Paula Cavalciuk fala sobre agruras da vida das domésticas em “Maria Invisível” e prepara “Mapeia”, seu primeiro EP

Por uma feliz coincidência ou algo tramado pelo destino, o primeiro single de Paula Cavalciuk, “Maria Invisível”, saiu quase simultaneamente ao filme candidato ao Oscar “Que Horas Ela Volta”, de Anna Muylaert. Ambos tratam do mesmo assunto: o tratamento que as domésticas e diaristas “quase da família” recebem, sendo rebaixadas diariamente mesmo que seus contratantes não percebam. Com um kazoo marcado e um ar ~divertido~, ” a canção acaba ganhando um ar de tragicomédia, passa a mensagem, mas ao mesmo tempo é dançante, isso faz com que cada um tenha uma impressão diferente”, explica Paula. “Cantei uma coisa que veio do coração e entrou pelos ouvidos da pessoa. Se um dia isso vai se transformar num tapa na cara, depende só da consciência de cada um”, completa a cantora e compositora.

Em outubro, a sorocabana lança seu primeiro EP, “Mapeia”, que contará com quatro faixas e será produzido pelo estreante Ítalo Ribeiro, ex-Vilania, com co-produção de Bruno Buarque e Gustavo Ruiz e estará disponível em breve para download no site da cantora. Conversei com Paula sobre sua carreira, o novo EP, “Maria Invisível”, feminismo, o filme “Que Horas Ela Volta” e o Girls Rock Camp, projeto de que participa:

– Me fale mais sobre “Maria Invisível”. Como foi a composição desta música?
Eu tava tirando o lixo daqui de casa (inclusive hoje passa o caminhão do lixo… só um minuto!) Pois então, estava realizando essa tarefa doméstica tão chata e xexelenta, quando pensei “mina, você tá achando ruim organizar seu próprio lixo? Imagina quem precisa fazer isso com o lixo dos outros e ainda é tratado como lixo?” Foi assim, botei o lixo pra fora e na volta ela saiu quase que inteira, duma vez só.

– “Maria Invisível” foi lançada praticamente ao mesmo tempo que o filme “Que Horas Ela Volta”, sobre o mesmo assunto. Qual a sua opinião sobre isso?
Eu tive a ideia primeiro! Brinks (risos) Foi uma feliz coincidência! A gente toca essa música desde o ano passado, aí muitas pessoas se identificaram com ela, antes mesmo de ser lançada. Uma amiga me mandou o link do trailer e eu fiquei besta! Assisti ao filme na semana passada e ainda estou “passada”. Tenho muitos pontos a considerar sobre o filme, mas vou resumir em dois: o tema ser o mesmo da minha música e o fato de a Anna Muylaert ser uma mulher maravilhosa, talentosa, ganhando visibilidade e metendo o dedo na ferida que muitos não querem ver, mas nesse momento, sentem.

– O kazoo dá um ar “divertido” à música. Você acha que desta forma uma mensagem tão forte pode ser passada de forma mais “leve”?
A canção acaba ganhando um ar de tragicomédia, passa a mensagem, mas ao mesmo tempo é dançante, isso faz com que cada um tenha uma impressão diferente. Gosto de passar a bola para o público. Ontem tocamos essa música num projeto social que trabalha com crianças e adolescentes, posso dizer que o kazoo foi o grande trunfo, foi muito divertido ver a criançada rindo do som de “peido” que eu fazia, o foco nem foi a letra. Assim como já a tocamos em lugares onde você imagina que não terá adesão nenhuma, e no final tem uma enorme surpresa. Por mais que alguém que se enquadre no papel de “vilão” da música, acho que a sementinha foi plantada. Cantei uma coisa que veio do coração e entrou pelos ouvidos da pessoa. Se um dia isso vai se transformar num tapa na cara, depende só da consciência de cada um.

