Porque será que não se fala em uma grande cena do rock autoral hoje em dia?

Porque será que hoje em dia parece que não há uma grande cena de rock autoral acontecendo, já que tantas bandas boas brotam no underground a cada segundo? Ou será que existe uma cena, e só a grande mídia que não está enxergando? Será culpa das casas de show, que preferem investir em bandas cover e discotecagens xerocadas do Top 10 das rádios comerciais? Ou talvez seja culpa das próprias bandas, que não se unem e comparecem aos shows umas das outras, algo que ajudou a criar movimentos como o punk, o grunge e o manguebit? Ou será que o rock morreu mesmo e só estamos prestando homenagens a um cadáver enterrado há anos?

São muitas questões que bandas de rock e o público que clama por uma retomada do rock no Brasil se fazem praticamente todo dia. Afinal, em um país com tantas bandas de qualidade pipocando no underground, porque não existe uma grande cena acontecendo? Por onde andam os Juntatribos dos dias de hoje? Fiz estas perguntas a diversos músicos e jornalistas musicais para tentar entender o que falta para que isso ocorra:

“Cena. Nunca fiz parte de cena e não vejo necessidade de existir. É ocasião. Pode surgir ou não. As bandas fortes continuarão” Rogério Ucraman (Horror Deluxe)

“Eu creio que o problema seja a forma com a qual as bandas se apresentam. Shows com 4 ou 5 bandas todas do mesmo estilo, por exemplo, afastam qualquer apreciador de boa música. Falta união e apoio entre bandas. Se você perceber, grande parte do publico underground também tem banda. O certo seria se apoiar, tentar encontrar uma maneira de atingir mais pessoas, mas não… Tem muita banda com mania de grandeza. Tipo: ‘foda-se eu vou tocar e quero que você vá’ e aí quando o cara vai tocar o superstar nem sai de casa. Eu acredito que o problema é muito mais complexo e envolve muitos motivos. Tem gente que diz: ‘no Brasil não tem roqueiro’, como forma de se livrar da culpa. Então porque temos tantas bandas de ‘rock cover’ por ai lotando casas de show? Precisamos retomar o rumo do gênero no Brasil, mas para isso, é necessário repensar a abordagem.” Matheus Krempel (The Bombers)

“Mas tá acontecendo. Já vem um tempo que ando comentando com as amigos músicos e no geral. Estamos vivendo uma fase muito interessante no rock nacional. Novas portas estão se abrindo, novos lugares pra tocar e galera tá tocando mais. Ficamos um tempo em um limbo, ou a banda era muito famosa e tocava em grandes festivais ou tocava cover. Hoje o crescimento da cena independente é bem notável. Até bandas maiores como Francisco El Hombre, Vivendo do Ócio, Scalene, Supercombo, Far From Alaska, tão com tudo conquistando não só aqui como Brasil afora. Tem muita coisa boa que ainda não é tão conhecida mas tá caminhando como: Water Rats, Mary Chase, Der Baum, Deb & The Mentals, Overfuzz e nós do BBGG cada vez com mais shows e com o apoio um do outro e do público. Vivemos uma fase linda que tende a crescer cada vez mais. Estou confiante e dedicada (risos)” Dani Buarque (BBGG)

“Sinergia, falta sinergia. Eu toco bastante por toda a Grande São Paulo e vejo muita coisa legal e o que eu reparo é que as bandas não se conhecem e não costumam tanto se juntar para fazer atividades que beneficiem todos. No entanto, preciso deixar muito claro que isto está mudando. Este ano já veremos algumas coisas legais. Novos discos vão ser lançados, algumas tours estão sendo organizadas e pequenos selos novos estão planejando algumas coisas.” Dija Dijones (Chabad, Penhasco)
“Eu acredito que em boa parte se deve à falta de união entre a cena. Esses dias eu tava vendo um doc sobre o Kurt Cobain, “Retrato de uma Ausência”. Em determinado momento, ele, já no auge do Nirvana, dizia algo do gênero: ‘Se o próprio underground não consegue se unir, como espera atingir a massa?’. Outro ponto que acho importante é: eu sinceramente acho que não existe identificação do público com o rock, porque o rock deixou de ser algo intimidador, no bom e no mau sentido da palavra. Talvez estejamos muito fechados em nós mesmos, eu não sei. Um terceiro ponto seria a grande mídia, que não tem interesse em disseminar informação que não gere grandes retornos. Mas eu acho que estamos passando por um momento muito bom. Acho que o surgimento e a força que vários selos independentes estão ganhando no Brasil podem ajudar a trazer uma nova cena rock nacionalmente consolidada”. Natasha Durski (The Shorts)

