Cantarolando: o folk torto de “Cyanide Breath Mint”, do Beck (1994)

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Beck

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção cantarolada de hoje faz parte do disco “One Foot In The Grave”, de 1994 – o quarto álbum de Beck, gravado e lançado pelo selo independente K Records. Esse disco foi gravado logo antes, porém lançado depois de “Mellow Gold” (1994), o improvável álbum de sucesso completamente anti-comercial que contém o hit ‘Loser’, talvez até hoje o refrão mais conhecido de Beck.

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Diferente de “Mellow Gold”, que incorpora em seu som elementos do folk, rock, psicodelia e hip-hop, “One Foot…” é essencialmente um disco folk. Prioriza as letras e as levadas simples acústicas e a estética lo-fi. Porém, com aquela vibe forte dos anos 90, de uma aparente – e completamente calculada – displicência, desencantamento e decadência, com letras irônicas e imagens ácidas e desiludidas. Muito de Dylan e muito de Nirvana.

Também diferente de “Mellow Gold”, o álbum foi um fracasso comercial, não emplacando nenhum single em parada de sucesso, apesar de ter ganhado a atenção da crítica.

“Cyanide Breath Mint” é uma das minhas favoritas do Beck, e talvez seja especial para ele também. Isso porque foi o nome que ele escolheu para sua própria editora de música, Cyanide Breath Mint Music, através da qual publicou e distribuiu diversos dos seus próprios álbuns e singles, além de trabalhos de outros artistas como Jon Spencer Blues Explosion e até um disco do Johnny Cash.

Beck

Talvez a escolha do nome para a editora também esteja relacionada com o sentido da própria canção, que possivelmente se refere à indústria de música. Meio que como um veneno que faz você ficar cheiroso e apresentável, a balinha de menta de cianeto.

Logo de cara, a primeira frase da canção é altamente identificável por qualquer adolescente e jovem adulto em praticamente qualquer situação: “Definitivamente este é o lugar errado para se estar”, mostrando imagens de decadência como sangue no colchão e um moleque bebendo fogo, talvez uma referência ao uso de drogas e à molecada meio perdida, cenário muito presente na música alternativa desiludida com o estilo de vida dos anos 90.

Depois, uma sequência de imagens que por incrível que pareça, faz muito sentido. Especialmente as pessoas apertando as mãos delas mesmas e cuidando delas mesmas. Uma imagem forte tanto de uma sociedade individualista, quanto de uma indústria ensimesmada, tal como a da música.

Definitely this is the wrong place to be

There’s blood on the futon

There’s a kid drinking fire

Going down to the sea

They got people to meet

Shaking hands with themselves

Looking out for themselves

Uma das minhas frases favoridas da letra é: “I’ve got a funny feeling, they got plastic in the afterlife” (eu tenho uma sensação estranha, que eles têm plástico na vida após a morte). O que ele vê é tão sintético e falso que dá a impressão até de ultrapassar a vida, como se o falso, ao menos para eles, fosse maior e mais importante que o verdadeiro. Isso pode ser encarado tanto como uma crítica ao estilo de vida de consumo, quanto à superficialidade do showbizz.

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Como vocês devem ter percebido, dá para ficar viajando nessa letra, assim como dá para achar significados tanto pessoais quanto sociais e específicos nas letras de Bob Dylan. Mas o mais interessante aqui é o tom de sinceridade e confidencialidade, o que torna efetivamente “Cyanide Breath Mint” uma canção folk que reflete com precisão o espírito de um jovem “perdedor” observando o mundo, não com melancolia, mas simplesmente de saco cheio.

