Construindo Warmest Winter: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Warmest Winter

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o quarteto paulistano Warmest Winter, que indica suas 20 canções indispensáveis.

Bloodhail“Have a Nice Life”
Denny Visser: Uma ambiência pesada com praticamente todos os instrumentos distorcidos e vocal profundo.

Galaxie 500“Temperature’s Rising”
Denny Visser: Simples com poucas variações de acorde mas envolvente e com uma melodia que prende na música.

Wild Nothing – “Shadow”
Denny Visser: Instrumentos mais cleans com vocal suave e batida baladinha. Mistura dos synths com efeitos de guitarra clean.

empire! empire! (I was a lonely state) – “The Loneliness Inside Me is a Place”
Denny Visser: O título e a letra da música são os maiores atrativos mais as particularidades da banda com bateria e guitarras com tempo quebrado.

Quiet“This Will Destroy You”
Denny Visser: A mistura de uma calmaria com um peso e agitação, uso do delay e bateria quebrando o tempo.

Siouxsie and the Banshees“Israel”
Luiz Badia: Música hipnótica onde baixo e guitarra banhados em flanger me influenciaram bastante. A bateria segue em expressivas variações e a voz da Siouxsie, sem ter uma grande potência, é minha cantora predileta. A letra sobre frio e desolação criam um universo mágico e sombrio.

Bauhaus“She’s in Parties”
Luiz Badia: Uma banda maravilhosa, cheia de energia agressiva e bela. Seu riff realizado pelo baixo e guitarra me encanta por revelar que bandas podem criar ótimos arranjos quando equilibram as forças de dois instrumentos em vez de enaltecer apenas a guitarra com instrumento principal.

The Cure“Charlotte Sometimes”
Luiz Badia: Robert Smith perambula pela sua melancólica atmosfera com ajuda de teclados chorosos e etéreos

Joy Division“Atmosphere”
Luiz Badia: Triste epílogo de Ian Curtis em seu derradeiro adeus… A bateria e o vocal são marcantes para a Warmest Winter

Interpol“Obstacle 1”
Luiz Badia: A banda resgata o som da primeira geração da cold wave, e esse hit inicial me chamou a atenção quando saiu, Carlos Dengler é uma baixista fantástico, simples e marcante.

Bob Dylan“Idiot Wind”
Tiago D. Dias: O “Blood on the Tracks” talvez seja o disco mais confessional do Dylan, e “Idiot Wind” talvez seja sua canção mais dolorida. A narrativa com quase 8 minutos de duração, na qual diferentes cenas são descritas, demonstra uma miríade de sentimentos do autor em relação a um relacionamento desfeito.

Cartola“O Mundo é um Moinho”
Tiago D. Dias: Nossos sonhos são sempre mesquinhos. E poucos são os que sobrevivem. Cartola sabia dessa triste verdade e escreveu sobre ela de maneira incrivelmente bela. Que a música tenha sido escrita para sua filha, torna tudo ainda mais poético.

Leonard Cohen“Chelsea Hotel #2”
Tiago D. Dias: A história do encontro fugaz entre o escritor/cantor canadense e Janis Joplin nos rendeu uma de suas músicas mais belas. Ambos partiram. Joplin nos anos 70 e Cohen ano passado. E mesmo assim, feios ou não, nós temos a música.

Tom Waits“Martha”
Tiago D. Dias: Martha é uma canção que é ao mesmo tempo datada em suas referências (ligações interurbanas), ela também é extremamente atual. Todos temos aquele relacionamento que não deu certo e sobre o qual nós sempre nos perguntaremos o que teria sido…

The National“Pink Rabbits”
Tiago D. Dias: The National talvez seja a banda que melhor resuma, em suas letras, o dilema entre se acomodar na mediocridade e falhar espetacularmente ao tentar algo acima disso. E “Pink Rabbits” não foge disso. Somos todos uma versão de TV de alguém de coração perdido.

Cream“We’re Going Wrong”
Daniel Vellutini: A primeira vez que eu parei pra ouvir Cream, o som já me virou a cabeça do avesso. A liberdade jazzística com que o Ginger Baker toca me pegou pelo calcanhar. Mudou minha ideia de bateria de rock. Em “We’re Going Wrong” dá pra perceber a importância da dinâmica numa música. Aprendi muito ouvindo esse disco e não canso de ouvir.

Jimi Hendrix“She’s So Fine”
Daniel Vellutini: Eu demorei a entender porque todo mundo falava tanto de Jimi Hendrix. Mas foi com esse álbum (“Axis: Bold as Love”) que aprendi a gostar muito. Aqui tem canções lindas e experimentações de sons que também não canso de ouvir. Mas uma coisa que as pessoas costumam esquecer é da importância da cozinha da Jimi Hendrix Experience. Em “She’s So Fine”, composta pelo baixista Noel Redding, ele e o baterista Mitch Mitchell mostram toda sua potência e carregam a música. Bom pra cacete.

Lô Borges“Trem de Doido”
Daniel Vellutini: Clube da Esquina é uma das coisas mais lindas que já aconteceu. Tem uma certa inocência, ao mesmo tempo que há temas tão complexos trabalhados nas composições de Milton, Lô e cia limitada que dava pra ficar dias falando sobre. Escolhi “Trem de Doido” pra essa lista porque é uma música que demorou um pouco a me pegar, sabe-se lá por quê, mas quando “bateu” pegou em cheio. Acho que é talvez o grande rock do disco. Esse fuzz e essas viradas de bateria sempre me pegam.

