Quarteto sorocabano Medrar aposta em novos caminhos para seu “rock torto” em “Luzia”, EP gravado por Guilherme Kastrup

Quarteto sorocabano Medrar aposta em novos caminhos para seu “rock torto” em “Luzia”, EP gravado por Guilherme Kastrup

21 de dezembro de 2017 0 Por João Pedro Ramos

A criatividade e a evolução do quarteto Medrar é inegável quando se ouve os dois EPs que a banda já lançou, com duas músicas cada. A banda sorocabana, formada por Ari Holtz (baixo), Mya Machado (vocal e guitarra), Zé Aquiles (bateria) e Rafael Ferraz (guitarra), define-se como uma produtora de “rock torto”, que apesar de tentar fugir dos esteriótipos do estilo, continua fazendo rock com muita qualidade e personalidade.

Os primeiros sons, “Labirinto” e “Pai Horácio”, lançados em 2014 são ótimas cartas de intenções da banda, mostrando bem as influências de John Frusciante, Gal Costa, Jair Naves e La Carne e gravadas por João Antunes (John), que já gravou bandas como Wry e Incesto Andar. Já o novo EP, lançado este ano com as músicas “Alarde” e “Luzia”, mostra que o quarteto investe um pouco mais na ambiência e na construção dos climas nas músicas, que aparecem mais soturnas e quebradas (“Luzia” tem quebras de ritmo de tirar o fôlego, aliás), sem deixar de lado o belo trabalho de guitarras e a cozinha poderosa. As canções foram gravadas por Guilherme Kastrup, produtor do elogiado disco “A Mulher Do Fim do Mundo” de Elza Soares.

Conversei um pouco com Ari sobre a carreira da banda, o processo de composição e sua evolução musical:

– Como a banda começou?

Cara, começou de uns encontros meio despretensiosos entre a gente, em 2013… Todo mundo já tocava separado, a Mya tava começando a se aventurar na música, o Zé acabado de chegar em Sorocaba. Mas bastou a gente começar a apresentar uns riffs e as coisas começaram a acontecer… A gente já se conhecia da cena, o Zé mesmo não estando aqui já tocava no Malditas Ovelhas e a gente já tinha se trombado…

– E de onde surgiu o nome da banda? O que significa?

Significa “desenvolver” em catalão. Veio de um trabalho com uma moça grávida de um artista de lá, amigo nosso, chamado Fofonski… ele estava expondo o trampo dele na Mansão Sede do Rasgada Coletiva e a gente ensaiava lá. Num dos trampos estava escrito “Quiero Medrar Las Unas” ou algo assim… Adotamos o Medrar e ele fez também o trampo da capa do nosso primeiro EP!

– E como foi esse primeiro EP?

Ele tem 2 músicas e é de outra fase da banda, mas um recorte que a gente curte bastante também. Nós gravamos e mixamos na casa do Zé, na unha, e depois o Peu Ribeiro (produtor e amigo aqui da cidade) masterizou. Nesse EP tá “Labirinto” e “Pai Horácio”, ambas também tem clipes no YouTube, também gravados em parceria com artistas locais. Nosso trabalho sempre esteve bem vinculado com a produção artista de Sorocaba. A gente sempre teve rodeado de gente que admiramos, na música é em outras linguagens. Por ter participado do Rasgada Coletiva também deu um panorama massa de artistas e produções locais.

– Por falar nisso, quais as maiores influências musicais da banda?

São muitas. A gente tem um gosto bem variado, acho que das minhas referências que mais se refletem na Medrar são os trampos do Kiko Dinucci e Metá Metá, Mars Volta, Ludovic… A gente gosta bastante de Queens of the Stone Age, Patti Smith, Gal, Ventre, La Carne, Hierofante Púrpura… Tanta coisa que vai do rap, samba, rock…

– Como você definiria o som da banda?

Putz (risos). Difícil, né. Rock torto, talvez? Confesso que rola uma dificuldade com o termo rock, é um conceito pesado já, né. Cheio de signos que a gente tenta se afastar… Mas acho que seria injusto a gente falar que nosso som é algo que não seja rock.

– Bom, depois dessa pergunta, vamos voltar: como rolou o desenvolvimento da banda depois desse primeiro EP?

A gente teve umas mudanças, nessa época nos tornamos um trio com a saída do Sidan e depois voltamos a ser quarteto com a entrada do Ferraz… Ficamos num trabalho de composição, de onde acabaram saindo os sons que trabalhamos nesse último EP. AMya também assumiu uma guitarra nesse tempo, que apesar de nos segurar um tempo, abriu diversas possibilidades. Principalmente para a entrada do Ferraz com linhas e desdobramentos novos para as músicas. Daí fomos escolhidos pelo Kastrup no projeto Demorô do Sesc Sorocaba que abriu outras portas, tocamos também no Circadélica aqui em Sorocaba que foi outro momento de celebração dessa cena da cidade e o que permeia esse meio.

E como rolou esse mais recente EP? Pode me falar mais sobre ele?

Ele veio desse projeto Demorô do Sesc, que convidou o Kastrup para produzir e gravar 2 músicas de 2 bandas da cidade, encaminhamos nosso material e fomos escolhidos. Tivemos 2 ensaios com ele, onde apresentamos nossos sons e acabamos por escolher “Luzia” e “Alarde”. “Luzia” ainda era um embrião, um riff é uma letra e acabamos terminando ela nesse processo. Por isso acho que “Luzia” é a música que mais reflete essa parceria pois construimos ela junto com o Kastrup. O processo de gravação foi no Sesc mesmo, no teatro e a finalização no estúdio do Kastrup em São Paulo. Foi louco ter sido escolhido por ele, sacar que nossa estranheza pode ser potencial… Foi tipo uma chancela para experimentar!

– Me fala um pouco mais sobre a composição dessas músicas!

A gente compõe de forma bem variada, geralmente partindo de um riff, uma melodia, uma letra e vamos construindo e desconstruindo em uma jam. Assim nasceram nossos sons: “Luzia” nasceu em um formato que já veio dessa parceria, ela foi montada e concebida antes da gente executar, foi meio o inverso do que estamos acostumados, mas foi importante pra gente se conhecer como músicos… As letras partem muito de uma perspectiva feminina da vida, é sempre de uma relação dúbia com a cidade, a poesia e violência, as relações de poder e todas as contradições dessa relação…

– E vocês já estão trabalhando em novas músicas?

Não, a gente tá dando um tempo… No início do ano pretendemos gravar nossos outros sons e estamos articulando um clipe de “Alarde” ou “Luzia” para o primeiro trimestre. Estamos também tentando armar alguns shows no início de 2018, vamos ver se rola essa agenda… Em 2018 também pretendemos nos juntar para começar a compor coisas novas. Mas acaba que a gente sempre subverte o planejamento e, pela pilha que a gente tá, capaz de nos encontrarmos para colocar composições no papel já logo no início de 2018. A gente quer muito tocar, sempre, nossa pira é tá no palco, na troca que rola, na catarse e no risco!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Olha, eu gosto bastante do Terno Rei, Ventre, Quasar, Azul Celeste, Rua, Aquasarge (França)… Tenho ouvido isso bastante.