Cantarolando: o sermão de “God is Alive, Magic is Afoot”, de Buffy St. Marie (1969)

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Buffy St. Marie
Buffy St. Marie

Cantarolando, por Elisa Oieno

Originalmente escrita por Leonard Cohen, a letra dessa canção é na verdade um poema que faz parte do livro “Beautiful Losers”, romance escrito em 1966, antes de ele ingressar na carreira de cantor/compositor. O trecho, chamado “God Is Alive”, tem todo um jeito de sermão, de pregação, até mesmo de mantra. É um belo exemplo da a habilidade lírica de Cohen, às vezes misteriosa e mística, às vezes meio maldita e crítica ou, nesse caso, tudo isso ao mesmo tempo. Esse texto é considerado pela crítica literária um dos melhores de Leonard Cohen.

O poema virou canção interpretada pela conterrânea de Leonard Cohen, Buffy St. Marie. A cantora canadense folk foi popular nos anos 60, além de ser uma das grandes expoentes no mundo pop da etnia indígena Cree, nativos da América do Norte. Ela foi representante do movimento Red Power, que reivindicava o reconhecimento de direitos civis e de territórios indígenas. Os movimentos indígenas eram sistematicamente atacados e silenciados pelo governo. Por causa disso, no início dos anos 70, a cantora entrou para a ‘lista negra’ das rádios americanas, através de avisos enviados diretamente do governo aos DJ’s e apresentadores dos programas. Ou seja, sua música foi praticamente banida em território americano durante o período.

A versão gravada pela Buffy St. Marie é basicamente uma declamação desse poema, mas com toda a força e carga energética que a sua interpretação carrega. Para acompanhar sua voz de entonação poderosa, um violão expressivo e eventualmente alguns efeitos sintéticos na voz, algo raramente utilizado entre os cantores folk. Aliás, o álbum “Illuminations”, de que faz parte esta faixa, é um disco folk considerado experimental, pelo uso de sintetizadores e sons não convencionais, e foi o primeiro disco estéreo quadrofônico – que atualmente chamamos de “surround 4.0”.

 

“Magic is Afoot, God is Alive”, no fim das contas, é tão forte que não é necessário literalmente compreender um sentido para perceber o impacto de seu conteúdo. É possível que esteja falando ou não de um Deus. Pode estar falando de mágica bíblica, cristã, pagã, ancestral, ou de mágica nenhuma. Mas sem dúvida, dá aquela sensação meio hipnotizante típica de quando se ouve um sermão muito bem pregado, ou um mantra muito sonoro, daqueles que te levam para um estado profundo de atenção e reflexão.

Cantarolando: o Sex Pistols pós-punk de “Religion II” (1978), do PIL

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PIL

Cantarolando, por Elisa Oieno

Essa canção provavelmente seria dos Sex Pistols, caso eles tivessem continuado. Foi escrita por John Lydon – o então Johnny Rotten – durante a turnê dos Sex Pistols nos Estados Unidos. Naquele ponto, pouco antes de a banda se separar no auge do sucesso comercial, eles já estavam minguando sem interesse de debuçarem em novas composições.

Os versos revoltados de “Religion II” são resultado de um período altamente criativo que acometeu Lydon durante aquela época, e que seria posteriormente direcionado para o PIL:

Vitrais mantém o frio lá fora enquanto os hipócritas se escondem dentro

Com as mentiras de estátuas em suas mentes

Onde a religião cristã os deixou cegos

Onde eles se escondem e rezam para Deus de uma cadela escrita ao contrário [dog], não por uma raça, um credo, um mundo, mas por dinheiro. Eficaz. Absurdo!

O único Pistol que se mostrou entusiasmado com a canção foi Sid Vicious, mas antes que fosse possível concretizar sua primeira contribuição criativa ao lado de Rotten, ele mergulhou fundo demais na heroína desembocando num estado caótico e o trágico resto da história vocês já sabem.

Após o fim dos Pistols, quebrado, John Lydon conseguiu reunir Keith Levene, um dos fundadores do Clash, na guitarra, o fã de rock progressivo Jah Wobble no baixo, e Jim Walker na bateria. Essa foi a primeira das inúmeras formações do PIL, mas pode-se dizer que é a formação “clássica”, já que as contribuições dos três membros para dar suporte à voz e aos versos incisivos de Lydon foram essenciais para o desenvolvimento da identidade sonora da banda.

