Sons de desespero: Led Zeppelin – “Presence” (1976)

Sons de desespero: Led Zeppelin – “Presence” (1976)

21 de setembro de 2017 2 Por Victor José

Existem raros casos em que a obra completa de um determinado grupo ou artista é praticamente irretocável, incontestável em termos de importância histórica e cultural, quase imune ao ranço daqueles que insistem em torcer o nariz. O Led Zeppelin é um desses exemplos.

Tenho ouvido muito toda a obra da banda, mas muito mesmo, como há tempos não fazia com tanta intensidade. Então naturalmente quis escrever algo sobre, mas logo veio uma dúvida pertinente… Como falar dessa banda sem se repetir? Como abordar esse tema tão dissecado sem chover no molhado? Eis que descobri a resposta: Presence”.

Em sua curta trajetória devastadora, o Zeppelin produziu oito álbuns, todos excelentes, a grande parte deles fundamentais. Mas “Presence” sempre foi aquele LP meio negligenciado, o patinho feio que ninguém liga muito. Que injustiça.

Após Physical Graffiti” (1975) consagrar Jimmy Page (guitarra), Robert Plant (vocais), John Paul Jones (baixo e teclados) e John Bonham (bateria) como “a banda da década”, estava claro que não precisavam provar mais nada para ninguém. O quarteto havia realizado uma dezena de turnês, recorde após recorde, vendas absurdas, seis álbuns excelentes, chegando ao ponto de se tornarem lendas precocemente. O mais bizarro é que jamais tiveram apoio da crítica especializada (que insistia em descer a lenha no trabalho do grupo) e de adventos tão indispensáveis para uma banda divulgar seu trabalho, como singles, clipes e aparições em programas de TV. Naquela altura tudo ia bem, não havia como melhorar, porém, todo império tem seu fim, e no caso do Led, o começo da queda ladeira abaixo foi exatamente este período.

A zica que viria a persistir até o fim da banda – com a morte de Bonham – começou com um grave acidente de carro. Em 4 de agosto de 1975 Plant e sua família estavam de férias na Grécia, quando o carro que dirigia derrapou para fora da estrada e rolou a ribanceira. O acidente deixou Plant e sua esposa Maureen bastante feridos, entretanto os filhos escaparam do pior e sofreram apenas alguns arranhões. O vocalista quebrou um tornozelo e um cotovelo, que custaram mais de dois anos de recuperação total. O cantor passou um tempo em uma cadeira de rodas, o que afetou diretamente os planos futuros do Led Zeppelin, fazendo com que o grupo cancelasse uma turnê mundial.

Durante um período em convalescença Plant escreveu algumas letras e, quando Jimmy Page juntou-se com ele estas composições foram concretizadas. Os dois prepararam material suficiente para os ensaios, período que durou um mês.

“Presence” foi gravado no prazo de três semanas no Musicland Studios em Munique, Alemanha, com Plant em uma cadeira de rodas. Esta gravação foi a mais rápida desde “Led Zeppelin I”. Uma parte da pressa em gravar o álbum se deu pelo fato do Led ter reservado o estúdio antes dos Rolling Stones, que gravariam o álbum Black and Blue” logo em seguida. Ao chegar no local para iniciar os trabalhos, os Stones ficaram espantados, pois o Led havia gravado o álbum em apenas 17 dias.

Para Jimmy Page o trabalho foi ainda mais intenso, que além de assinar a produção do álbum ficou acordado dois dias para gravar os overdubs de guitarras. Ele inclusive chegou a dizer que trabalhou de 18 a 20 horas por dia para concluir as mixagens.

Talvez pela pressa de ter que concluir logo o trabalho ou talvez pelo período de ansiedade, “Presence” apresenta uma tracklist direta, crua, o que faz deste o disco mais hard rock da discografia do Led. São sete músicas que trazem um pouco daquela energia intensa dos primeiros trabalhos, mas com uma sonoridade mais polida.

