Trio do Brooklyn Vaureen prepara seu primeiro e barulhento disco, “Extraterra”, e pode trazer seu “grungegaze” para o Bananada em 2018

Read More
Vaureen
Vaureen

Foi da amizade de duas colegas de trabalho que nasceu a fagulha que viria a se tornar o trio Vaureen, do Brooklyn. Em 2011, as conversas sobre música de Andrea Horne (guitarra e vocal) e Marianne Do (baixo) se transformaram em música. Em 2015 elas lançaram seu primeiro EP, “Dirty Room”, e no mesmo ano o baterista Cale Hand entrou definitivamente na banda. Em novembro de 2016 saiu o segundo EP, “Violence”, refinando seu som e deixando ainda mais aparentes suas influências de rock alternativo noventista, psych, stoner rock e shoegaze.

Ainda este ano acontecerá o lançamento do primeiro disco completo da banda, “Extraterra”. “As composições são uma investigação sobre a natureza da consciência além do mundo da matéria e da percepção”, conta Andrea. “Em ‘Extraterra’, estamos indo mais longe e preenchendo as lacunas. É material que escrevemos ao longo dos últimos 5 anos, incluindo uma versão de uma jam que se tornou a música “Albatross”. Nós amamos essa música, mas sempre sentimos que a versão original era especial por conta própria. Toda vez que tocamos, nos olhamos tipo “você sentiu isso?”… Esse sentimento especial”, explica.

Conversei com o trio sobre sua carreira, os dois EPs, o rock no mainstream, o disco “Extraterra” e mais:

– Como a banda começou?

Marianne: Andrea é uma designer incrível, e eu crio sites. Nós costumávamos trabalhar juntas na mesma empresa em Nova York. De alguma forma começamos a falar sobre música. Lembro de um dos primeiros e-mails da Andrea para mim sobre música: era um link do Hanson fazendo cover de Radiohead.

Andrea: (Risos) Sim, eu curti tanto o jeito que aqueles caras estavam tocando “Optimistic”, com tanta reverência … Você podia ouvir que eles cresceram ouvindo Radiohead, assim como nós. Durante anos, eu compartilhei canções ridículas com Marianne, às vezes a mesma música várias vezes porque eu continuava me apaixonando pela mesma faixa repetidamente e esquecia que já tinha mandado! Em torno de 2010, a música era minha principal fonte de sanidade e satisfação. Eu queria fazer música desesperadamente, em vez de trabalhar na minha vocação. Eu tinha um violão desde que eu era adolescente, mas não percebi o que isso significava para mim até aquele momento. Eu senti que formar uma banda era algo que eu precisava fazer na minha vida. Tornei-me dedicada a me ensinar a tocar e a cantar, geralmente acordando horas antes do trabalho e gravando um monte de loops pra tocar em cima. Parecia que algo estava tentando sair de mim, o que parecia assustador compartilhar com outra pessoa. Eu tinha tanto medo do julgamento de outras pessoas. Marianne foi a primeira pessoa com a qual me senti confortável tentar fazer uma jam. Nós simplesmente mantivemos isso, eventualmente convidando amigos a tocar bateria com a gente até encontrarmos um que ficou.

Marianne: E essa pessoa foi Cale!

Cale: Eu entrei no início de 2015. Conheci o parceiro da Marianne que me procurou perguntando se eu estava tocando. Eu não estava e estava curioso sobre sua música. Gostei, entrei, aprendi algumas partes e criei algumas minhas.

– O que significa Vaureen?

Andrea: Existe este termo francês, le vaurien, que significa algo como “desviante”. Marianne me contou isso porque estávamos falando sobre vilões do filme. Quão interessante é ver uma luz em um personagem sombrio em um filme e pensar “ele não é ruim – ninguém é … ou será que são”? Eu criei a nova ortografia da palavra.

Marianne: Não importa o quão boa seja uma pessoa, acho que todos são capazes de sucumbir aos piores instintos, então eu estava explorando palavras que tinham a ver com isso, e le vaurien ficou na cabeça. Nós também gostamos que “Vaureen”, soa um pouco como o nome de uma menina, e que tem uma pegada anos 90.

– Quais são as suas principais influências musicais?

Andrea: Nirvana, Sonic Youth, o som de Seattle dos anos 90, PJ Harvey, The Breeders, Siouxsie & The Banshees, My Bloody Valentine, além de bandas pesadas como Melvins, Torche, Witch. Às vezes, chamamos nosso som “grungegaze”. Cada um de nós tem diferentes influências individuais para o nosso som. Mas as bandas listadas acima têm elementos que a banda considera como um todo.

– Conte-me mais sobre o EP “Violence”.

Marianne: Depois que o EP “Dirty Floor” saiu, inscrevi a Vaureen para um dia de estúdio gratuito na Converse Rubber Tracks no Brooklyn, e eles nos aceitaram em janeiro de 2016. Gravamos “Tough Guys” lá, e isso funcionou tão bem que tivemos que decidir o que viria a seguir! Tínhamos algumas outras músicas prontas para gravar, então fizemos aquelas (“Evil” e “Before The Rectangles Take Over”) no Spaceman Sound em Greenpoint, Brooklyn, um mês ou dois depois. Eu adoro o nosso EP “Violence” porque as três músicas são tão diferentes. “Tough Guys” tem um gancho de refrão grudento, “Evil” é direto e pesado com um doce solo de guitarra no final, e “Before the Rectangles Take Over” é uma cheia em camadas lentas com harmonias vocais em tudo.

Vaureen

– Como o EP atual é diferente de “Dirty Floor”?

Marianne: “Dirty Floor” foi a nossa primeira gravação, e acho que parece assim. Também tínhamos um baterista diferente na época. Nós entramos naquela sessão de gravação com a intenção de gravar 9 músicas. Duas delas não foram terminadas, e mais duas nós sentimos que não eram suficientemente boas para o EP, então as 5 músicas restantes são o que está em “Dirty Floor”. Nós nos tornamos melhores músicos desde que o EP foi lançado, mas as pessoas ainda nos dizem que adoram a música “Slip”, e Cale adora “Anastasis” e fica super feliz quando tocamos essa ao vivo.

Cale: Embora eu não estivesse presente no “Dirty Floor”, sinto-me à vontade dizendo que tudo agora parece muito mais completo e tem muito mais profundidade. E “Dirty Floor” é muito legal. Mas acho que é seguro dizer que o som evoluiu.

– Vocês estão atualmente trabalhando no seu primeiro álbum completo. Podem me contar mais?

Andrea: Uma coisa que me deixa realmente entusiasmada com esse trabalho é o quão pesado vai ser. Você vai ver. O título é “Extraterra”, ou “além da Terra”. As composições são uma investigação sobre a natureza da consciência além do mundo da matéria e da percepção. Se o disco fosse uma pessoa, seria olhar para o céu com tantas perguntas, sentir-se preso entre reinos e não capaz de viver completamente em qualquer domínio. Aqueles que gostam do “Violence” não ficarão desapontados. Em “Extraterra”, estamos indo mais longe e preenchendo as lacunas. É material que escrevemos ao longo dos últimos 5 anos, incluindo uma versão de uma jam que se tornou a música “Albatross”. Nós amamos essa música, mas sempre sentimos que a versão original era especial por conta própria. Toda vez que tocamos, nos olhamos tipo “você sentiu isso?”… Esse sentimento especial. O Aaron Bastinelli está produzindo esse registro. Nós tocamos com ele quando ele gravou “Tough Guys” para nós no Converse Rubber Tracks no Brooklyn (agora fechado). Não havia dúvidas sobre trabalhar novamente com ele, ele entendeu o nosso som sem que precisássemos explicar. É um relacionamento muito harmonioso, somos tão sortudos!

Cale: Fiquei surpreso com o quanto estou tocando – o que significa que eu acho que haverá um pouco de bateria mais rápida, o que normalmente não é exatamente minha pegada. Eu estava ansioso por gravar o álbum mais pesado na bateria da minha carreira. Também acho que este álbum terá um pouco de novos sons que a Vaureen não explorou no passado.

Vaureen

– Como é a cena musical independente em Brooklyn hoje em dia?

Andrea: Está viva e bem! A cena da música pesada em particular é próspera, centrada em torno de um local chamado Saint Vitus em Greenpoint, Brooklyn. Este local tornou-se realmente central para a cena em geral, já que muitos locais fecharam nos últimos 5 anos. Há tanto talento e criatividade acontecendo na engenharia de música e som. O Shea Stadium e o The Silent Barn também foram grandes centros para a cena musical independente. Esses lugares continuam expandindo de novas maneiras. Por exemplo, acho que Shea grava seus shows ao vivo e The Silent Barn estabeleceu um esquema sem fins lucrativos e lançou uma tonelada de incríveis programas de rádio independentes.

– Qual a sua opinião sobre o mundo da música hoje em dia? O rock morreu para o mainstream?

