“É só amor” para a máquina de louco no pré-carnaval baiano com Baiana System. Já a segurança…

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Baiana System
Foto: Elias Dantas/Ag. Haack

Baiana System mostrou mais uma vez o porquê de ser uma das bandas de maior crescimento e sucesso no Brasil. O “navio pirata” liderado por Russo Passapusso fez a sua tradicional participação no pré-carnaval baiano e arrastou consigo uma multidão. O trio fez o circuito inverso Ondina – Barra (dois bairros de Salvador), como já é tradicional no Bloco “Furdunço” que traz consigo a proposta de colocar na rua trios de menor porte e atrações gratuitas na preparação para o carnaval.

No setlist, faixas de diferentes épocas da banda. Desde “Terapia” e “Amendoim Pão de Mel”, de 2013, passando por boa parte do álbum “Duas Cidades” de 2016, até as mais recentes “Capim Guiné” (parceria com Titica e Margareth Menezes) e “Alfazema” (parceria com a Nação Zumbi). Ao lado da banda, participações de grandes nomes como BNegão, Vandal e o rapper baiano em ascensão Hiran. Os dois primeiros já figurinhas carimbadas nos shows da máquina de louco. Acrescentaram bem à performance.

Infelizmente nem tudo é de se comemorar. Mesmo que a qualidade musical da banda tenha se feito presente, como é de costume, a multidão que foi arrastada cobrou seu preço. Quem já foi a shows em carnavais anteriores sabe bem que essa com certeza não foi das melhores experiências com o “navio pirata”. Em alguns momentos o clima no circuito foi um tanto quanto sufocante e deu agonia. Até aí não seria um grande problema, porque a alta qualidade musical se mantinha, era possível seguir pulando junto com o movimento da massa e dava pra curtir, volta e meia nas clássicas rodas feitas pelo público.

Russo conduzia com todo o cuidado o trio e fazia de tudo para acalmar, na medida do possível, a massa sedenta por música e pela loucura do grave baiano, aos gritos constantes de “é só amor”, fazendo discursos contra brigas, roubos, etc. A cada momento que alguma coisa parecia errada, o trio e a música paravam, fato que infelizmente se fez mais presente do que seria ideal, mas que asseguravam o importante clima de paz.  Russo pedia palmas e atenção para deixar a “segurança” passar. Em algum momento no meio do circuito, entretanto, o “pacto” feito com a Polícia Militar da Bahia se rompeu e suas ações mostraram o que tem de pior na corporação. Tudo filmado por várias câmeras da equipe da banda. Em algum momento o show de horrores pode ser revelado com detalhes ao grande público. Vamos esperar.

A segunda metade do circuito foi tensa com base no despreparo da polícia, com o medo que volta e meia se fazia presente de levar porradas de cassetete, principalmente para os que são alvos preferenciais da corporação (se é que você me entende… cidade mais negra do Brasil e coisa e tal). Mesmo assim, Russo conduziu da maneira que pôde a tensão e ainda foi possível curtir o som e pular bastante, principalmente quando ao final do circuito a banda tocou o sucesso “Playsom” e a plateia enlouqueceu, tendo o Farol da Barra como cenário de fundo.

Se a “segurança” promoveu um show de horrores, a máquina de louco compensou e promoveu um show de sucessos. O saldo da apresentação se mantém como positivo e Baiana System continua a empolgar, sem perder a sua essência de outros carnavais. Tudo o que os fãs esperam é que as próximas apresentações de Baiana no carnaval de Salvador sejam mais tranquilas.

Longa vida à Máquina de Louco e ao Furdunço!

Vídeos da passagem do trio “Navio Pirata” – todos os créditos aos donos das postagens

Gente não postei nada de Fuzuê e Furdunço porque trabalhei no fim de semana, mas to recebendo os videos de ontem e BEU DEUS 😱#Furdunço #Carnaval #Salvador #Bahia [Enviado por Jayme Brandão]

Posted by Guia de Sobrevivência do Soteropobretano on Monday, February 5, 2018

O Navio Pirata do BaianaSystem não afunda!

Posted by Jorge Bizzi on Sunday, February 4, 2018

Tupimasala encontra sua personalidade cheia de synths e mensagem forte no disco “Vênus”

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Tupimasala

Na ativa desde 2014, o Tupimasala se encontrou definitivamente com seu som em “Vênus”, disco de 2017 recheado de synths e sonoridade oitentista, mas sem perder a brasilidade latente da masala tupiniquim do quarteto. Formada por Samantha Machado (voz), Sabrina Homrich (bateria e voz), Adam Esteves (guitarra, voz e sintetizadores) e Hector de Paula (baixo e sintetizador), a banda teve seu álbum considerado um dos melhores de 2017 pela Billboard Brasil.

Criado como uma ópera-rock, o trabalho se divide em três atos: “Eclipse”, que compreende o entender-se mulher e suas implicações sociais, sendo introspectivo e contemplativo, e tendo como enfoque o eclipsamento feminino, “Trânsito de Vênus”, que propõe o levante e a libertação feminina através da imperatividade, com canções fortes e agressivas, e “Estrela D’Alva”, mais festivo, com exaltação ao autoconhecimento do corpo. Todas as faixas do disco possuem nomes de mulheres e falam de questões que infelizmente ainda são consideradas tabu na sociedade, como depressão (“Branca”), masturbação (“Gabriela”), violência policial (“Graça da Sé”) e a liberação da maconha (“Joana Paraná”), por exemplo.

No dia 07/02 (quarta-feira) a banda se apresenta na Contramão Gig, no Bar da Avareza, juntamente do quarteto Der Baum, que lança o single “Pra Inglês Ver”. Conversei com Samantha e Adam sobre a carreira da Tupimasala e o encontro com a nova sonoridade em “Vênus”:

– Me contem primeiro um pouco mais sobre o disco “Vênus”!

Samantha: O “Vênus” foi o resultado de bastante tempo olhando pra dentro da gente… Estética e criativamente
O ano de 2016 inteiro a gente se dedicou a entender a nossa linguagem e o que a gente queria com esse trampo novo. A gente tem um trabalho anterior muito diferente, que a gente fez quando ainda tava se entendendo enquanto músico. O “Vênus” é um trabalho mais consciente da nossa estética e da nossa mensagem.

– E como foi a composição e gravação desse álbum?

Adam: A gente viajou pra Salvador com a ideia de passar um tempo lá pra compor. Ficamos um mês por lá, bem internalizados mesmo, e voltamos com umas 12 músicas.

Samantha: A gente tava bem nesse momento de encontrar nosso espaço enquanto músicos, e isso me fez esbarrar em uma porrada de questões de gênero, como toda mina que faz música esbarra em algum momento.

Adam: Chegando em São Paulo, fizemos um tempo de pré-produção com a banda e depois entramos no estúdio para fazer a pré-produção com o produtor também.

Samantha: Por ser a principal compositora, isso acabou refletindo no conceito do trampo de um modo geral.

Adam: Sobre o processo da gravação especificamente, nos reunimos pra fazer a pré-produção com o Pipo Pegoraro (da Aláfia) e as gravações foram no Navegantes, estúdio onde foi gravado o Francisco El Hombre, Luisa Maita, etc

– Como vocês definiriam o som da banda?

Samantha: Comé que cê define o som da banda, bucha?

Adam: Ah, eu definiria como eletropop! Mas é uma definição que limita um pouco

Samantha: É, então.

Adam: Pois também temos influência de rock, de música brasileira (na “Graça da Sé”, “Janaína” e na “Joana Paraná” isso fica bem evidente).

Samantha: Mesmo porque eu acho o som mais rock que pop. Synth-rock-pop-dream-samba-electro-funk!