“Existe uma ‘cena’ de rock atual no Brasil, mas ela não está no mainstream. Os tempos são outros, as gravadoras foram pro buraco e não acontece mais aquela exposição toda de grande mídia, exposição essa que acabava alavancando todos em volta. Mesmo assim, basta um pouco de interesse que você vai descobrir uma produção incrível, acontecendo agora em algum porão e até em lugares mais estruturados como SESCs e Centros Culturais, gente lançando material em vinil, K7 e fazendo shows legais. Claro que existem problemas, falta de lugares pra tocar e aquela coisa toda que estamos cansados de saber, mas o momento é bem produtivo e com uma qualidade e diversidade muito interessante. Eu particularmente não tenho do que reclamar, estou vivendo intensamente esse momento, como músico e público, vendo shows, comprando discos, conhecendo pessoas legais, enfim”. Claudio Cox (Giallos)

“Porque a relação de ser bem sucedido no Brasil tá diretamente ligado a ganhar dinheiro. E colocando na balança o Rock dá pouco dinheiro em relação a outros estilos, e como a máxima é capitalizar acima de tudo, ninguém investe no som mesmo que ele seja bem feito.” Amanda Hawk (Ostra Brains)

“O pessoal tá tentando, viu. Tá tendo o movimento, é que ainda muita gente não consegue ver e enxergar. (risos) Mas aqui no ABC principalmente tem uma cena forte! Aqui no ABC tem muitas bandas! Sério! E poucos lugares pra tocar, o que acaba limitando e de alguma forma positiva juntar mais a galera, já SP também tem muitas bandas, mas os lugares são mais diapersos e fica difícil juntar a galera tendo muitas opções (é bom e ruim ao mesmo tempo)”. Fernanda Carrilho Gamarano (Der Baum)

“Ano passado produzi muitas coisas legais que tiveram uma visibilidade legal e que me fizeram entrar em contato com muitas bandas, ideologias, donos de casas de shows, técnicos de som e muito gente fina disposta a fazer simplesmente um bom rolê acontecer. Em contrapartida houve sim uma galera que de certa forma atrasa o lado ou simplesmente se põem a reclamar as vezes do próprio rolê que produz (por essas pessoas só podemos lamentar), esse lance de rock, de cena e de produção cultural foi se formatando na minha cabeça com alguns papos muito bons q tive por ai nessa jornada. Me lembro de um show do Magüerbes que fiz parte da produção e tive uma conversa de bar com o Haroldo (vocalista) que me fez ver algo que começou a fazer muito sentido no decorrer, o Magüerbes é uma banda que vem atrelada com um movimento de arte de rua e torna tudo muito interessante da maneira que isso se difunde, as coisas conversam mas não necessariamente se promovem, então ele me disse que encara a vida artística dele como uma troca e a cada lugar q ele vai ele troca um pouco de conhecimento e arte com as pessoas que ele encontra, trabalhando todos numa intenção positiva e simples de fazer acontecer e ser legal pra todos envolvidos o restante é consequência. Minha cabeça deu uma chacoalhada no momento, e por mais que pareça simples, aquilo me fez ver que realmente a palavra de ordem é JORNADA, o que acontece muito é que rola uma parada de objetivos monstruosos na cabeça da galera que tem banda, claro que com os anos todo mundo aprendeu a ser um pouco de empresario e aprendeu a gerenciar sua carreira e não dar moral pra produtores de meia tigela, mas colocar esse lance de objetivos na frente da sua arte tem afundado quase tudo e ofuscado o que as vezes o próprio artista não deixa acontecer que é o fluxo daquilo, onde o trabalho dele pode chegar naturalmente. O rock a meu ver absorve isso e expele com muita naturalidade o publico em potencial, me lembro de uma conversa com o pessoal do Ventre e a galera do Supercolisor, novamente em uma mesa de bar (risos), e a Larissa explanou algo que relacionava o rock acabar virando uma causa, que pela causa acaba sufocando ele mesmo e daqui a pouco estamos todos trabalhando na causa e deixando o próprio fruto disso meio que de lado. Pelo menos eu absorvi assim. Ai o que acontece, o rolê de rock muitas vezes é meio travado meio serião, ao meu ver, enquanto o rock for sisudo, cabeçudo e meio que fechado a ser muito seleto, no pais da alegria ela não vai muito longe mesmo. As pessoas querem sair de casa para se divertir para se alegrar e o rock e as vezes quem o produz (de uma maneira geral) repele isso até com um pouquinho de soberba. O rock não tem sido inclusivo e ai que transforma tudo numa coisa meio vazia e sem sentido. As bandas tem que amar mais o que fazem e fazer mais livres, os produtores de shows tem que pensar mais no entretenimento do rolê até mesmo pra captar a renda pra que isso aconteça, não só fazer um show lá e largar a banda no palco e ponto, tem que acabar os produtores que vislumbram enriquecer passando em cima da galera da banda. Acho que a saída é acreditar mais intrinsecamente e permanecer fazendo com amor e bem feito a sua música indiferente até se ela é rock. O resto é consequência do impacto que a sua verdade vai causar. Precisamos de caras saindo da caixa d’agua no rock, caras rolando no chão e se divertindo, sinto que temos muito mais punks fora do rock do que no rock atualmente (risos)” Thiago Silva (Dobro)

