Porque todo mundo vai correndo ouvir a obra de um artista que acaba de morrer?

“Ah, agora todo mundo vai baixar toda a discografia!”

Você já deve ter ouvido uma bobagem dessas logo depois que algum músico morre. Os “sommeliers de luto” adoram ficar no pé de quem fica triste pela perda de um artista querido, e proclamam “ah, agora todo mundo vai virar fã”. Esses dias me peguei ouvindo Linkin Park com uma frequência que eu não ouvia desde 2004, mais ou menos, e notei que com certeza isso tinha relação com o triste suicídio de Chester Bennington. Foi aí que reparei que, sem perceber, aparentemente sempre faço isso. Ouvi Soundgarden e Audioslave em maio com a morte de Chris Cornell. Coloquei “Dois Na Bossa” no repeat quando Jair Rodrigues se foi. Voltei à adolescência e ouvi Charlie Brown Jr. com gosto quando Chorão e Champignon morreram. Mas porque será que a morte de um artista faz com que a gente às vezes sem querer vá revisitar a obra dele?

“Quando alguém morre tem uma força de mídia grande, isso ajuda bastante”, explica o psicoterapeuta da Claritas Clínica Pedro Del Picchia. “Fora que em casos assim tem uma memoria, uma saudade que bate e as pessoas querem lembrar. E quem não conhecia quer também fazer parte da onda do que tá acontecendo”.

Mas será isso algo meio inconsciente? Segundo o psicólogo, provavelmente não. “Acho que vamos atrás da obra do artista porque ele morreu, mas agora as coisas ganham um novo significado também. Mais final, mais definitivo”, conta. “‘I’ve become so numb’, por exemplo, fica mais forte ainda quando você pensa que ele tinha sim depressão e isso era um aviso. Não que com todos que morrem seja assim, pois nem todos são depressivos”.

Além disso, ouvir a obra (que agora estaria “completa”) de um artista que nos deixou é uma forma de “velório musical”, ou “luto auditivo”.

“Isso pode ter mais de um motivo”, diz o filósofo Matheus Queirozo, “Vejo por enquanto dois: sabe aquele ditado popular, ‘as pessoas são dão valor quando perdem?’Essa é uma verdade popular incontestável. Às vezes a gente tem amigos que a vida e tempo distanciaram, por conta dos afazeres e responsabilidades da vida mesmo, a gente mantém uma vez ou outra contato, pergunta como vai… Mas se tornou uma pessoa distante, um amigo que fez parte da nossa adolescência, que teve experiências boas com a gente, a cada dia que passa a gente mantém menos contato com ele. Certo dia esse cara falece, tu sabe disso, e ele se torna o teu melhor amigo. Só descobre depois que ele morreu”, conta. “O caso do Chorão, por exemplo: uma galera não ouvia tanto Charlie Brown quanto na adolescência, mas quando ele faleceu, por um mês só se ouvia Charlie Brown”.

Sérgio Buarque de Hollanda, o pai do Chico Buarque, tem um conceito interessante”, conta Queirozo. “Naquele livro dele, Raízes do Brasil, ele diz que o homem é cordial, diz que quando o português chegou nas terras tropicais, os índios receberam eles com a maior cordialidade. Isso me faz pensar num segundo motivo: a gente se compadece com a morte alheia, com a morte de astros que nem sabiam que a gente existe”. Aí o que acontece é que vamos atrás das músicas dos artistas falecidos para prestarmos uma homenagem, celebrar a vida dos que já se foram. “Um tributo breve, de criar até playlist e ficar uma semana ouvindo as músicas dele. Depois passa”, conclui.

“O terceiro motivo é aquela coisa de querer fazer parte da tribo, da massa, da galera”, diz. “Por exemplo, Michael Jackson. Quando ele faleceu, veio nego do inferno dizer que gostava e tal. Mas isso é uma necessidade que as pessoas têm de fazer parte de grupos, tribos. As pessoas têm uma necessidade de afirmar uma identidade, de pertencer a algo. Quando Michael Jackson faleceu, uma galera vendeu discos, uma galera comprou DVD, porque era o que todo mundo fazia e quem não fizesse a mesma coisa, seria o excluído do rolêzinho. Ninguém quer ser excluído do grupo”, conclui.

Concorda com alguma dessas teorias? Façam sentido para você ou não, todas são válidas. E como o Pato Fu já dizia na abertura de seu disco “Televisão de Cachorro”, a “necrofilia da arte” continuará existindo sempre que, infelizmente, algum artista nos deixar. A obra permanece viva eternamente e ela será visitada com muito gosto (e luto).

A necrofilia da arte
Tem adeptos em toda parte
A necrofilia da arte
Traz barato artigos de morte

Se o Lennon morreu, eu amo ele
Se o Marley se foi, eu me flagelo
Elvis não morreu, mas não vivo sem ele
Kurt Cobain se foi, e eu o venero


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