Caburé Canela faz som que junta baião, samba, bossa, rock, blues, afro-beat, semba “e até Black Sabbath”

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Macumba-Erudita. Samba-Cigano. Reggae-Jazz. Punk-Baião. Essas são algumas das muitas formas de tentar descrever um pouco do som da banda Caburé Canela, de Londrina, apesar de nenhuma delas ser muito certeira em definir a mistureba brasileira que o sexteto faz.
Formada em 2013 por Carolina Sanches (voz), Lucas Oliveira (voz, guitarra e violino), Maria Carolina Thomé (percussão), Mariana Franco (contrabaixo), Paulo Moraes (bateria) e Pedro José (voz e guitarra), a banda une influências de ritmos populares como baião, samba, bossa nova, rock, blues, afro-beat, semba de Angola e rumba “e talvez até um pouco de Black Sabbath“, segundo Lucas.
Em fevereiro de 2018 lançaram o primeiro trabalho, “Cabra Cega”, no Espaço Cultural SESI de Londrina. Da campanha de financiamento coletivo à produção do show de lançamento, da escolha das músicas à arte da capa do disco, tudo foi realizado de forma independente e unindo as forças dos seis membros e toda sua criatividade. Conversei um pouco com a banda sobre sua carreira e o disco:

– Como a banda começou?

Lucas: A banda começou em 2013, comigo, o Paulo que é o batera e a Maria, que é percussionista. Eu morava em Angola, estava dando aula por lá, e quando voltei, queria montar uma banda autoral. Daí chamei os dois, que já haviam tocado comigo antes em outros projetos. Fomos construindo a ideia, e chamando outras pessoas. A Maria chamou a Carolina, que é cantora e compositora, e a Mariana, que é baixista. O último membro a entrar foi o Pedro, que era um amigo nosso, e que acompanhava a banda também. Ele é guitarrista, cantor e compositor.

– E quando foi isso?

Lucas: Foi mais ou menos no meio de 2013. Daí até o Pedro entrar foi quase um ano.

Carolina: Em 2013 o grupo foi se formando, mas o lançamento oficial foi em setembro de 2014, com um ensaio aberto no Grafatório e outro oficial em outubro numa festa grande chamada “Quizomba: O Samba e outros Batuques”, aqui de Londrina.

– E como surgiu o nome da banda? O que ele significa pra vocês?

Carolina: Bom, Caburé Canela é uma coruja, de pequeno porte, do Sul da América do Sul (risos).
Lucas um dia veio com essa ideia, e achamos interessante pensar que é uma ave arisca – que não se deixa decifrar. Tem o símbolos que expressa certos traços poéticos do grupo: o olhar agudo sobre as cenas do mundo, o caráter notívago, o gosto pelo mistério. A coisa noturna que a coruja tem.

Lucas: Estavamos na loucura de achar um nome, que é algo bem difícil… Aí fui atrás de vários nomes de plantas, de bichos, de aves, etc, e achei esse, que é uma espécie de coruja que habita a América Latina. Fui pesquisando mais a fundo, e vi que as palavras “Caburé” e “Canela”, também tinham significados muito especiais. Caburé, além de ser coruja de modo genérico, também quer dizer mestiço de Nativo Americano e Africano. Remetendo a questão da ancestralidade brasileira. Canela tem a ver com especiaria do oriente, uma coisa longínqua, mística, exótica.

Carolina: E caburé também significa mestiço de negro com índio… o que seria o cafuzo. e mestiço de branco com índio caboclo.

– O som de vocês tem bastante de música africana e brasileira, além de jazz, rock, e até punk. Dá pra definir o som de vocês? Eu acho que é bem difícil, né…

Carolina: (risos) Os dois!

Lucas: Acho que é Música Brasileira. A gente brinca com essa coisa de gênero faz tempo, tentando saber o que é de verdade. Punk-Baião, Macumba-Erudita, Igapó-Beat, etc. Igapó é um lago aqui da nossa cidade!

– Quais bandas e artistas vocês citariam como influências no som de vocês?