Andrea: Assim como o antigo pessoal estabelecido nos EUA (velhos caras brancos) está ultrapassado, a música deles também está. É fácil parodiar artistas como Neil Young, Bob Dylan, Jim Morrison. A paródia geralmente é um sinal de que algo está se tornando culturalmente irrelevante. Dito isso, eu só posso dar minha opinião sobre o mainstream de uma perspectiva externa. Nós (a banda) estamos começando a conhecer “o mundo da música”, pois ele está se transformando em algo novo. Não consigo entender totalmente o que é, e ninguém consegue! Pessoalmente, acho que essa área intermediária, essa área cinza, é realmente emocionante. Na minha opinião, o rock não pode morrer. O verdadeiro “rock” não é apenas um gênero, é um estado de ser. Usando guitarras e outros instrumentos para ser cru e emocional de uma forma que é conflituosa e… ALTA! É atemporal. Vejo que a música se torna algo tão nicho. Como todos têm um dispositivo em suas mãos, cada pessoa está conectada ao seu pequeno mundo. Eles podem escolher o que está lá e, simultaneamente, entrar em contato diretamente com os artistas que conhecem e amam nas mídias sociais, o que é realmente ótimo para artistas independentes como nós.

– Quais são os próximos passos do Vaureen?

Andrea: Terminar o “Extraterra”. Fazer alguns vídeos. Eventualmente, cair na estrada. Há alguém no Brasil que nos disse que poderíamos (talvez) entrar na programação do festival Bananada em 2018. Não é oficial, mas … vamos sonhar!

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção ultimamente!

Andrea: Meatbodies (o disco chama “Alice”).

Marianne: Eu tenho curtido Part Chimp ultimamente. Eles lançaram um álbum chamado “IV” no início deste ano, que é demais.

Cale: Hand Habits é legal. Beverly também é uma boa banda.

Racionais MC’s como crítica social: Diário de Um Sobrevivente do Inferno

Read More
Racionais MCs

Filosophone, por Matheus Queirozo

“O ser humano é descartável no Brasil”

(Racionais MC’s – “Diário de Um Detento”)

Inferno. O que é o inferno? Essa é uma questão relativa. Não existe uma resposta única, pronta, acabada, esgotada, que dê fim a essa pergunta. A religião, a filosofia, a Teologia, todas essas áreas de uma forma ou de outra falam do inferno, o inferno como lugar de morada dos mortos, lugar de penitência pelos atos cometidos enquanto se vivia a vida terrena, inferno como lugar de sofrimento e dor. Vulgarmente falando, o inferno para algumas pessoas e aqui mesmo na terra, lugar de morte e dor; para outros, inferno é não poder entrar na internet, é não ter um bom celular, é não conseguir estar na moda, com os sapatos tendência, com o corte de cabelo do momento; inferno para outros é não ter o que comer, é viver em condições sub-humanas, é não ter uma boa educação, não ter uma boa família. Esse último é o inferno de quem vive na periferia. Aliás, de quem sobrevive na periferia, porque não é fácil.

Nos anos noventa, o mundo da música já tinha passado por vários momentos de estilo musical. Aqui no Brasil, nos nossos anos cinquenta, era de ouro, tivemos os cantores de rádio cantarolando com aqueles vozeirões; tivemos o samba do morro, depois a bossa nova, que pregava um basta na saudade – “chega de saudade!” –; vieram, perto do fim dos anos sessenta, os grandes festivais de música onde a MPB começou a se consolidar, pegamos em 1964 um duro golpe, instaurou-se a Ditadura Militar, de censura artística completa. Resultado em face disto, tentando ludibriar os censores: surgiram músicas de crítica ao regime, mas uma crítica sutil, inteligente; nesses mesmos anos setenta, surgiu a galera da Jovem Guarda, a galera da psicodelia, do rock progressivo, a música nordestina invadindo o planeta Brasil; já nos anos oitenta, ocorreu a explosão do rock nacional, o chamado BRock; e em fins dos anos noventa, o hip hop e o rap se consolidam como música de protesto, se utilizando da realidade sem fantasia como matéria para as suas rimas.

Racionais MCs
Em 1997, o grupo de rap Racionais MC’s, considerado o grupo mais popular e influente dos nossos tristes trópicos, lança o disco que faz com que os membros do grupo fiquem conhecidos no Brasil todo, que é o “Sobrevivendo no Inferno”. O disco todo pode ser definido como rap político, muito inteligente, recheado de referências culturais, de críticas ao preconceito racial e exclusão social. O disco fala do que é o inferno para quem vive na periferia, o que é o inferno para quem é preto, pobre e não tem poder aquisitivo.

Interessante que, mesmo tendo sido lançado por uma gravadora independente, esse álbum alcançou a vendagem de 1.500.000 cópias vendidas. Com certeza é um disco antológico do rap. Quer dizer, não só do rap – seria reduzi-lo demais. Corrigiria dizendo: disco antológico da história da música.

A sétima música do disco, “Diário de Um Detento”, talvez seja a música mais conhecida até hoje, ganhou até clipe, conta o drama do brasileiro que vive num sistema opressor, que se mete no mundo da criminalidade, e preso e se depara com o sistema penitenciário e suas mazelas. A música conta, em primeira pessoa, a história de um sujeito que viveu na pele a vida de prisioneiro, vendo a olho nu uma vida atolada pela miséria, que deixou de viver para sobreviver no inferno.

Segundo alguns sociólogos, a sociedade humana pode ser dividida em superestrutura e infraestrutura, sendo o primeiro acima do segundo. A superestrutura do Estado é o nível jurídico-político e ideológico, ou seja, onde estão aqueles que fazem as leis, aqueles que executam a lei e aqueles que veiculam as informações (parte ideológica), as mídias, os jornais, as revistas, os sites. Na parte abaixo, na infraestrutura, estão as relações de produção de uma sociedade, ou seja, aqueles que fazem a economia funcionar de, o patrão e o empregado, o empresário e o trabalhador assalariado. Quem sustenta toda essa pirâmide social quase medieval é o trabalhador que acorda às cinco horas da manhã, se desloca da parte periférica da cidade para o centro, para mover as produções, para limpar a casa da classe média, para ficar enclausurado numa forma de trabalho estressante, nada criativa. Em cima deles, desses que precisam do emprego miserável, já que não tiveram uma boa escola no bairro, já que não tiveram familiares ricos e influentes, em cima desses é que o empresário lucra, em cima deles é que um político deita a cabeça no travesseiro e acorda com a conta cheia de dinheiro desviado da educação, da saúde e da segurança, em cima desse trabalhador da periferia que as notícias deitam e rolam contando mentiras, em cima desses que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo.

O Estado, por exemplo, não é um aparelho neutro, a serviço de toda a sociedade, como os capitalistas nos pretendem fazer crer. O Estado, no fundamental, sempre tem servido os interesses daqueles que detêm o poder econômico. 

(…) Os donos dos meios de produção, tendo nas suas mãos o Estado com todo o seu aparelho: exército, polícia, tribunais, funcionários públicos, etc., tem nas suas mãos portanto não só o poder econômico como também o poder político” (URIBE, Gabriela; HARNECKER, Marta. Exploradores e Explorados. São Paulo: Global Editora, 1979, p. 38).

É uma grande farsa essa a de que cadeia serve para reestruturar o ser humano. A cadeia não passa de uma lata de sardinha onde vale a lei do mais forte, o presídio é uma sociedade que existe dentro da sociedade, com suas regras próprias, sua moral própria, sua ética, cunhada empiricamente por prisioneiros e para todos os prisioneiros. Lá dentro não existe a moral universal kantiana (“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”), não existe a justa medida aristotélica. Não existe essa moral alcançada pela razão filosófica. A prisão brasileira não tem a menor condição humana de devolver o detento reestruturado à sociedade. Isso é uma grande piada. E a cadeia só existe para os mais pobres. Rico fica em prisão domiciliar, principalmente se for político.

O médico Drauzio Varella, autor do Best-seller “Estação Carandiru” de 1999, viu de perto a situação mórbida da antiga Casa de Detenção Carandiru. Começou a trabalhar no sistema penitenciário, na parte médica, em 1989, ano em que chegou ao Carandiru. O médico, pesquisador profundo na área de estudos de câncer e AIDS, comenta em um vídeo de 2015, no seu canal, a atrocidade que era a situação dos presos consumidos pelas complicações da AIDS: “Era uma tragédia coletiva. Eu cheguei a perder, na minha enfermaria do Carandiru quatro, cinco doentes por semana. E não é perder porque um dia a pessoa morre, como todos nós vamos morrer. É uma morte muito sofrida, emagrecendo, passando mal, incapaz de comer, e trancados em celas. Foram as mortes mais tristes que eu vi na minha vida, foram lá no antigo Carandiru”.

