“Paradas de sucesso são um pensamento retrógrado”, brada Pedroluts

Pedroluts
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Passando longe de qualquer pretensão de atingir os ultrapassados hit parades das rádios FM, a voz gutural de Pedroluts, que remete à Tom Waits e ao Bob Dylan dos últimos tempos, chegou a receber elogios da Ilustrada durante uma apresentação com sua antiga banda Hooker’s Mighty Kick durante a Virada Cultural (em uma sacada de um apartamento próximo ao palco do Arouche). A influência da dupla é inegável também no som do projeto musical, que bebe do folk, blues, rock e soul, tudo regado a Jack Daniels com algumas pedras de improviso aqui e ali.

Com um EP no Soundcloud (“The Chair”) e várias músicas soltas pela internet, Pedroluts ainda não tem planos para o futuro de seu projeto. “Quero gravar mais, talvez escalar uma banda pequena para trabalhar com ideias que estão vindo na minha cabeça. Talvez explorar mais os sons que faço sozinho. O que importa é curtir o que se faz e fazer com sinceridade – é piegas, mas ainda dá certo”. Por enquanto, ele participou do tributo aos Titãs “O Pulso Ainda Pulsa”, organizado pelo Crush em Hi-Fi em parceria com o Hits Perdidos, mandando uma versão matadora e elogiada de “Não Vou Me Adaptar”, e fará parte da banda que promete uma jam com versões de clássicos da banda no lançamento do tributo neste domingo na Associação Cultural Cecília.

Conversei com Pedro sobre sua carreira, os projetos por onde já passou, influências e sua versão para “Não Vou Me Adaptar”.

– Como você começou seu trampo musical?

Meu trampo musical como Pedroluts? É uma descoberta e garimpo que já dura uns 15 anos. Acho que o Pedroluts ainda está em formação, mas agora tenho uma noção melhor do que quero e do que não quero… É um processo divertido de ressignificar a si mesmo e encontrar as brechas a serem exploradas, mesmo que dentro do mesmo contexto (atualmente, mais pro folk e blues).

– Você falou que tá “mutando” o projeto Pedroluts há cerca de 15 anos. Como foi essa metamorfose e por quais fases o projeto passou?

Poutz… Nem eu sei ao certo. Acho que é só uma confluência das coisas que fiz ao longo dos anos e dos quais quero ter uma relação mais pessoal. Já toquei em bandas de thrash metal (o que voltarei em breve) e acho isso muito foda, mas não vejo isso atrelado diretamente ao que quero fazer como Pedroluts.

– Quais são as principais influências musicais que você vê refletidas (ou já viu) no trabalho deste projeto? Mesmo que não sejam explícitas no som.

Isso muda de tempos em tempos, mas hoje é basicamente: Bob Dylan, Tom Waits, Ray Bonneville, Sean Rowe, Raul Seixas, Howlin’ Wolf, John Lee Hooker, Titãs… Acho que é isso. Mas mais do que as influências de estilo, vejo também influência de perfil… Quase todos esses caras trilharam seu caminho de maneira intuitiva e pessoal. Tem outros que me influenciaram, mas que não estão aí. Glenn Gould é um ótimo exemplo. Ele é um pianista canadense de música erudita, mas cuja abordagem à arte diz muito pra mim.

– Falando em Titãs, como foi a sua participação no tributo “O Pulso Ainda Pulsa”? Como foi a escolha do som e a transformação que você fez nele?

Primeiro, foi uma honra ter participado. O Titãs tem um protagonismo nas minhas escolhas musicais – foi uma das primeiras bandas de rock que eu comecei a ouvir. E o disco “Go Back” foi meu primeiro contato com a banda. Então, apesar de gostar muita coisa dos Titãs, principalmente as mais recentes, sabia que minha escolha tinha que ser algo deste disco. Daí veio “Não Vou Me Adaptar”. Minha versão foi uma humilde releitura da canção. Para mim, ela sempre foi uma visão sobre a adolescência e suas mudanças, mas achei que ela poderia ganhar uma versão mais velha, com ares carrancudos e ranzinzas. Tentei algumas versões até que encontrei a mudança que seria o foco da minha: mudar o tom maior para tom menor. Isto mudou consideravelmente a música e me deu liberdade para dar a abordagem que eu queria. O resto foi consequência de improvisos e experimentações, com esse arranjo “a la polka”, digamos assim.