Adam: Isso! Seria o rótulo ideal (risos)

– Como a banda começou?

Adam: Começamos eu e a Samy como um duo, ironicamente, de voz e violão, em 2014. E cada vez mais fomos sentindo necessidade de dar mais corpo ao nosso som. Foi aí que entrou o Hector, no contra-baixo e bass synth. Nesse meio tempo algumas pessoas passaram pela banda e depois de fazer muita experimentação a gente encontrou nosso lugar no som mais sintético. Acreditamos que aí é um lugar onde conseguimos fazer a diferença. Quando encontramos essa personalidade no nosso som, lançamos o “Vênus”, em 2017.

– Quais as principais influências musicais da banda?

Samantha: Acho que da banda, de modo geral, Tame Impala, Metronomy, MGMT, Novos Baianos, Lady Gaga, The Dø, Jungle, General Elektrik.

Adam: Daft Punk, super importante (risos)!

Samantha: SIIIIM! FKA Twigs

– Vocês se consideram uma banda política?

Adam: Considero que qualquer ato é politico. O ato de se colocar como apolítico é político.

Samantha: Fazer música é político, falando de política ou não.

Adam: Então, sim, somos uma banda política, assim como a Disney e a Coca-Cola também fazem política, enfim.

– Como vocês veem a atual cena musical independente hoje em dia?

Adam: Acho que é uma das cenas mais incríveis que já tivemos. A cena independente conseguiu subir muito a qualidade da música. Tem bandas como Aláfia, As Bahias e a Cozinha Mineira, Mdnght Mdnght, Geo, que tem uma qualidade incrível de som e show. Isso é muito importante, pois antes um bom show com som e estrutura de qualidade era relegado somente a bandas do mainstream e acho que o cenário independente tem provocado até mesmo mudanças no mainstream.

Samantha: Tenho uma imensa admiração pelo cenário independente atual, porque o nível de qualidade sempre sobe, tem uma galera altamente criativa, além de mobilizações de grupos femininos, LGBTs, gordos, pretos, periféricos pra marcar presença no mercado musical, que é tão branco e masculino.

– Mas o objetivo ainda é chegar ao mainstream e “estourar” ou com a queda da indústria musical isso mudou?

Adam: O objetivo e ter o trabalho reconhecido e com um nível de visibilidade que permita a banda conseguir viver de maneira sustentável. Às vezes o mainstream facilita esse caminho, mas nem sempre. Como por exemplo em casos em que as grandes gravadoras assinam com um artista “pequeno”, mas não colocam o disco dele no mercado, não impulsionam a carreira e inviabilizam parcerias desse artista. Ou seja, acabam deixando estagnada a carreira desse artista.

– Me contem mais sobre como é um show da Tupimasala.

Samantha: A gente tem um rolê com artistas performáticos, como a Lady Gaga, o Kiss, o Ney Matogrosso. A gente acredita que um show tem que preencher a audiência não só auditivamente, mas visualmente também.

Adam: Temos vários formatos. Mas sem dúvida, meus favoritos são o trio eletrônico, em que tocamos eu a Samy e o Hector. A energia é bem forte com uma performance bem gostosa e que é um formato mais intimista. E o “Espetáculo Vênus” que é a leitura do disco “Vênus” para o teatro. Ou seja, levamos a experiência sonora do disco, que é uma opereta, para o palco.

– O que podemos esperar da apresentação de vocês na Contramão Gig?

Samantha: Vários timbrão loko, muita energia na performance e a gente bem brilhosa.

– Aliás, uma curiosidade minha: de onde surgiu o nome Tupimasala?

Samantha: Surgiu quando a gente morava na Índia. Masala é um tempero de lá, e eles colocam esse tempero nas coisas pra dar um Spice it up. Então surgiu daí: música brasileira com um temperinho!

Adam: É uma música feita por brasileiros porém, com um tempero apimentado em cima.

Samantha: Com uma apimentadeenha!

Adam: É mais uma dessas misturas clássicas, tipo Brasil com Egito, sushi com feijoada.

– Chiclete com Banana!

Adam: (risos) Isso!

– Vocês acham que realmente existe um levante conservador no nosso país ou é apenas algo que rola na internet?

Adam: Rola sim! As minorias começaram a ganhar espaço e a ter seus direitos reconhecidos (ainda que de maneira bem sutil) e isso vem incomodando muita gente, infelizmente. É uma fase meio Reagan né? muito conservadorismo e muito sintetizador ao mesmo tempo

– Já estão trabalhando em novas músicas?

Adam: Sim! lançaremos um novo single entre abril e maio. Vai ter muita novidade sobre a banda nesses meses. Ainda estamos fechando alguns detalhes mas em breve divulgamos tudo tudinho.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Adam: A Geo com o EP que ela lançou recentemente, o “Salva-Vidas”. A Marcelle com o disco “Equivocada”. A Olympyc, banda que tem um som bem oitentão gostoso. Mdnght Mdght, que é uma galera lá de Brasília que faz um som bem bacana também. A banda irmã dela que é a Cabra Guaraná.

Samantha: Marina Melo que tá lançando o “Nuvem”. A Trouble and the New Brazilians, que tá com um trampo folk bem interessante e bem diferente do que se vem fazendo no gênero aqui no Brasa. A Labaq, que tem uma sonoridade dream bem linda, que ela tira sozinha em alguns shows.

Adam: A própria Der Baum que vai fazer o som com a gente no dia 7, é ótima! Tem uma pegada muito gostosa também.

Samantha: Obirin Trio, que tem um trampo de arranjo de vozes que é a coisa mais linda desse mundo.

Adam: Se deixar a gente fica até amanhã aqui! (risos) É muita coisa boa!

– Podem continuar!

Samantha: Tem a Black Cold Bottles, que é uma banda de rock bem maravilhosa. Tem quem mais? O projeto Sauna, que é uma banda de internet…

Adam: Rodrigo Alarcon e Abacaxepa, o primeiro numa pegada mais MPB, já a banda numa pegada que me lembra uma mistura de Novos Baianos, Barão Vermelho com Itamar Assumpção.

Samantha: Bem 80’s com uma vibe bem engraçada. Tem a MANA, que é um duo de meninas que cantam sua vida doméstica…

Humberto Finatti e a sua “Escadaria para o Inferno”

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Humberto Finatti é um personagem impar da cena musical brasileira. O jornalista começou na imprensa musical em 1986 e passou pelas redações (como repórter ou colaborador) de revistas como Somtrês, IstoÉ, Bizz, Interview e Rolling Stone Brasil, e também pelos jornais O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Folha da Tarde, Folha de São Paulo e Gazeta Mercantil. Atualmente é conselheiro edital da ONG Associação Cultural Dynamite e editor do site de cultura pop Zap’n’roll (www.zapnroll.com.br )

Em novembro do ano passado, Finatti lançou seu primeiro livro, intitulado “Escadaria para o inferno”, numa agradável noite de autógrafos realizada na Sensorial Discos, com shows das bandas Psychotria, Jonnata Doll & Os Garotos Solventes e Jenni Sex. O jornalista conversou sobre seu livro, jornalismo musical, financiamento coletivo e redes sociais. Confira:

– Depois de tantos anos e histórias no jornalismo musical, você nos brinda com a publicação do seu primeiro livro “Escadaria para o inferno”. Como surgiu essa idéia?