Cada detento uma mãe, uma crença

Cada crime uma sentença

Cada sentença um motivo, uma história de lágrima

sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento,

desprezo, desilusão, ação do tempo

Misture bem essa química

Pronto: eis um novo detento

Lamentos no corredor, na cela, no pátio

Ao redor do campo,

em todos os cantos

Mas eu conheço o sistema, meu irmão,

Aqui não tem santo

No meio de tantos detentos e tantas histórias, sentenças e motivos, eis a história de um cidadão comum, é o Jocenir Prado. Preso por receptação de carga roubada e formação de quadrilha, condenado a oito anos e três meses, dos quais cumpriu quatro anos, Jocenir viveu alguns anos no Carandiru. Em entrevista a Jô Soares em seu programa, Jocenir Prado alega que foi pego como bode expiatório (expressão popular utilizada para definir uma pessoa que sobre a qual recai toda a culpa alheia, mesmo que esse alguém seja inocente) da polícia. Jocenir, nessa mesma entrevista, comenta: “Eu sofri uma série de agressões, agressões físicas mesmo, agressão moral. Então, praticamente isso fazia com que, cada vez que eu fosse dormir, eu rezava pra não acordar, só de imaginar que o dia seguinte seria a mesma coisa. (…) E quando veio minha condenação de oito anos e três meses, me bateu o desespero, então eu sabia que eu tinha que tomar alguma atitude. E eu tinha três alternativas: ou praticaria o suicídio, que é uma coisa normal dentro na prisão e pouco divulgada; ou deixava me levar pelo mundo das drogas; ou procurava de alguma forma conquistar a massa carcerária (os detentos)”.

Tem uma cela lá em cima fechada

Desde terça-feira ninguém abre pra nada

Só o cheiro de morte e Pinho Sol

Um preso se enforcou com o lençol

Qual que foi? Quem sabe? Não conta

Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta

Nada deixa um homem mais doente

Que o abandono dos parentes

Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?

A vaga tá lá esperando você

Pega todos seus artigos importados

Seu currículo no crime e limpa o rabo

A vida bandida é sem futuro

Sua cara fica branca desse lado do muro

 

Jocenir optou pela terceira alternativa. Ganhou popularidade se utilizando do conhecimento que tinha, do estudo que teve durante a vida, coisa que poucos ali dentro possuíam devido às baixas condições econômicas que tinham. Jocenir passou a escrever as cartas para aqueles que não sabiam escrever, que era a maioria. Com isso, foi ganhando respeito, isso antes de ser transferido para a casa de detenção. Após uma rebelião traumática, Jocenir prado foi transferido para a casa de detenção de São Paulo, o famoso Carandiru.

Acertos de conta tem quase todo dia

Tem outra logo mais, eu sabia

Lealdade é o que todo preso tenta

Conseguir a paz, de forma violenta

Se um salafrário sacanear alguém

leva ponto na cara igual Frankestein

Nesse período, ele já tinha algum prestígio entre os presos, era conhecido como “o tiozinho que escrevia as cartas”. Para quem não sabe, a autoria de “Diário de Um Detento” é creditada a Mano Brown e a Jocenir, que foi autor de um diário o qual inspirou a música. Jocenir viveu na pele a vida de um prisioneiro.

“Diário de Um Detento” é um relato dramático de alguém que optou pela vida sem futuro do crime, é a denúncia de como o Estado se livra daquilo que não sabe lidar, de como o Estado se comporta diante daqueles que vivem à margem da sociedade e da lei. O Estado esperou uma boa oportunidade, uma rebelião, usou isso como uma ótima justificativa para sentar o cacete em todo mundo e, de xeque-mate, provocar uma carnificina, sabe pra quê? Pra eliminar gastos, pra se livrar de uma responsabilidade social.

Foto que registra o resultado do massacre na Casa de Detenção do Carandiru ocorrido em 1992.

Dois ladrões considerados passaram a discutir

Mas não imaginavam o que estaria por vir

Traficantes, homicidas, estelionatários

Uma maioria de moleque primário

Era a brecha que o sistema queria

Avise o IML, chegou o grande dia

Depende do sim ou não de um só homem

Que prefere ser neutro pelo telefone

Ratatatá, caviar e champanhe

Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!

Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo

Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!

Sobre a música, Jocenir Prado comenta no Programa do Jô: “Na casa de detenção, nessa rotina em que eu fazia versos e cartas, eu escrevi alguns versos e em cima desses versos criou-se o ‘Diário de Um Detento’ gravado pelos Racionais MC’s. Ele (Mano Brown) fez algumas adaptações e gravou”.

Nas palavras de Drauzio Varella, em entrevista de maio de 2017 para o canal do Youtube Nexo Jornal, anos depois do grande massacre do Carandiru: “A população carcerária aumentou e as cidades continuam inseguras… ficaram mais inseguras ainda porque, antes, as cidades inseguras eram São Paulo, Rio, agora é o Brasil inteiro. (…) Então acho que a violência se disseminou pelo país, o que mostra que o aprisionamento não traz segurança. Aquele bandido que tá na rua assaltando vai preso, ele para de assaltar, mas isso não significa que haja uma diminuição da violência como um todo, que é o que a sociedade imagina, né? A sociedade acha que prendendo todos os bandidos e todos os traficantes, as cidades vão ficar seguras e os filhos das famílias não vão usar droga, o que e uma visão irreal, uma visão fantasiosa do problema”.

Ou seja, o problema só aumenta. A violência ganha cada vez mais proporções alarmantes. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, de 2016, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil (fonte: BBC Brasil, 6 de junho de 2016). A educação e a saúde públicas, dois pilares fundamentais para a gestão do bem público, não melhoram nunca e os políticos desviam cada vez mais dinheiro que deveria ser direcionado a programas sociais, às políticas públicas. O Estado, então, não cumpre seu papel. Acho, portanto, que precisamos romper esse contrato social, Sr. Thomas Hobbes e Sr. Jean-Jacques Rousseau.

Ratatatá, Fleury e sua gangue

vão nadar numa piscina de sangue

Mas quem vai acreditar no meu depoimento?

Dia 3 de outubro, diário de um detento

(Todos os versos citados nesse texto são trechos da música “Diário de Um Detento”).

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por João Perreka, da João Perreka e os Alambiques

Read More
João Perreka
João Perreka

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, o convidado é João Perreka, líder da banda João Perreka e os Alambiques.

RPW“Pule ou Empurre”
“Vamos começar pelas origens. Em 1996, o garoto aqui vivia com skate de baixo do braço e colava nos bailes de rap e nas festas de pichador, onde rolava o som alucinante do grupo RPW formado em São Paulo, pelo trio Rúbia, DJ Paul e W-Yo e botava geral pra bater cabeça. Foi nesta época, que criei os primeiros vínculos com a galera de outras quebradas e conheci muito grupo de rap”.

Mental Abstrato“Jazzeira”
“Tai uma banda que até esses dias não conhecia, mas hoje é uma das minhas preferidas, pois uma galera me falava para ouvir e tive a honra de sacar a primeira vez ao vivo. O som do Mental Abstrato é difícil de descrever, pois faz um jazz, porém caminha por vários, seguimentos musicais (vários mesmo!), e cada instrumentista vai mandando tua onda boa no som”.

Marsa“Vermelhos”
Marsa é uma banda que todos precisam ouvir vindo da nova geração musical pernambucana que tanto aprecio desde os tempos de Chico Science e Fred 04. Thiago Martins, linha de frente da Marsa, tem uma voz sensacional que transcende com a sensibilidade do som da banda”.

Edgar“Te Dei Amor e Catuaba”
“Musico místico, criador de letras, figurinos, documentários e instrumentos fantásticos e cada dia que passa evolui no que faz, e nos presenteia ainda mais com seu som inovador”.

Samuca e a Selva“Madurar”
“Uma trupe genial de músicos fora de série, destaque pro swing e carisma do vocalista Samuca e para som pra lá de animado. O show deles é uma grande festa, e dificilmente quem ouve fica parado”.

“A Noite do Espantalho” (1975) – Um road movie rural com Sergio Ricardo + Alceu Valença + Geraldo Azevedo

Read More

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

A Noite do Espantalho
Lançamento: 1974
Diretor: Sergio Ricardo
Roteiro: Jean-Claude Bernadet, Maurice Capovila, Nilson Barbosa e Sergio Ricardo
Elenco Principal: Geraldo Azevedo, Rejane Medeiros, Emanuel Cavallcanti e Tereza Melo

Sabe o maluco que quebrou o violão no festival da Record de 67?

Então, acabou que além de músico, o cara é diretor de cinema e arrasa nos filmes que nem com o violão quebrado.

E porra, músicos são amiguinhos! O filme de 75 do Sergio Ricardo (o cara do violão), conta com a participação do Alceu Valença e do Geraldo Azevedo (é meio difícil às vezes saber quem é quem…) que dão pro já psicodélico longa uma cara ainda mais louca que marca a tela com a cara do cinema novo brasileiro.

Girando em torno do conflito entre os trabalhadores rurais e o senhor de terra (senhor feudal? quase…), passando pelas motos dos jagunços contratados a fim de impedir as revoltas camponesas, o filme mostra de modo meio realista e meio que cheio de metáforas e atuações dionisíacas, como se dá a questão da divisão da terra no sertão brasileiro (spoiler: é uma merda). “A Noite do Espantalho” ainda trata de questões românticas explorando alguns dos personagens mais a fundo, mostrando inclusive suas angústias políticas.

 

Dirigido pelo Serginho, o filme conta com músicas de sua autoria compostas exclusivamente pro musical e que se encaixam na história num modelo meio de ópera, musicando as falas dos personagens em sua quase total discursividade e se apropriando muitas vezes do recurso do coro (teatro grego no sertão?) na voz da multidão.