A ideia era romper definitivamente com a experiência dos Sex Pistols enquanto banda, e ao mesmo tempo se aproveitar dela. A capa do disco, remetendo a uma capa de revista estampando o conhecido rosto de John Lydon, com um escrito enorme “imagem pública”, é certamente uma referência ao que os Sex Pistols se tornaram para ele, com a ajuda de Malcolm McLaren: uma questão de imagem, fama, moda. Ele dizia que estavam virando um Kiss. Essa provocação também está no próprio nome da banda, “Imagem Pública Ltd.”, parecendo a razão social de uma empresa, escancarando o que uma banda de rock realmente é, meio que como uma meta-crítica, para romper com qualquer discurso de hipocrisia.

O som desse primeiro disco do PIL é muito simbólico quanto à transição do Sex Pistols para essa outra coisa, mais experimental e artística. Uma transição do punk para o que seria chamado de pós-punk. Aliás, é um registro muito preciso do nascimento desse novo estilo que seria um dos mais importantes dos anos 80.

A faixa “Religion II” é um belo exemplo disso. Escrita com a pungência lírica de um Johnny Rotten dos Sex Pistols, irritado com a hipocrisia da Igreja Católica, especialmente no contexto do extenso e sangrento conflito civil entre Reino Unido e Irlanda, o resultado é o de uma canção incisiva, impactante e extremamente consciente, que nos entrega um John Lydon do PIL: a banda com um som completamente novo e experimental.

A canção espacial filhote de Syd Barrett: “Far Out”, do Blur (1994)

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Blur

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção de hoje está no disco “Parklife” (1994), um clássico do britpop dos anos 90. A singela faixa, descaradamente barretteana, é a única do disco escrita e cantada pelo baixista Alex James.

A semelhança desta faixa às canções do Syd Barrett é talvez a primeira coisa que logo de cara chama a atenção: o estilo da melodia, a voz com aquele sotaque britânico carregadão, a temática espacial. Tãão Syd. Difícil não gostar. Isso tudo condensado em pouco mais de um minuto e meio. “Far Out” é daquelas pequenas joias musicais que vira e mexe aparecem em grandes álbuns. Apesar de curtas, são muito redondinhas e suficientes.

De fato, essa faixa é um belo trabalho de edição, já que decidiram retirar o refrão da versão original. O refrão é bem bom, na verdade, e originalmente a canção é mais rápida e energética (veja aqui). Mas a versão curtinha que entrou para o disco, na minha opinião, ficou mais interessante justamente por ter fugido um pouco do formato pop mais previsível, o que realçou a letra e principalmente a vibe.

A letra, uma lista bem-bolada de nomes de luas e estrelas, foi feita por um Alex James visivelmente entusiasta da astronomia:

I spy in the night sky, don’t I?
Phoebe, Io, Elara, Leda, Callisto, Sinope, 1980, S, 2, 7, Janus, Dione, Portia – so many moons!
Quiet in the sky at night, hot in the milky way
Outside in
Vega, Capella, Hadar, Rigel, Barnard’s Star, Antares, Aldebaran, Altair, Wolf 359, Betelgeuse, Sun

Aliás, o Blur é tão entusiasta de astronomia, que eles ajudaram a financiar e a popularizar o projeto da Agência Espacial Britânica chamado “Beagle 2”, o qual em 2003 levou um pequeno veículo espacial – vou chamar carinhosamente aqui de ‘carrinho’ – para Marte a fim de pesquisar sobre novas formas de vida. Nesse projeto, a banda compôs uma canção que seria levada pelo Beagle 2 até Marte, para tocar assim que o carrinho atingisse o solo marciano, avisando à base na Terra que chegou intacto para completar a missão. Infelizmente, o carrinho perdeu contato com a Terra, porém 12 depois, em 2015, a NASA o encontrou. Então provavelmente os marcianos puderam apreciar a canção do Blur, afinal.