É um projeto que começou a ser gestado há alguns anos já. Na verdade eu tive uma existência pessoal e profissional bem maluca (risos). E não foi que eu quis ter vivido dessa forma, eu não planejei viver assim. As coisas simplesmente foram acontecendo ao longo da minha vida. Sempre tive uma formação intelectual sólida (por conta da mãe artista plástica e do pai publicitário) e uma educação bastante liberal em casa, em termos comportamentais. De modos que já na adolescência (por volta dos 16 anos de idade) comecei a enfiar o pé na lama em álcool e maconha (risos). E quando comecei no jornalismo em 1986, com 23 anos de idade, esse comportamento algo loki continuou me acompanhando. Vai daí que ao longo de três décadas atuando na grande imprensa como jornalista da área de música e cultura, comecei a colecionar uma série de histórias verdadeiramente malucas, algumas quase surreais de tão inacreditáveis. E todas existiram e aconteceram de fato, isso que é o mais incrível (risos). Histórias envolvendo consumo pesado de álcool, drogas (especialmente cocaína), sexo desenfreado etc. E muitas dessas histórias envolvendo gente conhecida do rock brasileiro e até internacional. Aí passamos então ao detalhe que me motivou a pensar no livro: toda vez que eu mencionava ou contava algumas dessas histórias para alguém, a reação era sempre a mesma: espanto total e a frase inevitável “isso dá um livro e você precisa escrever ele!”. Foi aí que, há uns 4 anos já, fiz uma primeira versão desse livro. Uma versão meio “preguiçosa” eu diria, pois resolvi apenas compilar uma série de posts do meu blog, o Zapnroll (um dos 4 mais acessados da web BR na área de rock alternativo e cultura pop, há 15 anos no ar já e com cerca de 70 mil acessos mensais), tal como eles foram publicados e onde eu invariavelmente contava essas histórias malucas. Reuni esse material e percorri algumas editoras pequenas, mostrando o que havia compilado. Foi quando o Marcelo Viegas, amigo meu há mais de 15 anos e ex-diretor editorial da Ideal Edições, um dia veio falar comigo me dando o toque: “Finas, o material é muito bom mas acho que você deveria mudar o foco da apresentação dele. Ao invés de reproduzir num livro exatamente o que você já postou no seu blog, seria muito mais interessante você pegar essas histórias malucas e reescrevê-las em forma de contos/crônicas curtas, romanceando um pouco o texto mas mantendo a essência e a narrativa factual do que rolou com você”. Segui o conselho dele e mudei tudo na parte narrativa do livro. Foi assim que ele nasceu tal como foi publicado e posso dizer que fiquei bastante satisfeito com o resultado.

– Fale um pouco sobre o processo de assinar com a Editora Kazuá. Como chegou até eles e como foi a recepção com o seu trabalho?

Outra looooongaaaaa história (risos). Foram três anos enviando os originais do livro para algumas editoras. Algumas sequer retornaram meu contato. Uma adorou e queria publicar mas não tinha dinheiro para bancar a impressão e queria que eu enfiasse a mão no meu bolso nesse sentido, sendo que ela cuidaria da divulgação, vendas e distribuição. Eu disse que não tinha como bancar (e não tinha mesmo, sou um jornalista loki e falido aos 5.5 de vida e que vive com a corda no pescoço (risos)) e que buscava justamente uma editora que acreditasse no livro e bancasse os custos de produção e impressão do mesmo. Uma segunda editora também se animou mas achou o conteúdo algo “pesado” demais (risos) e queria mudar muita coisa na narrativa dos capítulos, inclusive sugeriu um título menos “sinistro” para a obra, hihi. Recusei, óbvio, pois não queria mudar uma vírgula no que concebi de texto para ser publicado. Foi quando entrou finalmente em cena a Kazuá, selo modesto da capital paulista mas que possui um grande apuro e cuidado gráfico e editorial com o acabamento final de cada lançamento deles. Cheguei até a editora através de um amigo de muitos anos, um músico e professor universitário de Letras e que iria lançar (lançou, no final do ano passado) seu terceiro livro de poemas pela Kazuá. Um dia, tomando uma cerveja com ele, me disse: “Finatti, acho que achei o lar ideal para o seu livro. Procura o Evandro, dono da Kazuá e por onde vou publicar meu novo livro, e explica pra ele o que é o seu livro. Ele vai abraçar a ideia, com certeza”. E assim foi: liguei um dia pra lá, pra falar com o Evandro. Esse meu amigo já tinha falado também com ele ao meu respeito. Expliquei o que era o livro, como foi minha trajetória no jornalismo etc. Marcamos um encontro pessoal e fomos tomar umas cervejas num dia à noite. Ao final desse encontro o Evandro, um gaúcho altão e que é formado em filosofia e cinema, me disse: “confio em você e no livro. Vamos publicar ele”. Isso foi em outubro do ano passado. No meio de novembro o livro estava pronto. E eu gosto da turma da editora porque eles pensam como eu, comportamentalmente, socialmente, culturalmente e ideologicamente. Turma maluca da porra (risos). A diretora de arte é uma gatona de 30 e poucos anos de idade, toda tatuada e que toca guitarra. A outra editora é uma gaúcha quase sessentona, atriz de teatro e loki também (risos). O Evandro é um maluco ao cubo e inteligentíssimo. E todos, claaaaaro, são politicamente de esquerda, odeiam esse (des) governo de merda ao qual todos nós estamos submetidos nesse triste momento do país tropical não abençoado por nenhum deus (risos). Posso dizer que hoje dou razão ao meu amigo músico, poeta e professor: encontrei o melhor lar editorial que poderia para publicar o livro. Claro, há sempre uma rusga aqui e ali, alguns arranca-rabos acontecem eventualmente entre eu e a editora. Qual relação de amor, amizade e profissional onde nunca sai uma briguinha? Mas são encrencas pontuais e que rapidamente se resolvem com uma boa conversa.

– Quando você anunciou a publicação do seu primeiro livro, a repercussão na internet foi enorme. Como foi receber isso? Esperava um retorno tão rápido?

Foi mesmo enorme? (Risos) Se você está dizendo… (risos). Falando sério, sim, a repercussão foi muito boa, mas precisa melhorar ainda mais (risos). E recebi isso sem expectativa na verdade. Achei que alguma repercussão com certeza haveria, afinal eu sou um jornalista bastante conhecido (sendo que metade da humanidade me ama, a outra metade me odeia (risos)) na minha área de atuação e ao longo dos anos fui colecionando amigos (alguns bem famosos como os meninos da banda Ira!, o Frejat que foi durante 30 anos vocalista e guitarrista do Barão Vermelho, o Clemente dos Inocentes, o músico e apresentador de TV João Gordo etc, etc, além de muitos anônimos) e inimigos na mesma proporção. Então eu sabia que iria repercutir de alguma forma e em algum momento, mas não sabia qual seria o tamanho dessa repercussão. Como na real não sei ainda até onde esta repercussão chegará.

– “Escadaria para o inferno” reúne muitas histórias envolvendo celebridades. Sofreu algum tipo de censura por parte dos envolvidos? Alguma história prevista inicialmente ficou de fora?