Segue em link o filme completo e a trilha sonora.

Filme:

Trilha:

Assistam, ouçam e curtam!

Valeu falow!

Audiometria: rebolando na cadeira involuntariamente com “Volume 10”, da Banda Calypso (ou com metade dele)

Read More
Calypso

Audiometria, por João Pedro Ramos

Calypso – “Volume 10”
Lançamento: 2007
Duração: 58 min
Gravadora: Calypso Produções
Produção: Chimbinha

No Audiometria de hoje resolvi ir logo em uma banda que muita gente considera uma das piores coisas que o Brasil já produziu, normalmente por preconceito. Tá, você pode não gostar da banda Calypso, mas eu sinceramente não acho que o som dos paraenses é assim tão ruim como vocês dizem, apesar de conhecer apenas duas ou três músicas deles. Como nunca me aventurei a ouvir um álbum completo da ex-dupla Joelma e Chimbinha e companhia limitada, dei por mim que essa coluna me dava a oportunidade de realizar esse feito, finalmente.

Primeiramente, entrei no Spotify e percebi que lá temos apenas alguns álbuns da banda (que normalmente os diferenciava por “volumes”, até o momento foram 17, além das coletâneas, discos ao vivo e álbuns com outros nomes, como “Eternos Namorados”, que hoje não faz tanto sentido). Dando uma vasculhada, decidi que ouviria o Volume 10, por alguns motivos:

– Ele têm uma música que eu já conheço, “Acelerou”, abrindo;
– Pô, é o volume 10, e 10 é um número meio cabalístico, certo?

Fones no ouvido, vamos dar o play e começar com “Acelerou”.

Já começa com os metais que se fossem do Los Hermanos metade dos haters acharia lindo. A guitarra suingada de Chimbinha comendo solta, a linha de baixo fazendo a cama, Joelma mandando seus vigorosos gritos… Cara, não dá pra eu falar que achei essa música ruim. Será que agora que o arrocha não é mais vista com olhos tortos o Calypso pode ser curtido sem preconceito? Aliás, essa música foi cantada por Herbert Vianna e os Paralamas no Estúdio Mtv Coca Cola que juntou as duas bandas! Contagem de gritos de “Calypso”: 1.

Quase um ska, essa intro de “Apareça Meu Amor”, hein? Aliás, se você pensar bem, essa música caberia perfeitamente em um disco dos já citados Paralamas. Até a métrica dos versos tem a ver. Só no refrão que o negócio perde a cadência Paralâmica. Dançante, essa aqui. Dá pra rebolar na cadeira ouvindo. E tem uns mini solinhos metálicos de Chimbinha, mostrando porque os ‘zoeiros’ já clamaram que ele tocasse no Angra. Contagem de gritos de “Calypso”: 2.

“Mais Uma Chance” começa com uma batidinha eletrônica meio Linkin Park, aí entra a guitarra sertaneja dos anos 90, talvez pra já introduzir o convidado Leonardo na canção. Mas a partir dos 30 segundos o som acelera e vira a velha guitarrada Calypso de sempre. O diálogo entre Joelma e Leonardo antes dele cantar, aliás, é tão natural quanto um refrigerante Schin. Aliás, a voz de Leonardo é muito adocicada pra esse tipo de música, eu achei. Quando a Joelma canta junto, até dá um caldo bacana…

Agora vem “Gamei”, com um belo jogo de metais e um refrão grudento com muitos “ah ah ah aaaah”. As músicas são, sim, parecidas entre si, mas… Alguns discos dos Ramones têm o mesmo problema e a gente não fica xingando, certo? Contagem de gritos de “Calypso”: 3

O começo de “Estou A Fim” (sic) tem um “papararapa” que me lembrou Ray Conniff. A guitarra de Chimbinha chega pegando fogo no suíngue paraense. O refrão é bem bacana, mas leva a duplos sentidos com o começo com “Mas por dentro / Tá doendo”. Aliás, vendo essa música friamente, ela poderia ganhar uma versão power metal bem fácil! É só mudar o ritmo que tá prontinha.

O título dessa é um show à parte: “Se Não Quer, Tem Quem Quer”. PLAU! Um tapa na cara. Pode-se fazer um paralelo pra quem xingava a banda. Enquanto os “roquistas” ficavam xingando, o Calypso lotava todos seus shows. Tá, a letra não fala de nada disso: é outra canção de amor desfeito e treta de casal. Aquela velha dor de cotovelo que até o CPM 22 usou muitas vezes.

Olha a guitarrinha Dire Straits de “Não, Não Vá”! Mark Knopfer ficaria feliz com essa, hein. Aliás, novamente temos que falar dos metais. Todo mundo só liga Calypso à guitarra de Chimbinha e à voz de Joelma, mas os metais são quase uma assinatura da banda, permeando todas as músicas e pontuando os versos. Muito legal. E a quebradinha pré-refrão de “Não, não, não, não vá” é sensacional. Tô gostando do disco do Calypso ou é impressão minha? Eita. Não esperava isso.

“Nessa Balada” tem um ritmo mais latino que as outras. Duvido que você consiga ouvir essa sem dar uma dançadinha na cadeira. Du-vi-do. O refrão não é dos mais criativos, mas lembra um pouco o samba-reggae dos anos 80 e 90. Ah, contagem de gritos de “Calypso”: 4.

Por falar em axé, “Chiclete Com Calypso” tem a participação do ex-líder do Chiclete com Banana Bell Marques. E ao contrário de Leonardo, a participação dele casa perfeitamente com o ritmo do Calypso, nessa que é uma das melhores músicas do disco. Como essa não foi hit nas rádios? Poxa, o refrão chegou e me deu uma decepcionou. Aliás, o pré-refrão, “dig dig iê, dig dig iô”, porque o refrão mesmo, que fala “Chiclete e Calypsoooo” é bem melhor. Bell Marques até dá uma encarnada no Jorge Ben Jor em alguns versos. Bem legal!

“Louca Sedução” tem os populares tecladinhos tão famosos no brega, mas tem palminhas, e eu adoro palminhas, então acabou me pegando pelo pescoço. E o guturalzinho da Joelma em “Vem me AMAAAAAAR / Me dar prazer” é divertido. E tem uma ponte com o tecladinho fazendo algo meio A-ha que é bem divertida, aliás. Contagem dos gritos de “Calypso”: 5

O nome da próxima música me chamou a atenção: “Amor Bandoleiro”. Acho que a última vez que ouvi a palavra “bandoleiro” foi em algum filme dublado da Sessão da Tarde. Começa meio Beto Barbosa, com os metais comendo solto, numa vibe meio lambada. Pelo que Joelma diz, amor bandoleiro acaba machucando, então evitem. Contagem dos gritos de “Calypso”: 6

O baixão lá no alto anuncia “Deixa Acontecer”, que não deve ser confundida com aquela do “na-tu-ralmente”. Por falar nisso, vamos reafirmar aqui que a cozinha do Calypso é muito boa, trazendo toda a cama pra Chimbinha cair matando. Esse refrão é bem legal, aliás. Com as backings participando e tudo. Contagem dos gritos de “Calypso”: 7

Opa, mudamos de ritmo: “Objeto de Desejo” é mais lenta e pronta pra arrochar de rostinho colado. Começa com a frase clichê “Eu não quero mais você” e conta a triste história de Joelma e um relacionamento com um cara casado que não tinha avisado desse porém. Reginaldo Rossi ficaria orgulhoso. A guitarrinha meio “Wasting Love” do Chimbinha é digna de nota.

Eita, colaram outra balada na sequência. Essa combinaria bem mais com o Leonardo, deviam ter chamado pra participar dessa, “Parecemos Tão Iguais”. Não sei se conto essa como grito de “Calypso”, pois como é uma balada, a Joelma fala como locutora de rádio Alpha FM: “banda… Calypso!” Bom, vamos contar, vai. Contagem dos gritos (esse baixinho) de “Calypso”: 8

Ué, outra balada? OK, aparentemente o Calypso prefere começar com as músicas aceleradas e fazer algo meio Lado A – dançantes Lado B – baladas. “Prá Não Morrer de Amor” é a mais melosa até agora, com uma letra em que a moça se declama e fica pedindo para que o rapaz permita que o amor seja possível. Lembra os piores momentos do Roupa Nova. Até o tecladinho, a métrica, bem Sullivan e Massadas, sabe?

Estamos quase no fim, com “Eclipse Total”, que tem nome de canção da Bonnie Tyler mas é só mais uma baladinha com a intro de uma guitarra meio espanhola, mostrando a versatilidade do pequeno Chimba. Tem uma batidinha eletrônica meio noventista, mas o teclado joga tudo lá pros anos 80. Infelizmente, a música não fala sobre um eclipse total que traz terror à população ou algo assim, e sim de saudades e solidão.

Pra compensar a solidão da penúltima faixa, fechamos com “Auto Estima”! A música começa com o baixão pegando pesado, e novamente é uma balada, reafirmando minha teoria do Lado A/Lado B do Calypso. Gravaram pensando no álbum em vinil? Algumas bandas independentes podiam pensar nisso, é uma ótima ideia… Enfim. chegamos ao fim com Joelma recuperando sua auto-estima (urgentemente). Infelizmente o refrão deixa o negócio meio com cara de gospel, no pior sentido que a palavra pode ter.

