RockALT #16 – Stolen Byrds, Flecha Discos e The Amazon

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RockALT, por Jaison Sampedro

Nas ultimas semanas viajei para fora do Brasil aproveitando umas férias que tirei na marra com o propósito buscar inspiração, referencias e equipamentos novos para melhorar a qualidade de gravação do RockALT. O destino escolhido foi a cidade de Nova York, cidade que foi berço para diversas bandas das quais eu gosto como Ramones, Dead Boys, Blondie, Beastie Boys, Sonic Youth, Strokes… a lista é gigantesca.

A cidade, assim como São Paulo, tem uma cena extremamente efervescente e inúmeros jovens saem de suas cidades em busca de uma carreira musical de sucesso. O sonho é lindo, mas poucos conseguem realiza-lo, e o que vi durante os 11 dias que passei na cidade é bem parecido com o que acontece no Brasil. Uma coisa que me impressionou é que quase todo bar tem um espacinho para os artistas fazerem shows, algumas casas tem até dois palcos para tocar gêneros diferentes. Em uma área do bairro de Lower East Side tem um bar do lado do outro, e aí vai de acordo com o freguês que tipo de som ele quer escutar.

Pena que o tempo passou muito rápido e mal tive tempo de ir nos bares que planejei e nos últimos dias de viagem descobri que Charles Bradley iria tocar em uma casa de shows no Brooklyn, apesar do esforço não consegui os ingressos e fiquei chupando o dedo, fui embora pra casa com os equipamentos na mala e a cabeça cheia de ideias, que espero por em prática o quanto antes.

Mas essa coluna não é só pra falar sobre essa breve experiência de férias, tenho a obrigação de falar sobre algumas coisas que escutei recentemente e quero recomendar para você, caro leitor.

Stolen Byrds
O grupo de Maringá/PR acabou de lança um álbum maravilhoso! A primeira vez que escutei estava no trabalho e assim que a primeira musica chamada “Jetplane” começou a tocar vi as cabeças dos meu companheiros de trabalho virando para a tela do meu computador e me perguntando o que eu estava escutando. Sem duvidas esse é um dos melhores álbuns que escutei esse ano!

Flecha Discos, Vol. 1
Não existe forma melhor de conhecer novos trabalhos e bandas como em coletâneas! Foi assim com “Grito Suburbano”, “SUB” e outras coletâneas que marcaram a cena musical. Foi assim que conheci a banda carioca menores atos, que faz parte da coletânea “Flecha Discos, Vol.1” junto com outras bandas como Zander, Chuva Negra e Bullet Bane. A Flecha Discos assim como diz o site é “uma gravadora independente e um coletivo de bandas que mira seu alvo em produção e distribuição de música, organização de shows e turnês, além de estimular a atividade cultural em suas diversas formas”. Espero que mais coletivos como esses floresçam e que venham mais coletâneas pra fazer história.

The Amazons
Outra banda que lançou álbum recentemente foram os britânicos do The Amazons. O disco homônimo foi lançado no dia 26 de maio e a imprensa do Reino Unido até agora tem reagido bem ao disco de estreia. O site da famosa revista NME e o jornal The Independent e até a BBC Radio 1 colocaram o grupo nas lista do que se deve escutar em 2017. E agora eu tenho a obrigação de lhe pedir o mesmo!

Curtiu a coluna? Então não deixe de escutar o programa do RockALT toda a quinta-feira às 21h na www.planetmusicbrasil.com.br, seguir a playlist da coluna no Spotify: https://goo.gl/lXZ69x e confira nossos mais de 100 programas disponíveis no link: www.mixcloud.com/rockalt/

Cantarolando: o sermão de “God is Alive, Magic is Afoot”, de Buffy St. Marie (1969)

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Buffy St. Marie
Buffy St. Marie

Cantarolando, por Elisa Oieno

Originalmente escrita por Leonard Cohen, a letra dessa canção é na verdade um poema que faz parte do livro “Beautiful Losers”, romance escrito em 1966, antes de ele ingressar na carreira de cantor/compositor. O trecho, chamado “God Is Alive”, tem todo um jeito de sermão, de pregação, até mesmo de mantra. É um belo exemplo da a habilidade lírica de Cohen, às vezes misteriosa e mística, às vezes meio maldita e crítica ou, nesse caso, tudo isso ao mesmo tempo. Esse texto é considerado pela crítica literária um dos melhores de Leonard Cohen.