Veja abaixo a versão ‘cheia’ de “Far Out”, mesclada à música de Marte. Curtinha ou ‘normal’, essa música é um belo britpop espacial, que às vezes é esquecida no meio dos 52 minutos intensos de Parklife.

Cantarolando: a rotina de um músico de estúdio em “Session Man”, do Kinks (1966)

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Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção de hoje é “Session Man”, que está no álbum “Face To Face” (1966). É uma descrição da rotina de um músico de estúdio, aquele profissional que não faz parte das bandas, mas participa das gravações e álbuns tocando e criando arranjos de algum instrumento, geralmente de forma rápida e eficiente dadas suas habilidades técnicas enquanto músicos.

Alguns desses músicos acabavam ficando conhecidos por ter um estilo próprio bem marcante, como o pianista Nicky Hopkins, que gravou diversos discos do Kinks, e sobre quem eu já falei aqui nesta coluna há um tempinho. Outros acabam deixando a profissão para seguir carreira com suas próprias bandas, como fez o Jimmy Page, que também tocou em algumas faixas dos Kinks.

Existe alguma controvérsia sobre se esta singela canção de pouco mais de dois minutos de duração se refere aos músicos de estudio em geral, ou a um músico específico. É possível também ouvir a música de duas maneiras, uma mais inocente e literal. A outra, em tom sarcástico e ácido.

Importante pensarmos no jeitão do vocalista Ray Davies e a vibe especialmente britânica dos Kinks, que sempre tem uma pontinha de cinismo e sarcasmo, muitas vezes sobre os próprio ‘english way’ de se viver, e geralmente vêm embalados por ótimas melodias. Essa coisa bem britânica e irônica, também muito presente no The Who e no Blur, por exemplo, me faz acreditar mais no tom sarcástico de “Session Man” do que no descritivo neutro que a interpretação literal pode induzir.

Há quem diga que a canção se refere ao Nicky Hopkins. Ele é quem toca habilidosamente o cravo da breve introdução da música. Aliás, o cravo permanece ali, bem no fundo da música mas dando uma ‘graça’, tipicamente como um arranjo de ‘session man’.

Jimmy Page

Há quem diga, ainda, que se refere ao Jimmy Page. Especialmente porque Ray Davies já expressou algumas vezes sua opinião sobre Page: “He’s an asshole”. Eu gosto de ingleses, porque eles ficam se desentendendo o tempo todo e se xingam publicamente com frequência, rendendo boas polêmicas para nós, fãs. Em uma entrevista, Ray Davies contou alguns episódios de Page no estúdio, por exemplo o dia em que os Kinks gravavam a canção “All Day and All of The Night” (1964). Segundo ele, na hora do solo de guitarra do irmão Dave Davies, Page entrou no estúdio e começou a rir e caçoar de suas habilidades na guitarra.

Sendo sobre Hopkins, Page ou ninguém em especial, certamente é possível imaginar tanto a figura de um músico convencido e arrogante, quanto simplesmente a de um profissional com uma relação pragmática com a música, em tom de admiração ou sarcasmo, escolha a que preferir e divirta-se com Kinks.

Cantarolando: A teia de guitarras de “Rain On Tin”, do Sonic Youth (2002)

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Sonic Youth

Cantarolando, por Elisa Oieno

Sabe aquelas músicas que dá um orgulhinho de ouvir? Daquelas que, ao terminar de escutar, dá vontade de chegar na banda, dar um abraço em cada um, e falar em tom embasbacado ‘pô, caras, é isso aí, muito bom mesmo, muito obrigada’. É assim que funciona – pelo menos comigo – com “Rain On Tin”, do disco de 2002 “Murray Street”, do Sonic Youth.