No fim, o disco começou muito bem com “Acelerou”, que gruda na cabeça e tem o aval de já ter sido cantada por Herbert Vianna, e vai bem até a metade. Quando chegam as baladinhas, dá uma caída… Acho que se elas estivessem mais espaçadas, quem sabe o álbum não descesse melhor. No mais, parem de ser tão preconceituosos: Calypso tem sim algumas músicas bem legais e bem construídas, especialmente quando são aquelas cheias de suíngue. Não reprima seus quadris, preste mais atenção à guitarra do Chimbinha e deixa acontecer. Naturalmente.

Miêta promete seu primeiro e alucinante álbum, “Dive”, para o segundo semestre deste ano

Read More
Miêta
Miêta

Quem foi que disse que o Facebook só serve para compartilhamento de memes e brigas políticas? Foi um post nessa rede social que gerou a banda Miêta, de Belo Horizonte. A banda traz em seu rock alternativo influências que passam pelo dream pop, shoegaze e indie, com toques de Beach Fossils, Yo La Tengo, Stereolab, Sleater Kinney e Pixies na mistura sonora.

Formado por Marcela Lopes (baixo/vocal), Célia Regina (guitarra/backing vocal), Bruna Vilela (guitarra/backing vocal) e Luiz Ramos (vateria), o quarteto lançou seu primeiro single, “Room” em outubro de 2016, seguido por “Pet”, em março desse ano e “I like You So Much Better When I’m Down”, que saiu em julho como parte da coletânea “C’mon Feel The Noize”, do The Blog That Celebrates Itself. A banda mineira prepara para os próximos meses seu primeiro álbum, “Dive”. “Estamos tentando criar uma experiência auditiva que complemente a experiência já conhecida nesse um ano que estivemos na estrada”, explicam.

A banda bateu um papo coletivamente comigo no chat do Facebook (já que este foi indiretamente o responsável pela formação do grupo, porque não?). Falamos sobre a carreira da banda, seu processo de criação, o machismo no mundo musical, o formato álbum nos dias de hoje e muito mais:

– Como a banda começou?

Bom, Célia e Bruna tocavam juntas numa banda de cover, até que a Célia resolveu começar uma banda autoral e postou num grupo aqui de BH sobre meninas interessadas em começar esse projeto. A Marcela respondeu e a Bruna foi convidada também. As 3 são as integrantes originais da banda, que já teve outras duas baixistas e bateristas antes de o Luiz entrar e a Marcela assumir o baixo também.

– E de onde surgiu o nome Miêta?

Miêtta Santiago foi uma sufragista mineira pioneira na luta pelos direitos civis igualitários nos anos 20. Como somos uma banda com 3 mulheres em posição de protagonismo, achamos que o nome representa bem essa luta diária, principalmente, no nosso caso, dentro da música, que é ainda muito machista, excludente e objetificante.

– Porque a música continua sendo um meio machista? Muitos ainda falam do funk como o único estilo machista, quando sabemos que isso acontece em qualquer estilo.

Sim, todas as cenas de modo geral reproduzem o machismo da sociedade patriarcal em que estamos inseridxs
Não é exclusividade do funk de jeito nenhum. Acho que algumas cenas de funk tem isso mais escrachado nas letras, tratando de sexualidade sem muita massagem, por ex, mas o machismo tá em todo rolê inclusive no meio independente. Acho que o fato é que ocorrem reproduções de discurso e postura machistas qur permeiam nossa vida em sociedade, porque seria diferente no âmbito das artes? Principalmente no rock, que perdeu seu caráter questionador há muito tempo.

– Quais as suas principais influências musicais?

São bem variadas. Do shoegaze ao pop, 80’s, 90’s, rap… cada um trouxe uma carga bem variada pra banda. Acho que nossas figurinhas em comum são bandas como Diiv, Beach Fossils, Melody’s Echo Chamber, Brvnks, My Magical Glowing Lens, El Toro Fuerte, Raça, Chico de Barro, Ventre, Def… Das classiqueiras tem Sonic Youth, Dinosaur Jr, American Football, Pixies, Sleater Kinney.

Miêta

– Por falar nisso, vocês veem um levante feminino na música acontecendo nos últimos tempos? Até no sertanejo isso pode ser visto, com o “feminejo”

Acho que o que está acontecendo, graças a um corre de empoderamento das minas pelas minas, é que elas tem se sentido mais seguras para tocar pra frente seus projetos sem aquele peso do silenciamento que nos diz que não somos boas o suficiente. Rompendo estereótipos de gênero e ocupando espaços que nos foram negados, como os palcos, em que sempre fomos reduzidas a estereótipos que diziam do.local que nos foi delegado historicamente. Achamos incrível que isso esteja acontecendo e lutamos para que se amplie cada vez mais, em todo e qualquer cenário, porque produzimos e somos igualmente capazes, qualidade de trampo n diz respeito a genitália. A gente tá dando o grito, parando de ser conivente com a ideia que nos foi vendida historicamente de que existe um lugar de mulher. Lugar de mulher é onde ela quiser!

– Me falem um pouco sobre o material que vocês já lançaram!

Lançamos os singles “Room”, em outubro do ano passado, “Pet”, em março desse ano e “I like You So Much Better When I’m Down”, que saiu em julho como parte da coletânea “C’mon Feel The Noize”, do The Blog That Celebrates Itself.

– E estão planejando um disco completo?

“Pet” foi lançada com clipe, nosso primeiro, dirigido pelo Jonathan Tadeu, e fala justamente da importância de nos desvencilharmos de relacionamentos tóxicos, seja amoroso, familiar, de amizade etc. Sim. Nosso disco já foi todo gravado e estamos trabalhando no processo de mixagem agora. Ele deve sair assim que a gente conseguir considerar ele pronto pro mundo. O que é bem difícil. Mas de agostyo não passa. (Risos) O nome é “Dive”.

– E o que dá pra adiantar do “Dive”?

Bom, as músicas são composições que fizemos desde quando éramos só Marcela, Bruna e Célia, até composições mais recentes que fizemos junto com o Luiz. Então, é realmente um caldeirão de influências, baseado na barulheira e vigor que já são conhecidos dos shows. Estamos tentando criar uma experiência auditiva que complemente a experiência já conhecida nesse um ano que estivemos na estrada, fazendo shows!

– E como é o processo de composição da banda?

Geralmente criamos ideias em casa, trabalhamos juntxs também em casa numa estrutura básica e evoluímos essas ideias em estúdio.

Miêta

– Vocês acreditam no formato disco? Hoje em dia percebemos que o formato álbum tem caído, com as pessoas preferindo músicas soltas nos serviços de streaming. Como vocês veem isso?

O streaming possibilitou que uma vasta produção independente realmente tivesse escoamento. Porque o lançamento físico, afinal, requer um orçamento de qualquer forma. Além disso, é a forma de consumir música que tem tomado mais espaço. É o que consegue chegar nas pessoas de forma mais eficiente. Mas, de toda forma, sendo uma banda independente, não dá pra abdicar de qualquer opção de merchandising que seja interessante. então talvez o formato padrão com caixinha de acrílico e encarte esteja mesmo ultrapassado, mas se a gente explora uma apresentação diferente, ou agrega o disco num outro tipo de produto, pode ficar interessante. o fã da música independente ainda vê valor nesse tipo de produto e sabe que a venda é uma forma de manter a banda funcionando. então o pessoal acaba comprando alguma coisa. E em relação à disco X música solta:
acho que o disco apresenta um produto mais amplo e formatado do que a banda pode apresentar. É uma carta de apresentação em que acreditamos por ser concisa e, ao mesmo tempo, mostrar a capacidade de pluralidade sonora da banda.

– Quais os próximos passos da banda?

Vamos sair em turnê nessa sexta agora e vamos passar pelos quatro estados do sudeste em quase uma semana e meia. Estamos bem animados com isso. Além disso, nossa preocupação tem sido voltada para a finalização do disco e o seu lançamento. A partir daí, vamos focar em divulgação, novos projetos, novos contatos com outras bandas e novos shows para manter tudo em movimento. 😉

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram a sua atenção nos últimos tempos!

