A influência da cidade e do clima; uma passagem de um livro apresentada por seu pai na infância e o poder de metamorfose do cantor ao subir no palco é a chave para essa transformação no que ele é hoje.

Talvez 20000 dias na Terra cause estranheza por mostrar o cantor como ele vê a si próprio. Mas se tratando de Nick Cave, cujas letras e performances são tão subjetivas, não é estranho e muito mais reconfortante ver a soma de seus dias desta forma, onde o resultado é uma carreira genial no mundo do Rock.