Rogério Skylab navega por novos caminhos em seu novo projeto, “Skylab + Tragtenberg Vol.1”

Rogério Skylab navega por novos caminhos em seu novo projeto, “Skylab + Tragtenberg Vol.1”

30 de maio de 2016 0 Por João Pedro Ramos

A sátira, o lirismo, o rock, a MPB e a música experimental são alguns dos inúmeros ingredientes que compõem a carreira de Rogério Skylab, artista multifacetado que não cansa de surpreender seus ouvintes. Alguns o acham engraçado. Outros, bizarro. Há os que digam que sua obra é um retrato sujo do ser humano. Mas uma coisa é certa: não dá pra ficar sem opinião após uma audição de “Skylab & Tragtenberg Vol. 1”, o mais novo projeto do compositor.

Obcecado por séries, após finalizar sua popular coleção de 10 discos iniciada em 1999 com o álbum “Skylab X”, começou imediatamente mais uma: a “Trilogia dos Carnavais”, (“Abismo e Carnaval”, “Melancolia e Carnaval” e “Desterro e Carnaval”) que vai virar DVD em breve. Sempre independente, agora ele dá início a uma nova trilogia com “Skylab & Tragtenberg Vol. 1”, em parceria com o compositor e saxofonista Lívio Tragtenberg.

“Faço parte dos primórdios da música independente no Brasil. E toda minha carreira primou por uma independência que me permitiu fazer do jeito que sempre quis, com absoluta liberdade. Vivi a fase de transição do mercado, quando a indústria fonográfica era pujante e depois passou por uma série crise com o advento da internet. Conheci, portanto, os dois lados da moeda e sou um sobrevivente. Todavia, me defino como um cadáver dentro da MPB”, define Skylab.

Conversei com ele sobre o novo disco, sua obsessão por séries, o humor em sua obra, a guinada conservadora que o mundo está sofrendo e muito mais:

– Como surgiu esta parceria?

Eu já manjava o Lívio Tragtenberg. Mais pelos livros escritos que pelos seus trabalhos musicais. Vim a entrevistá-lo no programa “Matador de Passarinho”, que era um programa que eu apresentava no Canal Brasil. Daí foi um pulo para convidá-lo a fazermos um disco juntos. Lívio é de uma geração anterior a minha. Conheceu os poetas concretas, participou de bienais. É de uma inteligência selvagem. Como um bom judeu, me lembra Kafka. Quando desafiado, é capaz de encontrar soluções impossíveis. Acho que esse nosso primeiro disco é um bom exemplo disso.

– O trabalho difere bastante do que foi realizado até Skylab X. Quais são as principais diferenças, na sua opinião?

Acho que a diferença fundamental está na mixagem. Hoje em dia a mixagem é tão importante quanto a composição. Não adianta você fazer um disco com composições ricas e complexas, se o tratamento que essas composições vir a sofrer, na pós-produção, tiver algum ranço conservador. O trabalho da série dos “Skylabs” é espontâneo e bem livre. É quase um trabalho coletivo. Tem sua importância. Mas continuá-lo seria ficar no mesmo.

– Quais são as principais influências para este álbum?

Não daria pra transcrever todos os nomes que, de uma forma ou de outra, estão presentes nesse trabalho: da literatura à música. Afinal, tanto eu quanto ele, não nascemos ontem. Acumulam-se informações. Beckett, Severo Sarduy, “Araçá Azul”, Syd Barret, Joyce, Arrigo Barnabé, John Cage, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Cadu Tenório, Jonas Sá

– Este disco parece mais sério, apesar de você sempre ter dito que seu trabalho não ser “humorístico”. Já recebeu alguma resposta dos fãs que levam seu trabalho como humor?

Isso é uma bobagem até porque vejo no humor uma potência, presente em trabalhos como do grupo Monty Python. E nem precisamos ir tão longe: André Dahmer e Lourenço Mutarelli são exemplos de um humor estranho nacional. Isso me interessa. Não é o humor de Casseta e Planeta, nem Porta dos Fundos. Muito menos dos nossos humoristas fascistas que pululam na mídia. Quanto a esse disco, tem algumas passagens bem humoradas. Com um certo comedimento, mas o humor não deixa de estar presente.

Rogerio Skylab

– Como você definiria o som deste disco?

Sinceramente, não saberia defini-lo. Até porque estamos pesquisando, não temos nenhuma resposta pronta. É um work in progress. Sem esquecermos que foi projetado para uma trilogia. Gosto dessas coisas: decálogo, trilogia… O meu trabalho anterior, calcado em sambas e na música popular, também é uma trilogia. E vai sair em breve um DVD, lançado pelo Canal Brasil, que vai ser um resumo desses 3 discos lançados: “Abismo e Carnaval”, “Melancolia e Carnaval”, “Desterro e Carnaval”. Esse DVD vai se chamar “Trilogia dos Carnavais”. Enfim, o segundo volume desse “Skylab & Tragtenberg” pode ser completamente diferente do primeiro.

– Vocês estão fazendo shows de divulgação deste trabalho?

Pretendemos fazer em breve, vai ser inevitável. Mas já estamos começando a trabalhar o segundo volume.

Rogerio Skylab

– Pretende lançar mais trabalhos em parceria?

Sim, esse é o nosso desafio: o “Skylab e Tragtenberg” vão ser 3 discos.

– O que você acha da cena musical brasileira que acontece hoje em dia?

A atual cena musical brasileira é um espelho da nossa sociedade: tem segmentos, como o sertanejo e o axé, que representam o arcaico; e tem outros segmentos, menos visíveis mas não menos potentes, que me orgulham e me deixam cheio de esperança. Afinal, ouvir Chinese Cookie Poets é um luxo e um sinal inequívoco de que a nossa sociedade pode mudar e mudar pra melhor.

– Você já se declarou infeliz com a situação política do país hoje em dia. Isso e as respostas do setor conservador e de direita da população de alguma forma inspiram novas músicas?

Pra mim, existe uma relação entre música e política. Assim como há relação entre cultura e política. Só que não é uma relação de espelho. Essa relação não é tão óbvia, se dá por vias indiretas, complexas. Se esse setor conservador e de direita podem me inspirar a compor novas músicas, não há dúvida. O que não significa que as músicas façam menção direta a isso.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Tatá Aeroplano, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Chinese Cookie Poets, Cadu Tenório, Jonas Sá…