Nossa. É muita coisa (Risos). Vamos acabar esquecendo de alguém. Mas vamos lá: In Venus, My Magical Glowing Lens, Loomer, Ventre, Lava Divers, Justine Never Knew The Rules, Katze Sounds, Papisa, Lari Pádua, El Toro Fuerte, Fernando Motta, Fábio de Carvalho, Chico de Barro, Não-Não Eu… Calma, tem mais (Risos). Young Lights, Sky Down, KKFOS, Leões de Marte, Sick, Soft MariaMusa Híbrida, Leões de Marte, Canto Cego, SUPERVÃO, Raça, The Outs, Hierofante Púrpura, Marrakesh, The Us, Sabine Holler, Conjunto Vacio, Roboto, Rebelde Sem Calça, Billy Negra… Gomalakka, Valciãn Calixto, TheuzitzO Mar Cobrindo O SolTerno Rei, The Junkie DogsKill Moves, ReadymadesPelosDV TriboCarmem FemSubversa, BrvnksSci-Fi, Luv Bugs, Old Stove, Vulgar GodsSLVDRRoger DeffBertha LutzPapisamaquinas, Wry, Pin Ups, ZonbizarroLava DiversConfeitaria, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo… Nossa, quer apostar o que que a gente ainda vai esquecer gente? Rio Sem Nome, Marcelo TofaniEma Stoned

 

Cantarolando: a cabeça confusa ou não de Walter Franco em “Cabeça” (1972)

Read More
Walter Franco
Walter Franco

Cantarolando, por Elisa Oieno

Outro dia cheguei à conclusão de que a minha ideia pessoal de arte é que, para ela ser ao menos interessante, deve conter algum elemento provocativo ou arriscado. Nesse sentido, o Walter Franco é um dos mais instigantes e criativos artistas brasileiros. Com sua cara de bonzinho e postura zen – e talvez até por isso mesmo – é um artista que apareceu para ser ‘maldito’. Ainda mais em um ambiente de descarada privação e vigília da classe artística, como foi Brasil da ditadura militar, a vontade é de provocar, cutucar a onça.

Provavelmente foi essa a intenção quando ele inscreveu a música “Cabeça” para o VII Festival Internacional da Canção (FIC) da Rede Globo, em setembro de 1972. Foi sua primeira grande apresentação, antes de lançar seu primeiro disco cheio, Ou Não (1973). Naquela época tais festivais eram veículos importantes para os artistas mostrarem suas canções a um alcance nacional, e eram submetidas a um juri e à opinião popular da plateia. Vale comentar que a platéia de festivais era conhecida por não ser exatamente comedida ao expressar suas opiniões a respeito dos artistas e suas performances. Se gostavam, aplaudiam apaixonadamente. Se não gostavam, ou discordavam das decisões do júri, vaias ensurdecedoras e até raivosas. Diz-se que esse comportamento específico das platéias demonstra quase que um desabafo, uma necessidade de opinar e ter voz, uma reação inconsciente das pessoas ao ambiente controlado e reprimido imposto à sociedade sob a ditadura.

“Cabeça” é uma faixa estranha pra caramba, gravada em várias camadas sintetizadas de voz, e foi apresentada no festival com Walter Franco fazendo uma das camadas ao vivo, sobre as gravações em fita. Já esperando as óbvias vaias, ele ficou satisfeitíssimo com sua performance, que conquistou também o juri.

As vaias eram esperadas, porém para coroar o elemento ‘maldito’ de sua apresentação, Walter foi premiado com a desclassificação de sua música do festival, e com a demissão do juri inteiro, que pretendia dar a ele o primeiro lugar. O juri era formado por Nara Leão, Rogério Duprat, o poeta concretista Décio Pignatari, os jornalistas Roberto Freire e Sergio Cabral, e o pianista João Carlos Martins. Sobre a desclassificação, nunca houve uma explicação. Na verdade, nem sobre a demissão do juri, que foi substituído por um outro que deu o primeiro prêmio ao ‘Fio Maravilha’, do Jorge Ben.

A canção “Cabeça” parece mesmo uma música da cabeça humana em seu estado caótico. A ideia é representar ‘vários personagens que nos habitam interiormente, várias inflexões, aquela coisa toda’, como o próprio definiu em uma entrevista certa vez. Parece muito a sensação que dá quando nos sentamos para ficar em silêncio meditativo. Logo a cabeça começa a gritar, assustar, bagunçar, achar engraçado, entender, desentender… é muito fácil ficar com a cabeça confusa.

“Que é que tem nessa cabeça irmão/ Que é que tem nessa cabeça ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir ou não”

Icônica capa do disco “Ou Não”, de 1973, em que está a faixa “Cabeça”

Há também diversas interpretações. Dizem que, além do sentido universalmente humano, também é uma forma de representar os tempos caóticos e confusos da época. Aliás, a frase “que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir, irmão” é meio ameaçadora, e, colocando em um contexto de ditadura militar, ganha ainda mais um sentido especial. Ainda mais considerando que ele próprio já havia sido preso, daquelas prisões aleatórias que vira e mexe atormentavam especialmente a classe artística. Qualquer governo morre de medo do que tem na cabeça de um artista, não? Talvez até de forma inconsciente uma experiência e um ambiente desses certamente influencia o que se produz artisticamente.

Talvez por isso mesmo que naquela época tenha surgido tanta coisa inovadora, verdadeiramente provocadora e interessante. Talvez por isso mesmo… Ou não.

Construindo Nycolle F: conheça as 20 músicas que mais influenciaram seu som

Read More
Construindo Nycolle F

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos a cantora, compositora e instrumentista Nycolle F, que lançou no final do ano passado seu EP “When The Sun Comes”.

Drop Nineteens – “Shannon Waves”
Bom, quero por esta música em primeiro lugar pois ela tem uma certa significância para mim. Algo enigmático, surpreendente… (In)felizmente (não sei) eu diria que sou uma pessoa complicada para gostar de músicas facilmente. A melodia sempre foi o que realmente me atraiu ali. A sequência de notas, a linha de baixo, etc, cada instrumento fazendo seu trabalho ali. Uma simples coisa pode desviar todo o meu caminho na tentativa de apreciar tal som. Mas voltando ao assunto, diria que “essa é a música”, a minha música! 100% da forma que amo. Soa como uma viagem astral… Ou sentir-se fora de si, viajando num carro velozmente enquanto o sol nascente se exibe e o vento brinca com seus cabelos… Correr freneticamente por entre ruínas… Ou simplesmente apreciar a lua e seus mistérios. Para que letra? Se a melodia já fala por si só. Talvez seja esse o motivo de eu fazer muitas músicas instrumentais. ‘Eu canto através de minha guitarra’.

Elliott Smith“Roman Candle”
A primeira vez que o ouvi foi graças a música de Portland nos anos 90, conhecido pelo movimento grunge também que não gosto de dizer que é apenas bandas de Seattle, afinal, algumas bandas não foram nem formadas ali e são bem relembradas pelo mesmo. Diria que entre Seattle e Portland, eu escolho mil vezes Portland. Conheci essa pérola após ouvir Hazel, o clássico “Day Glo”, som amável e que me causa uma certa nostalgia sobre meu passado quando o assisto. E caçando bandas de madrugada no YouTube, eis que aparece a Madonna cantando “Between the Bars” do Elliott e já havia lido em alguns sons o nome dele nas descrições de alguns sons do Heatmiser. Resolvi ouvir e havia gostado e aí sim comecei a ir clicando nos vídeos ao lado para conhecer melhor os sons. Logo me apaixonei… A letra dessa música realmente me deixa triste e sinto essa energia que Elliott deixou pra gente nela… E coisas em comum. O violão ali…….. Quando aquele sublime toque continuo e devastador na guitarra aparece… O mistério. Sem palavras.

Cay“Skool”
Cay foi uma banda irada dos anos noventa. Um som rasgado, da forma que amo. Melhor dizendo, grunge! Anet Mook é uma das minhas inspirações como musicista ainda mais por ser mulher. Um vocal único e que merecia mais reconhecimento. Infelizmente Anet morreu de uma forma trágica… Li que ela foi atropelada (E sóbria! Ela tinha problemas com drogas) por um trem, outros dizem que foi por um ônibus. Não sei qual é a informação real. Alguns crêem que foi suicídio. mas mesmo assim, sempre associo a morte dela com esse som. É algo inevitável… E amo a letra dessa música.. simplesmente diz demais essa melodia, e a letra fortalece mais ainda… “I have nothing to wear, it’s not that i don’t care, don’t wanna freak you out […] I’ll have another cigarette Before it’s time to go to bed […] The weather is so bad, and tv makes me sad… Enfim, uma melancolia, a vida. Tive a honra de ser respondida por um integrante da banda pelo g+, sobre esse som.

Sisters of Mercy“Walk Away”
Esse som é incrível… Amo a energia dele. O vocal expressivo e contagiante do Andrew… Eu adoro essa sequência de notas, adoro demais e costumo usar algo assim nos meus sons. Amo essa euforia que esse som me causa, um arrepio… Me causa uma certa associação com licantropia. Música sem palavras… Apenas sentir!!
Well, eu escolho to walk away, Andrew. Vamos.

Ammonia“Small Town”
Poxa… Uma instrumental incrível. Essa linha de baixo já diz tudo! Quando a ouço, me imagino em Portland ou Seattle, andando de skate nos anos 90 enquanto o sol se põe… E claro, esse som tocando no fundo, como se eu estivesse num filme ou clipe. Essa associação de cores como a do sol poente… Aaaaaah. Sempre interferindo nas minhas viagens.