O poema virou canção interpretada pela conterrânea de Leonard Cohen, Buffy St. Marie. A cantora canadense folk foi popular nos anos 60, além de ser uma das grandes expoentes no mundo pop da etnia indígena Cree, nativos da América do Norte. Ela foi representante do movimento Red Power, que reivindicava o reconhecimento de direitos civis e de territórios indígenas. Os movimentos indígenas eram sistematicamente atacados e silenciados pelo governo. Por causa disso, no início dos anos 70, a cantora entrou para a ‘lista negra’ das rádios americanas, através de avisos enviados diretamente do governo aos DJ’s e apresentadores dos programas. Ou seja, sua música foi praticamente banida em território americano durante o período.

A versão gravada pela Buffy St. Marie é basicamente uma declamação desse poema, mas com toda a força e carga energética que a sua interpretação carrega. Para acompanhar sua voz de entonação poderosa, um violão expressivo e eventualmente alguns efeitos sintéticos na voz, algo raramente utilizado entre os cantores folk. Aliás, o álbum “Illuminations”, de que faz parte esta faixa, é um disco folk considerado experimental, pelo uso de sintetizadores e sons não convencionais, e foi o primeiro disco estéreo quadrofônico – que atualmente chamamos de “surround 4.0”.

 

“Magic is Afoot, God is Alive”, no fim das contas, é tão forte que não é necessário literalmente compreender um sentido para perceber o impacto de seu conteúdo. É possível que esteja falando ou não de um Deus. Pode estar falando de mágica bíblica, cristã, pagã, ancestral, ou de mágica nenhuma. Mas sem dúvida, dá aquela sensação meio hipnotizante típica de quando se ouve um sermão muito bem pregado, ou um mantra muito sonoro, daqueles que te levam para um estado profundo de atenção e reflexão.

Construindo Luan Bates: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o seu som

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Luan Bates

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje convidamos o Luan Bates, músico de Natal-RN do selo Nightbird Records.

Oasis“The Hindu Times” (2002)
Escolhi essa do Oasis por ter sido a primeira faixa que ouvi deles. Foi a primeira banda pela qual me apaixonei e que me tornou fanático por rock e por música. A partir disso, tudo na minha vida mudou e eu não tive outra obsessão a não ser me tornar um músico.

Black Crowes“Nonfiction” (1994)
Em termos de “música acústica”, é o som que sempre almejo. É provavelmente minha música favorita, de todos os tempos. A voz do Chris Robinson com a do Andy Sturmer (Jellyfish) harmonizam de uma forma tão bela… E gosto muito como a parte melódica é tão simples, mas ao mesmo tempo cheia de nuances. E o modo como a letra retrata uma paranoia romântica também é genial.

Jeff Buckley“Grace” (1994)
Ser sensível e ao mesmo tempo impor tanta intensidade em um som é algo que nunca vou esquecer. Foi mais ou menos por isso que escrevi “Listen Up, Mates”, é definitivamente influência do Jeff.

Laura Marling“Devil’s Spoke” (2010)
Outra influência para “Listen Up, Mates” e que relaciono com essa questão de identidade. É um folk que vem como avalanche aos seus ouvidos. É uma honra acompanhar uma compositora tão foda da nossa geração.

Ryan Adams“La Cienega Just Smiled” (2001)
Antes de conhecer o trabalho do Ryan Adams, eu nunca tinha usado um capotraste na vida. Eu sei que isso parece algo bem idiota, mas foi a partir da influência dele que decidi jogar um monte de coisa fora e escrever da melhor forma que podia; e isso também passou pelo fato de ter finalmente comprado um capotraste e ter começado a tocar em “afinações diferentes” (eu não sabia nada de teoria musical, por exemplo). Além disso, o Ryan me ensinou a ser, acima de tudo, honesto com o que digo ou canto, independente do quão brega uma letra pode soar.

Jamiroquai“Just Another Story” (1994)
Minha maior referência de bateria é essa música. Virtuosa, sólida e efetiva. Apenas ouçam e apreciem Derrick McKenzie.

The Verve“Sonnet” (1997)
Acho que o Verve é uma das poucas bandas que conseguem transmitir muita emoção em cada música. Escolhi “Sonnet” por talvez ser minha preferida deles, apenas para representar o peso que eles tem nas minhas composições.

Lemonheads“If I Could Talk I’d Tell You” (1996)
O Evan Dando é um maluco que admiro muito enquanto músico. Ele conseguia fazer melodias tão doces e letras ora clichês, ora estranhas se unirem perfeitamente. Eu sempre adorei como “If I Could Talk I’d Tell You” consegue ser implícita e explícita ao mesmo tempo, é outro aspecto que gosto de destacar enquanto compositor.