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– E você vai participar da banda que vai fazer a jam no evento do lançamento, no dia 28. Como vai ser?

Pelos ensaios vejo que vai ser algo bem divertido. Muito mais do que um tributo ou homenagem, é uma celebração a uma banda essencial para a música brasileira. Não será uma continuação do tributo lançado, mas uma extensão… um complemento em carne e osso.

Saiba mais e confirme presença no evento, que acontece dia 28 (domingo) aqui:

O Pulso Ainda Pulsa flyer

– Fale um pouco do material que você lançou até agora.

O pouco material que lancei é fruto de uma série de coisas: músicas que fiz anos atrás, canções recentes, covers… vejo cada música como uma pessoa – com sentimentos e humores. Então minha ideia é tentar interpretá-la conforme seu momento e minhas intenções.

– Você acha que a internet ajuda ou atrapalha o artista independente?

Os dois. Por um lado é uma maneira única de se conectar com diferentes pessoas – o próprio Tributo aos Titãs é uma prova positiva deste potencial. Aliada à internet, a facilidade em gravar vídeos, sons e afins auxilia na divulgação e na disseminação de algo que seria local e para poucos. Por outro lado, esta coisa sob demanda e individual – ouvindo músicas no fone de ouvido ou assistindo clipes/shows no seu computador ou tablet – torna a experiência menos coletiva. É uma tendência ao carregar seu mundinho dentro do seu celular, mas se paga um preço por esta praticidade, como não se deparar com o inusitado ou curtir o momento de um show – ao invés de apenas querer registrá-lo. Acho que atualmente menos pessoas estão dispostas a ver coisas novas ao vivo, justamente pelo fato de não poderem “zapear” com a mesma rapidez que podem garimpar na internet e no conforto do lar, por exemplo.

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– Qual a melhor e pior parte de ser um artista independente hoje em dia?

Não sei como é não ser, mas ser independente é bom e ruim pelo mesmo motivo: você é seu próprio chefe. Você tem a liberdade de levar sua arte para qual caminho quiser, mas também é preciso ser a pessoa chata a se cobrar para ter algo relevante, sem ter uma equipe ou uma estrutura de produtora por trás.

– Você acredita numa retomada do rock às paradas de sucesso no Brasil?

Eu não acredito mais nas paradas de sucesso. É um pensamento retrógrado.

– O que falta para fortalecer a cena independente brasileira, como já aconteceu nos anos 90 e 2000?

Acho que falta uma mobilidade maior de todos. Atualmente São Paulo está recebendo algumas iniciativas bem legais, com casas que abrem as portas para bandas novas e, principalmente, autorais. Sinto que aquela tendência de bandas covers está diminuindo. Espero, pelo menos, que isto aconteça. Uma coisa é celebrar a música, como fizemos no tributo, outra coisa é se apoiar no sucesso do passado para se assumir como uma comida requentada no microondas – sem gosto ou essência. Com a abertura destes espaços, as pessoas vão começar a mudar o modo de consumir a música – diminuindo as relações com o passado (como é o caso das bandas covers) e ampliando a tendência de assimilar coisas novas.

– Quais os próximos passos do Pedroluts em 2016?

Não sei ainda. Preciso me reunir com meu chefe para isso, mas nossas agendas nunca batem (risos).
Quero gravar mais, talvez escalar uma banda pequena para trabalhar com ideias que estão vindo na minha cabeça. Talvez explorar mais os sons que faço sozinho. O que importa é curtir o que se faz e fazer com sinceridade – é piegas, mas ainda dá certo.

– Recomende bandas e artistas (especialmente se forem independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Essa é uma pergunta muito injusta porque sempre me esqueço de incluir um ou outro. Mas alguns sons que tenho ouvido são: O Terno (cujos clipes são fodaralhásticos), Céu, Elza Soares, Sean Rowe (que lançou um EP pelo Kickstarter recentemente), Cerveblues Band (toda quinta no Cervejazul… mais que necessário para quem está em SP), Nasi, Wander Wildner… acho que é isto que me vem na cabeça agora.


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