Siso põe pra fora todas suas ideias musicais e devaneios em “Saturno Casa 4”

Siso

O mineiro Siso lançou em novembro do ano passado seu primeiro disco, “Saturno Casa 4”, mostrando uma mistura sonora que inclui pop, rock, MPB, ritmos regionais e o que mais desse em sua cabeça. “Era muita ideia musical acumulada e muito assunto guardado, e o inconsciente me guiou pra algo muito pessoal e autobiográfico”, conta. Eleito uma das revelações do ano pelo Google, o compositor lançou um álbum que conta com participações de Letrux e Paula Cavalciuk e foi produzido pelo artista ao lado de Christopher Mathi, Lasyten, Alexis Gotsis e Mettabbana.

Natural de Belo Horizonte, Siso subiu no palco pela primeira vez aos 10 anos de idade, continuando na cena independente mineira a partir da adolescência. Além do trabalho solo, que também conta com o EP “Terceiro Molar”, lançado em 2016, ele também integra a banda Cabezas Flutuantes. Conversei com ele sobre o seu primeiro álbum, o EP, a cena independente e as participações e amizades musicais:

– Vamos começar então falando um pouco de “Saturno Casa 4”. Como rolou esse trabalho?

“Saturno Casa 4” foi uma explosão. O álbum foi produzido em 5 meses, que é menos da metade do tempo que levei pra fazer o “Terceiro Molar”, EP do ano passado. Era muita ideia musical acumulada e muito assunto guardado, e o inconsciente me guiou pra algo muito pessoal e autobiográfico. Acaba que fala muito sobre as estruturas que nos guardam/restringem/oprimem diariamente e como a gente pode lidar com elas de uma forma mais leve. A maior parte do repertório compus sozinho, mas também tem uma faixa do Leonardo Onerio, uma parceria minha com ele e uma faixa inédita da Letrux. A produção foi minha em parceria com o Christopher Mathi, com quem já havia feito o “Terceiro Molar”, o Lasyten (que também toca baixo comigo ao vivo), o Alexis Gotsis (grego radicado no Brasil, membro d’Os Amantes Invisíveis e produtor dos dois discos do Ruspô) e do Mettabbana, um produtor do Kosovo radicado nos EUA que desenvolve pesquisas com ritmos brasileiros, como a rasteirinha.

– Me fala mais sobre essas participações. Também teve a Paula Cavalciuk, né?

Sim! Todos os envolvidos, exceto o Mettabana, já eram amigos antes de o disco ser feito. Como é um trabalho muito pessoal, quis chamar só gente cuja afinidade fosse não só musical, mas também da ordem do afeto. Paula foi assim. Ouvi “Morte e Vida” quando saiu e pirei com a voz e as letras dela. Pouco depois a conheci pessoalmente e, quando fiz “Onde Termina a Calçada”, sabia que ela precisava ser participação especial. É uma canção sobre perda e aceitação na leveza, e eu sabia que ela conhecia aquela verdade. Já com a Letrux, eu a conheci em 2015 e, no ano seguinte, ela se mudou por um tempo pra SP e nós fizemos shows juntos. Nessa época ouvi “185 Centímetros” pela primeira vez e pedi pra gravar, colocando minha altura no título da minha versão. Depois, quando fiz “O Amor é 1 Arma de Destruição em Massa”, sabia que a voz dela encaixaria igual a uma luva na canção e na narrativa. E tanto ela quanto a Paula aceitaram de cara, assim que ouviram as canções.

– Como você definiria seu som?

Eu diria que é música pop atravessada por várias coisas. O pop é o centro do que faço – a estrutura, a melodia – e é das coisas que mais ouço desde a infância. Mas é um som que também se deixa influenciar pelo ambiente, pelas coisas, pelas pessoas. Nesse disco essas influências vão desde o funk melody dos anos 1990 até cumbia, ijexá, highlife, folk… Nesse aspecto, eu sou um alvo em movimento, criativamente.

– Uma metamorfose ambulante, se formos ser clichê pra definir.

Sim, certamente. A pessoa é geminiana, tem trocentos planetas em Gêmeos, não tem jeito (risos).

Siso

– Quais as suas principais influências musicais (e não-musicais)?

Tanta coisa já me provocou nessa vida que nem sei mais direito. David Bowie, certamente, muito por esse senso natural de transformação. Patti Smith, Depeche Mode, M.I.A., Alceu Valença, Anohni, Karine Alexandrino, Bruce Springsteen… Num âmbito não-musical, diria que Kubrick, Joan Didion, Jodorowsky, Glauber e David Lynch também. Minhas experiências com budismo acabam pautando muito da minha perspectiva de autor também, assim como o fato de ter crescido num ambiente de grande dificuldade financeira, mas num núcleo que investia pra cacete na minha educação e me incentivava a imergir em toda forma de cultura, além de serem pessoas muito afetuosas e generosas.

