Para os goianenses do Two Wolves, a palavra “pop” não deve ser mais um palavrão

Two Wolves

Formada por Mauricius Wolf (guitarra) e Lineker Lancellote (vocal), a Two Wolves é uma banda de Senador Canedo, em Goiás. Foi formada em 2011, quando o vocalista compunha em inglês mesmo sem dominar muito bem o idioma. Após uma temporada na Europa, esse obstáculo ficou para trás e a banda se solidificou, deixando de ser um duo e lançando seu primeiro disco, “Just Listen To”, de 2014, pela Monstro Discos.

No final de 2017, agora com o reforço de Sérgio na guitarra, Miguel nos teclados, André na bateria e David no contrabaixo, a Two Wolves lançou o single “Howl”, que fará parte de seu próximo álbum, a ser concluído este ano. “A música é sobre uma pessoa a observar um lobo e sua família. Criando ali uma conexão extra-sensorial com o animal. Mas na verdade, talvez não seja um lobo e talvez não seja uma pessoa que a observa. Cada um vai entender de uma forma”, conta Lineker. O próximo trabalho promete trazer mais da “música triste pra dançar”, como o som do grupo já foi definido, sem medo nenhum de soar pop. “Espero ainda poder tocar no programa da Fátima Bernardes (risos)”.

– Como a banda começou?

A banda começou a partir da aposta de um produtor local, Mauricius Wolf, em um adolescente que compunha letras em inglês, mas não falava inglês, cantava, mas não muito bem, e tocava violão na praça, mas era terrível nisso. De alguma forma, Mauricius, viu potencial no garoto e o ofereceu a gravação de uma música. Com isso se iniciou uma amizade entre Mauricius Wolf e Lineker Lancellote que decidiram fundar a banda com o nome de Two Wolves. Após um ano juntos, Lineker teve a a oportunidade de se mudar para a Europa e se mudou com o intuito de se aperfeiçoar musicalmente e também aprender de verdade a língua que ele gostava de escrever suas músicas. O vocalista viveu alguns anos por lá, tocou em festivais, bares e ruas de alguns países como: Alemanha, França, Bélgica e Holanda, então decidiu-se voltar e tentar algo por aqui. No primeiro ano de volta, a dupla adicionou mais alguns integrantes à banda e gravaram seu primeiro álbum que já foi lançado em parceria com o selo Monstro Discos.

– Você costuma falar de si mesmo na terceira pessoa, assim? (Risos)

Nunca falo assim, mas estou tão acostumado a falar dos outros (meu trabalho é esse) que acabei falando assim (Risos). Esqueci que era uma entrevista (risos).

Two Wolves

– E porque o nome da banda? De onde surgiu?

(Agora falarei na primeira pessoa) Eu, desde criança, fui encantado com lobos. Passava horas desenhando lobos. Meu X-Men favorito era o Wolverine. Assim, quando chegou o momento de escolher o nome para o duo, veio em minha mente aquele ensinamento indígena sobre os dois lobos que vivem em cada um de nós e a importância de saber lidar com isso e escolher bem qual dos dois iremos alimentar. Então escolhemos o nome Two Wolves por causa da minha afinidade com a espécie, por causa do ensinamento e por sermos dois.

– Essa formação de duo ficou bem popular no mundo do rock nos últimos anos… Porque isso aconteceu? Antigamente isso era quase inimaginável!

Na verdade eu acho que não existe um plano por trás disso. Simplesmente acontece. No nosso caso foi o fato de que não conhecíamos ninguém que se encaixasse em nossa proposta. Pois, principalmente antes dessa era hipster, todo adolescente do rock só gostava de metal. O que não era o meu caso. O Mauricius é um músico extremamente virtuoso, mas nunca foi do metal. Ele gostava muito de música instrumental. Eu sempre gostei de algo mais pro lado de pop, post punk e muita música deprê.

– A banda realmente faz uma mistura de diversos estilos. Como você definiria o som do Two Wolves pra quem nunca ouviu?

Então, até hoje, ainda não fiz algo que eu gostasse de verdade. Existe uma música nova a ser lançada dia 20 que acredito ser mais próximo do que eu gostaria de fazer, mas não tenho certeza. É muito difícil definir um estilo, até porque isso acaba limitando a banda, mas baseado na mistura do que já foi feito. Acho que podemos nos chamar de pop. Pop é aquilo que poderia estar no mainstream e que ninguém sabe definir bem o que é, mas que acaba abrangendo um público de vários gostos. É como diria o grupo de rap SPFunk: “bota o nosso CD pra tocar que ele agrada até sua vó.” Estou ansioso por 2018, pois acho que agora eu acertarei a mão nas composições.

– E eu vejo que pra muita gente da dita cena independente, o nome “pop” é praticamente um palavrão, né.

Sim, concordo, por isso gosto de usar (risos). Na verdade eu passei da fase de tentar ser o diferentão da música. Também, acho que é mais fácil definir assim do que ficar procurando vertentes musicais com 6 palavras.

– Me fala mais do trabalho que vocês já lançaram, “Just Listen To”.

“Just Listen To” é a coletânea das músicas que compus enquanto estava na Europa, produzidas de forma diferente do que era pra ser. Eu compus as músicas em uma longa fase de depressão, tanto que a maioria das letras não são das mais felizes, porém, quando decidimos gravar, achamos que seria melhor deixá-las mais pra cima, assim o show seria mais divertido. Além do fato de que eu amo dançar. Isso virou uma mistura de sentimentos, o que já até foi definido por um jornal como: “Two Wolves! Tristeza para dançar.” Eu só posso dizer que adorei essa definição.