Por partes: primeiramente nope, nenhuma das “celebridades” mencionadas nas histórias do livro se incomodou, ao menos até o momento. Um exemplo: quando eu estava com o livro pronto e oferecendo o dito cujo a editoras, fui num show do Ira! Depois da apresentação da banda, já no camarim, comentei com o Nasi (vocalista do grupo e meu amigo pessoal há pelo menos 35 anos) que uma das histórias que eu narrava em um dos capítulos havia rolado na casa dele, durante uma entrevista que fui fazer com ele, isso lá por 1993 (lá se vão 25 anos…). Perguntei se ele se incomodava em eu contar essa história. A resposta dele: “de forma alguma. Todo mundo sabe como foi minha vida e tudo o que rolou comigo eu mesmo já contei na minha biografia”. E ainda completou, rindo: “aliás Finatti, eu já levei alguns processos por conta da minha biografia. E você, está com quantas ações judiciais nas costas?”. (risos) Fora ele há episódios envolvendo gente como o americano Evan Dando (que foi vocalista dos Lemonheads) e o “pai dos punks”, o John Lydon (que um dia foi Johnny Rotten, quando cantou nos Sex Pistols). Mas como duvido que algum dia eles cheguem a ter conhecimento do livro… por fim tem mr. Lobão, né? (risos) Sobre minha briga com ele e como eu a mostro no livro (dedicando palavras e comentários nada abonadores ao músico), chegou a haver um certo receio por parte do departamento jurídico da Kazuá, quando eles leram os originais. Mas como o Lamartine, diretor jurídico da editora, também é do rock (risos), ele um dia me disse durante uma reunião com ele: “foda-se, vamos em frente e seja o que Deus quiser”. Segundamente: olha, tenho uma tonelada de histórias bizarras que rolaram comigo ao longo da minha trajetória profissional. E essas histórias dariam com folga mais uns 2 ou 3 livros. Mas a prioridade nessa estreia literária era fazer relatos de casos em que me envolvi com gente muito conhecida, até pela questão de marketing editorial, certo? Afinal as pessoas gostam de saber de “fofocas” envolvendo gente conhecida, né. É da natureza humana ser assim, ter essa curiosidade pelos bastidores “sórdidos” (risos) de quem é famoso. Posto isso, selecionei e escrevi 20 capítulos redondos. Poderia ter sido mais mas eu queria que o livro tivesse isso, 20 capítulos. De modos que ficaram de fora dois capítulos que podem muito bem entrar como adendo numa segunda edição/reimpressão do livro, se ela acontecer. São dois capítulos também muito engraçados. Um deles conta o “pelé” que dei uma vez numa entrevista marcada com o genial e querido Tom Zé, sendo que eu iria entrevistá-lo para fazer uma matéria para a célebre revista Bizz. Pois na véspera da entrevista fui pra “night” e enfiei o pé na lama, claro. No dia seguinte eu estava literalmente fora de combate e a entrevista foi pro saco, ahahahaha. Tive que ligar pra ele, inventei uma história de que havia passado mal de saúde (o que não deixou de ser verdade, hihi) e felizmente consegui remarcar a entrevista, sendo que na segunda tentativa não furei e deu tudo certo (risos). A outra história que ficou de fora foi um bate-boca que tive com o Lulu Santos ainda no comecinho da minha carreira de jornalista. Foi durante uma entrevista coletiva com ele onde eu perturbei o cantor carioca o tempo todo, ahahaha. Perturbei tanto que a ex-mulher dele, a finada Scarlet Moon, perdeu a paciência comigo e disse: “se você não parar de provocá-lo vou pedir que se RETIRE da sala!”. Levantei no mesmo instante e respondi: “não precisa pedir, já estou de saída”. E levantei e fui embora, ahahahaha.

– O guitarrista e co-fundador da Legião Urbana, Dado Villa-Lobos, disse num comentário sobre você “Às vezes ele é um imbecil, mas necessário. O último jornalista do Rock”. Concorda com a afirmação? O que você acha que o motivou para tal afirmação?

ahahahaha, eu sei exatamente o que motivou esse comentário dele (a frase dele foi dita pro meu queridíssimo amigo pessoal e músico Jonnata Araújo, vocalista da banda Jonnata Doll & Os Garotos Solventes, uma das poucas bandas que valem a pena no atual cenário rock alternativo BR; e o “Joninha” me contou depois sobre a declaração dele e achei que a mesma cairia bem na contra-capa do livro). Na real conheço o Dado desde que a Legião começou e lançou seu primeiro disco, no final de 1984. No auge da banda e quando eu trabalhei na revista IstoÉ, chegamos a ser bem próximos, embora eu tenha sido de fato amigo do Renato Russo. Pois bem. Renato se foi, a Legião idem e Dado seguiu em frente, tocando seus projetos musicais solo, cuidando de um selo independente (o Rock It, que não existe mais) etc. Até que lá por 2009 ele lançou um disco solo, que era trilha sonora de um filme nacional (não me lembro agora o nome, acho que era “Lisbela e o prisioneiro”). O cd veio parar na minha mão e fiz a resenha dele para a revista Rolling Stone Brasil, onde eu estava colaborando. E na resenha falei que o disco era ok musicalmente mas que não dava pra tangenciar o fato de que Dado NÃO nasceu pra CANTAR – ele cantava (canta) em duas faixas do cd (se me lembro bem) e de maneira bastante sofrível, eu diria. E ele ficou realmente PUTO quando leu aquilo e levou anos pra me desculpar, ahahaha. Aliás nem sei se desculpou (risos). Chegou a me mandar um e-mail (que tenho guardado até hoje) me espinafrando por causa da resenha publicada na RS. Mas enfim, nos reencontramos tempos atrás quando ele lançou sua auto-biografia, e ele me tratou com simpatia. Até tiramos uma foto juntos, ahahaha. E se concordo com o que ele disse ao meu respeito? Ora, quem nunca foi um IMBECIL em algum momento de sua vida? Então eu concordo (risos). Fora que é uma ótima frase de efeito e que mereceu entrar na contra capa do livro (risos).

– Humberto Finatti é uma lenda na cena musical. Você divide opiniões entre os que te amam e os que te odeiam. Como lida com isso?

Hoje em dia procuro lidar da melhor forma possível (risos). É a velha questão de você se tornar uma persona pública, né – e jornalistas, a partir do momento que expõem suas opiniões sobre algum assunto para que pessoas o leiam em algum veículo de mídia (impressa, virtual, seja o que for), se tornam personas públicas. E angariam amor e ódio, simpatia e antipatia em proporções equânimes, e de quem sequer conhecemos pessoalmente. De modos que hoje em dia lido bem com essa dualidade de opiniões sobre o que faço e escrevo. Mas houve uma época, há uns dez anos eu diria, que era foda. A perseguição em cima de mim chegou a ser tão cruel e violenta que até comunidade no falecido Orkut criaram, com o objetivo de me foder o mais que pudessem. Era uma comunidade repleta de fakes, de postagens anônimas, e onde ninguém tinha coragem de mostrar a fuça para dizer o que dizia ao meu respeito mostrando a cara. Me xingavam de tudo ali (risos). E inventavam as maiores barbaridades e bizarrices ao meu respeito. Teve uma época que aquilo chegou a começar a me fazer mal, emocionalmente falando. Mas como tudo acaba um dia, o Orkut foi pro saco e com ele também a tal comunidade. Mas aquilo no final das contas foi um aprendizado pra mim e me ensinou a lidar melhor com esse tipo de situação e com criticas e comentários negativos ao meu respeito. Também fizeram um Twitter falso meu, que no fundo era até divertido e eu dava muita risada com alguns tuites (risos). Agora como esse bando de covardes e cuzões não têm mais onde latir contra mim na covardia (assinando com perfil fake), eles vivem tentando me insultar no painel do leitor do meu blog, o Zapnroll. Só que lá eles se fodem porque eu é quem modero os comentários e então somente eu posso lê-los na íntegra, editá-los e publicá-los, se eu quiser. E acredite, pinta cada asneira e vomitório imundo lá que chega a me espantar. Fico espantado com o nível de inveja, psicopatia e ódio gratuito (e covarde, é sempre bom frisar, já que quem manda esse tipo de mensagem escrota nunca se identifica com o nome verdadeiro) dos caras. É assustador às vezes.

– Você transitou entre as mais renomadas publicações musicais do Brasil. Como você descreve o jornalismo musical atual?

