Racionais MC’s como crítica social: Diário de Um Sobrevivente do Inferno

Racionais MC’s como crítica social: Diário de Um Sobrevivente do Inferno

31 de julho de 2017 0 Por Matheus Caio Queiroz

Filosophone, por Matheus Caio Queiroz 

“O ser humano é descartável no Brasil”

(Racionais MC’s – “Diário de Um Detento”)

Inferno. O que é o inferno? Essa é uma questão relativa. Não existe uma resposta única, pronta, acabada, esgotada, que dê fim a essa pergunta. A religião, a filosofia, a voz popular, todas essas áreas de uma forma ou de outra falam do inferno, o inferno como lugar de morada dos mortos, lugar de penitência pelos atos cometidos enquanto se vivia a vida terrena, inferno como lugar de sofrimento e dor.

Para muita gente o inferno é aqui mesmo na terra, lugar de morte e dor; inferno é não ter o que comer, é viver em condições sub-humanas, é não ter uma boa educação, não ter uma boa família, é ter a certeza de um futuro incerto. Esse é o inferno de quem vive na periferia, à margem das condições sócio-econômicas dignas. Aliás, corrigindo: de quem vive não, mas de quem sobrevive na periferia, porque não é fácil.

Nos anos 90, o mundo da música já tinha passado por vários momentos de estilo e comportamento musicais. Uma breve retrospectiva: aqui no Brasil, tivemos os cantores de rádio, dos anos 50, cantarolando com aqueles vozeirões; tivemos o samba do morro, depois a bossa nova pregando um basta na saudade – “chega de saudade!”. Perto do fim dos anos 60, vieram os grandes festivais de Música Popular onde a MPB começou a se consolidar. Pegamos em 1964 um duro golpe, instaurando-se a Ditadura Militar, de censura artística completa. Resultado em face disto, tentando ludibriar os censores: surgiram músicas de crítica ao regime, crítica sutil, inteligente. Na segunda metade dos anos 60, surge a galera da Jovem Guarda, a galera da psicodelia, do rock progressivo. Nos anos 70, a música nordestina invade o planeta Brasil, junto com o Clube da Esquina mineiro. Já nos anos 80, ocorre a explosão do rock nacional, o chamado BRock; e em fins dos anos 90, o hip hop e o rap se consolidam como a voz das classes menos favorecidas, esquecidas e ignoradas. O rap como música de protesto, que se utiliza da realidade sem fantasia como matéria para as suas rimas.

Racionais MCs
Em 1997, o grupo de rap Racionais MC’s, considerado o grupo mais influente do gênero no cenário brasileiro, lança o disco “Sobrevivendo no Inferno”. O disco todo pode ser definido como rap político, muito inteligente, recheado de referências culturais, de críticas ao preconceito racial e exclusão social. O disco fala do que é o inferno para quem (sobre)vive na periferia, o que é o inferno para quem é preto, pobre e não tem poder aquisitivo.

Interessante que, mesmo tendo sido lançado por uma gravadora independente, esse álbum alcançou o número de 1.500.000 cópias vendidas. Com certeza é um disco antológico do rap. Quer dizer, não só do rap – seria reduzi-lo demais. Mas antológico da história da música mundial.

A sétima música do disco, “Diário de Um Detento”, talvez seja a música mais conhecida até hoje, ganhou até clipe. Ela conta o drama de um brasileiro que vive num sistema opressor, que por escolhas erradas se mete no mundo da criminalidade, acaba sendo preso e se depara com o monstro chamado sistema penitenciário e com suas mazelas. A música conta ainda, em primeira pessoa, a história de um sujeito que viveu na pele a vida de prisioneiro, enxergando a olho nu uma vida atolada na miséria, onde o que lhe resta é tentar sobreviver no inferno.

Segundo alguns sociólogos, a sociedade pode ser dividida em: superestrutura e infraestrutura. A superestrutura do Estado é o nível jurídico-político e ideológico, ou seja, onde estão aqueles que fazem as leis, aqueles que executam a lei e aqueles que veiculam as informações (parte ideológica), as mídias, os jornais, as revistas, os sites. Na parte abaixo, a infraestrutura, estão as relações de produção de uma sociedade, ou seja, estão aqueles que fazem a economia funcionar, o patrão e o empregado, o empresário e o trabalhador assalariado. Quem sustenta toda essa pirâmide social quase medieval é o trabalhador que acorda às cinco horas da manhã, se desloca da parte periférica da cidade para o centro, para mover as produções, para limpar a casa da classe média, para ficar enclausurado numa forma de trabalho estressante, nada criativa. É em cima desses que precisam do emprego miserável (porque não tiveram uma boa escola no bairro, não tiveram familiares ricos e influentes) que o empresário lucra; em cima deles é que um político deita a cabeça no travesseiro e acorda com a conta cheia de dinheiro desviado da educação, da saúde e da segurança; em cima desses trabalhadores que as notícias deitam e rolam contando mentiras; em cima desses que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo.