– Agora, voltando um pouco: como foi o “Terceiro Molar” e como o novo disco evoluiu dele?

O “Terceiro Molar” foi o resultado de um processo longo de experimentações, afirmações pessoais e reorientações depois de um período bem confuso, quando mudei pra SP. Caí de paraquedas por aqui, sem conhecer ninguém e imergi em experiências artísticas de todo tipo, do teatro à performance, com a música no stand-by. Era eu basicamente entendendo por onde podia transitar, sabendo onde ficavam as paredes, o chão e o teto desse lugar mental e criativo em que eu estava. Fiquei muito feliz com a forma com que ele foi recebido, mas comecei a sentir falta de exercitar narrativa nas minhas canções. As letras eram muito mais sensoriais e filosóficas do que contavam uma história tangível, daí resolvi seguir por esse caminho. De resto, a memória e os desafios grandes e pequenos que a gente precisa encarar pra resolver foram ditando o caminho das coisas.

– Como você vê esse novo formato de divulgação musical, especialmente no meio independente, usando o streaming e as redes sociais?

Gosto do fato de que os independentes têm mais voz e liberdade de ação nesse contexto do que nos anteriores. O modelo do streaming como é hoje, apesar de estar longe de ser perfeito, é satisfatório. Você está chegando a um público potencial enorme e sendo remunerado por isso. E também é uma lógica de consumo de música que me agrada como ouvinte.

– E o mainstream, ainda é um objetivo para os artistas independentes?

Pode ser. O interessante é que hoje é possível dar um bypass em algumas das circunstâncias e chegar a um grande público mesmo assim. No que diz respeito a mim, não tenho nenhuma regra pré-definida quanto a isso. Mas, neste momento em que estou, acredito que é bem melhor permanecer independente. E ver até onde sou levado. Mas não torço o nariz pro mainstream, não. É bom ser escutado por muitas pessoas.

– E como você vê a dita “cena” independente hoje em dia?

Do lado humano da história, tá tudo muito bem – as pessoas dispostas a arregaçar as mangas, fazer e acontecer, trabalhos maravilhosos sendo lançados a todo momento, enfim. O fato de os selos estarem ressurgindo como iniciativas coletivas e haver marcas interessadas em incentivar trabalhos artísticos também é ótimo. A aresta a ser repensada e corrigida agora é a da frente dos shows, penso eu. Cada vez mais casas pequenas e médias têm fechado pelo país por uma crise no modelo, o que torna mais difícil a circulação dos artistas. Claro que a boa vontade contorna muita coisa, mas não cria estruturas que deveriam ser sólidas, preferencialmente. Então taí um ponto que todo o meio independente precisa pensar em como trabalhar melhor. Além da questão dos incentivos públicos para a cultura que vêm minguando nos últimos tempos, mas isso é conjuntura da nossa terrível situação política.

Siso

– Voltando ao seu com: como é seu processo de composição?

Ando sempre com um caderninho, em que anoto impressões, frases, ideias. E volta e meia sento com o computador, o violão ou o teclado e começo a desenvolver harmonias e letras. Uma sequência musical pode me sugerir uma palavra e aí pego o caderninho como guia no desenvolvimento da letra. Tento julgar o mínimo possível o que rola nesse primeiro momento criativo. Se a ideia geral vale a pena, aí sim eu sento, burilo a letra e começo a desenvolver a produção do jeito que ela precisa ficar.

– Você já está trabalhando em novas músicas?

Sim, constantemente. Mas ainda é cedo pra saber quais delas serão lançadas e quando.

– Quais são seus próximos passos musicalmente?

Quero tocar por tudo quanto é lugar com o repertório do “Saturno Casa 4” em 2018, lançando algumas coisas ao longo do ano também. Devo participar do próximo EP da Letrux, que vai ser só de remixes do “Letrux em Noite de Climão”. Tem umas colaborações alinhadas também, coisas boas hão de rolar muito em breve.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Nossa, isso é o que mais tem. Ekena, Natália Matos (tá com um disco novo incrível), Luiza Lian, Baco Exu do Blues, Harmônicos do Universo, GEO, Aloizio, Miêta, Alambradas, Yangos, Quartabê, Renata Rosa, Bruno Vetz, Sessa


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