– Esse negócio de misturar letras tristes com melodias alegres sempre é interessante… ?

Sim! Está aí o The Smiths pra não nos deixar mentir.

– E muitas outras, né. E como rola esse processo de composição da banda?

Até hoje, tem partido de mim. Começo com a harmonia, melodia e letra, daí os meninos adicionam os arranjos de acordo com suas identidades e com a proposta que imaginamos. Eu tenho pegado no pé deles para que isso mude, para que tenha mais uma proposta inicial deles, talvez assim a gente faça algo melhor.

– Mas a banda na verdade não é um duo.

É, mas não é, depois que começamos a tocar com banda completa, aceitamos muito as ideias de cada um que faz a banda com a gente. Porém, ainda é originalmente um duo, pois os outros integrantes acabam sendo passageiros. São amigos de outras bandas que fazem uma parceria, ficam por um tempo, depois se vão com seus projetos.
Mudamos de integrantes frequentemente. Só fica mesmo eu e o Mauricius.

– É uma banda transitória.

No momento estamos com Sérgio na guitarra, Miguel nos teclados, André na bateria e David no contra-baixo.
Acredito que esses ficarão um bom tempo com a gente, já que foram realmente selecionados por bons motivos, entre eles o fato de estarem na faixa etária dos 50 anos. Diferente de mim que tenho 23.

– E vocês já estão trabalhando em novas músicas?

Sim, além desse novo single, tem um álbum sendo produzido.

– Me conta mais do single.

O single se chama “Howl” como o uivo de um lobo. A música é sobre uma pessoa a observar um lobo e sua família. Criando ali uma conexão extra-sensorial com o animal. Mas na verdade, talvez não seja um lobo e talvez não seja uma pessoa que a observa. Cada um vai entender de uma forma. Escrevi essa música me baseando ja forma que vejo o mundo. Sou uma pessoa que sofre com TDAH, ansiedade e depressão. Isso fez com que eu nunca visse as coisas e o mundo da forma que a maioria das pessoas o veem. Para esse single, está sendo produzido um videoclipe onde todas as pessoas participantes sofrem com as mesmas condições que eu. Foi feita uma postagem sobre o assunto e com isso recebi mais de cem mensagens de pessoas se voluntariando para participar e também me relatando sobre suas vidas.

– E esse single fará parte do álbum? Como será esse álbum?

Sim, o single fará parte do álbum. O álbum está na fase de produção e ainda pode sofrer algumas mudanças, mas de antemão posso adiantar o uso de muitos elementos eletrônicos e boas batidas.

– Uma coisa que eu normalmente pergunto para as bandas: quais as principais influências musicais do Two Wolves?

Isso também é muito difícil de definir. Eu gosto muito de cantores solos como: Matt Corby, Bon Iver e James V. Mcmorrow. O Mauricius gosta de guitarristas solo como Steve Vai, Satriani e outros. Porém, a banda já foi comparada com U2, Two Door Cinema Club, Kings of Leon, 1975… Então fica por isso aí. Não sei. (risos)

– Como você vê a cena independente hoje em dia e como a banda se encaixa nela (ou não se encaixa)?

Acho que a cena está cada vez mais fraca. Hoje, os jovens se tornam velhos muito rápidos, então já perderam o pique de ir em shows apoiar as bandas locais, já os novos jovens, os que deveriam substituir os que se cansaram, estes já mudaram de gosto musical. Os adolescentes estão ligados nessa cena nova do rap e do funk. Então não existe um público novo para o rock. Também, o independente está se tornando muito parecido com o mainstream. Aparece quem tem recursos e influência seja onde for. O que exclui muita banda boa da quebrada e levanta muita banda ruim de playboy. Eu acho que a gente não se encaixa em lugar nenhum.

– E o mainstream ainda é o objetivo para as bandas independentes ou isso já não faz sentido?

Bom, para mim, ainda é. Mas acho que não é para todos. Hoje eu tenho músicas em três grandes rádios. Gosto disso. Espero ainda poder tocar no programa da Fátima Bernardes (risos). Além do fato de que eu sinto que o mainstream me abraçaria mais do que a cena independente o fez.

– Existe um preconceito dos independentes com essa mídia tradicional?

Acaba que sim. Na verdade, eu acho que todos gostariam de estar lá, mas como não estão, preferem manter a postura de que não gostam. É meio paradoxal. Seria interessante chegar em uma banda e perguntar o que eles acham de tocar em rádio e depois de uma resposta negativa os dizer: que pena, a Jovem Pan quer tocar sua música. Assim, saberíamos por suas reações a verdadeira opinião. Ou talvez seja só eu que gosto de rádio e televisão (risos). Apesar que sempre que participo de programas em rádios ou televisão local, aparecem uma ou duas bandas me pedindo ajuda para participarem também. Com isso, acho que ainda existe quem queira estar na mídia tradicional.

– Recomendem bandas e artistas ( de preferência independentes ) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Hmmm… Gosto de uma banda nova que se chama Templates. Fazem um rock em português que me agradou muito. Gosto de Almost Down de Goiânia. Também tem a sumida Cambriana que está prestes a lançar um álbum e voltará com tudo. Tive a chance de ouvir o novo disco e garanto que é pedrada. Também gosto de artistas solo como o Caio e o Danny Queiroz. Indico todos esses!


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