Renascimento doloroso: John Lennon – “Plastic Ono Band” (1970)

Renascimento doloroso: John Lennon – “Plastic Ono Band” (1970)

26 de outubro de 2017 1 Por Victor José

Poucas vezes uma obra foi tão determinante para me fazer entender que a música é, primeiramente, algo de extrema intimidade, pessoal por essência. Fazer dessa qualidade uma reafirmação é muito difícil, ainda mais sendo uma das pessoas mais famosas do mundo e recém ex-beatle. Coragem define este disco.

Seco, extremamente enxugado, quase esvaziado, melancólico, desesperado, reflexivo e redentor. Assim é Plastic Ono Band”, essa obra-prima sem igual.

O que mais me impressiona neste disco é que, ao contrário dos trabalhos mais emblemáticos do início da carreira solo de seus ex-companheiros de banda (como é o caso dos também incríveis Ram” e All Things Must Pass”, de Paul McCartney e George Harrison, respectivamente), John parece não ter feito um enorme esforço para tirar da cabeça essas canções. Tudo parece ser bem natural, espontâneo, de coração e em um nível genial. Claro que houve ajuda para fazer este disco sair do papel. Phil Spector, que assina a produção, foi esperto e manteve seu temperamento musical discreto. Ou seja, em “Plastic Ono Band” você não terá nada de “wall of sound” e aquela porrada de músicos tocando em mono. O LP é extremamente básico, porém de um modo original. Pegue como exemplo “Hold On”: guitarra, baixo, bateria e voz embalados por uma letra claramente voltada para o próprio autor. A temática do trabalho é John Lennon, do início ao fim.

Na comovente “Mother”, Lennon exorciza seus traumas de infância e chega a partir nosso coração com versos como “Mama don’t go, daddy come home”. Não restam dúvidas de que John vivia um período muito complicado. Mesmo que ele não quisesse dar o braço a torcer (algo que ficou muito claro na lendária entrevista publicada na revista Rolling Stone em 1970), o fim dos Beatles foi uma verdadeira porrada na alma daquele que fundou o maior fenômeno da história da cultura pop.

Beirando os 30 anos, Lennon atravessou essa difícil fase como pôde. Até que acabou embarcando numa espécie de terapia alternativa chamada “grito primal”, onde o paciente é encorajado a reviver e a expressar seus sentimentos básicos e que o terapeuta considera que podem ter sido reprimidos. O psicanalista americano Arthur Janov, criador dessa terapia, teve Lennon como paciente, e sobre isso disse certa vez: “Nunca vi tanta dor em toda a minha vida! Toda a dor de não ter sido amado fica gravada no cérebro, nos músculos, nos ossos das pessoas”. Agora, voltando para “Mother”, podemos perceber como tudo isso se encaixa: observe como é descarnado de qualquer tipo de filtro de ego aqueles berros no final da canção… se ainda estivesse nos Beatles muito provavelmente essa música não seria gravada.

Em “Isolation”, outra canção de apertar o coração, mostra Lennon guiado por poucas notas do seu piano enquanto observa o comportamento das pessoas em geral. E a letra é tão honesta que não há como fugir da mensagem. Pouca gente nesse mundo é capaz disso, esse incrível dom de saber abrir a cabeça das pessoas com poucas palavras.

Em tempo, vale ressaltar o trabalho impecável de Ringo Starr e Klaus Voormann na bateria e no baixo, respectivamente. Sem a simplicidade dos dois amigos de longa data de John (Ringo não precisa apresentar, já o alemão Klaus é o sujeito que fez a capa do LP Revolver” (1966), camarada de Lennon e dos Beatles desde os tempos de Hamburgo), talvez “Plastic Ono Band” teria resultado em “apenas” um excelente disco.

Em dois momentos cruciais do LP não é Lennon quem pilota o piano. Em “Love”, uma canção absurdamente linda sobre o que é o amor, é Spector quem guia John. Um dos clássicos do catálogo de sua carreira solo, “Love” é limítrofe: alguns podem achar piegas, outros podem passar despercebido por esse adjetivo fácil e notar que afinal, o que ele canta ali é fundamental. Algo tão certeiro quanto a letra de “Imagine”. Como ele conseguia fazer isso?

Em “God”, com Billy Preston no piano, John joga o famoso balde de água fria nos fãs dos fab four: “I don’t believe in Beatles/ I just believe in me/ Yoko and me/ And that’s reality/ The dream is over… Na verdade, é uma letra duríssima que não deixa passar despercebido nem Dylan, nem a Yoga, nem Elvis, nem Jesus e tampouco Deus. Nem precisa mencionar o tipo de discussão que essa música gerou, ainda mais vindo de um cara que quatro anos antes havia dito que “os Beatles são mais populares que Jesus Cristo”.

A pegada iconoclasta também dá as caras em “I Found Out”, com um jeito mais rock ‘n’ roll, o que ele sentia mais a vontade de fazer. A faixa pode ser considerada o resultado de uma década na qual o compositor passou por diversos gurus em busca da iluminação, com meditação, drogas e a Terapia Primal. Na música ele deixa de lado esta série de falsos ídolos que ele tinha acumulado ao longo dos anos e os rejeita. A guitarra de John soa excelente, assim como em “Well Well Well”, outro rock mais direto e com direito a berros que chegam a parecer Kurt Cobain em seus melhores momentos.

“Look At Me” tem aquele dedilhado tão característico que pinta as faixas “Julia” e “Dear Prudence”, do White Album” (1968), e a melodia é de uma melancolia verdadeiramente dolorida. Esta poderia estar em um hipotético trabalho dos Beatles, assim como “Remember”, que de certa forma traz a pulsação de “I Found Out” e a reflexão de todo o resto do trabalho. Um belo registro.

“Working Class Hero” é um dos melhores momentos da carreira de John. Um simples folk onde ele destila todo seu lado amargo de ver o mundo em uma letra espetacular e atemporal. Apenas por essa já valeria a pena dar uma chance para esse disco, mas “Plastic Ono Band” é um desfile de clássicos geniais.

O disco acaba com a triste “My Mummy’s Dead”, uma quase vinheta lo-fi, sem pretensão alguma de soar maior que aquilo. É apenas um adorno.

O LP foi recebido com elogios. No começo de 1971 o álbum chegou ao número oito no Reino Unido e foi para o número seis nos Estados Unidos, passando 18 semanas no Top 100.

“Plastic Ono Band” é figura presente em praticamente todas as listas de melhores discos.

Em 2000 a revista Q colocou o trabalho no 62º lugar na sua lista dos 100 Maiores Álbuns Britânicos de todos os tempos. Em 1987, foi classificado como o 4º na lista da Rolling Stone dos 100 melhores álbuns do período entre 1967 e 1987. Em 2003, ele foi colocado no 22º posto na lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, também da Rolling Stone. Em 2006 “Plastic Ono Band” foi escolhido pela Time como um dos 100 melhores de todos os tempos.

Este é um trabalho irretocável de um dos maiores artistas da História. Sempre que alguém questionar a importância dos Beatles ou a qualidade de Lennon como compositor, diga apenas: “Plastic Ono Band”.