Eu e mestre Luis Antonio Giron (o autor do prefácio do meu livro, atual editor de Cultura da revista IstoÉ, um dos maiores nomes do jornalismo cultural brasileiro e quem carinhosamente me abriu as portas do Caderno 2 do jornal Estadão, quando trabalhei lá em 1988) temos a mesma opinião: o jornalismo cultural/musical acabou. Morreu na era da web. Hoje qualquer um tem blog e posta suas opiniões (na maioria das vezes completamente rasa, estúpida e sem profundidade e conhecimento algum do que se está opinando) em qualquer lugar, no FaceTRUQUE etc. Talvez eu tenha feito parte (e com orgulho digo isso) da última grande geração do jornalismo cultural brasileiro, aquela que teve o próprio Giron, o Fernando Naporano, André Forastieri, André Barcinski, Ademir Assunção, Alessandro Gianini, Luiz Cesar Pimentel (autor do texto que está na “orelha” do meu livro) e mais alguns poucos. Todos queridos amigos meus, inclusive. Foi uma geração que se formou solidamente na questão cultural/intelectual, que possuía um texto brilhante e que buscava se informar e se formar lendo toneladas de livros de importância capital na literatura mundial, assistindo clássicos cinematográficos aos montes e ouvindo todos os grandes discos que importavam e importaram na história da música, especialmente na MPB e no rock. Hoje tudo isso acabou, né. As pessoas possuem toda a informação do mundo nas mãos, ao alcance de um click no computador ou no celular, e no entanto só ficam obcecadas em postar e ler imbecilidades no FaceCU, no Twitter e no whats porra app. Assim ninguém se aprofunda em nada e isso se reflete na cultura pop e na música atual, que nunca esteve tão irrelevante e ruim, qualitativamente falando. Não é à toa também que, pouco antes de morrer, o gênio e filósofo italiano Umberto Eco disparou uma frase que já se tornou um clássico do pensamento da era da internet: “a era da web produziu uma legião de IDIOTAS”. Simples assim.

– Você sempre levantou a bandeira do rock e ajudou a impulsionar a carreira de vários novos nomes. Como você encara isso? Se sente reconhecido pelos nomes que impulsionou?

Sempre encarei de maneira normal e como fazendo parte do meu oficio como jornalista. Claro que sempre amei e continuo amando rock, de modos que eu unia e uni o útil (minha paixão pelo rocknroll) ao agradável (trabalhar como jornalista), mesmo que isso não tenha lá me trazido grande retorno financeiro. Se me sinto reconhecido pelo que fiz e por ter ajudado um monte de bandas? Sim e não. Sim, porque fiz ótimas amizades no meio e que sempre têm um carinho enorme por mim. E não porque observo que o ser humano está mais egoísta e individualista do que nunca nos tempos atuais. Então o que mais continuo recebendo quase todos os dias são pedidos de bandas (por e-mail, pelo FB) para que eu ouça o trabalho delas, dê uma força e tal. Mas basta eu precisar de uma força igual de algum artista (como no caso do financiamento coletivo que acabei de abrir para levantar uma grana que me permita cobrir os custos de novas noites de lançamento do livro, que precisarei fazer o mais breve possível) que todo mundo literalmente some.

– Quem te acompanha nas redes sociais sabe que sua relação com a internet parece conturbada. O que te incomoda na rede e como mudar?

Já sou um sujeito “véio”, Hani fofo (risos). E como tal sou cada vez mais rabugento, ranzinza, azedo e avesso a tecnologia e redes sociais, aplicativos, smartphones etc, sendo que tenho tudo isso porque sou praticamente obrigado a ter e a utilizar essas ferramentas, por conta do meu trabalho como jornalista, blogueiro e agora também escritor. Mas faço minha a frase dita pelo personagem Paterson, do filme homônimo (belíssimo por sinal, o mais recente dirigido pelo genial Jim Jarmush): “o mundo era melhor sem smartphones”, hahahaha. E era mesmo: as pessoas se encontravam mais pessoalmente, rolava mais paquera de verdade, amigos iam em grupos ao cinema, a shows, museus, exposições, teatros, em baladas, beber nos bares e restaurantes. Hoje você reúne uma turma de, vá lá, quatro amigos, e sai com eles pra ir tomar uma breja por exemplo. Dali a pouco você olha em volta na mesa em que você está com esses amigos (onde quer que seja) e cada um está lá, com seu celular na mão, completamente absorto nele e alheio ao resto, e teclando freneticamente nos apps ou em alguma rede social, e que se foda quem estiver ao lado dele (risos). Na verdade a internet e as redes sociais são uma ferramenta e tanto de comunicação, interação e divulgação para tudo, não há dúvida quanto a isso. O que me irrita nela e a falsidade, o mundo ilusório e do faz de conta, onde todos são mega felizes e estão de bem com a vida em todos os sentidos, o tempo todo. Ou seja: todo mundo querendo fazer INVEJA uns nos outros, sendo que sabemos que a humanidade está longe de ser esse paraíso idílico e total cor-de-rosa. Muito pelo contrário: o mundo e o Brasil estão passando por momentos sinistros ao cubo, com crises de toda ordem. Fora a gigantesca onda moralista babaca, conservadora e reacionária ao extremo que está tomando conta da sociedade aqui e lá fora, e levando a raça humana a níveis de (in) civilidade dignos da Idade Média, isso em pleno século XXI. Então eu não caio nessa onda de que tudo é lindo e todos são felizes e estão super de bem com a vida nas redes sociais mais falsas que Judas (risos). Pelo contrário, sou um inimigo feroz desse tipo de atitude e comportamento digital. Daí minha birra com redes sociais e afins. Como melhorar esse panorama? Sinceramente acho muito difícil que ele melhore, pelo menos a curto prazo.

– Essa semana foi lançado um financiamento coletivo visando arrecadar fundos para realizar novos lançamentos do livro “Escadaria para o inferno”. Como você enxerga o financiamento coletivo? Acha que é a solução num cenário cada vez mais independente?

Não sei se é a solução ideal, mas é a que tenho nesse momento. E estou torcendo para que dê certo porque estou realmente precisando (risos). Por isso aproveito para pedir que todos me deem essa força e colaborem com esse financiamento coletivo que lancei.

– Tenho certeza que existem mais histórias em suas gavetas. Cogita dar continuidade e lançar um novo livro? Quais seus planos profissionais?

Parte dessa pergunta (das histórias que ainda tenho pra contar) já está respondida mais aí em cima (risos). Meus planos profissionais? Ahahahahaha, ganhar na mega sena, comprar uma casa na praia, outra em São Thomé Das Letras, sumir de São Paulo e ir morar na Islândia, meu sonho de consumo (risos). E lá passar o que me resta de vida curtindo frio intenso (amo!) eterno, uma linda islandesa, vinho e marijuana diariamente. Se eu conseguir isso, será ótimo e irei embora desse hospício chamado Terra plenamente satisfeito (risos).

Para colaborar com o financiamento coletivo lançado pelo autor, acesse: https://www.kickante.com.br/campanhas/lancamentos-do-livro-escadaria-inferno

Foto: Jairo Lavia

“A Vida Marinha Com Steve Zissou” (2005): Wes Anderson, Seu Jorge e David Bowie

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The Life Aquatic With Steve Zissou – (A Vida Marinha Com Steve Zissou)
Lançamento – 2005
Direção – Wes Anderson
Roteiro – Wes Anderson, Noah Baumbach
Elenco Principal – Bill Murray, Owen Wilson e Anjelica Huston

Na mesma estética de todos os filmes do Wes Anderson, esse conta a história dum diretor de documentários marítimos, meio canastrão, com um filho perdido que o encontra e que passa a trabalhar junto com a tripulação, gravando um filme sobre um tubarão. Ainda com conflitos com sua mulher, com alguns membros da sua equipe e com um outro “documentarista marítimo”, o capitão/diretor interpretado pelo Bill Murray é sempre triste e irônico, com a comédia cínica dos filmes do Wes Anderson.