“Putz. correndo o risco de soar pessimista/drama queen/reclamona… eu acho que é uma vibe de preguiça generalizada que afeta a nossa geração e a geração dos “20 e poucos”. Uma preguiça que não afeta só a cena rock em relação a bandas como a baladas também… Preguiça de sair de casa, preguiça de falar com gente que você não conhece, ouvir som novo, preguiça de ser curioso. preguiça de gastar dinheiro com banda nacional. Coisa que eu percebo que a cena HC/Punk não perdeu e nunca vai perder, porque eles são muito unidos… E a música deles é também sobre essa união. A gente acaba ficando desunido até na hora de assistir ao show da banda que toca antes/depois da nossa, porra. bons tempos que a gente entrava na Outs sem fazer ideia de quais eram aquelas bandas. a impressão que eu tenho é que hj em dia vc tem que saber exatamente que banda vai tocar, se é do seu agrado, se é de graça, se é perto do metrô, se tem estacionamento de graça, se vc vai ganhar uma breja, se tem fumódromo, sei lá. e mesmo quando tem tudo isso, não vão. não sei mais o que a galera quer. e aí reclama de funk. porra!” Júlia Abrão (Bloodbuzz)

“Acredito que hoje o que mais impede a formação de uma nova cena seja a desorganização coletiva de quem tá no underground e o medo de quem detém as melhores formas de divulgação. nas rádios, a gente ouve musicas de bandas que nem sequer estão pra lançar discos novos porque é muito mais confortável tocarem os sucessos de ontem do que descobrir novos sucessos. Ainda existem as bandas que se deixam seduzir por programas como o The Voice, o Superstar… É complicado. e a desorganização fica exposta quando uma banda pensa unica e exclusivamente no seu proprio sucesso, mas graças a deus isso tem mudado – existe um interesse maior das bandas entre si, e é isso que vai trazer diferença pra cena”. Bruno Carnovale (Black Cold Bottles)

“O que falta acho que é principalmente trabalho de verdade. É muito fácil montar uma página no Facebook da sua banda, ficar amiguinho do rapaz do blog… Conseguir matéria falando sobre como sua banda é legal e como você é engajado no movimento tal, como a cena não sei o que lá. Aí o pessoal fica preso nessas armadilhas do ego, querendo apontar dedo e ser da galera legal que esquece que precisa gravar e fazer som também. Aí você vê nego que nem tem música gravada querendo botar camiseta da banda no Guitar Days… Acaba meio que virando um desfile de moda só. Se em vez de querer foder com os outros e se sentir reizinho a rapaziada fizesse o deles, pelo menos união a galera ia conseguir. A questão do publico que complica… Ninguém mais quer ir ver banda, todo mundo quer ir pra balada pegar mulher, música virou coisa supérflua hoje em dia. Não é que nem antigamente que o que tinha pra fazer era ouvir música, ai acho que o desinteresse fica maior… Quando uma coisa é de tao fácil acesso acho que perde o valor. Quando você tinha que procurar na puta que pariu pra conseguir um disco pra ouvir, acho que era bem mais importante pra você. Agora que tá a um clique de distância, 5 minutos cê baixa todos os discos da banda X vira uma coisa normal, que não merece tanta atenção quanto o disco que você teve que juntar sua grana pra comprar. Lembro de ouvir cada disco que comprava umas 30 vezes porque só tinha ele de novo.” Guilherme Maia (Troublemaker)