Blondie“Heart of Glass”
Daniel Vellutini: Cresci ouvindo rock oitentista, muito baseado na New Wave. E acho que Blondie é uma das bandas da segunda metade dos anos 70 que pavimentou o caminho pra todo o pop-rock dos anos seguintes. A levada dançante e umas quebrinhas de tempo aqui e ali de “Heart of Glass” dão uma aula de consistência sem ser quadradona. E a música toda soa absurdamente atual, mesmo quase 40 anos depois.

Supergrass“Sun Hits The Sky”
Daniel Vellutini: Supergrass é dessas bandas que eu quero saber o que eu tava fazendo que não ouvi antes. Os caras sabiam fazer bons riffs, letras interessantes e alternar entre momentos de segurar o groove e de sentar a mão em tudo. Tenho ouvido muito recentemente e acabo levando muito disso pros ensaios da banda.

Além da aparência macabra: Bauhaus – “In The Flat Field” (1980)

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Bauhaus

Bolachas Finas, por Victor José

Nunca vou me esquecer da primeira vez que escutei a música “In The Flat Field”. Medo, frio, melancolia, agressividade, confusão, drama, peso e uma boa dose de liberdade. Eu tinha uns 16 anos, aquilo mexeu de verdade comigo. Até hoje, foi umas das poucas vezes que um som fez eu repensar tão a fundo nas possibilidades do rock.

Bauhaus faz uma música que evoca um bocado de sensações, e é uma besteira absurda pensar só no termo “gótico” quando se fala sobre essa grande banda. É inegável a qualidade e importância do longo single “Bela Lugosi’s Dead”, mas a banda não para por aí, a discografia é muito interessante. O grupo, formado por Peter Murphy (vocais), Daniel Ash (guitarra), David J (baixo) e Kevin Haskins (bateria) em 1978 em Northampton, na Inglaterra, durou até 1983. Lançaram nesse período quatro álbuns, mais um ao vivo.

O LP de estreia, “In The Flat Field”, lançado pelo selo 4AD em 1980, mostra uma banda altamente artística, vigorosa e aberta a possibilidades diversas. Ali você percebe com clareza as influências de Roxy Music, Sex Pistols, Kraftwerk, Velvet Undergound e David Bowie. Some tudo isso com o expressionismo alemão e uma boa dose daquela vibe cinzenta dos britânicos e você tem o Bauhaus, no som e no visual. A música do grupo evoca uma personalidade forte, convicta de sua estética.


Começando por “Double Dare”, logo de cara percebemos que não nos deparamos com uma banda convencional. O baixo distorcido, a levada inusitada da bateria e aquela guitarra fragmentada que sem dúvida alguma influenciou a galera que faz noise ou pós-rock embalam a superexpressiva voz de Murphy, densa como todo o resto, sombria e confusa como todo o resto – mas ainda assim completamente coerente.

Essa corajosa fórmula segue sem perder o gás na faixa-título, um clássico alternativo. Já “God In a Alcove” sugere um som menos denso, meio noir, enquanto que “Spy In The Cab” evoca uma profunda melancolia, em contraste com as dançantes “Dive” (com direito a um sax todo torto e bem legal de Daniel Ash), “St. Vitus Dance” e “Small Talk Stinks”. Ao longo de todo o disco o Bauhaus oferece uma pequena novidade, seja um ruído esquisito, um timbre diferente de baixo, ou algum instrumento não convencional.

Mas a banda faz a gente dar o braço a torcer para o clima gótico na sinistra “Sigmata Martyr”, que com sua sonoridade beirando o heavy metal simula uma crucificação, com direito a latim, gemidos, berros e tudo mais. O disco acaba com outra meio macabra, “Nerves”, onde um piano assume o papel principal da banda com um riff pegajoso e aponta para as várias experimentações que abordariam nos próximos álbuns.

É interessante o fato de a própria banda ter produzido “In The Flat Field”. Aparentemente a liberdade era total, e isso reflete no som. Não há nada naquele LP que você possa dizer que é uma repetição. Impressiona a coragem dessa banda, que mesmo com essa proposta conseguiu atingir um grande público, influenciou muita gente e até emplacou alguns singles nas rádios da época.


O grupo chegou a se reunir duas vezes. Uma em 1998, quando lançaram o maravilhoso ao vivo “Gotham” e outra em 2008, quando trabalharam juntos novamente em estúdio com “Go Away White”, que não é lá essas coisas, meio desnecessário.

Também vale ressaltar que do Bauhaus nasceu a Love and Rockets, que na verdade é a mesma formação, porém sem Peter Murphy. O som é um pouco mais acessível e bastante diferente da antiga banda. Vale muito a pena escutar.

Poderia escolher qualquer um dos grupos rotulados como gótico, mas vejo no Bauhaus a maior prova de que essa fase do rock é uma das mais mal interpretadas e assimiladas pelo público e pela crítica. Observando de perto, não seria exagero dizer que a partir dessa vertente – inclua aí bandas como Siouxsie and The Banshees ou The Cure – você percebe um dos momentos mais criativos da indústria pop.

Bauhaus ofereceu a possibilidade de percebermos como a arte soturna pode também ser colorida por outros adjetivos sem parecer bobagem de moleque.

Ouça abaixo o álbum. Nesta versão consta uma porção de ótimos singles e b sides. “In The Flat Field” na íntegra está entre as faixas 2 e 10.