Paula Cavalciuk
foto por Camila Fontenele

– Como você definiria o seu som?
Coisa difícil de responder. Tem gente que cria termos novos pra fazer mais do mesmo. Tem gente que não fala nada e só faz. Eu não sei o que fazer (risos). Meu som é muito diverso, eu faço samba, tango, moda de viola, blues. Acho que é um “pop planetário”, pq eu me sinto apta pra tocar minhas músicas em qualquer lugar do planeta. A vontade mesmo, é tocar fora da órbita da Terra, mas definir um som pra chegar lá é pretensão, não vou falar do que não sei. Quando eu souber, te procuro e mudo a definição. 😉

– Quais são suas maiores influências musicais?
Minha mãe, os Beatles, Dolores Duran, Dolores O’Riordan, Alanis Morissette, Milionário e José Rico, Tião Carreiro e Pardinho, Radiohead (e vários outros nomes que só vou lembrar depois que esta entrevista for publicada).

– Como é seu processo criativo?
Normalmente a ideia vem meio que pronta, fico cantarolando uma melodia que considero boa (ou não tão péssima), aí penso em algo que gostaria de dizer e escrevo sobre isso. Se tá tomando um caminho interessante, já pego o violão, ou teclado, ou cavaquinho, ou ukulelê, só pra fingir que toco e faço uns caminhos harmônicos que combinem com o que minha cabeça tá dizendo e vai.
As vezes eu deixo uma música na gaveta por anos, então volto pra ela e lanço o olhar menos preciosista e preconceituoso possível. Se der “liga”, vamo que vamo!

– Você é uma artista independente. Como a divulgação via internet auxilia a fortalecer a cena da música fora de gravadoras e mídia?
A internet é tudo e nada. Se você não está aqui, é considerado nada. Mas tem vez que mesmo você estando aqui, dando seu tudo, ainda é nada para quem você poderia ser alguma coisa. Eu nem vou falar de gravadoras, porque não consigo nem imaginar como seria a vida. Na internet, tudo é muito fugaz, instantâneo, determinista, bombástico e depois, flácido. Isso me irrita, porque surge uma pressão “ah, meu deeeus, preciso ser genial! preciso falar a língua da galera! preciso criar um meme! preciso sair em todos os blogs! ahhh! ahhh!” Penso nas páginas do Facebook que bombam num dia e depois pfff… “Gina Indelicada”, “Conselhos do He-Man”, foram fenômenos e hoje não são nada e acho que nem é por falta de empenho e criatividade, é porque surgiram 37786482 páginas novas e essas foram esquecidas. Não me apego em fazer coisas modernas, pra bombar e viralizar. Eu quero fazer as coisas com calma, carinho. Gosto de abraço, de olhar nos olhos. Eventos no Facebook são apenas para informar uma data, divulgar um evento físico. Gosto de gente que frequenta shows. Gosto de tocar ao vivo! Agora em outubro, vamos lançar o EP “Mapeia” e a ideia é sair por aí mapeando pra tocar onde o carro conseguir chegar. Quero usar a internet como ferramenta para divulgar aquilo que fazemos fora dela, não o contrário.

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foto por Camila Fontenele

– Fale um pouco mais sobre o EP “Mapeia”, que está praticamente saindo do forno.
O EP já uma lenda. Estávamos, no início do ano, gravando tudo em casa, emprestando microfone, placa, tirando leite de pedra. Essa parte toda fica por conta da criatividade e ouvido apurado do Ítalo Ribeiro. Ele sempre teve uma veia de produção, tocou em bandas representativas na cena daqui, que tiveram projeção nacional, como Fast Food Brazil e Vilania. Tocou também com uma galera que faz a cena em SP, como Rafael Castro, Mr. Lúdico e Tulipa Ruiz. Recentemente ele se formou em produção fonográfica e este seria seu primeiro trabalho fechado, como produtor. Acontece que dois dias antes de mandarmos a master pra fábrica, nosso gatinho subiu na mesa e derrubou o computador onde estava tudo. Fuén! O HD já era, então o jeito foi ter calma, respirar e começar tudo de novo. Hoje a sonoridade destas 4 canções está diferente, soa melhor, a gente evolui, com a repetição, mas também fica essa armadilha de querer sempre melhorar e nunca fechar o formato! (Risos) Gravamos algumas coisas aqui, mas também gravamos todas as vozes e uma das músicas no estúdio Minduca, do Bruno Buarque, em SP. Na reta de finalização, Bruno e Gustavo Ruiz compraram a ideia e entraram como co-produtores. Foi muito legal ver os caras que produziram os discos de cantoras brasileiras que eu mais curti, nos últimos tempos, co-produzindo meu primeiro trabalho! O Gustavo também gravou baixo e baixo synth em duas faixas. O EP tb teve participação de João Leopoldo no piano, Barba Marques na percussão, Diego Garbin no trompete e Sergio Miguel no acordeom. Esta semana as 4 faixas serão masterizadas e no início de outubro, o EP “Mapeia” estará disponível para download em nosso site e também para venda em nossos shows e nas melhores lojas do planeta. É só se ligar nas notícias.