“É simples: ninguém ta nem aí. Tem muita banda legal, mas a maioria esmagadora é uma bosta sem tamanho e o público prefere ouvir qualquer bosta sem tamanho gringa do que uma banda realmente legal dos seus amigos. São muitos fatores que passam tanto pela vadiagem nacional quanto pela pagação de pau gringa, sem esquecer dos produtores noiabas e dos produtores canalhas. No meio de tudo isso estar num lugar legal vendo um show realmente bom virou um momento ainda mais mágico, dada a raridade do fenômeno. Mas na vida como um todo coisas realmente incríveis são difíceis de se encontrar então engole o choro e sai por aí em busca de algo massa”. Mairena (BBGG)

“Se você pegar a história do rock alternativo brasileiro as “cenas” sempre foram nascendo da necessidade. Pouco importava se a banda realmente tinha uma qualidade diferenciada ou não. Tanto que a formação delas era meio por acidente, muitas após se desentenderem com os membros, procuraram alguém para substituir na própria cena. E se engana quem pensa que necessariamente a pessoa em questão tocava num banda que fazia um som parecido ou tinha o mesmo background. Era um lance de QUERO ESTAR NUMA BANDA e amo o que faço. E daí rolava. Vai ter gente que dirá que nunca existiu uma “cena”, que o que existiu mesmo é gente tentando compilar bandas para justificar uma época. No punk inglês por exemplo as desavenças eram bastante claras e o lance de união parecia mais anárquico que o próprio discurso do punk. Mas voltando a pergunta principal. Eu acho que falta a camaradagem, a união das bandas independente do estilo que tocam. As vezes parece que tá cada um por si, no esquema: salve salve-se quem puder. Nós mesmo vemos outros fatores em 2016 que dificultam, antigamente uma banda conseguia se virar sem ter uma estrutura, como empresa mesmo, adequada. Hoje se a empresa não junta uma grana para divulgação, não produz redondinho, não trabalha a imagem, não constrói um público: é questão de tempo até ela morrer na praia. Mas as vezes acho que é isso no ROCK em si: virou uma competição de “Empresa”, sendo cada banda uma empresa, e vence a que fizer melhor balanço no fim do mês. E acho que nunca funcionou assim quando a coisa rolou de verdade. Os selos maiores e programas de TV “caça talentos” procuram bandas muito moldadinhas, superficiais e falemos assim: inofensivas. Logo para o grande público o rock virou um produto de boutique. Quem pesquisa um pouco e sai do mainstream consegue enxergar isso. Mas quantos de nós olhamos para ele de verdade? Eu acabo conhecendo bandas maravilhosas todo dia. Falta isso, falta um Lado B Mtv para a massa também ‘”pirar”. Ninguém quer caçar mais as coisas, se jogar em boteco sujo, arregaçar as mangas e conhecer algo novo. Preferem reclamar, e espero de verdade que isso mude. É algo URGENTE”. Rafael C (Hits Perdidos/Anchor Mixtapes)

“Bem, entendo que o rock sempre foi e sempre vai ser vilipendiado pela grande mídia, tanto pelo seu caráter contestador quanto pela fama de ser “barulhento, agressivo, do demo”. Querendo ou não a maioria da população ainda é influenciada por essa mídia e não busca na internet música nova. Aliado a isso o público do rock não tem se renovado, hj quem frequenta shows e escuta bandas novas já não é mais adolescente, dificilmente vejo esse público mais jovem nos eventos de rock e sem essa juventude dificilmente teremos uma cena grande e pujante. Além dessas questões as bandas ainda tem muita vaidade, não confiam umas nas outras, ainda existe muito mimimi, e sem união a chance de uma cena aparecer é muito pequena. Apesar disso tudo eu sou um otimista, enxergo que a cena está começando a ser formada, as bandas novas têm se unido e se profissionalizado, novos portais de mídia independente estão aparecendo e crescendo, como o seu blog”. Blacknail (Porno Massacre)