De todas, a dolorosa “Achilles Last Stand” destoa como o grande trunfo. Essa porrada de estatura épica dura pouco mais de dez minutos e representa uma banda buscando atingir a força máxima. É como se eles quisessem deliberadamente compensar o hiato forçado pelo acidente de Robert com um som de assimilação instantânea e impressionante. A cozinha formada pela bateria impecável de Bonham lado a lado com o baixo galopante de John Paul Jones serve os vocais melancólicos de um Plant menos agressivo como de costume, enquanto que Jimmy Page constrói uma parede de guitarras incríveis, como uma espécie de orquestra. Para quem curte solos, isso aqui é uma coisa única. Um dos pontos máximos do Led Zeppelin.

“For Your Life” é um hard rock básico com um pouco de funk, uma faixa sem aquele brilho intenso de sempre, mas que ao mesmo tempo é ótima. A banda, mesmo em desvantagem, consegue entregar algo que ainda hoje quase nenhum grupo de renome consegue: esse som cru, bem tocado, ao mesmo tempo bem arranjado e criativo no modo de abordar um gênero básico. Led Zeppelin tem muito dessa excelência inata, justificada pela capacidade técnica dos quatro membros, extremamente capazes em seus respectivos papeis, a ponto de agradar vários nichos: músicos exigentes, músicos toscos, ouvintes desinteressados, saudosistas, moderninhos e os aficionados mais xiitas.

O groove certeiro de “Royal Orleans” mais parece uma prova de evolução e maturidade. Olhando para trabalhos anteriores com essa pegada funk (“The Crunge”, “Trampled Under Foot” etc.) percebe-se que ao chegarem em “Presence” o ritmo cadenciado flui naturalmente, afiado e extremamente competente, embora sem aquela vitalidade radiante dos primeiros anos. Já “Nobody’s Fault But Mine” é um rock de saltar às vistas. Cheio, pesado e certeiro, essa releitura completamente remodelada da faixa homônima do bluesman Blind Willie Johnson é o Led que estamos acostumados. O peso do riff de Page dita o caminho que toda a banda segue em linha reta, sem falhas e vibrante. Ótima música ao vivo.

O rock ‘n’ roll dos anos 1950 é revisitado em “Candy Store Rock”, que já dá pistas do viria a ser In through The Outdoor” (1979), o último disco do Zeppelin. Plant encarna um Elvis dos tempos de Sun Records, com direito a eco na voz e tudo. É uma faixa segura, sem grandes emoções. Um rock ‘n’ roll que não compromete e pouco acrescenta, para falar a verdade. Mas é uma boa faixa, apesar da falta de ímpeto.

Bonham brilha em “Hots On For Nowhere”, que literalmente salva a canção. Se não fosse as alterações que ele propõe ao longo dos quase cinco minutos talvez essa seria a música capaz de pôr em cheque a fidelidade de “Presence”. Ainda bem que não é o caso, no fim das contas é um momento agradável.

Quando a gente começa a achar que o disco vai derrapar na pista a banda apresenta essa verdadeira aula de blues. “Tea For One” – que no fundo é uma irmã caçula de “Since I’ve Been Loving You”, do III” (1970) – encerra o LP com o que parece ter significado para aqueles quatro caras o esforço de produzir algo novo quando as coisas pareciam estar ruindo. Um sentimento de melancolia extremamente adequado ao contexto em que o Led estava inserido. Page faz um trabalho de mestre e põe tudo de si naqueles fraseados tristes.

“Presence” é o melhor disco do Led Zeppelin? Claro que não. Mas funciona. Perceba como deveria ser difícil para aquele grupo seguir em frente tentando superar disco após o outro. Claro que uma hora as coisas começariam a ficar escuras. Aconteceu com os Beatles em Let It Be”, com o Pink Floyd em The Final Cut…” Excesso de drogas, libertinagem, muita grana envolvida, acidentes, ego inflado até o teto. Acho que tudo isso te coloca em uma posição horrorosa de desespero, e uma hora você terá que passar por uma provação. “Presence” é isso para o Zeppelin, uma provação com nunca eles haviam passado. Talvez por isso Page considere esse o principal trabalho da banda.

Mesmo tendo se tornado o álbum com as vendas mais baixas, banda passaria por essa turbulência, mas aos poucos sucumbiria por outros motivos (morte do filho de Plant e de John Bonham, por exemplo). “Presence” é um belíssimo começo de um fim amargo.