Contudo, o ponto alto nesse caso definitivamente não tá na história ou no desenvolvimento das personagens. O Seu Jorge no papel de um dos marujos/documentaristas é quem dá o toque especial aparecendo vez ou outra na tela, com seu violão e as músicas do Ziggy Stardust traduzidas pra nossa língua lusitana! Tendo descoberto o ator no filme Cidade de Deus, Wes Anderson ainda não sabia de sua fama musical e ficou surpreso ao descobrir quando o Seu Jorge chegou nas filmagens que ele é um músico importante aqui no Brasil.

Tendo sido elogiadas pelo próprio camaleão do rock (“Se Seu Jorge não gravasse minhas músicas em português, eu nunca teria ouvido este novo nível de beleza que ele colocou nelas”) as faixas são todas traduções do próprio ator brasileiro com a exceção de “Starman“, que aparece no filme na versão do Nenhum de Nós, mas tocada também pelo Mané Galinha.

De resto, vale a pena dizer que após o filme, o Seu Jorge gravou um dico sob o título de “The Life Aquatic – Studio Sessions”, com as músicas do filme e ainda mais algumas do Bowie em suas versões.

Segue em link o trailer e a trilha sonora. Valeu!

Trailer:

Trilha Sonora:

Quando a fé é genial – John Coltrane – “A Love Supreme” (1965)

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John Coltrane

Poucos trabalhos musicais conseguiram unir a devoção espiritual e uma proposta estética distinta com tanto êxito. É o caso de “A Love Supreme” (1965), talvez o grande disco de jazz da década de 1960.

A afirmação sonora do quarteto formado por John Coltrane, McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria) é de uma qualidade brutal, capaz de nos fazer refletir, meditar, sorrir e vibrar. Pensa aí, quantos discos você já escutou e sentiu várias coisas ao mesmo tempo? Esses poucos são sempre uma preciosidade particular, embora provavelmente muita gente concorde comigo quando falo desse disco, especificamente. Este é um LP obrigatório. Não há restrições quando se trata de “A Love Supreme”.

Tocando com Miles Davis em um grupo fantástico e se apresentando noite após noite, os abusos com álcool e heroína começaram a prejudicar sua vida. A tal ponto que em 1957 chegou a ser demitido pelo próprio Miles. A partir daí, iniciou sua batalha contra o vício que devastava sua vida pessoal e profissional. Nesse mesmo ano experimentou um “despertar espiritual”, que segundo ele o conduziu a uma vida mais plena. Voltou para o trabalho com Miles um período (a tempo de produzir aquele que talvez seja o ponto máximo do jazz até hoje: “Kind Of Blue”), mas no início de 1960 sai de uma vez para formar seu próprio grupo. E deste contexto saiu sua maior obra, cinco anos depois.

Além do talento praticamente único para tocar o sax tenor, John Coltrane também é conhecido pela sua peculiar espiritualidade. “Eu acredito em todas as religiões”, dizia.  A relação de Coltrane com temas relacionados é tão forte que até mesmo existe uma seita, a Saint John Coltrane African Orthodox Church. É sério. O reverendo Franzo Wayne King é o pastor da congregação que mistura liturgia Africana com frases e músicas do saxofonista. “A Love Supreme” é uma espécie de “bíblia” para os membros, e tratam o LP como um objeto de estudo e veículo para a devoção. Isso tem algum nexo?

Bem, dizem que estava na ideia de concepção de “A Love Supreme” Deus e o físico alemão Albert Einstein, cujo trabalho John sempre manteve forte interesse. Unindo a ideia de uma força maior criadora, esoterismo e as infinitas possibilidades da Matemática, Coltrane tratou de fazer sua magnum opus: uma ode à sua fé no amor e em Deus.

Esse verdadeiro monumento é construído em quatro partes: “Acknowledgement”, “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”. São nesses 33 minutos, gravados em uma única sessão em 9 de dezembro de 1964, que John conseguiu o mais perfeito diálogo entre uma força sagrada e sua criatura, empregando a música como esse idioma tão misterioso. Quebras de tempo, improvisação, fraseados que beiram a fala, sutileza e potência… Não cabem adjetivos para o que fez aquele quarteto.

Em “Acknowledgement” Coltrane experimenta empregar a voz, entoando o nome do álbum como uma espécie de mantra, enquanto a banda entra em uma atmosfera cheia de groove latino. A voz do sax é apaixonada, determinada, de modo que parece um pastor pregando um evangelho. Pode parecer viagem, mas se você pensar que Coltrane tinha em mente justamente tocar sobre o “amor supremo”, me parece bastante razoável essa perspectiva.

As cores da música árabe (o que não é necessariamente coincidência, pois sabe-se que John flertou com o islamismo fortemente) dão forma ao belo desenho que é “Resolution”. A banda brilha com uma intensidade absurda. É uma música sem falhas, executada em sua perfeição. Ninguém poderia fazer melhor que aquelas quatro pessoas. Esse tempero do Oriente Médio com o escuro que o jazz evoca faz do tema irresistível. É como um riff de rock, pode morar na sua cabeça por dias.

“Pursuance” já começa com um solo destruidor de bateria e descamba para o virtuosismo sem soar excessivo. O tempo é rápido, a força é total e aqui o sax de Coltrane soa como o fluxo de consciência, mas de alguém que sabe pra onde ir. Sua dicção através de seu instrumento é fantástica. Destaque também para o belo solo de baixo que encerra a faixa.

Eis que chega “Psalm”, que talvez seja a mais refinada demonstração artística de uma fé pessoal, livre de imagens pré-concebidas. De fato, a faixa que encerra “A Love Supreme” é um arranjo baseado em um poema que Coltrane fez para Deus e imprimiu no álbum. Ele toca quase exatamente cada nota para cada sílaba do poema, baseando suas frases nas palavras.

Eis aqui o poema. É de chorar:

Depois disso, o que mais precisa ser dito? Ouça já esse gênio!