Dá para dizer que “Rain On Tin” é como um resumo de Sonic Youth. Uma definição super-simplificada do que está no prato sonoro servido pela banda ao longo da carreira seria algo como melodia, tensão e improvisações livres. Nisso, “Rain On Tin” é quase literal. Praticamente instrumental, exceto por uma breve introdução cantada por Thurston Moore, para a partir daí desembocar em uma teia de linhas de guitarra muito mais nítidas do que as que se costuma ouvir em trabalhos anteriores, mas que a banda já vinha indicando claramente no disco “A Thousand Leaves” (1998).

Essa teia de guitarras é o que mais soa diferente e maduro, apesar de manter o ponto central do que sempre foi o inconfundível som do Sonic Youth. Um fator que com certeza ajudou a dar aquela expandida nos som da banda foi a entrada de Jim O’Rourke e seu background experimental e improvisacional, formando um conjunto de três guitarras e um baixo.

Desta vez, a banda desenvolve as partes instrumentais de jams com linhas muito mais melódicas e menos noise do que se ouvia anteriormente, esticando as músicas de uma forma muito mais ‘tradicional’ enquanto banda de rock improvisacional. Tanto que a influência de Grateful Dead, por exemplo, se torna bastante evidente no som do Sonic Youth. Lee Ranaldo já se declarou um ‘deadhead’ – alcunha dada aos fãs de Grateful Dead – em diversas ocasiões, e confirmou a referência como algo que ele sempre buscou com os improvisos do SY. Junta-se isso com a escola ‘no wave’, experimentações artísticas e começa a ficar muito claro o mapa sonoro fascinante dessa banda. Sim, estou babando ovo.

A letra da música fala do ataque de 11 de Setembro, que foi responsável pela destruição do estúdio em que eles estavam gravando o disco, localizado na Rua Murrey, próxima às Torres Gêmeas, onde inclusive caiu um pedaço do motor de um dos aviões, representada pela foto de sua placa amassada na contra-capa. A letra simples tem uma imagem forte, do pessoal estarrecido entrando em contato com parentes e amigos, com vontade de ficar juntos abrigados da chuva.

We all hope
To signal kin
Rays of gold
Now rain on tin
Gather round
Gather friends
Never fear
Never again

Nós esperamos    
Sinalizar parentes
Raios dourados
Agora chuva na lata
Reunirmos
Juntar amigos
Nunca sentir medo
Nunca mais

É muito inspirador saber que, após mais de 20 anos juntos, uma banda ainda foi capaz de criar algo tão forte e revigorante quanto os trabalhos do começo da carreira, no começo da juventude deles. E, ao invés de apenas repetir uma fórmula criada por eles mesmos, ou de começar a abraçar as referências de rock clássico e começarem a soar como ‘tiozões’ do rock, eles olham para si próprios e se aprimoram, dando a cara do que seria um Sonic Youth maduro e convicto, presente nos álbuns seguintes até o fim da banda.

Cantarolando: a música folk-rock-ambientalista de Alceu Valença em “Espelho Cristalino”(1977)

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Alceu Valença - "Espelho Cristalino"

Cantarolando, por Elisa Oieno

Conversando com alguns entusiastas da música ‘folk’ por esses dias, chegamos à conclusão de que, aqui no Brasil, não costumamos fazer uma associação direta entre música pop e o nosso folclore. Existe uma separação estética muito grande entre o folclore brasileiro e a música pop.

Porém, há exceções. Principalmente no contexto da efervescência criativa do Brasil nos anos 70, pela primeira vez na música brasileira houve um esforço consciente para trazer os sons, ritmos e temas tipicamente brasileiros e regionais ao contexto jovem, rebelde e desafiador que o rock representava.