– O machismo ainda é forte no mundo da música? Como mudar isso?
O machismo existe em qualquer lugar. Antes de ser cantora, antes de sair da minha casa, eu era tratada diferente dos meus irmão homens, por exemplo. Eles tinham liberdade para ir a festas, viajar, namorar. Comigo foi diferente, então isso te trava quando você se depara com situações de escolha. É muito mais difícil arriscar algo fora dos padrões, como viver de música, por exemplo.
Venho de cidade pequena, vi minhas amigas casando-se cedo, tendo filhos, abandonando os estudos ainda no ensino médio, para cuidarem do lar. Não que seja errado escolher ter família cedo, mas será trata-se unicamente de escolha? Aquilo não combinava comigo. Se eu tivesse seguido essa lógica, certamente não estaria fazendo música agora. As meninas recebem estímulos diferentes desde a infância, ganham bonecas, brincam de casinha, são excluídas dos contrinhas de futebol na rua, são tratadas como “café-com-leite” nos games, na música, nas ciências, nos esportes. Temos hoje, uma Presidenta da República, que invés de receber críticas ao governo, é reduzida a xingamentos machistas, misóginos. Me sinto ofendida toda vez que vejo isso acontecer com qualquer mulher. Todas nós somos deslegitimadas. É preciso trabalhar na raiz, discutir isso nas escolas, mostrar que somos igualmente capazes e podemos ser o que quisermos. Mostrar, também, que o machismo não é um mal que atinge apenas mulheres, é uma doença da sociedade, que prega ideias absurdas e pressões também nos meninos, como “homem não chora”, “homem não pode achar homem bonito”, “homem tem que pegar geral”. Isso cria robôs infelizes que tornarão mais infelizes ainda, as meninas e mulheres que cruzarem seus caminhos, inclusive suas filhas.

– Você acredita que a mulher está conseguindo se empoderar mais pela música? As cantoras e artistas ajudam nisso?
A música é uma ferramenta transformadora de qualquer realidade! A arte em geral, é. Quando você percebe que pode desabafar com arte e pode atingir outras pessoas que precisam daquilo, que se identificam e se inspiram. Bicho! Isso vira um delicioso looping! Representatividade importa e muito, para que possamos nos enxergar, nos projetar e nos fortalecer. Pra você, pode não ter importância a fala da MC Carol, quando ela diz que se acha o máximo, que ninguém manda nela, que ela não baixa a cabeça pra homem nenhum, mas para uma menina negra da periferia, onde o funk tem um diálogo direto, é parte de sua cultura, ouvir uma coisa dessa, pode ser a gota d’água que faltava para ela dar um basta numa situação abusiva, por exemplo, ou pra ela se olhar no espelho e pensar “eu sou o máximo meeeesmo!”

– Você também faz fanzines sobre as músicas que cria. Pode me falar mais sobre isso?
Sim! Fanzine é vida! É quase como tocar as ideias de alguém. Pegar essa ideia com a mão, se identificar, virar a página, sentir o cheiro do papel, dobrar, guardar, e até mesmo fazer um afago com a bochecha?! O EP “Mapeia” era pra ter sido lançado em abril deste ano, mas um acidente doméstico envolvendo um felino aqui de casa, nos impediu de tal. Eu gosto de conversar com as pessoas quando estou no palco, mas eu quero ter assunto, porque eu sou tímida, o EP seria esse ponto que me ligaria ao público que vai a shows. E quando ficamos sem previsão de EP, as zines vieram pra dar essa fortalecida nas ideias. Sou voluntária num projeto de empoderamento de meninas de 7 a 17 anos, o Girls Rock Camp, onde elas montam bandas, compõem uma música, ensaiam, estampam camiseta, fazem fanzine em uma semana! Aí me empoderei e comecei a fazer. O lance do “pague-quanto-quiser” veio pra deixar tudo mais bonito, pois é dar às pessoas o direito de decidir a quantia a se contribuir e também se questionar sobre o valor da arte. Muito interessante essa troca! <3