Construindo Psychotria: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos a banda Psychotria, que está lançando seu primeiro EP, “Citrus”, e indica suas 20 canções indispensáveis. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!
Novos Baianos“A Menina Dança”
Jean Paz: Por mim, colocava todas dos Novos Baianos.  Aliás, o que eu mais queria na vida era ser um “Novo Baiano”. E o projeto nasceu disso. Dessa vontade de sair da cidade e ir morar em um sítio com uma galera massa, passar o dia todo fazendo um som e jogando bola, sem se preocupar com trânsito, Wi-Fi que não funciona ou ter dinheiro para a condução. Mas já que é uma música, vamos de “A Menina Dança”.  Porque a Baby tem a voz mais linda do mundo.
Planet Hemp“021”
Jean Paz: Essa letra tem a melhor descrição possível sobre a cidade do Rio de Janeiro.  E poucas bandas sabem colocar o dedo na ferida como o Planet Hemp faz. Essa voracidade está presente na segunda música do nosso EP, “Um Tucano Só Não Faz Verão”. Aproveito para confessar que compusemos essa música pensando no B.Negão.
(Se por acaso ele ler essa matéria um dia, é importante que saiba que está convidado a cantar conosco).
Mutantes“A Hora e a Vez do Cabelo Crescer”
Jean Paz: Essa música contém uma das minhas linhas de baixo preferidas. E Liminha é um Deus.  Ele e o Robinho Tavares são os professores que eu nunca tive. Nunca consegui executar nenhuma linha deles, mas aprendo muito. E essa música, em especial, abriu minha mente. Pois comecei ouvindo punk e grunge, e quando me deparei com esse baixo, em especial, foi um choque. E é uma referência nas nossas canções no momento em que o baixo assume o protagonismo.
Rage Against the Machine – “Zapatas Blood”
Jean Paz: Sim, o sangue de Zapata tem poder. E a questão colonização, regimes ditatoriais, latifúndio e distribuição de renda está muito presente na nossa obra. Devemos isso ao escritor uruguaio Eduardo Galeano. Inclusive, cogitamos chamar a banda de “Veias Abertas”, em homenagem a ele. Acabamos homenageando a sua obra, e a de Pedro Juan Gutierrez na canção “Trilogia Suja”. Isso sem falar na importância do Tim Commerford (ouçam Wakrat, outra banda dele que me desgraça as ideias) para meu trabalho e meus estudos (e minhas tentativas de cantar).
Body/Head – “Abstract”
Jean Paz: Body/Head é a banda que a Kim Gordon montou quando o Sonic Youth deixou de existir. A intro da música “Chacrona” é uma referência a esse som e ao Sonic Youth de um modo geral.  Meu primeiro contato com esse trabalho foi através dessa música. E a primeira vez que eu ouvi, pensei: “Bah, eu queria ter escrito isso”.
Zé Geraldo“Como diria Dylan”
Van Batuca: Essa música em especifica me permite sentir uma vitalidade que por sua vez endossa a ideia de que cada um de deve re-construir a própria história. Conhecendo a Banda Psychotria, e hoje fazendo parte da mesma, sinto que as diversas influencias, reunidas permitirá re-construir uma nova história escrita por cada.
Ramones“Blitzkrieg Bop”
Van Batuca: Uma das primeiras inspirações e inclinações internacionais para adentrar no mundo da música. Na minha opinião, essa música se tornou hino e uma das marcas da banda. Acredito que toda banda tem sua marca e sutilmente o seu hino. Desde o primeiro contato com a Banda Psychotria, compreendi que nosso hino e nossa marca
vêm sendo construído, o primeiro encontro foi inusitado, construir com o desconhecido criar a marca e se fazer conhecido.
Jean Paz: O punk está presente no nosso trabalho, seja na sonoridade, na atitude ou na estética.
Plebe Rude “Até Quando Esperar”
Van Batuca: Música que faz refletir e alimentar o pensamento crítico, que por sua vez reforça a ideia de que esperar não é o caminho. Sair da zona de conforto, fazer isso pulsar mais forte na vida de cada um, se encaixa em umas das propostas da banda.
Jean Paz: A Plebe é uma das bandas mais bacanas dessa geração que deixou Brasilia. E esse som é um hino.
“Maraka’anadê” (A festa dos nossos marakás) tradicional do povo Ka’apor – Adaptação Djuena Tikuna
Van Batuca: Ao passo que os povos originários seguem suas vidas com o espirito de luta, tal musica me soa com enorme vitalidade e assim a mesmo propõe a união entre os povos. Assim, acredito que á musica tem esse poder de unir os diversos povos, independente de gênero, raça, credo, com estilos variados, tudo isso e mais um pouco.
A música indígena me inspira, energiza e alimenta o meu espirito criativo.
Van Batuca: Maracatu Ilê Aláfia, Cia Caracaxá, Mucambos Raiz de Nagô e os diversos grupos e nações de Maracatu, que continuam fortalecendo a cultura tradicional de Recife, que ampliou meu olhar e permitiu misturar outros componentes dentro da proposta de musicalidade trazida pela Banda Psycotria.
Captain Beyond – “Myopic Void”

Felipe Nunes: Influenciou a bateria de duas de nossas músicas “mais soltas” (“Chacrona” e “Celofane”), em que conduzo a bateria de uma forma mais livre, sem perder a marcação.

Led Zeppelin – “In The Evening”
Jean Paz: Na verdade, tudo começou com o Led Zeppelin. No início tudo era escuridão… Ai apareceu o Felipe, fã de Led e se juntou comigo, que também sou fã, e nasceu a cozinha da Psychotria. 

Black Sabbath – “Spiral Architect”
Felipe Nunes: Essa música me dá uma brisa e ajuda a aflorar a criatividade.
Raimundos – “Mas Vó” e Zeca Baleiro – “Babylon”
Felipe Santos: Me dão o ímpeto da pegada mais reativa e “raivosa” pra tocar musicas como “Um Tucano Só não Faz Verão” e “On the Road”.
Walter Cruz: Particularmente são exemplos de sons que me influenciam e inspiram em diversos processos criativos devido a suas altas cargas e características históricas de inovação, confluência de elementos étnicos, experimentalismos e psicanálise humano-social. O produto da fusão conceitual desses e outros sons são bases fundamentais para construção do nosso som psychotríaco.
Chico Science e Nação Zumbi“Da Lama Ao Caos”
Walter Cruz: Uma das maiores influências, com certeza. Pesado, Psicodélico. Necessário.
Talking Heads – “Psycho Killer”
Walter Cruz: Outro hino de outra banda que começou tocando no CBGB.
Einstürzende Neubauten – “Sehensucht”
Walter Cruz: Para não dizer que não citamos Pistols, segue uma versão alemã dos garotos do Malcolm McLaren. Com mais ruído e sujeira. E todo o experimentalismo que desejamos para nossas canções.
Gong – “How to Stay Alive”
Walter Cruz: Essa música tem um dos clipes mais inspiradores de todos os tempos. E isso vai de encontro à nossa proposta de estimular a Multisensorialidade e sinestesia durante nossas apresentações.
Fela Kuti – “Sorrow, Tears and Blood”
Walter Cruz: Para fechar a lista e a miscelânea sonora que nos influencia, segue esse som do rei do Afro Beat. Swing na medida certa e uma letra pesada.

Cantarolando o funk guerrilheiro de “Bucky Done Gun” (2004), da M.I.A

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M.I.A.

Aí um dia, em meados de 2005, passa um clipe na MTV de uma moça com cara e sotaque meio de indiana, cantando uma letra visivelmente política, embalada por um funk carioca. A batida – e a corneta, o sampler de um pedaço daquela música do Rocky Balboa – já eram muito familiares para nós, brasileiros, apesar de nunca ter sido tocada em um veículo de mídia mainstream antes. Era a faixa “Bucky Done Gun”, do disco de estréia de M.I.A.,“Arular” (2004).

Antes de fazer música, M.I.A era envolvida com artes visuais. De certa forma, isso reflete em seu disco “Arular”, que é bastante estético e com canções cujas estruturas lembram muito aquelas colagens e lambe-lambes políticos em muros coloridos. A estética de guerrilha e do “faça você mesmo” punk e hip hop também é refletida pela arte gráfica do disco e dos clipes.

M.I.A. teve seu primeiro impulso para começar a compor quando teve acesso ao pequeno sintetizador Roland MC-505, que conheceu através da cantora Peaches. Ela ficou inspirada pela autonomia e o impacto que Peaches tinha ao cantar sozinha com programações de sintetizadores, e conseguiu um emprestado de sua amiga Justine Frischmann, do Elastica.

M.I.A. em seu quarto produzindo seu primeiro disco

Logo M.I.A começou a compor em seu quarto e conseguiu, através do empresário de Justine, um contrato com a XL Recordings, uma das gravadoras independentes mais icônicas da Inglaterra.

A propósito, M.I.A não é indiana, mas britânica, com descendência do Sri Lanka, inclusive o nome do disco trata-se de um codinome utilizado por seu pai durante a guerra civil do Sri Lanka nos anos 70. Até hoje existem movimentos separatistas na ilha do Sri Lanka, onde os conflitos começaram desde a invasão britânica protestante no século XIX. Uma daquelas histórias longas, complexas e violentas, que sempre têm um colonizador no meio.

Apesar de as letras terem cunho politico, não são panfletárias e nem pesadas. Pelo contrário, elas são feitas para dançar e têm bastante apelo pop.

