Quando a fé é genial – John Coltrane – “A Love Supreme” (1965)

John Coltrane

Poucos trabalhos musicais conseguiram unir a devoção espiritual e uma proposta estética distinta com tanto êxito. É o caso de “A Love Supreme” (1965), talvez o grande disco de jazz da década de 1960.

A afirmação sonora do quarteto formado por John Coltrane, McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria) é de uma qualidade brutal, capaz de nos fazer refletir, meditar, sorrir e vibrar. Pensa aí, quantos discos você já escutou e sentiu várias coisas ao mesmo tempo? Esses poucos são sempre uma preciosidade particular, embora provavelmente muita gente concorde comigo quando falo desse disco, especificamente. Este é um LP obrigatório. Não há restrições quando se trata de “A Love Supreme”.

Tocando com Miles Davis em um grupo fantástico e se apresentando noite após noite, os abusos com álcool e heroína começaram a prejudicar sua vida. A tal ponto que em 1957 chegou a ser demitido pelo próprio Miles. A partir daí, iniciou sua batalha contra o vício que devastava sua vida pessoal e profissional. Nesse mesmo ano experimentou um “despertar espiritual”, que segundo ele o conduziu a uma vida mais plena. Voltou para o trabalho com Miles um período (a tempo de produzir aquele que talvez seja o ponto máximo do jazz até hoje: “Kind Of Blue”), mas no início de 1960 sai de uma vez para formar seu próprio grupo. E deste contexto saiu sua maior obra, cinco anos depois.

Além do talento praticamente único para tocar o sax tenor, John Coltrane também é conhecido pela sua peculiar espiritualidade. “Eu acredito em todas as religiões”, dizia.  A relação de Coltrane com temas relacionados é tão forte que até mesmo existe uma seita, a Saint John Coltrane African Orthodox Church. É sério. O reverendo Franzo Wayne King é o pastor da congregação que mistura liturgia Africana com frases e músicas do saxofonista. “A Love Supreme” é uma espécie de “bíblia” para os membros, e tratam o LP como um objeto de estudo e veículo para a devoção. Isso tem algum nexo?

Bem, dizem que estava na ideia de concepção de “A Love Supreme” Deus e o físico alemão Albert Einstein, cujo trabalho John sempre manteve forte interesse. Unindo a ideia de uma força maior criadora, esoterismo e as infinitas possibilidades da Matemática, Coltrane tratou de fazer sua magnum opus: uma ode à sua fé no amor e em Deus.

Esse verdadeiro monumento é construído em quatro partes: “Acknowledgement”, “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”. São nesses 33 minutos, gravados em uma única sessão em 9 de dezembro de 1964, que John conseguiu o mais perfeito diálogo entre uma força sagrada e sua criatura, empregando a música como esse idioma tão misterioso. Quebras de tempo, improvisação, fraseados que beiram a fala, sutileza e potência… Não cabem adjetivos para o que fez aquele quarteto.

Em “Acknowledgement” Coltrane experimenta empregar a voz, entoando o nome do álbum como uma espécie de mantra, enquanto a banda entra em uma atmosfera cheia de groove latino. A voz do sax é apaixonada, determinada, de modo que parece um pastor pregando um evangelho. Pode parecer viagem, mas se você pensar que Coltrane tinha em mente justamente tocar sobre o “amor supremo”, me parece bastante razoável essa perspectiva.

As cores da música árabe (o que não é necessariamente coincidência, pois sabe-se que John flertou com o islamismo fortemente) dão forma ao belo desenho que é “Resolution”. A banda brilha com uma intensidade absurda. É uma música sem falhas, executada em sua perfeição. Ninguém poderia fazer melhor que aquelas quatro pessoas. Esse tempero do Oriente Médio com o escuro que o jazz evoca faz do tema irresistível. É como um riff de rock, pode morar na sua cabeça por dias.

“Pursuance” já começa com um solo destruidor de bateria e descamba para o virtuosismo sem soar excessivo. O tempo é rápido, a força é total e aqui o sax de Coltrane soa como o fluxo de consciência, mas de alguém que sabe pra onde ir. Sua dicção através de seu instrumento é fantástica. Destaque também para o belo solo de baixo que encerra a faixa.

Eis que chega “Psalm”, que talvez seja a mais refinada demonstração artística de uma fé pessoal, livre de imagens pré-concebidas. De fato, a faixa que encerra “A Love Supreme” é um arranjo baseado em um poema que Coltrane fez para Deus e imprimiu no álbum. Ele toca quase exatamente cada nota para cada sílaba do poema, baseando suas frases nas palavras.

Eis aqui o poema. É de chorar:

Depois disso, o que mais precisa ser dito? Ouça já esse gênio!


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