Transmissor“Eu e Você” (2008)
Acredito que esta música e a Transmissor me fizeram ter vontade de começar a escrever músicas em português. Era uma missão muito difícil pra mim, graças as influências internacionais que sempre tive; acho que antes não havia encontrado uma banda brasileira pela qual tivesse verdadeira identificação, e só fui encontrar isso quando me deparei com o clipe dessa música.

The Music“The People” (2002)
Tenho uma relação engraçada com essa banda: já tinha escutado uma música deles há muito tempo, em 2003, cujo clipe nunca se apagou da minha cabeça; o nome da faixa é “Getaway”. E aí, muito tempo depois, lá pra 2012, decidi procurar novamente a música e os sons da banda, e acabei pirando nos caras! Escolhi “The People” para esta lista, pois essa música me fez sentir o que era o rock and roll novamente: um chute no balde e uma confiança que te faz desfilar na calçada mesmo bêbado. OK, essa não foi boa, mas foi esse tom de “lad” que o The Music reavivou na minha vida.

Stone Temple Pilots“Trippin on a Hole in a Paper Heart” (1996)
Falando sobre sentir novamente o que era o rock, o Stone Temple Pilots me deu força pra pegar numa guitarra com tesão. O Dean DeLeo é um dos melhores guitarristas das últimas décadas: o estilo dele engloba o glam rock, rock alternativo, blues, bossa nova, jazz e hard rock, abordando tudo isso numa discografia linda que é a do STP.

Tears for Fears“Advice for the Young at Heart” (1989)
Estranhamente não é minha música favorita do Tears for Fears, mas tem o meu solo de guitarra favorito de todos os tempos, e isso é o suficiente. Eu tenho essa fixação por solos curtos e marcantes, essa é uma das “filosofias” que desejo seguir por muito tempo.

Massive Attack“Karmacoma” (1994)
Trip-hop virou minha cabeça ao avesso, especialmente com o modo como muitos “rimavam” balbuciando. “Karmacoma” é o melhor exemplo disso, gosto muito dos trabalhos do Massive Attack e do Tricky, e pretendo expor melhor essa influência nos próximos trabalhos.

Mahmed“Recreio dos Deuses” (2014)
Eu sei que os boys da Mahmed tem muita influência de John Frusciante, mas sempre os terei como referência de guitarra. É minha banda preferida do RN e me livrou de um preconceito com música instrumental, além de ter apresentado uma nova maneira de tocar, com a qual não havia me identificado antes. Sempre fui um cara que toca acordes e acordes – meu próprio EP tem essa “levada” -, sem inserir solos e riffs, e a Mahmed cativou isso em mim com sua sonoridade.

Lô Borges“Como o Machado” (1972)
Essa faixa e o disco do tênis foram minhas melhores companhias em tempos difíceis. “Como o Machado” comprime um estado doído e intenso em menos de dois segundos. Talvez não seja influência, mas um reflexo do que permeia minha mente. Mas enfim, o Lô Borges é meu compositor nacional favorito, e tenho a sensação de que ele antecipou em duas décadas o que o Elliott Smith faria (?). Fica a teoria aí pra vocês.

Blind Melon – “Change” (1992)
Tenho falado muito sobre como as músicas listadas trazem sentimentos à tona, mas nenhuma se compara a esta. É o som mais puro e sincero que já ouvi, ninguém retratou tão bem o quão difícil, o que se exige ao querer mudar quanto o Shannon Hoon.

Counting Crows“Perfect Blue Buildings” (1993)
Falando em sinceridade, ninguém supera o Adam Duritz nesse aspecto. Ele sempre aborda coisas muito íntimas nas músicas do Counting Crows, inserindo-as dentro de alguma história, oferecendo sempre essa ficção confessional. Essa banda está na minha vida desde sempre e o Adam inspirou muito o meu jeito de escrever, de colocar certos detalhes que só guardamos para si em canções.

New Radicals“Mother, We Just Can’t Enough” (1998)
Sem pensar, eu levaria o CD do New Radicals para uma ilha deserta (bem clichê, eu sei). É a minha coleção preferida de músicas pop e sempre quis captar a energia (e ironia) desta música.

OutKast“Ms. Jackson” (2000)
A maior dupla da história, tal qual Bebeto e Romário, ou Jairzinho e Pelé. Tem nem o que falar, é observar e tentar alcançar 1/5 da qualidade do trabalho deles.

