Uma viagem ao desconhecido: Barba Ruiva lança disco homônimo com influências de jazz e rock alternativo

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foto: Tai Fonseca

A banda carioca Barba Ruiva lançou recentemente seu primeiro álbum homônimo, que faz um panorama do trabalho em progresso desde sua formação, em 2005, até hoje. O trio Rafael Figueira (lead vocal e guitarra), Leonardo de Castro (baixo e voz) e Aline Vivas (bateria e voz) selecionou algumas canções que criaram desde o começo e que ainda dialogam com o atual momento do grupo, fazendo a gravação em duas etapas.

Primeiro, no Estúdio Superfuzz, em 2013, com Lisciel Franco, eles registraram bateria, vozes e algumas guitarras. Posteriormente, em 2017, com o produtor musical Maurício Negão (Marcelo D2, Frejat) e produtor executivo Dudu Oliveira, que colaboraram na regravação, remixagem e masterização das faixas, e junto do técnico de som Pedro Montano, do Estúdio Kultrix, onde foram gravados o baixo e as demais guitarras. O resultado é um disco diversificado e cheio de personalidade, com influências notáveis de rock alternativo, o popular rock oitentista, com uma pitada de jazz e blues, estilos que a banda adora. Conversei com o trio sobre o primeiro trabalho, a história da banda e suas influências:

– Vocês acabaram de lançar um disco. Podem me contar um pouco mais sobre ele?

Aline: As músicas foram criadas a partir de poesias do Rafael. As composições também são dele. Somente uma música foi em parceria comigo, “Praia”. Gravamos a bateria e vozes no estúdio Superfuzz, com Lisciel Franco e Elton Bozza, depois gravamos baixo e guitarras no estúdio Kultrix, sob a produção musical de Maurício Negão. A mixagem e masterização foram de Pedro Montano.

Leon: As composições são do Rafael e os arranjos e desenvolvimento foi um processo coletivo. Esse álbum é uma compilação de músicas que tocamos desde 2005. Isso faz com que tenhamos um vasto repertório gritando pra ser gravado já!

Aline: A gente compôs muitas músicas nesses anos de banda. Acabamos selecionando essas canções de uma forma bem orgânica. Eu acho que elas são bem diferentes entre si, mas de certa forma têm conexão e afinidade. Ah, tivemos também a produção executiva do Dudu Oliveira, na segunda etapa da gravação do álbum e assessorando nossa divulgação.

– E como vocês descreveriam esse disco pra quem ainda não ouviu?

Aline: Uma viagem pra dentro de si. Difícil essa pergunta! (risos) Eu colocaria para ouvir no carro… Talvez durante uma viagem. Tem momentos bem humorados e outros de introspecção.

– Quais as maiores influências musicais da banda?

Aline: É legal perceber algumas influências de estilos diferentes que se misturam ao rock
nas músicas do álbum. Elas têm uma influência do jazz, blues, samba, rock psicodélico, entre outras.

Leon: Influências bem diversas: eu, por exemplo, me alimento muito mais da MPB raiz, do blues e jazz, do que do rock em si.

Aline: Podemos citar aqui alguns artistas bandas e estilos. Bob Dylan, Nirvana, Doors

Rafael: Sim, minhas influências são bem próximas às da banda, pois também tem o fato de sermos uma “familia”, bebermos nas mesmas fontes.

Aline: Miles Davis!

Leon: Tenho ouvido muita coisa meio rural… Xangai, Marlui Miranda, coisa de índio, João Bosco (risos).

Aline: John Coltrane, Milton Nascimento, Smiths

Leon: Mas eu bebi MUITO da fonte do jazz instrumental.

Aline: Janis Joplin, Nina Simone

Tai Fonseca

– De onde surgiu o nome Barba Ruiva?

Leon: Estávamos procurando um nome quando descobrimos que a BARBA do meu irmão (Rafael) e a minha era RUIVA. Foi uma surpresa. Tava começando a ter barba.

Aline: Quando resolvemos montar uma banda, há muito muito tempo (risos), fizemos uma longa viagem citando nomes possíveis.  Quando eles falaram barba ruiva, acabou a conversa! (risos) Não conseguimos pensar em mais nada! Encaixou como uma luva. Foi amor à primeira ouvida. Tem uma imagem de pirata nesse nome que a gente curte muito. Tem a ver com essa jornada que estamos fazendo na vida rumo ao desconhecido. E também a um certo aspecto bruto que tem a ver com nosso som.

– Então a banda começou faz tempo. Como foi esse começo?

Aline: Nós dividimos uma casa nos Estados Unidos, há muitos anos. Lá mesmo, eu e Rafael estávamos imaginando como seria legal criar uma banda de rock no Brasil. Num impulso, voltamos para o Brasil pra correr atrás de realizar esse sonho. Naquele momento, não podíamos imaginar como seria difícil! (risos) Doideira.

– Me contem um pouco mais sobre o que vocês já lançaram antes do primeiro disco.

Leon: Já havíamos gravado algumas demos que ajudaram a gente a amadurecer musicalmente e em todo o processo de gravação, composição e atitudes de uma banda perante o mercado/cenário musical.

– Então vocês estudaram bastante o cenário independente antes de se jogar de cabeça.

Leon: Não. A gente viveu o cenário independente, um bom tempo, antes de perceber algumas coisas que são necessárias pra de profissionalizar.

Aline: Foi uma imersão mesmo. Estamos vivendo toda a luta de ser uma banda independente.

– E como vocês veem essa cena hoje em dia?

Leon: No Rio de Janeiro rola uma escassez de espaços pra tocar. Falta remuneração. Falta reconhecimento da música autoral como fonte de entretenimento. Por outro lado, vejo bandas e artistas movimentando os próprios eventos, formando coletivos e alguns até conseguindo se bancar com isso, dando mil piruetas. Tocando na rua, dando aulas… Além do mais, estamos vivendo um período de dificuldades, com o prefeito e Governo vetando a cultura.

– Porque vocês acham que isso tem acontecido e como pode melhorar?

Leon: Acredito na profissionalização do trabalho. Acredito que possamos ser valorizados como arte e entretenimento. Mas tenho certeza que isso não pode ser concentrado no Rio de Janeiro somente. Tem que haver um planejamento legal de circulação. Acredito que no mundo inteiro tem gente que se interessaria pelo nosso trabalho. Temos que chegar neles.

– Vocês já estão em turnê do novo disco? O que o público pode esperar de uma apresentação do Barba Ruiva?

Leon: Estamos preparando um novo show e começando a planejar a turnê. O novo show será surpresa, mas certamente esperamos causar emoções, sensações de prazer e reflexão. Nosso show costuma ser bem visceral em termos de interpretação, e até hipnótico em certos pontos. Estamos desenvolvendo essa questão do show, pra tentar seduzir o público e tentar atingir não somente os ouvidos. Assim como eu espero ser arrebatado quando vou a algum espetáculo.

Rafael: Ainda não estamos em turnê. Podem esperar cada dia um novo show, com bastante espontaneidade e muito suor, sempre há muita entrega da banda nos shows. Procuramos não deixar um show muito “fechado” , sempre com possibilidade do inusitado e do imponderável.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Rafael: Apanhador Só, Astrovenga, Facção Caipira, Wagner José.

Leon: Amplexos, Duda Brack.

Aline: Whipallas, Sound Bullet, Taranta, Gabriel Gerszti, Negro Leo, Chico Chico, Ventre, Tacy de Campos