Foi o que fez o pernambucano Alceu Valença, executando um som pesadíssimo, progressivo e ainda assim absolutamente nordestino. Com sua figura mezzo guerilheiro do sertão mezzo Ian Anderson do Jethro Tull, suas letras – escritas com erudição acadêmica e com a sagacidade herdada dos tradicionais repentistas – mesclavam fraseados libertários ‘subversivos’, críticos à ditadura militar, com temas e figuras típicas do folclore nordestino.

Além disso, eram frequentes em suas músicas também as críticas ao estilo de vida moderno e industrial, tecendo imagens vívidas da natureza brasileira em contraponto aos símbolos da cidade e ao estilo de vida frenético industrial. É o caso da faixa-título do disco “Espelho Cristalino”(1977).

Essa rua sem céu, sem horizontes
foi um rio de águas cristalinas
serra verde molhada de neblina
olho d’agua sangrava numa fonte
meu anel cravejado de brilhantes
são os olhos do Capitão Corisco
e é a luz que incendeia meu ofício
nessa selva de aço e de antenas
beija-flor estou chorando suas penas derretidas na insensatez do asfalto

Essa canção foi feita em homenagem ao ambientalista, naturalista, indigenista e especialista em beija-flores Augusto Ruschi. Ele foi uma figura muito importante em disputas contra empresas e órgãos públicos na defesa de questões do meio-ambiente, em uma época em que tais preocupações eram precariamente difundidas. Ruschi foi um dos pioneiros no combate ao desmatamento da Amazônia e um dos primeiros cientistas a alertarem sobre os impactos do uso indiscriminado de agrotóxicos.

A letra de “Espelho Cristalino”, como diversas de Alceu, é repleta de metáforas e imagens poéticas. Essa é uma das minhas letras favoritas. Viajando um pouco aqui, ela me lembra a vista da Serra do Mar aqui de São Paulo, a caminho da Baixada Santista. Da mesma forma que descreve a música, há a invasão da indústria e do “progresso” na paisagem serrana daqui, especialmente quando se chega perto de Cubatão.

Assim como no Cinema Novo de Glauber Rocha, elementos do cangaço também são frequentes nas canções de Alceu, como a alusão aos “olhos do Capitão Corisco”, que foi um dos mais famosos membros do bando de Lampião. O cangaço foi um dos principais e mais marcantes fenômenos sociais do Nordeste brasileiro, deixando marcas e memórias vívidas para toda uma cultura que, junto com outros inúmeros elementos, faz parte da nossa identidade. Tem coisa mais ‘folk-rock’ que isso?

Cantarolando: “He Was My Brother”, a homenagem a um ‘freedom rider’ de Simon & Garfunkel

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Simon e Garfunkel

Cantarolando, por Elisa Oieno

O single “He Was My Brother”, presente no disco de estréia do Simon & Garfunkel, “Wednesday Morning, 3 A.M” (1964) é uma canção folk super simples e muito comovente, não só pela melodia, mas também pelo tema: a morte de um estudante envolvido em um importante movimento pela igualdade racial e pela afirmação de direitos civis nos EUA.

Freedom rider
They cursed my brother to his face
“go home, outsider”
This town’s gonna be your burying place

“Freedom rider”, algo como “cavaleiro da liberdade”, já seria uma expressão estilosa o suficiente para falar de alguém lutando pelos direitos civis, aquela coisa romântica que fazemos com alguma figura que admiramos muito. Mas na verdade, se refere ao movimento dos “Freedom Riders”, pessoas que viajavam pelos EUA para se dirigir aos hostis terrenos do Sul, não com seus cavalos – ou motocicletas, como o nosso inconsciente pode presumir -, mas de ônibus interestaduais, com a finalidade de forçar o cumprimento de uma decisão inédita da Suprema Corte dos EUA.

Esse novo precedente da Suprema Corte reconhecia que leis estaduais de políticas de segregação racial – as quais ainda eram vigentes em diversos estados no Sul dos Estados Unidos – não se aplicavam em estabelecimentos localizados em terminais rodoviários, uma vez que a segregação racial em ônibus interestaduais já era considerada inconstitucional. Tratou-se de um primeiro passo para o enfraquecimento de leis racistas naqueles territórios.