“O Brasil nunca estará configurado para ter uma cena rock de peso, mas isso não significa que não acontece ou esteja acontecendo uma cena rock de peso em algumas cidades. Lá em Goiânia, por exemplo, tá acontecendo bem algo grande. Os caras têm festivais como Goiânia Noise, Bananada e Vaca Amarela, todos com mais de dez anos de vida e transbordam bandas fodidas, público numeroso e assíduo e que apresentam bandas como Boogarins (que lançou disco exclusivo no site do “The New York Times”), Carne Doce, Hellbenders, entre tantas outras. Falando sobre São Paulo, recentemente rolou um show comemorativo de 15 anos do Ludovic num festival chamado “Banana Progressyva” no Superloft. Havia muita gente nesse show. Só que a maioria ali eram pessoas que já estão familiarizados com um rolê independente há 20 anos, ou seja, ainda não há uma renovação no público. Antigamente, tínhamos mais festivais, éramos mais abertos para conhecer bandas independentes e sempre haviam pessoas novas. A TV nos brindava com o programa Riff na MTV, programa do Gordo na 89FM, Musikaos, ou seja, uma série de alternativas de descobrir música independente nas mídias mais acessíveis. Se você sintonizar agora mesmo na 89FM, e tocar alguma banda de rock nacional, provavelmente serão bandas que lançaram algo relevante há 20 anos atrás. Daí a renovação no rock são pessoas de 12 anos com camisa do Legião Urbana que com alguma sorte chegarão no Ludovic. E alguns caras dizem que o rock morreu porque só duas bandas de “rock” atingiram a lista da Billboard, manja? Isso é bem imbecil! Todavia, eu vejo com bons olhos o que acontece hoje e o que pode vir a acontecer tanto em São Paulo como em algumas outras cidades do Brasil (olhos voltando também ao Rio de Janeiro). Algumas bandas entenderam que se você amar música é preciso entender música e mesmo que não exista um público hoje para grande parte das bandas independentes, elas não deixarão de se agilizar, gravar, tocar, organizar shows e viajar por aí. E também não vão dar boi pra casa que desrespeita e/ou diz que está tudo uma merda mesmo porque é rock e rock é isso! Desse modo, um público começa a surgir. E a gente pode sair desse estágio de público-banda-de-amigo. Olha o rap dos porões, por exemplo, o publico vai no show pelo RAP NACIONAL, né? Pelo que significa a parada toda, que é o mesmo reflexo do público das pequenas casas e festivais como os de Goiânia. Enfim, existe uma cena de peso sim – em algumas cidades, mas ela não enxerga através das vendas.” Eduardo Boqa (Penhasco)

“Meu posicionamento em relação a isso envolve uma questão de mercado. Enquanto bandas precisam investir de forma independente no seu próprio trabalho, outros seguimentos recebem incentivos e até recursos de origem escusas. Assim, o problema não é qualidade, mas divulgação e sobre quem tem mais dinheiro e tempo para divulgar seu trabalho. Não basta só ter página no Facebook, Instagram, Twitter, Youtube. Tem que usar essas e outras plataformas, levar seu som para diferentes lugares e mídias para criar um público. A banda gasta tudo o que tem ou não tem para gravar e não sobra nada para correr atrás da divulgação depois, fica complicado competir. Poderíamos falar de estrutura das casas, participação do público, profissionalismo das bandas, entre outras, mas é o dinheiro que manda. Não deveria, certo?” Maurício Martins (editor do Nada Pop)

“Antes de qualquer coisa, o rock não é pop. No meu último show que fizemos na festa Trackers sentimos a adrenalina e a liberdade de tocar mais pesado, quase punk. No fim do show um amigo me disse ‘Que fritação! Não consegui nem dançar de tão pesado’. Acho que a atual cena pede movimento, pede sensualidade. Todo mundo quer dançar enquanto assiste um show, ficar olhando sem participar se tornou chato. Acredito que o rock não esteja em evidência no momento, ser roqueiro já foi mais legal, simbolizava uma atitude forte, agressiva. A moda agora é falar de amor e de coisas leves. Um pouco de pop, um pouco de eletrônico e você já pode ser um cara cool. Aí depende do que a banda quer. Se quiser atingir um público maior sim. Se quiser tocar o que tem vontade não. Toda cena existe cada uma em sua proporção. Vai depender do tamanho e da natureza do seu objetivo”. Camila Garófalo

“No livro RCKNRLL do Yuri, tem uma passagem que um dos músicos fala isso, se não me engano é o Chuck que fala: não tem possibilidade nenhuma de uma banda fazer um bom show sem bons equipamentos, e eu concordo com ele. Ele usa como exemplo o DJ, o que usa uma música que foi gravada em um ótimo estúdio, foi mixada e masterizada, etc e etc… A música que ele usa na pick up tem toda qualidade necessária para uma boa audição e interpretação do ouvinte. Com os equipamentos oferecidos pelas casas de shows o que mais se tem é ruído, amplificadores velhos que apitam, microfones ruins que não dá pra entender o que o cara canta, isso tudo e mais um pouco afastou o publico que saia de casa para ver as bandas. A cena já existe há anos, ela evoluiu muito e o público também, todos nós nos tornamos mais exigentes. A cena de bandas está linda, falta esse profissionalismo. Mas isso não depende só das casas, as bandas têm a obrigação de terem seu set… Aliás, foi depois que começamos a levar nossos equipamentos que a qualidade dos shows melhoraram e tivemos um retorno de público. Você não precisa comprar equipamentos caros e importados, compre um que adeque a necessidade da sua banda”. Dom Orione (Videocassettes)