Radiohead“You”
Uma certa paixão por esse som. Conheci Radiohead após ouvir o som “The Bends” porque foi assim que me despertou aquela coisa complicada que citei na primeira música. Costumava achar que era uma banda de meros idiotas (risos). Amo a melodia dessa também, e sim, gosto de letras também e Radiohead tem letras maravilhosas. Também gosto muito de ouvir a clássica “Fake Plastic Trees” pois lembro de ouvi-la quando pequena, talvez na TV, rádio, não me recordo e até gosto disso, o mistério. Aquela nostalgia boa… É admirante. E quando ouvi “You” a primeira vez, fiquei impressionada! Que música sensacional, olha essa melodia… A forma como Thom canta, MAS A PARTE EM QUE O JONNY MANDA A VER.. sem palavras. É um pouco esquisito porque quando a ouço, lembro de uma música de um lugar de noite de um jogo de corrida do Sonic, que inclusive gosto muito dele. Prosseguindo: o amor é tanto que tenho até a versão do álbum “Manic Hedgehog” (olha aí uma coincidência e referência) da fase inicial deles, época em que se chamavam On a Friday. Jonny me despertou muito interesse, passava horas pesquisando sobre ele e ele é um ser único e muito inspirador. Amo como ele faz música com amor e vários instrumentos e a relação dele com pessoas de vários países.

The Muffs“My Crazy Afternoon”
Como explicar meu amor por essa doce banda? Kim Shattuck é uma grande inspiração para mim! Amo a forma e me identifico como ela toca, a pegada sabe? Gosto disso com distorção. No começo achei uma porcaria após ouvir o som “How I Pass The Time” porém quando fui dormir… Quem disse que a música não tocou mentalmente praticamente até eu adormecer? Hoje amo esse som também. The Muffs tem uma coisa única pra mim, que se destaca entre muitas bandas com mulher. Bom, sobre “My Crazy Afternoon”, a minha versão favorita é a demo do álbum “Hamburger”. Adoro as letras meio “que?” Deles.

Alice in Chains“Rotten Apple”
Alice in Chains foi a banda que me introduziu nesse mundo musical, graças a uma pessoa que eu seguia no Twitter que postou uma foto deles e meu interesse por ouvi-los despertou porque nesse mesmo dia havia visto no busão um cara loiro do cabelo comprido semelhante ao Jerry Cantrell. E acabei amando fortemente a banda, o que me fez conhecer grunge, até mesmo shoegaze e assim se foi. Esse som tem aquele enigma que aprecio demais, especialmente a linha de baixo. Que letra… Grande Layne. Mas sobre a banda, não descarto a falta de honestidade contra o Mike Starr… Meu ex membro favorito da banda. Muitos assuntos escondidos… Enfim, devo o meu conhecimento musical atual e futuro graças a eles!

Wipers “The Lonely One”
Wipers é uma banda muito irada e que inspirou muitas outras, inclusive nirvana. Grande Greg Sage. Esse som carrega (mais uma vez) um enigma, e pesado. O início soa como algo bonito… Porém logo soa como algo “preocupante”. E então depois ela fica mais preocupante ainda.. angustiante.. “The Lonely One”… Só ouvindo mesmo para compreender (ou talvez seja mais uma viagem da minha cabeça)…

The Mission“Neverland”
Conheci The Mission numa situação meio inusitada… Ela tocava em outro lugar e eu tentava ouvi-la, achava estranho mas era acolhedor aquele som causado por um ebow. Era “Butterfly in a Wheel” sendo tocada… Logo parei para ouvir a discografia e senti uma afeição por essa banda por causa do modo e das pessoas que através dela a conheci. Bem, essa música tem aquela coisa mágica e acho que sempre vou associa-la com aquele dia. Era um dia ensolarado e lindo… Casinhas acolhedoras ali… E muitas caminhadas paralelas. E mais tarde o céu com tons laranjas do sol poente.

Sonic Youth“Sweet Shine”
Sonic Youth é uma das bandas pioneiras que influenciou muitas outras, isso é fato. Amo a pureza da voz da Kim Gordon nesse som, como ela encaixa o “cantar” dela na melodia tocante, acolhedora… Me sinto num jardim florido, um dia frio mas que logo uma faixa de luz solar ilumina o ambiente… E me guia para mais distante, por entre as árvores enormes. Deixe-me incluir “Green Light” aqui, baita som.

Mirrorring“Drowning the Call”
Simplesmente belo. Tocante, viagem astral. Uma coisa que me faz ama-la mais ainda é o que ela me faz imaginar. Eu amanhecendo num cemitério enquanto o dia ainda está escuro porém com toques da presença do sol que está por vir. Um vestido branco imenso desfiado, muitas flores amarelas em volta de mim, em cima de um túmulo velho e preto. Sensação de conforto por entre os mortos e almas que me observam como pais contentes ao ver seu pequeno filho. Ainda pretendo pintar um quadro expressando isso (se eu estiver viva até lá).

My Bloody Valentine“When You Sleep”
Uma pérola vinda de um álbum icônico do shoegaze. Cheguei a esse som graças ao grunge. Pesquisas e pesquisas no YouTube por algumas horas até chegar em “Crazy For You” do Slowdive e esse som aparecer. Foi amor a primeira vista, logo me sentia correndo num jardim, com todos os problemas inclusive os futuros resolvidos! Uma sensação de liberdade e de vontade de viver. Se bem que muitas letras de músicas que gosto acabam não tendo alguma relação com o sentimento que elas me causam, mas não vejo como um problema.

El Otro Yo “Paraiso”
Conheci El Otro Yo através de um argentino também removido de um grupo de fãs de maioria mexicana do Radiohead (eu fui porque não me comunicava com frequência por também não saber falar muito). Resolvemos conversar e pedi uma playlist a ele e ele quis uma minha. Assim conheci uma banda punk irada chamada Flema. Ele havia colocado o som “No Me Importa Morir” do El Otro Yo e logo curti por ser semelhante às bandas que gosto e parei para conhecer melhor e esse som me cativou. A letra demonstra uma coisa frequente nesse papo de morrer e ir pro céu ou inferno (bleh) e tem o toque do mistério de imaginar o que será que vai ocorrer quando partirmos. Gosto demais, muito mesmo. Admirante.

Slowdive “So Tired”
Essa música carrega uma dor e melancolia pesada. Quando lhe passa na mente talvez a última solução que tenha sobrado para a vida, a dor. Acabar com a dor. Mas talvez não, mas talvez sim… É. Rachel e sua belíssima voz, expressando em poucas e repetitivas palavras. basta fechar os olhos e procurar sentir essa dor que muitos vivem (e que ninguém ouve, mais tarde julgam) sendo expressada.

Clan of Xymox“Jasmine and Rose”
Uma música que me causa um arrepio, algo imenso dentro de minha alma! É lindo o que essas bandas dos 80s carregam, especialmente a da cena gótica. Esse som também é semelhante a Sisters of Mercy, mais próxima do som que também amo e muito, “Walk Away”. Que vibe… Correr por entre ruínas.

Yann Tiersen“La Boulange”
A mistura de vários instrumentos com um violino. Instrumentais e seus “feelings”. Me emociona ouvir essa música, violino é algo tocante demais para mim a ponto de as vezes me fazer chorar. É algo realmente belo e tocante. Inexpressivo em palavras.

Zazie e Dominique Dalcan“Ma Vie En Rose”
Talvez eu admire tanto essa canção (ou fortalece minha admiração) porque ela foi criada para o filme Minha Vida em Cor-de-Rosa (título original é o mesmo da música), filme que sou apaixonadíssima! A história de um garotinho​ que sofre de transtorno de identidade de gênero e não é aceito. Um filme que sempre me toca quando assisto, recomendo demais! O legal foi que eu o encontrei num livro escolar de português numa parte própria para recomendações de filmes e livros e me apaixonei pela capa; o pequeno Ludovic (ator principal) voando no céu em uma de suas fantasias. Logo fui atrás para ver. Amo a beleza dessa música e a melodia e a suave voz de Zazie. Muito admirante.

Hossein Alizadeh“Lullaby”
Tenho uma afeição especial por coisas/pessoas do Oriente Médio, até mesmo pelo cinema que costuma retratar a realidade cruel e a simplicidade deles. Esse som foi composto para o filme Tartarugas podem voar, um dos meus favoritos. Chocante e devastador… Violino e seu poder de expressar unicamente, mais essa bela voz feminina acompanhando. A dor das crianças em relação aos ataques e minas espalhadas por todos os lados, destruindo vidas. Também acabam optando por escolher a morte… (Veja e você irá entender).

The Replacements“Over The Ledge”
Acho Replacements uma banda muito irada. Esse som “é o som”. Sinto uma vontade imensa de correr na chuva quando a ouço, uma coisa gritante que se acende em mim… Amo especialmente quando Paul grita de uma forma próximo do final como se fosse um pedido de ajuda… A voz ecoando e aquela baita linha de baixo nota 1000! Amo imensamente. Gosto também de alguns sons da carreira solo do Paul, como um som chamado “Let The Bad Times Roll”. Chega a ser confortante ouvi-la em momentos frustrantes… So, let the bad times roll… É o melhor a se fazer…

Porque todo mundo vai correndo ouvir a obra de um artista que acaba de morrer?

Read More

“Ah, agora todo mundo vai baixar toda a discografia!”