Lucas: Como somos em seis pessoas, cada um traz múltiplas influências, aí vai longe (risos), mas posso citar algumas mais diretas, como Itamar Assumpção e a Anelis, sua filha; Jards Macalé; os tropicalistas todos; bandas como Chico Science e Nação Zumbi, Otto, Chico César, Hermeto. Isso do Brasil, daí tem influências de rumba, semba, blues, rock, afrobeat, reggae, e alista segue (risos). Vai achar até um Black Sabbath.

Carolina: Tem coisas que remete aos procedimentos que o Arrigo Barnabé usava e a vanguarda paulista no geral também né.. Um grupo atual acho que talvez seja o Metá Metá.

Lucas: Olha, esqueci deles (risos).

Carolina: É, acho que é isso!

– Me falem um pouco mais do disco que vocês lançaram!

Lucas: Foi nosso primeiro disco. Depois de quase cinco anos. Já havíamos gravados as faixas, mas queríamos o CD físico também. Daí fizemos uma promoção pré-venda, que viabilizou a prensagem. São sete musicas no disco, que refletem um pouco nossa trajetória, a busca para se firmar, o auto conhecimento, e a tentativa de se enquadrar nos padrões pré-estabelecidos. O disco gira em torno do personagem “andarilho”, que busca algo que ele não sabe o que é. Nessa trajetória, se depara com lugares, medos, frustrações, amores, perdas. No final percebe que a vida é apenas um fluxo, e que só se pode fluir por onde há espaço. No caso, é o encontro com o nada.

Carolina: A música que abre o álbum é a “Andarilho” e tem uma frase dela que dá nome ao disco “Como cabra cega, algo que nega e não vê, e procura sem saber o quê”.

– Então no fundo o disco tem um conceito e um personagem… quase uma ópera-rock!

Lucas: Sim. Não chega a ser uma ópera-(MPB?), Mas tá quase lá!

Maria Carolina: É interessante que composições de diferentes autores se amarrarem tao bem. Mostra bem o quanto o grupo dialoga bem entre inquietações e formas de perceber a vida. Quando nos reunimos (eu por Skype) pra fechar a sequência das musicas parecia q era tudo bem planejado. Mas na verdade não foi, não conscientemente. Fiquei bem impressionada com a amarração que as composições fizeram.

Carolina: É legal pensar no conceito do ópera-rock né, acho que inconscientemente vai meio por aí mesmo. Se formos pensar a sequência, esse enredo que inventamos para o andarilho caminhar.. e que mesmo depois de gravado e mixado, mantemos a ideia inicial e ainda começamos a utilizar de outras coisas, né… Desde o figurino, iluminação, também as projeções do lançamento até as próprias falas que eliminamos entre uma música e outra…. Perpassa sim por esse lugar que a ópera-rock caminhou (risos).

– Como é o processo de composição da banda?

Lucas: Algumas vezes a música vem quase pronta. Outras vezes construimos tudo juntos. Nas minhas músicas, geralmente tenho bastante clareza do que imagino que vai ficar bom, mas sempre vem uma ideia de alguém e vamos incorporando. Cada um trás sua própria linguagem, e é bem interessante tentar fazer essa junção das ideias. Algumas musicas são construídas quase que inteiramente de maneira coletiva. Cada um construído uma parte e dando ideias para o todo da música.

– Os shows da banda são um espetáculo à parte. Vocês podem descrever uma apresentação pra quem nunca viu?

Carolina: Temos músicas do Lucas, do Pedro José, minhas e por enquanto, uma do Paulo. Eu funciono meio esquisitamente… Escrevo e depois invento a melodia, gravo e levo pro grupo. Daí a gente começa a pirar com os instrumentos. A música do Paulo (Faixa 5, “Sem”) surgiu meio assim também, ele me enviou a letra, fiz um riff no violão, o que hoje é a base do baixo, e inventei a melodia. Depois foi a construção coletiva, desenvolvendo o todo.

Maria Carolina: É uma experimentação corpórea. Nos preocupamos muito com as dinâmicas, e as vezes jogamos uns blocos de informação pro publico absorver. Pedro definiu bem no ultimo show, musica pra quem não “sabe” dançar. É de se ouvir com o corpo todo, vejo que quando conseguimos essa entrega total no palco o publico também corresponde. Considerando a cozinha, que é o meu lugar,rs somos bem livres… A regra é focar as notas verdadeiras. E é isso que espero que nossa apresentação seja, livre verdadeira e intensa.

– Então é muito mais que apenas uma experiência musical!

Maria Carolina: É pra ser! Muita pretensão?

– Lógico que não!

Carolina: É o desejo né, pode parecer pretensioso mas parte da verdade mesmo. Não consigo descrever… No show de sexta a Suy Correa veio me dizer que ela achou sinestésico e curador..
Acho interessante o olhar do outro, porque do palco vemos uma coisa mas no fundo não sabemos o que acontece no outro, como estão recebendo aquilo tudo né…

– Já estão trabalhando em novas músicas?

Carolina: Antes mesmo de lançar o álbum já fazíamos shows com mais músicas. Músicas fechadas, arranjadas e que podemos fazer sempre, temos 22. E tem outras que estão em processo, amadurecidas aos poucos. Na maioria das vezes pedem pra gente encurtar um pouco o show (risos)
mas dá pra tocar umas duas horas!

– Essas músicas farão parte de um disco, EP, sairão como singles? Aliás, o que vocês acham do conceito de “‘álbum” hoje em dia, com as pessoas ouvindo música em serviços de streaming e muitas vezes ouvindo mais as músicas “soltas” do que o disco completo e na ordem?

Maria Carolina: Essa pergunta é nosso grande ponto de interrogação do momento. Estamos aprendendo, descobrindo os caminhos. Essa tal de independência faz com que percorramos um caminho mais cheio pedras.. Pra mim é tudo muito novo, ainda gosto do lado a e do lado B.

Carolina: Ainda temos dúvidas. Estamos loucos pra gravar outro disco (tem um sonho aí de vinil também), mas como o “Cabra Cega” acabou de sair, ainda estamos no processo de apresentar esse primeiro CD pro mundo. Estamos tentando fechar shows fora de Londrina, enfim… Provavelmente entraremos nesse processo no segundo semestre. É esquisito pensar a música hoje né, é tudo muito imediato. Ou viraliza ou está a margem. A imagem é bastante influenciadora e é tudo tão híbrido que não dá pra saber com que peso pisar ou como tatear esse território. Gravamos duas músicas recentemente, uma vai entrar numa coletânea e a outra estamos pensando em soltar um single daqui uns meses, ou um vídeo com ela. Vamos amadurecer a ideia. Acho que assim, por exemplo, soltamos o álbum completo no youtube, e ali tem muito menos visualizações do que no Spotify ou outras plataformas… Por essa perspectiva, não ouvir o álbum inteiro, sequencial e tal, “destrói” um pouco todo o trabalho que foi realizado na produção dele, no sentido da construção do personagem, os caminhos por onde ele passa e tudo mais. Mas por outro lado, não dá pra reclamar. Vivemos nesse imediato, gostamos de poder escolher o que queremos ouvir, mesmo que isso exclua outras faixas. É uma evolução poder escolher a música certa, né?! Mas o conceito de álbum acho que ainda funciona e tem sido cada vez mais explorado pelos artistas. Sendo recriado.

Lucas: Pensamos nesse primeiro álbum como uma obra “fechada”. Acho que, como artistas, precisamos pensar no conceito de obra, seja ela um álbum, um single, um vídeo, etc. Hoje em dia tem muita música apenas para o entretenimento. Isso não é ruim, mas parece que música é apenas isso. Gosto da ideia de criar, e acho que isso as vezes fica de lado, principalmente no mundo extremamente consumista que vivemos.

– Aliás, falando nisso… Hoje em dia o clipe voltou a ter uma grande importância. Como vocês veem esse tipo de formato?