“A produção musical, assim como a cultural, nunca foi um problema para o brasileiro. Isso está em nossas veias! Acredito que houve uma mudança drástica de perfil de público. Não existem grandes nomes internacionais para popularizar a cena como um todo. Também não há mais a necessidade do encontro físico para trocar ideias, se relacionar e curtir um som. Muita gente nem tem saído de casa, resolvendo tudo pelas redes sociais. Outro fator que me incomoda muito é nas pessoas de 20 e 30 anos estarem muito caretas. O rock precisa de mais maldade, mas o próprio pessoal do rock de antes acha coisas como funk ofensivas. Por outro lado, deveríamos juntar com o funk e fazer algo ofensivo e com um puta som da hora”. Raphael Fernandes (Revista Mad)

“Ah, eu acho que falta aquela vontade mesmo. por parte das bandas / casas / festas etc. e público também. E não acho que seja por preguiça. É porque a gente acostumou a ter tudo fácil. Internet tá aí cheia de música de graça, filmes de graça, tudo na mão e na hora. Isso vai de encontro com a vontade de pensar em ir naquela festa e dar 15 conto pra ver a banda do amigo, saca? Há uns 10, 15 anos atrás, a gente ainda saía pela Augusta e Pinheiros e entrava nos bares pra descobrir coisas novas, ouvir bandas novas. Hoje a galera não sai sem propósito muito bem definido. Também tem o negócio das casas fecharem pra bandas e ter só DJ e festas. mas claro, todo mundo se adequando à demanda, né? Daí fica esse lance meio individualista de “se eu não ganhar nada não tem porque eu ir”. Isso em SP. Não falo sobre os outros estados porque eu não conheço. Aliás, outras cidades, porque sei que no interior rola umas ceninhas e em outros estados também. SP ta difícil, MAS vejo uma luz no fim do tunel com essa revitalização do centro, as casas abrindo pra bandas e novo e casas novas abrindo que dao espaço pra bandas… Acho que talvez tenha sido só uma fase de adequação da internet/celular na vida das pessoas e consumo de música. Quem sabe agora é a hora da cena se formar novamente, né?” Aecio de Souza (Bloodbuzz)


4 thoughts on “Porque será que não se fala em uma grande cena do rock autoral hoje em dia?”

  1. Muito relevante esse assunto! Vejo que existe uma mudança de comportamento rolando também. Essa nova geração já não sonha em ter banda. A 20 anos adolescentes se confinavam na garagem pra fazer um som, estudavam música, juntavam grana pra seu instrumento. Usavam a música como forma de expressar suas ideias. Mas a moçada hoje prefere ser youtuber, vlogueiro ou gamer…

  2. Temos que reconhecer também que mesmo a 10 anos atrás, a motivação de muitos vinha da grande exposição do sucesso de algumas bandas: Ter uma banda era pretexto para aparecer, ter fama, dar opinião. Muitos desses se tornavam “músicos” só por conveniência. Não se importavam em aprimorar o som, pensar as letras, etc… Nesse sentido, acho até bom que hoje, existam outros caminhos para essa galera. Eles acabam escolhendo o caminho mais fácil de tentar “viralizar” fazendo qualquer outra coisa.

    Mas respondendo sua pergunta, acho que isso que não volta mesmo… Estamos no meio de uma grande mudança de paradigma, não só na música. Mas sou otimista, acredito em novos caminhos. Afinal a música não morreu. Ainda existe muito espaço para bandas em diversos nichos. Mas para encontrar novos caminhos, é importante reconhecer que realmente algumas coisas não voltam mais…

    Já vi algumas ideias interessantes em paginas de marketing digital voltada para bandas: Como por exemplo, buscar parcerias no cinema para trilha sonora, disponibilizar músicas para empresas de propaganda, jogos, e até mesmo colocar na biblioteca do youtube, como opções para serem usadas em videos…

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