Você já deve ter ouvido uma bobagem dessas logo depois que algum músico morre. Os “sommeliers de luto” adoram ficar no pé de quem fica triste pela perda de um artista querido, e proclamam “ah, agora todo mundo vai virar fã”. Esses dias me peguei ouvindo Linkin Park com uma frequência que eu não ouvia desde 2004, mais ou menos, e notei que com certeza isso tinha relação com o triste suicídio de Chester Bennington. Foi aí que reparei que, sem perceber, aparentemente sempre faço isso. Ouvi Soundgarden e Audioslave em maio com a morte de Chris Cornell. Coloquei “Dois Na Bossa” no repeat quando Jair Rodrigues se foi. Voltei à adolescência e ouvi Charlie Brown Jr. com gosto quando Chorão e Champignon morreram. Mas porque será que a morte de um artista faz com que a gente às vezes sem querer vá revisitar a obra dele?

“Quando alguém morre tem uma força de mídia grande, isso ajuda bastante”, explica o psicoterapeuta da Claritas Clínica Pedro Del Picchia. “Fora que em casos assim tem uma memoria, uma saudade que bate e as pessoas querem lembrar. E quem não conhecia quer também fazer parte da onda do que tá acontecendo”.

Mas será isso algo meio inconsciente? Segundo o psicólogo, provavelmente não. “Acho que vamos atrás da obra do artista porque ele morreu, mas agora as coisas ganham um novo significado também. Mais final, mais definitivo”, conta. “‘I’ve become so numb’, por exemplo, fica mais forte ainda quando você pensa que ele tinha sim depressão e isso era um aviso. Não que com todos que morrem seja assim, pois nem todos são depressivos”.

Além disso, ouvir a obra (que agora estaria “completa”) de um artista que nos deixou é uma forma de “velório musical”, ou “luto auditivo”.

“Isso pode ter mais de um motivo”, diz o filósofo Matheus Queirozo, “Vejo por enquanto dois: sabe aquele ditado popular, ‘as pessoas são dão valor quando perdem?’Essa é uma verdade popular incontestável. Às vezes a gente tem amigos que a vida e tempo distanciaram, por conta dos afazeres e responsabilidades da vida mesmo, a gente mantém uma vez ou outra contato, pergunta como vai… Mas se tornou uma pessoa distante, um amigo que fez parte da nossa adolescência, que teve experiências boas com a gente, a cada dia que passa a gente mantém menos contato com ele. Certo dia esse cara falece, tu sabe disso, e ele se torna o teu melhor amigo. Só descobre depois que ele morreu”, conta. “O caso do Chorão, por exemplo: uma galera não ouvia tanto Charlie Brown quanto na adolescência, mas quando ele faleceu, por um mês só se ouvia Charlie Brown”.

Sérgio Buarque de Hollanda, o pai do Chico Buarque, tem um conceito interessante”, conta Queirozo. “Naquele livro dele, Raízes do Brasil, ele diz que o homem é cordial, diz que quando o português chegou nas terras tropicais, os índios receberam eles com a maior cordialidade. Isso me faz pensar num segundo motivo: a gente se compadece com a morte alheia, com a morte de astros que nem sabiam que a gente existe”. Aí o que acontece é que vamos atrás das músicas dos artistas falecidos para prestarmos uma homenagem, celebrar a vida dos que já se foram. “Um tributo breve, de criar até playlist e ficar uma semana ouvindo as músicas dele. Depois passa”, conclui.

“O terceiro motivo é aquela coisa de querer fazer parte da tribo, da massa, da galera”, diz. “Por exemplo, Michael Jackson. Quando ele faleceu, veio nego do inferno dizer que gostava e tal. Mas isso é uma necessidade que as pessoas têm de fazer parte de grupos, tribos. As pessoas têm uma necessidade de afirmar uma identidade, de pertencer a algo. Quando Michael Jackson faleceu, uma galera vendeu discos, uma galera comprou DVD, porque era o que todo mundo fazia e quem não fizesse a mesma coisa, seria o excluído do rolêzinho. Ninguém quer ser excluído do grupo”, conclui.

Concorda com alguma dessas teorias? Façam sentido para você ou não, todas são válidas. E como o Pato Fu já dizia na abertura de seu disco “Televisão de Cachorro”, a “necrofilia da arte” continuará existindo sempre que, infelizmente, algum artista nos deixar. A obra permanece viva eternamente e ela será visitada com muito gosto (e luto).

A necrofilia da arte
Tem adeptos em toda parte
A necrofilia da arte
Traz barato artigos de morte

Se o Lennon morreu, eu amo ele
Se o Marley se foi, eu me flagelo
Elvis não morreu, mas não vivo sem ele
Kurt Cobain se foi, e eu o venero

“Saddest Summer” mostra que Teen Vice é a irmã mais nova pirralha e barulhenta do Sonic Youth

Read More
Teen Vice

O disco “Saddest Summer”, da banda novaiorquina Teen Vice, poderia perfeitamente ter saído no meio dos anos 90. E isso é um elogio. As influências de Sonic Youth, Hole e The Breeders são fáceis de pegar, além de toques de Angel Olsen, Big Thief, Sharkmuffin, Sunflower Bean… O quarteto define seu som como post punk, grunge e “punk de shopping” e estraçalha qualquer um que estiver pela frente em suas apresentações ao vivo.

Formada por Josh Ackley (baixo e vocais), Tammy Hart (guitarra e vocais), Derek Pippin (bateria) e a brasileira May Dantas (guitarra e vocais), a banda do Brooklyn só tem gente que sabe muito bem o que está fazendo: Tammy começou sua carreira no colegial, quando assinou com o selo Mr. Lady Records e fez turnê com o Le Tigre, lançando aos 18 anos seu primeiro disco “No Light In August”, indicado pelo NY Times como um dos melhores álbuns de 2000. Depois ela formou a banda GangWay em São Francisco, e em Nova York as bandas Winning Looks e Making Frienz. Em 2009 ela acabou entrando também na icônica banda MEN. Já Josh começou junto com Derek na banda punk The Dead Betties, que assinou com a Warner Music após o lançamento de seu disco “Summer or 93” e teve seu single “Hellevator” exibido com frequência na Mtv e VH1. Derek não ficou só nessa, tendo tocado diversos instrumentos também com as bandas Fur Cups for Teeth, Boogie Brains, Sped, The Kickstarts, The Baddicts, Tight Chocolate, The Buybacks e muitas outras. A brasileira May era a frontwoman da seminal banda paulistana The Fingerprints, onde dominava o palco como poucos na cena independente brasileira.

Toda a energia e experiência desses quatro integrantes é notável no disco lançado em julho pela Commission Music. Em faixas como “How Does It Feel?” dá pra sentir que Kim Deal tem um altar garantido na sala de ensaios da banda, enquanto “Y U WNT 2?” mostra que bandas como AC/DC e ZZ Top também fazem parte da discoteca inspiradora do Teen Vice. Vale a pena conferir a obra do começo ao fim, pois, segundo o baixista Josh, “se a cultura do disco está morta, vamos trazê-la de volta à vida”.

Conversei com ele sobre a carreira da banda, o novo disco, a falta de rock nas paradas de sucesso e muito mais:

– Como a banda começou?

Eu joguei um feitiço neles.

– Como surgiu o nome Teen Vice?

Ele tem um som legal, somente. E é “TV” se você abreviar. Somos a irmã mais nova, mais barulhenta e mais pirracenta do Sonic Youth, e estamos sempre de castigo.

– Quais são suas maiores influências musicais?

ZZ Top, Deee-Lite, Madonna, Hole, U.S. Girls.

– Como vocês definiriam o som da banda pra quem nunca ouviu?

Eu diria que uma filha acelerada de uma relação entre o The Breeders e o The Cars.

– Me contem mais sobre o material que vocês lançaram até agora.

Estamos muito entusiasmados com nosso álbum de estréia, “Saddest Summer”, que saiu pela Comission Music no dia 14 de julho. Fora disso, lançamos algumas músicas, “Cry for You” e uma cover de “Aneurysm”, do Nirvana.

Teen Vice

– Como anda a cena independente de Nova York hoje em dia?

Está viva e bem, and the kids are alright. De qualquer forma, somos uma das poucas bandas tocando música vibrante e acelerada. Fora o Fruits and Flowers e The Hellbirds, ambas fantásticas, o pessoal ainda está empacado naquele negócio nada a ver de drone synth.

– Porque nos últimos tempos o rock ficou tão excluído das paradas de sucesso?

Porque as bandas estão tentando se conformar em vez de se destacar. O que só torna o rock chato. Uma tonelada de pessoas culpa o hip-hop, ou o país, mas isso é besteira. A culpa é dos rockers lançando álbuns ruins que ninguém quer comprar. E também, há um pouco de um problema de diversidade no rock.

– A cultura do disco, do álbum completo, está definitivamente morta com o crescimento do streaming?

“Saddest Summer” fala de amor, inadequação, corações partidos e identidade. Se a cultura do disco está morta, vamos trazê-la de volta à vida. É trabalho do artista fazer questão de que sua arte floresça, não trabalho da sociedade.

  • – Quais são os próximos passos da banda?

Lançamos o álbum e planejamos lançar um monte de clipes. E fazer turnê pela Espanha e beber Spritz na Riviera Francesa.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

U.S. Girls, Jay Som, Fruits and Flowers.

Ouça “Saddest Summer” aqui: