Sons da frustração: The Cure – “Pornography” (1982)

Sons da frustração: The Cure – “Pornography” (1982)

17 de agosto de 2018 0 Por Victor José

Existe um estigma muito descabido em torno da vertente do pós-punk que costumam classificar como “gótico”. É como se esse adjetivo resumisse todo um movimento esteticamente riquíssimo em experimentação e o reduzisse a um produto datado. Eu poderia citar uma dezena de discos maravilhosos dessa safra sombria do fim dos anos 1970 e início da década de 1980, mas tenho em mente essa obra que no fim das contas resume perfeitamente todo um momento. Falo de “Pornography”, obra-prima do The Cure lançada em 1982.

Nos primeiros três álbuns o trio deu pistas do que culminaria em “Pornography”: linhas simples de guitarras cheias de chorus com flanger, um baixo super destacado, baterias hipnóticas e, por fim, o inconfundível vocal choroso de Robert Smith, cantando a introspecção de modo visceral e bastante inspirado pela tristeza. O clima do Cure dessa fase é de uma frieza devastadora e ao mesmo tempo acolhedora. Com toda essa carga de tensão, difícil de explicar por que esses sons são tão cativantes, mas fato é que esse LP é capaz de te fisgar completamente, dependendo do seu estado de humor.

O pós punk inglês já conhecia o som expressionista do Bauhaus, a genialidade do Joy Division e a voz icônica de Siouxsie Sioux. Acontece que a banda vinha num crescente de criatividade ao mesmo tempo em que se via numa decadência emocional desencadeada por abuso de drogas, desgaste das turnês e brigas entre os membros. Também vale citar que o Reino Unido nessa época não devia ser nem um pouco convidativo, afinal, estamos falando do período do conservadorismo de Margaret Thatcher permeando num clima de falta de perspectiva. No contexto do Cure, tudo conspirava para essa estética carregada de negatividade. E foi assim que abandonaram o resquício de pop que havia desde o início da banda para abraçara de vez a melancolia, a depressão, a frustração e o isolamento.

O clima do Cure dessa fase é de uma frieza devastadora, claustrofóbico e ao mesmo tempo acolhedor. Com toda essa carga de tensão, fica até difícil de explicar por que esses sons são tão envolventes.

Certa vez, Robert Smith disse: “Eu tinha duas escolhas na época, que eram ou cometer suicídio ou fazer um álbum e tirar isso de mim. Eu estava em um estado de espírito muito deprimido entre 1981 e 1982. A banda esteve em turnê por cerca de 200 dias por ano e tudo ficou um pouco demais, não havia tempo para fazer mais nada”. A ideia, segundo ele, era fazer um disco meio que de exorcismo sentimental e depois acabar com a banda.

Esse é um álbum para ouvir de ponta a ponta e curtir aquela monotonia e aqueles temas indigestos sem restrições. Não há momento divertido em “Pornography”, mas por outro lado as músicas são incrivelmente geniais, de modo que não se torna um trabalho cansativo.

A começar por “One Hundred Years” e sua letra extremamente inspirada. O clima é praticamente apocalíptico, brutal, oriundo de uma frustração notável. Não há como sair ileso da experiência intensa dessa faixa, hoje um clássico soturno. “A Short Term Effect” talvez seja a coisa mais acessível do LP, mas não menos relevante. Destaque para a cozinha extremamente sólida de Simon Gallup e Lol Tolhurst, no baixo e bateria, respectivamente.

Em “The Hanging Garden”, único single do álbum, o baixo de Gallup se sobressai mais uma vez, repetitivo e percussivo, servindo como uma espécie de veículo de transe para uma bateria praticamente tribal. O cenário que a letra evoca é digno de um filme de horror. Já “Siamese Twins”, uma das melhores faixas de “Pornography”, reserva de certa forma o aspecto mais melancólico do trabalho. O som quase vazio tocado pelo trio exala desilusão e solidão, e traz uma das letras mais intensas de Smith: “…Dancing in my pocket, worms eat my skin/She glows and grows with arms outstretched/Her legs around me in the morning I cried…”.

“The Figurehead” é outra faixa inesquecível, e que parece unir o melhor das duas músicas anteriores. A vibe meio rústica da bateria de Tolhurst enterra ainda mais fundo nosso estado de espírito, enquanto que Smith afirma com todo aquele romantismo tétrico “I will never be clean again”. De certa forma, a banda retoma de leve o caminho de uma canção com estrutura pop em “A Strange Day”, e um detalhe curioso é que um riff pegajoso faz as vezes do “refrão”, e provavelmente ele vai passar o dia na sua cabeça.

Os sintetizadores tomam conta em “Cold”, um momento do álbum em que já passamos a nos acostumar com tanta tristeza. A bateria de Lol faz toda a diferença mais uma vez, fugindo do convencional e dando prioridade à crueza. E finalmente chegamos no fim com a perturbadora faixa-título, rabiscada com barulhos de programas de televisão e uns diálogos ao contrário. Na verdade esse som soa bem maníaco, chega a dar um certo medo, que vai sendo construído aos poucos, na medida em que a intensidade vai crescendo.

Ao atravessar essas oito faixas a gente percebe facilmente que ali estão os sentimentos à flor da pele de quem as compôs. “Pornography” fica sendo parte daquele seleto grupo de discos confessionais, sinceros ao máximo e que de certa forma é tão triste que transcende.

O disco obteve atenção moderada. O selo Fiction reconheceu apenas em “The Hanging Garden” um single possível, mas “Pornography” conseguiu ir bem nas pardas inglesas. Na época o LP não foi assim tão bem recebido pela crítica, que o analisou friamente. Somente com o passar dos anos sua importância foi sendo revelada, a ponto de muita gente considerar esse como o principal disco do chamado “rock gótico”.

Depois dessa fase o Cure como um trio viria a sucumbir de tanta tensão entre Gallup e Smith, a ponto de brigarem e trocarem provocações em frente ao público. O Cure ficou sendo um duo por um tempo, e como que para se desintoxicar da carga de emoção de “Pornography”, passaram a lançar singles muito mais acessíveis e pop, como “Let’s Go To Bed” e “The Walk”. Daí pra frente o Cure achou sua fórmula de fazer grandes hits, mas jamais superariam em intensidade e estética a amargura contida em “Pornography”.