Assim, os Freedom Riders, compostos necessariamente por negros e brancos sentados em bancos misturados nos ônibus, cruzavam o país de ônibus e se dirigiam aos estabelecimentos que serviam as rodoviárias para simplesmente exercerem seu direito de, por exemplo, sendo negros, sentarem-se em uma área do balcão da lanchonete “só para brancos” e serem servidos normalmente. Claro que os donos de estabelecimentos, moradores e autoridades locais não gostaram muito da idéia, causando a hostilização e a prisão e de diversos riders.

Houve também a reação violenta de grupos organizados, as mobs, tais como o infame Ku Klux Klan, responsáveis por ataques ferozes aos ônibus, linchamentos e até mortes. Como foi o caso de três ativistas, mortos em 1964, no Mississipi. Entre eles, estava Andrew Goodman, que era amigo e colega de faculdade de Paul Simon e Art Garfunkel. Apesar de não se saber ao certo se a música foi escrita antes ou após o incidente da morte, a homenagem ao amigo é óbvia.

 

He was singing on his knees
An angry mob trailed along
They shot my brother dead
Because he hated what was wrong

Apesar da reprovação massiva da mídia, tratando o movimento como “suscitação à violência”, “incentivo à perturbação da paz” – ainda bem que isso não acontece por aqui, né – , e com as autoridades do Sul contando com uma bela ‘passada de pano’ do governo Kennedy, os Freedom Riders abriram caminho para mudanças reais e o fortalecimento de diversos movimentos Black Power e da influência do discurso de Martin Luther King.

Assim, mais do que uma canção simpática a uma causa, seguindo o protocolo do quase sempre obrigatório engajamento do artista folk dos anos 60, “He Was My Brother” é um relato meio emocionado e comovido, cheio de admiração sobre um amigo que simplesmente não se conformava com o que estava errado. Esse sentimento ainda soa tão atual, e pelo menos em mim dá aquele misto de inconformação, emoçãozinha e esperança.

Cantarolando: as cenas bucólicas de “Diamond Day”, de Vashti Bunyan (1970)

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British folk singer Vashti Bunyan, May 1965. (Photo by Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images)

Cantarolando, por Elisa Oieno

Ouvindo essa linda melodia de apelo pop e imergindo em suas imagens sinceras pontualmente rurais e pastoris, é difícil entender porque na época do seu lançamento, em 1970, a canção “Diamond Day”, presente no disco “Just Another Diamond Day”, não se tornou um sucesso instantâneo e um hit que acompanharia a crista da onda do folk britânico.

Muito difícil entender, ainda mais considerando que o disco foi produzido pelo experiente Joe Boyd, que reuniu arranjadores de cacife que tinham expertise no gênero como Robin Williamson, do Incredible String Band, e Dave Swarbrick e Simon Nicol do Fairport Convention – bandas que estavam no auge e tinham importante relevância na disseminação do folk britânico para o mundo.

Não deu certo, pelo menos não até mais ou menos 35 anos depois do lançamento, quando o disco retomou a atenção da crítica e adquiriu um improvável público com seu status de clássico cult. Hoje em dia, por causa desta “redescoberta” de seu disco, a cantora até eventualmente faz pequenas em turnês e lançou outros álbuns: “Lookaftering” (2005) e “Heartleap” (2014).

Mas na época, isso foi uma grande decepção para a jovenzinha Vashti Bunyan, que já havia se decepcionado antes, com o total fracasso comercial do single “Some Things Just Stick In Your Mind” (1965), canção assinada por Jagger/Richards e produzida por Andrew Loog Oldham com a intenção de tornar Vashti uma nova Marianne Faithfull.

