Salvando-se pela música: Cat Power – “Moon Pix” (1998)

Cat Power - Moon Pix

Bolachas Finas, por Victor José

Há muita gente que afirma que para se fazer uma obra de arte melancólica e ao mesmo tempo convincente é preciso que o artista esteja em um estado de espírito sombrio. Não vejo isso como verdade absoluta, mas deve ajudar.

É uma pena que existam poucos álbuns extremamente vulneráveis como o quarto disco da Cat Power, “Moon Pix”, de 1998, é um desses raros casos de equilíbrio entre qualidade artística e intensidade emocional que notamos em obras impressionantes, como o irretocável Plastic Ono Band”, de John Lennon, ou o corajoso Loki?”, de Arnaldo Baptista.

Primeiramente, Chan Marshall, a pessoa por trás do pseudônimo Cat Power, faz música como ninguém. Dona de uma voz lindamente rouca e irregular, a moça tem um estilo único, e se engana quem acha que seu modo de tocar guitarra seja simplório. Desde o início Chan vinha fazendo um bom trabalho, mas acontece que em meados dos anos 1990 não estava passando por um bom momento pessoal. A desordem na cabeça era tanta que quase abandonou a música no momento em que já havia lançado três discos de algum prestígio na cena alternativa dos Estados Unidos.

Morando em um sítio com seu namorado, na Carolina do Sul, a compositora estava na maior bad: deprimida, bebendo muito e cheia de dúvidas sobre a vida que vinha levando. Mas foi uma noite difícil de outono de 1997 que talvez tenha salvado o futuro de Chan. Segundo ela, em um desses momentos de profunda confusão, sozinha em casa, teve um intenso pesadelo alucinatório.

“Fui acordada por alguém que estava no campo, atrás da minha casa. A terra começou a tremer enquanto espíritos escuros se espatifavam contra todas as janelas. Eu acordei com meu gatinho ao lado. Comecei a rezar para que Deus me ajudasse. Então eu corri e peguei minha guitarra, tentando me distrair… Acendi as luzes, cantei para Deus e gravei uns sessenta minutos com meu gravador. Estava tocando umas progressões longas”, contou.

Dessa experiência absurda saiu a espinha dorsal de Moon Pix”: “No Sense”, “Say”, “Metal Heart”, “You May Know Him” e “Cross Bones Style”.

Chan decidiu voltar aos estúdios e gravou o disco na Austrália. Para isso, convocou Mick Turner (guitarra) e Jim White (bateria), da banda Dirty Three. A sonoridade das gravações remete a um clima solto, com trama de guitarras confusas, baterias minimalistas e muita sobreposição de vozes, o que fica sendo um dos grandes charmes do trabalho.

É interessante o jeito de Chan compor. Ela circula por uma progressão de acordes quase que em um loop e destila seus sentimentos em letras cheias de emoção. Não tem como dar errado. E neste trabalho todo cheio de arestas, essa fórmula foi como um movimento perfeito.

Esse é daquele tipo de álbum que vale mais ser escutado por inteiro, sem destacar nenhuma faixa especificamente. Mas é claro que sempre há uma ou outra coisa que se torna mais memorável, por isso, se fosse para separar somente uma das onze canções para definir a vibe desse belo trabalho, eu destacaria “No Sense”. Trata-se de uma linda obra de arte, profundamente comovente, que nos remete à sensação de dissolução que Marshall canta na letra. Da mesma forma, não tem como não se sentir tocado com “Moonshiner”, uma antiga canção tradicional do folk dos Estados Unidos onde ela fala claramente do seu ímpeto pelo álcool e interpreta de um modo que gera uma angústia instantânea. As guitarras tranquilas de “Say”, com seu som de chuva no fundo, embalam uma linda melodia, resultando em um perfeito retrato sonoro de reflexão de uma artista de mão cheia. Talvez a coisa mais acessível em “Moon Pix” seja o clipe da ótima “Cross Bones Style”, que é ao mesmo tempo a canção mais “radiofônica” do álbum. A sutilmente esperançosa “Colors and The Kids” quebra de leve a toada do disco com seu belo piano, o que acaba ganhando sem querer um status de “cereja do bolo”.

“Moon Pix” marca também um ponto de guinada na carreira da Cat Power. Mesmo ainda oferecendo a bem-vinda confusão dos trabalhos anteriores, o disco aponta para uma compositora mais madura, que mesmo com sua fórmula sem muitos floreios já abria caminho para grandes feitos aclamados por um público maior como “You Are Free” (2003) e The Greatest” (2006). Mas quem acompanha a carreira dessa grande mulher sabe bem que “Moon Pix” é seu ponto alto, daqueles que dificilmente se repetem na carreira de um artista.

Hoje, aquele triste cenário de pesadelo pessoal é lembrado por muitos como um dos maiores momentos do rock alternativo dos anos 1990. “Moon Pix” é um exemplo de que de fato a música é mais que expressão.


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