O Estado, por exemplo, não é um aparelho neutro, a serviço de toda a sociedade, como os capitalistas nos pretendem fazer crer. O Estado, no fundamental, sempre tem servido os interesses daqueles que detêm o poder econômico. 

(…) Os donos dos meios de produção, tendo nas suas mãos o Estado com todo o seu aparelho: exército, polícia, tribunais, funcionários públicos, etc., tem nas suas mãos portanto não só o poder econômico como também o poder político” (URIBE, Gabriela; HARNECKER, Marta. Exploradores e Explorados. São Paulo: Global Editora, 1979, p. 38).

É uma grande farsa essa a de que a cadeia serve para reestruturar o ser humano. A cadeia não passa de uma lata de sardinha onde vale a lei do mais forte, o presídio é uma sub-sociedade que existe dentro da sociedade, com suas regras próprias, sua moral própria, sua ética, cunhada empiricamente por prisioneiros e para todos os prisioneiros. Lá dentro não existe a moral universal kantiana (“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”), não existe a justa medida aristotélica. Não existe essa moral alcançada pela razão filosófica. A prisão brasileira não tem a menor condição humana de devolver o detento reestruturado à sociedade. Isso é uma grande piada. E a cadeia só existe para os mais pobres. Rico fica em prisão domiciliar, principalmente se for político. É disso que fala a música “Diário de Um Detento”. Retrata um indivíduo jogado à sua própria sorte no Carandiru, antiga casa de detenção de São Paulo, onde ocorreu o histórico massacre dos encarcerados pelas mãos da Polícia Militar.

O médico Drauzio Varella, autor do Best-seller “Estação Carandiru” de 1999, viu de perto a situação mórbida do Carandiru, onde chegou para trabalhar na parte médica em 1989. O médico, pesquisador profundo na área de estudos de câncer e AIDS, comenta em um vídeo de 2015, no seu canal, a atrocidade que era a situação dos presos consumidos pelas complicações da AIDS: “Era uma tragédia coletiva. Eu cheguei a perder, na minha enfermaria do Carandiru, quatro, cinco doentes por semana. E não é perder porque um dia a pessoa morre, como todos nós vamos morrer. É uma morte muito sofrida, emagrecendo, passando mal, incapaz de comer, e trancados em celas. Foram as mortes mais tristes que eu vi na minha vida, foram lá no antigo Carandiru”.

Cada detento uma mãe, uma crença

Cada crime uma sentença

Cada sentença um motivo, uma história de lágrima

sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento,

desprezo, desilusão, ação do tempo

Misture bem essa química

Pronto: eis um novo detento

Lamentos no corredor, na cela, no pátio

Ao redor do campo,

em todos os cantos

Mas eu conheço o sistema, meu irmão,

Aqui não tem santo

(Trecho de “Diário de Um Detento”)

No meio de tantos detentos e tantas histórias, sentenças e motivos, eis a história de um cidadão comum, é o Jocenir Prado. Preso por receptação de carga roubada e formação de quadrilha, condenado a oito anos e três meses, dos quais cumpriu apenas quatro, Jocenir viveu alguns anos no Carandiru. Em entrevista a Jô Soares em seu programa, Jocenir Prado alega que foi pego como bode expiatório (expressão popular utilizada para definir uma pessoa que sobre a qual recai toda a culpa alheia, mesmo que esse alguém seja inocente) da polícia. Jocenir, nessa mesma entrevista, comenta: “Eu sofri uma série de agressões, agressões físicas mesmo, agressão moral. Então, praticamente isso fazia com que, cada vez que eu fosse dormir, eu rezava pra não acordar, só de imaginar que o dia seguinte seria a mesma coisa. (…) E quando veio minha condenação de oito anos e três meses, me bateu o desespero, então eu sabia que eu tinha que tomar alguma atitude. E eu tinha três alternativas: ou praticaria o suicídio, que é uma coisa normal dentro na prisão e pouco divulgada; ou deixava me levar pelo mundo das drogas; ou procurava de alguma forma conquistar a massa carcerária (os detentos)”.

