Punk? Television – “Marquee Moon” (1977)

Punk? Television – “Marquee Moon” (1977)

24 de agosto de 2017 0 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

Tom Verlaine já disse certa vez: “Nós nunca fomos uma banda de punk rock”. Obviamente que não. Acontece que a cena nova-iorquina empurrou o grupo para essa vertente, como aconteceu com um monte de gente, em grande parte por conta do lendário clube CBGB’s e também da mais importante publicação independente local do período, a Punk Magazine. Bom, acontece que as circunstâncias do momento levaram a gravar esse rótulo na testa do Television, que no fim das contas ficou sendo aquela banda punk que faz um som bem longe do punk.

Em 1977 o rock passava por uma espécie de crise de identidade, ao mesmo tempo em que nichos alternativos sugeriam uma reviravolta no modo de fazer música. O status de pomposidade e o virtuosismo de bandas como Yes, Jethro Tull e Emerson Lake & Palmer estavam perdendo força entre a molecada, que via em coisas mais viscerais como The Stooges, MC5 e New York Dolls uma possibilidade mais atrativa. Daí vocês sabem, trilharam essa estrada Ramones, Dead Boys, Richard Hell e por aí vai… Acontece que com o Television não foi bem assim. Isso porque Billy Ficca (bateria), Richard Lloyd (guitarra) Fred Smith (baixo) e Tom Verlaine (guitarra e vocais) buscavam um certo refinamento que os outros grupos do período não pretendiam.

Com suas oito faixas incríveis, “Marquee Moon” fez escola, principalmente no caso das bandas indie da década de 2000 e no pós-punk da década de 1980. O disco de estreia do grupo foi algo inédito, em grande parte por ser extremamente inovador no trato com as guitarras e no jeito de transformar uma música de rock aparentemente simples numa estrutura bastante ordenada e criativa. Na verdade, ali de simples não tem nada. É notável o cuidado com os arranjos, as variações, os ritmos etc. É daqueles trabalhos em que está muito claro o capricho e como isso resultou naturalmente em alto valor artístico e estético. Mesmo assim a mensagem chega diretamente, o som é seco, orgânico e sem truques.

A cozinha intrincada, ao mesmo tempo objetiva, sugere uma série de espaços para as guitarras de Verlaine e Lloyd (seguramente uma das melhores duplas de guitarras de todos os tempos), que se entrelaçam a ponto de uma depender completamente da outra, sem grandes firulas, mas com uma dose incrível de inventividade na escolha dos acordes e no modo de tocar riffs. Faixas como “Venus” e “Elevation” são verdadeiras aulas de como se deve tocar para a música, coletivamente. O resultado é um rock impressionante, bem lapidado, embalado pela voz escorregadia e desengonçada de Tom Verlaine, que, justiça seja feita, carrega um pouco da aura do punk rock.

A excelente “Prove It” é o The Strokes cuspido e escarrado. Julian Casablancas deve ter furado esse disco de tanto ouvir, a semelhança é gritante. Do mesmo modo percebe-se o Television mostrando suas influências ao resgatar em “See No Evil” um pouco do rock ‘n’ roll mais tradicional e aquela pegada glam rock do T.Rex, embora a analogia não seja assim tão escancarada.

Aliás, isso é uma coisa engraçada em “Marquee Moon”, que por ser tão singular, parece que o Television mais influenciou do que foi influenciado. Toda a bajulação em torno da obra fica mais evidente na faixa-título, que com mais de dez minutos de duração é seguramente um dos grandes momentos do rock em geral. O ritmo intenso, os riffs pegajosos, o clímax do solo e toda aquela estrutura coloca a banda imediatamente num patamar de respeito.

“Torn Curtain”, música que encerra o disco, chama atenção pela carga de dramaticidade, o piano em evidência e o refrão a lá power pop. E aí nesse momento você já se pergunta: isso é mesmo punk? Que diabo é isso?

O disco foi aclamado pela crítica e embora tenha vendido pouco nos Estados Unidos fez um sucesso considerável no Reino Unido. A banda faria mais um disco, também bom, até que as brigas separaram os quatro rapazes no início dos anos 1980. Mas aí o estrago já estava feito, e a música alternativa nunca mais seria a mesma após “Marquee Moon”. Uma infinidade de bandas declarou este como uma referência inspiradora, e sempre sai uma lista ou outra de “melhores de todos os tempos” com ele lá no meio. O NME chegou a colocá-lo em segundo lugar na lista dos “melhores álbuns de estreia”, ficando atrás somente de Velvet Underground and Nico”.

Motivos não faltam pra você escutar esse disco.