Carolina: Eu adoro! Sou formada em artes visuais, então a visualidade, o audiovisual me pega bastante. Era muito massa nos anos 90 quando ficava a tarde toda assistindo Mtv. O meio mudou né, nesse caso a TV foi deixada de lado e o Youtube dominou nessa parte, por que podemos assistir em qualquer lugar e hora. Mas poxa, tenho visto tanta produção bacana da galera. Tenho curtido os que tem menos produção, os que dá pra ver que foram feitos na raça e que carregam uma essência meio roots, que é feito com verdade e de forma simples… Estamos produzindo dois clipes do álbum, e entendo que o formato visual é uma ferramenta muita expansiva, tanto de divulgação quanto de possibilidade de desdobramento musical.

– E o que podemos esperar nesses clipes? Dá pra adiantar algo?

Lucas: Muitos nudes (risos)! Brincadeira.

Carolina: (Risos) Olha só! (Risos). Estamos fugindo da literalidade. Acho que é uma das únicas coisas que temos definido. Na manga tem o clipe do “Andarilho”, que nós mesmos estamos filmando. Acho que vai sair uma coisa bem densa, obscura. Nosso olhar pros detalhes e movimentos da rua, pro ritmo dela. Captando os rastros que passam desapercebidos no cotidiano. Um processo novo pra nós, e é massa pensar que vai ser coletivo. E o outro é da música “Vaso”, que chamamos um coletivo aqui de Londrina que chama Cãosemplumas. Eles estão fazendo uma animação, nada literal, com muita variação de traços, alguns desenhos que remete as garatujas das crianças, e outros, bem detalhados. Nesse processo deles estamos tentando não interferir não, lançamos a ideia e estamos nos segurando pra não pressionar, na tentativa de deixar-los dizer mais um pouco sobre o que já construimos com a música! Mas agora vamos incluir um só com nudes mesmo, pra ver se ficamos famosos! (risos)

– Quais os próximos passos da banda?

Carolina: Temos tentando trabalhar um pouco as expectativas, pra não ficar frustado demais né. Não tá muito fácil ser artista independente e ainda produzir tudo. Estamos em busca de produtores que nos ajudem a criar um ritmo pra nossa agenda de shows. Porque é necessário sair da casinha e adentrar o universo dos festivais, estrada e tudo mais. E continuar produzindo/criando sem perder a essência inicial, que é a de pirar a cabeça mesmo, continuar saindo do quadrado, das convenções… inventando e ao mesmo tempo se divertir fazendo o que a gente acredita.

Lucas: Próximos passos são de expandir os territórios.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Lucas: Cara, tem muita gente boa. Aqui de Londrina tem a galera do Aminoácidos, tipo música brasileira progressiva (MBP?). Tem também o pessoal do Maracajá, que faz um som bem diferente, incorporando bastante do funk proibidão. É bom interessante. Gosto bastante da Anelis Assumpção. Tem um trabalho bem conciso. Tem também a galera de Sampa, do selo Risco, bem legal todos eles. A música brasileira é bem rica, e parece que nestes tempos de crise aparece muita gente boa. Em Londrina tem uma onda boa de música autoral. Já vou adiantando que logo logo vai sair uma coletânea só com artistas londrinenses.

Carolina: BaianaSystem, Carne Doce, Francisco El Hombre, Mulamba, Bixiga 70, Far From Alaska, Cidadão Instigado, Curumin, Metá Metá, Kiko Dinucci – “Cortes Curtos” (fodão), os da Juçara Marçal.

Lucas: Tem também o Abacate Contemporâneo, uma banda bem legal daqui. Amigos nossos também, já fizemos alguns shows juntos.

Carolina: Fernanda Branco Polse com o Bicho Branco Polse… e por aí vai!

Lucas: Queria acrescentar que o disco pode ser comprado físico com a gente ou então da pra pedir pela página no Facebook. Estamos no Spotify, SoundCloud, Deezer e todo o resto. Quem quiser segue a gente lá no Instagram, curte a página no Facebook, se inscreve no nosso canal, me liga no whats!