Prog para gostar de prog: Camel – “Mirage” (1974)

Prog para gostar de prog: Camel – “Mirage” (1974)

2 de fevereiro de 2017 0 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

A capa muita gente conhece, seja pela semelhança com o maço de cigarros (o que não é mera coincidência) ou por conta dessas listas de “grandes álbuns da década de 1970” que costumamos ver de vez em quando. É internacionalmente reconhecido e elogiado, por outro lado também não dá pra dizer que é aquele baita sucesso. Mas a verdade é que Camel tem um lugar reservado entre as bandas clássicas do rock, sobretudo na cena das bandas progressivas, e muito disso se deve a esse disco.

Basta ouvir uma vez para perceber que Mirage” tem uma boa vantagem em relação a muitos álbuns do gênero prog: não é excessivo. Considerando esse aspecto, não significa que nele não contenham faixas longas e um monte de solos, afinal, é prog em todos os sentidos. O que quero dizer é que nesse disco tudo é bem coeso, há ali um começo, meio e fim convincente. A banda não quis encher linguiça e por isso fez algo memorável.


A banda surgiu em 1971, na cidade de Guildford, na Inglaterra. A cozinha inventiva de Doug Ferguson (baixo) e Andy Ward (bateria) faz um som sólido, seguro e bastante criativo, mas o espetáculo fica por conta das guitarras e flautas de Andrew Latimer e dos teclados de Peter Bardens. Ambos fazem um trabalho incrível, cheio de personalidade. Vale lembrar também da ótima voz grave de Latimer, que mesmo econômica aparece sempre no momento certo, toda vez com uma boa melodia. O primeiro disco, homônimo, viria a ser lançado em 1973, conseguindo alguma atenção do público londrino e da crítica. Logo depois viria “Mirage”.

O trabalho, produzido por David Hitchcock, foi gravado no final de 1973, nos estúdios das gravadoras Decca e Island. O LP contém apenas cinco músicas e cada uma tem um charme especial, por assim dizer. A começar pela “Freefall”, a mais direta e radiofônica do disco, com um riff que lembra de longe “Eye Of The Tiger”, aquela do filme Rocky. Você escuta uns dois minutos e pensa que se trata de um disco de hard rock setentão, mas não, não é só isso. Logo no meio da faixa de abertura já dá para notar que a banda gosta de mudanças bruscas e daqueles tempos quebrados que tanto se ouve em alguns discos desse período.

Depois vem a mais curtinha do álbum, “Supertwister”, uma faixa instrumental de ritmo intrincado e com vários climas, onde a flauta ligeiramente erudita de Latimer se sobressai e não à toa acaba lembrando os bons momentos de Jethro Tull e do Focus.

https://www.youtube.com/watch?v=fzT4RW53lbU

Inspirada no livro O Senhor dos Aneis, a épica “Nimrodel/The Procession/The White Rider” é um dos pontos altos de “Mirage”. Intercalando partes instrumentais com ótimas melodias vocais, a música passeia por momentos de calmaria, peso, rapidez e um belo trabalho de Bardens no Mellotron e no mini Moog. É um dos melhores momentos do disco e uma das mais cultuadas do grupo.

“Earthwise” é outra faixa instrumental. Aí sim dá para dar o braço a torcer e dizer que em certo ponto a banda chega a extrapolar um pouquinho na nerdice em seus respectivos instrumentos. Mas ainda assim, em seus quase sete minutos, não se percebe nem 30 segundos de falta de bom senso. Ela começa tranquila e vai ficando frenética. É aquele tipo de som de moleque que gosta de tocar coisas difíceis, no bom sentido.

Enfim, chegamos até aquela que é o verdadeiro motivo por esse disco ser cultuado. Dividida em três partes, a suíte “Lady Fantasy” é considerada por muita gente um dos ápices do rock da década de 1970. Diria que essa é uma das melhores coisas de rock já feitas. Ela se destaca em praticamente qualquer aspecto que lá está. São quase 13 minutos de quase tudo o que uma boa música de rock deve ter, é uma coisa absurda. A faixa começa com um teclado bizarro, passa por uma melodia chiclete incrível, depois vira um hard rock rápido, entra num esquema de viagem meio Pink Floyd (sem parecer chupinhação) e acaba numa porrada impressionante. Ouça.

“Mirage” acabou sendo lançado em março de 1973 pelo selo Deram. O álbum foi bem na Europa, chegando ao segundo lugar nas paradas inglesas. Já nos EUA, o disco alcançou somente a 149ª posição. Realmente, o grupo firmou um acordo com a fabricante de cigarros Camel e prensou as cópias do disco com o rótulo da marca estilizado na capa. Críticos ao tabagismo caíram em cima da banda, que acabou sendo acusada de incentivo ao fumo, mas ficou só nisso. Deve até ajudado na promoção do trabalho.

E embora apenas com Andrew Latimer da formação original, a banda continua por aí até hoje, com uma vasta discografia cheia de bons álbuns, principalmente os do início da carreira.

Enfim, “Mirage” é um discão, um clássico. E mesmo que você não curta muito rock progressivo, dê uma chance. Pelo menos para “Lady Fantasy”.