O funk carioca utilizado na música é “Injeção”, de Deise Tigrona. A funkeira, apesar de ter tido uma visibilidade consideravelmente razoável na época – ela chegou a fazer participações em alguns shows da M.I.A. e fez turnês na Europa em parceria com o DJ Diplo, que estava super em alta -, mas não ganhou um tostão com os samples de “Bucky Done Gun” e, pelo menos até o ano passado, estava trabalhando como gari. Infelizmente para Tigrona, os direitos autorais do sample de M.I.A. referem-se à produção da música, que pertence ao DJ Marlboro.

O fato é que o sucesso de “Bucky Done Gun” aqui no Brasil abriu os olhos dos hipsters de classe média alta para o funk carioca misturado com o eletroclash, e armou o terreno para surgirem aquelas bandas como Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê, alguns anos depois. Mas o fato é que M.I.A. conseguiu abraçar justamente o elemento de periferia do groove funk carioca, o que faz com que o funk de “Bucky Done Gun” soe autêntico e não simplesmente uma emulação de algo distante de sua realidade.

Sit’n’Spin: o programa de rádio universitário de Nova Jérsei que virou banda

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Sit'n'Spin

A banda Sit ‘n’ Spin começou sua carreira da forma mais noventista possível: em uma rádio universitária em New Brunswick, Nova Jérsei. O programa de Heidi Lieb (guitarra e vocal) e Sue Stanley (baixo) chamava Sit ‘n’ Spin e como cada uma tocava um instrumento, chamaram a baterista Poot McKenna e a guitarrista Mony Falcone, reuniram suas infuências de RamonesRonettes, Link Wray e Chuck Berry e seguiram em frente com sua versão de carne e osso de Josie e as Gatinhas, fazendo um som que já foi descrito como “a epítome da diversão”.

Com três discos na bagagem (“Pappy’s Corn Squeezin” (1997), “Enjoy the Ride” (2000), e “Doin ‘Time with Sit n’ Spin” (2004)) e diversos singles, a banda agora faz shows quando dá na telha e não planeja o futuro. “Nenhum plano específico”, contou Heidi. Veja mais de minha conversa com a líder da banda:

– Como começou a banda?
A Sit n ‘Spin começou na cidade universitária de New Brunswick, Nova Jérsei, onde todos estavam em uma banda. Eu costumava fazer um programa de rádio com minha amiga Sue, que estava aprendendo baixo enquanto eu estava aprendendo guitarra. Sua colega de quarto era baterista. Nós três decidimos tentar escrever músicas, e assim fomos!

– E de onde surgiu o nome da banda, Sit n’ Spin?
Nosso programa de rádio na rádio da faculdade chamava Sit n ‘Spin. Uma de nós “sentava” e a outra “girava” os discos. Assim, Sit n ‘Spin. Sit n ‘Spin também é um brinquedo de criança no qual você se senta e gira. É incrível e divertido, como a nossa música.

Sit ‘n’ Spin

– Quais são as principais influências da banda?
São tantas. British invasion (The Kinks, The Who), rock’n’roll dos 50’s (Chuck Berry, Eddie Cochran), girl groups (Shangri-las, Ronettes) e um pouco de punk dos anos 70, como Ramones.

– Me contem um pouco mais sobre o material que vocês já gravaram.
Temos três discos: “Pappy’s Corn Squeezin” (1997), “Enjoy the Ride” (2000), e “Doin ‘Time with Sit n’ Spin” (2004). Além disso, temos um monte de singles e estamos em muitas compilações.

– E já estão trabalhando em novos sons?
Não, no momento não. Acabamos de voltar a nos reunir para comemorar o 20º aniversário do nosso primeiro CD, então estamos nos concentrando no nosso catálogo existente.

– Como é o processo de composição da banda?
Principalmente as letras primeiro, mas às vezes a melodia vem primeiro. Eu sugiro uma ideia, faço uma demo, trago para a banda, e então todos ajustamos juntos.

Sit ‘n’ Spin

– Qual é a sua opinião sobre a era de streaming em que vivemos?
Ótimo para os fãs de música! Bom para as bandas serem ouvidas sem precisar de uma gravadora. Ruim para bandas que não estão vendo dinheiro de downloads/streaming. O processo parece tão misterioso. Nós temos música para venda, mas não tenho idéia de quem está recebendo o dinheiro quando as pessoas compram do iTunes, Spotify, etc.

– Descreva um show para alguém que nunca viu.
O objetivo é se divertir – para nós e para o público. Principalmente para nós, aliás.

– Talvez possamos ver vocês no Brasil algum dia?
Se alguém quiser nos levar, gostaríamos de ir!

– Quais são os seus próximos passos musicais?
Nós estamos fazendo shows ocasionais. Nenhum plano específico.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção ultimamente.
Acabamos de ir para Atlanta para tocar com duas das nossas bandas favoritas, Tiger! Tiger! e Subsonics, ambos incríveis e também as pessoas mais bonitas da Terra.

“Procurando Sugar Man” (2013): o verdadeiro significado do sucesso

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Rodriguez

Ano: 2013
Direção: Malik Bendjelloul
Duração: 1h26min

Já imaginou como seria se Bob Dylan jamais tivesse alcançado sucesso? Ou se por alguma razão, ele seguisse por outros caminhos que não o mundo da música? É possível se ter uma ideia ao assistir “Procurando por Sugar Man” (“Searching for Sugar Man”, 2013), documentário vencedor do Oscar, que retrata a lenda em torno do músico Sixto Rodriguez, até então era um quase total desconhecido. Quase!

Existe um mito em torno de não ser reconhecido em sua época. Grandes artistas foram obliterados por inúmeras razões e circunstâncias. Mas no a grande particularidade no caso de Rodriguez é que ele foi reconhecido, ao menos parcialmente…

Na África do Sul, durante o Apartheid, o disco “Cold Fact”, que havia vendido nos Estados Unidos algumas poucas cópias, tornou-se um fenômeno aparentemente após uma versão K7 pirata cair na graças do público. A distribuidora então encomendou os discos e a febre se instalou. Com letras fortes, reflexivas e melodias maravilhosas, o artista parecia existir apenas na imaginação dos fãs sul-africanos, pois ninguém sabia quem era Rodriguez. A única notícia que se tinha era que ele havia cometido suicido, colocando fogo em si mesmo em cima do palco. A lenda estava formada.

Contar mais seria estragar a experiência. Basta de dizer que “Procurando por Sugar Man”, além de ser uma divertida investigação musical, é um retrato sobre o que é ser reconhecido, do verdadeiro valor do sucesso e o que é de fato ser um artista. Teria Rodriguez feito sucesso no mundo todo se na capa do seu disco aparecesse um homem branco e não ele próprio, um filho de imigrantes mexicanos? Essa é apenas uma das perguntas levantadas por esse excelente documentário. Para se ver e ouvir muito depois.

Triturador adianta “Beco Sem Saída”, faixa de seu novo álbum de inéditas

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Cada vez mais a banda gaúcha Triturador lança detalhes do seu mais novo disco de inéditas que será lançado neste ano. A banda santa-mariense já tem nome escolhido para o seu primeiro trabalho completo, mas preferem não revelar no momento.

Já a data pode ser esperada para o dia 31 de março, data em que, inclusive houve o lançamento do seu primeiro EP no ano passado.

Completando com chave de ouro, a banda disponibiliza a terceira faixa em versão “ao vivo” que estará presente no trabalho. A faixa “Beco Sem Saída” segue visceral, contendo riffs marcantes e a energia furiosa do vocalista que proclama a critica forte ao nosso país. Créditos da letra a parceria dos irmãos Gabriel e Rafael Miorin.