SixKicks mistura ritmos regionais do Mato Grosso com a energia sônica do rock

SixKicks mistura ritmos regionais do Mato Grosso com a energia sônica do rock

29 de março de 2019 0 Por João Pedro Ramos

O show do duo SixKicks é, sem dúvidas, um dos melhores de toda a cena independente brasileira. Mesmo com apenas duas pessoas no palco, o som que Theo Charbel e Marjorie Jorie fazem é sônico e a energia é inegável, além de terem uma sintonia musical que fica palpável durante a apresentação. Se revezando na guitarra, vocal e bateria, as duas tocam rock, punk, grunge, lambadão, rasqueado e o que mais vier à cabeça das duas se mistura em um estilo musical que é difícil de definir. Mas quem precisa de rótulos hoje em dia, não é mesmo?

No primeiro EP, de 2017, “You Should Sing In Portuguese and Play Lower”, dá pra ter uma noção de todo o espetáculo que as duas fazem no palco, especialmente na faixa “Forrock”, uma das melhores ao vivo. Ali, dá pra sacar que elas não ficam no lugar comum e que a mistura de ritmos é algo intrínseco à banda, sempre deixando o barulho e o volume em alta voltagem. Para o próximo trabalho, elas prometem continuar mutáveis e intuitivas, misturando ritmos regionais e citando influências que vão de Angel Olsen à Rihanna. Com o SixKicks, você sempre deve esperar o inesperado.

– Ouvi dizer que vocês estão trabalhando em novas músicas. Podem adiantar um pouco sobre isso?

Theo: A gente sempre teve na cabeça de que esse é um projeto completamente mutável, que pode seguir várias direções dependendo da vibe e do som que estamos ouvindo. Nossas últimas composições são muito intuitivas, que surgem durante o show, que mesclam ritmos regionais de Mato Grosso. A única coisa que podemos dizer em relação a isso é que as pessoas podem esperar qualquer coisa da gente.

– Ou seja: não dá pra fazer uma definição do que é o som da SixKicks. Pode ser o que der na telha de vocês.

Theo: Exatamente, depende muito da nossa sintonia enquanto banda e das nossas vontades individuais de trazer outros elementos, porque estamos sempre ouvindo coisas novas.

– O que vocês andam ouvindo hoje em dia?

Theo: Maria Beraldo, Josyara, Angel Olsen, The Internet, Rihanna.

Marjorie: Twin Peaks, Kali Uchis, Travis Scott, Feng Suave, Rihanna.

– Como foi a composição e gravação do primeiro trabalho da banda?

Theo: Foi um trabalho muito impulsivo. Existia uma ânsia muito grande de termos uma banda juntas e gravamos o primeiro single e videoclipe por nossa conta, dentro de casa. A partir disso, começamos a levar o projeto com mais seriedade e fazer mais ensaios, onde as músicas saíam com muita facilidade.

– Mesmo sendo um EP com poucas músicas, ele deu origem a apresentações ao vivo destruidoras. Vocês se entregam muito no palco! Como vocês descreveriam um show da banda?

Marjorie: Depende muito do dia, da energia do local, ciclo menstrual e principalmente do som (gostamos de tocar ALTOOO!) (risos). Normalmente a gente se entrega quando tudo isso bate junto! Quanto mais perto uma da outra durante a apresentação, melhor o show. A gente sente que rola uma entrega e uma sintonia muito forte. Antes de qualquer coisa, a gente toca pra nós mesmas. A gente se olha, se diverte, grita, troca de instrumentos, tudo isso a gente faz por pura diversão. Acredito que deve ser divertido assistir tudo isso, por isso as pessoas gostam do nosso ao vivo. Acho que se identificam.

– As músicas do primeiro EP são todas muito fortes e diferentes entre si. Vocês podem me falar um pouco sobre cada uma delas?

Theo: “You Wanna Fuck Me” – Essa música fala sobre desejos platônicos, imaginação, sexo, masturbação e excitação de um jeito bem escancarado, sem metáforas ou eufemismos. Mesmo com toda a sexualização dos corpos femininos esses corpos são muito passivos do desejo dos outros, sem identidade, sem vontade. Mulheres também tem desejos e fantasias e taras que não necessariamente precisam ser fofas ou convencionais, não precisamos cantar só sobre amor romântico na posição de ‘musas’ ou ‘divas’, temos nosso lado estranho, fetiches bizarros, identidades que não performam feminilidade o tempo todo, vozes estridentes e menos melódicas.