Tem uma cela lá em cima fechada

Desde terça-feira ninguém abre pra nada

Só o cheiro de morte e Pinho Sol

Um preso se enforcou com o lençol

Qual que foi? Quem sabe? Não conta

Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta

Nada deixa um homem mais doente

Que o abandono dos parentes

Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?

A vaga tá lá esperando você

Pega todos seus artigos importados

Seu currículo no crime e limpa o rabo

A vida bandida é sem futuro

Sua cara fica branca desse lado do muro

 

Jocenir optou pela terceira alternativa. Ganhou popularidade utilizando o conhecimento que tinha, do estudo que teve durante a vida, coisa que poucos ali dentro possuíam devido às baixas condições econômicas em que viviam. Jocenir passou a escrever as cartas para aqueles que não sabiam escrever, que eram a maioria. Com isso, foi ganhando respeito, isso antes de ser transferido para a casa de detenção. Após uma rebelião traumática, Jocenir prado foi transferido para a casa de detenção de São Paulo, o famoso Carandiru.

Acertos de conta tem quase todo dia

Tem outra logo mais, eu sabia

Lealdade é o que todo preso tenta

Conseguir a paz, de forma violenta

Se um salafrário sacanear alguém

leva ponto na cara igual Frankestein

Nesse período, ele já tinha algum prestígio entre os presos, era conhecido como “o tiozinho que escrevia as cartas”. Para quem não sabe, a autoria de “Diário de Um Detento” é creditada a Mano Brown e a Jocenir, que foi autor de um diário o qual inspirou a música. Jocenir viveu na pele a vida de um prisioneiro.

“Diário de Um Detento” é um relato dramático de alguém que optou pela vida sem futuro do crime, é um rap que faz a denúncia de como o Estado se livra daquilo que não sabe lidar, de como o Estado se comporta diante daqueles que vivem à margem da sociedade e da lei: o Estado esperou uma boa oportunidade, uma rebelião, usou isso como uma ótima justificativa para sentar o cacete em todo mundo e, de xeque-mate, provocar uma carnificina. Sabe pra quê? Pra eliminar gastos, pra se livrar de uma responsabilidade social.

Foto que registra o resultado do massacre na Casa de Detenção do Carandiru ocorrido em 1992.

Dois ladrões considerados passaram a discutir

Mas não imaginavam o que estaria por vir

Traficantes, homicidas, estelionatários

Uma maioria de moleque primário

Era a brecha que o sistema queria

Avise o IML, chegou o grande dia

Depende do sim ou não de um só homem

Que prefere ser neutro pelo telefone

Ratatatá, caviar e champanhe

Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!

Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo

Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!

Sobre a música, Jocenir Prado comenta no Programa do Jô: “Na casa de detenção, nessa rotina em que eu fazia versos e cartas, eu escrevi alguns versos e em cima desses versos criou-se o ‘Diário de Um Detento’ gravado pelos Racionais MC’s. Ele (Mano Brown) fez algumas adaptações e gravou”.

Nas palavras de Drauzio Varella, em entrevista de maio de 2017 para o canal no Youtube Nexo Jornal, anos depois do grande massacre do Carandiru: “A população carcerária aumentou e as cidades continuam inseguras… ficaram mais inseguras ainda porque, antes, as cidades inseguras eram São Paulo, Rio, agora é o Brasil inteiro. (…) Então acho que a violência se disseminou pelo país, o que mostra que o aprisionamento não traz segurança. Aquele bandido que tá na rua assaltando vai preso, ele para de assaltar, mas isso não significa que haja uma diminuição da violência como um todo, que é o que a sociedade imagina, né? A sociedade acha que prendendo todos os bandidos e todos os traficantes, as cidades vão ficar seguras e os filhos das famílias não vão usar droga, o que e uma visão irreal, uma visão fantasiosa do problema”.

Ou seja, o problema só aumenta. A violência ganha cada vez mais proporções alarmantes. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, de 2016, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil (fonte: BBC Brasil, 6 de junho de 2016). A educação e a saúde públicas, dois pilares fundamentais para a gestão do bem público, não melhoram nunca e os políticos desviam cada vez mais o dinheiro que deveria ser direcionado a programas sociais, às políticas públicas. O Estado, então, não cumpre seu papel. Portanto, parece que precisamos romper esse contrato social, Sr. Thomas Hobbes e Sr. John Locke e Sr. Jean-Jacques Rousseau.

Ratatatá, Fleury e sua gangue

vão nadar numa piscina de sangue

Mas quem vai acreditar no meu depoimento?

Dia 3 de outubro, diário de um detento

(Todos os versos citados nesse texto são trechos da música “Diário de Um Detento”).