– Me fale um pouco mais sobre o projeto Girls Rock Camp e sua participação nele.
O Girls Rock Camp mudou minha vida! É um projeto maravilhoso, onde meninas de 7 a 17 anos se encontram durante uma semana e têm instrução de voz ou do instrumento que escolherem, montam uma banda, criam um nome pra essa banda, compõem uma música, ensaiam, participam de oficinas de stencil, fanzine, skate, defesa pessoal, imagem e identidade, para no final de semana, se apresentarem como banda. Este projeto teve origem nos Estados Unidos e a Flavia Biggs (socióloga, educadora e vocal/guitarra da banda The Biggs), depois de ser voluntária lá, trouxe o modelo para o Brasil. Sorocaba é pioneira no Girls Rock Camp na América Latina! Foi e é um tremendo orgulho participar como voluntária de algo tão bonito e transformador! Depois da primeira edição que participei, me empoderei de tal maneira, que tomei coragem de tocar minhas músicas, e sair por aí contando minha verdade para as pessoas. Neste ano também fui voluntária da primeira edição do Ladies Rock Camp, que é o mesmo formato, mas voltado para mulheres acima de 21 anos. Tem tanta beleza quanto o Girls, mas a carga, a desconstrução se dá de um jeito mais intenso. Lindo de ver a mulherada fazendo um som! Atualmente também trabalho num projeto chamado Viva Meninas, que é uma iniciativa da Flavia Biggs, em parceria com a Pastoral do Menor e a Prefeitura de Sorocaba. As mesmas oficinas que tem no Girls Rock Camp, para meninas que frequentam a Pastoral do Menor. É muito amor! <3 E quem quiser saber mais sobre o Girls Rock Camp, pode acessar www.girlsrockcampbrasil.org, existem várias maneiras de ajudar. Vamos lá! 😉

– Qual a sua opinião sobre a música pop atual no Brasil?
Muita coisa boa sendo produzida! Para todos os gostos! Me admira ver artistas e especialistas arranjando tempo pra falar mal daquilo que não gostam. Gente! Tem TANTA coisa sendo produzida! Andaaa! Bora experimentar e espalhar!

– Recomende artistas e bandas (de preferência independentes!) que chamaram sua atenção ultimamente.
Eu gosto de tanta coisa, vou a shows, consumo discos da galera, mas vou citar os 3 primeiros nomes que me vierem, ok?
Francisco, El Hombre, pela energia, verdade no palco e por fazerem o rolê que eu mais acredito: irem pra rua, saírem tocar!
Lupe de Lupe, pela sinceridade, empenho e transparência. Muita gente torce o nariz pro som dos caras, mas eles não tão nem aí, não querem ser ninguém além deles mesmos. Recentemente prestaram contas da turnê genialmente chamada de “Sem sair na Rolling Stone”, onde descrevem exatamente, onde, como e por quanto tocaram. No último prêmio de música que participei, conheci o cantor Diego Moraes. Achei demais! Uma mistura de Billie Holiday com Elza Soares, mas com uma originalidade tremenda! Não é a toa que ele foi o segundo melhor colocado nessa ocasião e eu fui a primeira (risos) Aloooka! Mas brincadeiras à parte, realmente me encantei com o Diego e quero duetar com ele logo! <3


3 thoughts on “Paula Cavalciuk fala sobre agruras da vida das domésticas em “Maria Invisível” e prepara “Mapeia”, seu primeiro EP”

  1. Nunca ouvi vc cantando musicas sertanejas, fiquei curioso, principalmente do Zé Rico, citadas na matéria!
    Ansioso pra ver o show de vcs em Campinas.
    🙁

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