“Take Time” – Criado a partir de uma base bem simples de dois acordes no violão uma melancolia inconsciente tomou conta da letra ao tratar de sonhos que parecem inalcançáveis, futuros incertos, sentimento de estar só enquanto está com outras pessoas e angústias reprimidas. Querendo ou não, no mundo da música estamos em constante questionamento sobre nossas carreiras e escolhas, estamos sempre a um passo de ganhar tudo ou perder tudo. Alguma hora ou outra essa realidade vai bater de uma forma esmagadora, daí vai de cada artista saber trabalhar esse sentimento.

Marjorie: “Forrock” – é um som que saiu de uma brincadeira durante um ensaio, estávamos preparando um set para o nosso primeiro show, e rolou! A letra surgiu através das nossas referências de Cuiabá, o Zé Bolo Flô – Eu sou de Cuiabá. Música popular típica de lá. O som tem uma pegada forró com um refrão arrastado. É uma das músicas que a gente mais se diverte nos shows.

“Doom” – É um som instrumental. Eu tinha feito o riff em casa, mostrei pra Theo e ela pirou. Brincamos muito com ela, todo show tem um final diferente.

– Como surgiu o nome da banda?

Marjorie: Foi a ideia do Welder. Estávamos precisando de um nome, ele jogou essa ideia, e gostamos de primeira!
Inicialmente era pra ser “six kicks on the balls”, mas resolvemos manter só o SixKicks!

– Porém, os chutes no saco permanecem implícitos no som.

(Risos)

– Como vocês se relacionam com o atual crescente da cena independente no Brasil?

Theo: A gente sempre consumiu artistas independentes desde a adolescência, como Macaco Bong, Fuzzly, Forgotten Boys, Diego de Moraes e o Sindicato, Porcas Borboletas, frequentávamos os festivais que tinham em Cuiabá e sempre gostamos desse meio. Hoje em dia é muito doido se perceber tocando nos mesmos palcos que esses artistas e ao mesmo tempo conhecer tanta galera nova fazendo um som foda. Ano passado tocamos em alguns festivais grandes que faziam parte do nosso imaginário adolescente, isso nos dá cada vez mais gás e certeza de onde queremos chegar.

– Quais os próximos passos da banda?

Marjorie: A gente quer gravar um album cheio ainda esse ano. Atingir outros públicos também! Fazer uma tour pelo Nordeste (nosso sooooonhooooo)! Identidade visual nova, reformular os shows e buscar sempre misturar outros estilos, nunca se prender a um gênero só. E claro, nos divertir sempre!

– Vocês citam ritmos regionais que inspiram a banda que nem todo mundo conhece. Podem falar sobre alguns que vocês curtem e podem aparecer mais pra frente?

Marjorie: O principal que a gente adora é o rasqueado, lambadão. Típico de Mato-Grosso. Pra gente, que somos mato-grossenses , é algo muito comum. A cada esquina tem um boteco rolando um lambadão, por isso que é algo natural que vem da gente. Acabam influenciando nas nossas composições, misturar é a parte mais legal de todo o processo. A tendência é brincar cada vez mais com isso.

– Essa mistura de ritmos com rock foi algo muito celebrado nos anos 90, mas com o tempo infelizmente deu uma diminuída. Porque acham que isso aconteceu?

Theo: Acho que a partir dos anos 2000 a globalização fez que com as pessoas consumissem muito mais artistas de fora, visto que isso era um consumo mais privilegiado. Com a democratização da informação e da utilização delas, tanto a música quanto as artes em geral foram criando um padrão homogenizado, seguindo uma ‘moda’ do mercado que agora é mais acessível. Porém nem em todos os lugares isso aconteceu, em Recife houve um certo tipo de fechamento a esse pensamento e uma grande preservação da cultura local que fez com que essa mistura perdurasse até hoje.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Marjorie: Vesh, são tantos! Nem sei por onde começar (risos)! Mas agora vou recomendar uma que eu achei demais: Stolen Byrds! O show deles, a presença, tudo… Amei!

Theo: Acho que as mulheres tem sido as artistas que mais estão conseguindo ultrapassar barreiras e atingir um nível de excelência muito inspirador. Os shows da cena independente que mais piram minha cabeça são:
Luedji Luna – Você dança, sorri, chora, se arrepia com as falas entre as músicas e no final sai apaixonada por aquela mulher.
Josyara – Desde o cabelinho balançando, o sorriso enquanto canta, sotaque delicioso e dedinhos rápidos no violão, tudo é encantador e harmonioso.
Maria Beraldo – Um experimentalismo chocante de performance, me abriu a cabeça. A força da mulher sapatona sozinha no palco.
Larissa Luz – Não precisa conhecer o som dela pra ver um show e curtir muito, ficar com os olhos brilhando. Potência define.
Letrux – Um bom show pra chamar uma crush (risos) pra dançar, dar risada, beijar, se identificar nas letras tão simples e tão geniais. Leticia te hipnotiza de um jeito que parece ser sua amiga de infância, é gostoso demais.