Desiludida com a indústria da música e seguindo suas inclinações mais reclusas, Vashti então partiu para uma road trip a cavalo e carroça com seu namorado e um cachorro através da Inglaterra para se instalar em uma comunidade “hippie” organizada pelo músico Donovan. A viagem durou quase um ano e meio, e, apesar de não ter alcançado o destino planejado – a idéia da ‘comuna’ não chegou a prosperar – rendeu a Vashti diversas canções que fariam parte do Diamond Day. Por causa disso, as cenas típicas da vida do campo no disco são bastante literais e cantadas com intimidade.

Just another field to plough
Just a grain of wheat
Just a sack of seed to sow
And the children eat
(só mais um campo para arar/só um grão de trigo/ só um saco de sementes para semear/ e as crianças comem)

Curiosamente, Vashti afirma que naquela época estava buscando uma carreira como cantora pop, e chegou a se decepcionar com o som alcançado em “Diamond Day”, que ficou com uma abordagem muito mais folk. Naquela época, os arranjos das músicas pop eram orquestrados e elaborados, em contraponto aos arranjos minimalistas e intimistas de “Diamond Day”.

Porém, hoje sabe-se que o disco não poderia servir melhor à personalidade e à voz de Vashti, que nesta canção soa tão íntima e sincera, com uma vibe campestre difícil de se conseguir a não ser que você realmente tenha estado lá, como ela esteve.

No fim das contas, na verdade, ouvindo “Diamond Day” é difícil imaginar Vashti Bunyan vivendo qualquer outra vida senão a que ela vive: longe do showbizz, praticamente reclusa e feliz no campo com sua família.

Cantarolando: o quase jazz de “Your Last Affront”, do Black Flag (1985)

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Cantarolando, por Elisa Oieno

Há um tempo peguei para ouvir o disco “The Inner Mounting Flame” (1971), do Mahavishnu Orchestra. Estava ouvindo essa banda com um som meio progressivo, meio jazz fusion, com todo o pacote de ritmos quebrados, acordes dissonantes, uma liberdade fluida e um balanço, e a guitarra do John McLaughlin fazendo intervenções que, apesar de absurdamente habilidosas, nada têm de firulas e de ‘punhetagem’. Que beleza. Conhecido por tocar na banda da “fase elétrica” do Miles DavisTony Willians Lifetime -, sua guitarra tem um fraseado de fuzz intenso, rasgado e criativo que lembra… Black Flag?

Segui ouvindo o disco até que, então, a suspeita se confirma com a faixa “You Know You Know”: as notas são idênticas ao começo da “Life of Pain” do Black Flag.

De fato, Greg Ginn se declara fã assumido de Mahavishnu Orchestra, tendo o John McLaughlin como uma de suas maiores referências na guitarra. Sua banda preferida é o Grateful Dead, tipicamente improvisacional e livre em estrutura. Fazer um som que lembra jazz e querer fazer improvisos ‘psicodélicos’ não combinava com a cena de hardcore punk do início dos anos 80. 

Tanto que, no início da cena punk, Greg Ginn era desencorajado a fazer longos ensaios com a banda e não havia espaço para improvisos nas músicas, que deviam ser simples e diretas, já que o punk e o hardcore tinham como parte de suas afirmações musicais justamente a contraposição às composições complexas e virtuosas que imperaram no rock da década anterior.
Porém, ao longo da carreira do Black Flag, ele conseguiu introduzir a referência aos colegas de banda, principalmente na época de Kira Roessler no baixo e Bill Stevenson na bateria, que acabaram abraçando elementos do Mahavishnu Orchestra e King Crimson. Principalmente nos discos Family Man” (1984) e The Process of Weeding Out” (1985), em que está a canção homenageada de hoje.

A faixa “Your Last Affront” abre o disco (na verdade, um EP) e já deixa clara a intenção: muito mais experimental e improvisada do que o hardcore, mas sem deixar de ser direto e pungente.