Depeche Mode“Goodnight Lovers” (2001)
Martin Gore é deus, ponto.

Conheça a brisa alternativa stoner psicodélica de “Sometimes It’s Fun To Lose”, do The Brisantinos

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Formada por Bruno Clementin (baixo), Cármino Caramello (vocal), João Bolzan (bateria), Sam Cesaretti (guitarra e vocal) e Walter Tadini (guitarra e vocal), a The Brisantinos está com uma campanha de financiamento coletivo para lançar seu primeiro álbum, com sete faixas, gravado no Stone Studio, em Frutal (MG).

A banda começou em 2011, quando seus integrantes se conheceram na faculdade UFSCar, em São Carlos. Ao saírem de suas graduações, os membros foram morar em uma chácara em São José do Rio Preto, onde trabalharam em suas composições por três anos. O som da The Brisantinos mistura rock psicodélico, alternative rock noventista, stoner rock e blues. Isso tudo pode ser ouvido nas músicas que o quinteto já disponibilizou.

Conversei com Walter sobre sua carreira, o crowdfunding, o novo disco e mais:

– Como a banda começou?

A banda começou após alguns anos estudando junto em São Carlos, onde tirávamos um som na casa que morávamos. Mas somente tomou forma quando nós já havíamos mudado de cidade para São José do Rio Preto, onde continuamos tocando e dividindo contas. Foi lá que conhecemos o baterista João Bolzan, que finalizou o que restava para conseguirmos fechar as ideias do nosso primeiro álbum e compor inclusive algumas músicas a mais. Moramos juntos há pelo menos 3 anos, e a banda nasceu do interesse despertado por músicas independentes.

– Então foi uma banda de estudantes formada em república, é isso? Todo mundo faz o mesmo curso?

Não, isso foi um pouco mais complicado. Podemos dizer que esse período de república foi o embrião da banda, onde surgiu o nome e as ideias. Depois, quando saímos, não voltamos para terminar o curso, e continuamos em Rio Preto. Mas eram estudantes de Física, Ciências Sociais e Letras. A formação da banda era outra e não podemos considerar que é uma banda de estudantes, pois nem mesmo terminamos a graduação.

– De onde surgiu o nome da banda?

Surgiu de um papo brisa, na praça… Acabou “Brisantinos” depois que um de nós soltou essa palavra na roda. É brisa de beck, manja?

– Quais são as principais influências musicais da banda?

Cada um dos músicos veio com um estilo e influência diferentes, mas vamos citar Black Sabbath, Sepultura, Tomahawk, Vulfpeck, Queens Of The Stone Age, Djavan, Tom Waits, Pinback, Dead Fish, Planet Hemp, Steel Pulse, Red Hot Chilli Peppers, The Beatles, The Doors, Buffalo Springfield, Esperanza Spalding, Living Colour e outras talvez muitas. É complicado, basicamente procuramos muitas alternativas.

– Como vocês definiriam o som da banda?

Ah, deve ser um Alternative Stoner Psychedelic Blues Rock. A gente tenta sempre tocar e compor com uma originalidade e frescor que não sabemos denominar. Certa vez gravamos um samba, que vai ir para um programa que se chama “Tudo Termina Em Samba”, aproveitamos a oportunidade para salvar um samba que havíamos feito há alguns anos. Então, de nós você pode esperar qualquer coisa. Mas uma coisa é fato, esse primeiro álbum ficou muito Stoner Rock e Heavy Blues.

– Já que falamos nele, me conta mais sobre este primeiro álbum.

Nós gravamos com o Lucas Heitor, produtor do Stone Studio, primeiro uma pré-produção ao vivo, e depois os instrumentos separados. Escolhemos as composições que já eram mais familiares para todos, e reparamos depois que elas tinham um eu lírico de forte personalidade. Ele apresenta os trabalhos mais coesos da banda até aqui e uma intenção original. Enfim, o álbum contém 7 faixas que totalizam 45 minutos aproximadamente. Foi um prazer enorme realizá-lo, gravar com o Lucas lá em Frutal foi incrível. Depois de gravado fizemos uma campanha de financiamento coletivo para providenciar a prensagem de alguns CDs, a elaboração de conteúdo e souvenirs. Para a arte do encarte encomendamos um desenho para cada música com o excelente artista Vinícius Vicente. Ele fez e nos mostrou, e ficou de chorar (no bom sentido), ficou foda! Agora estamos nos corres de lançar isso e viabilizar para todos. O álbum é pesado, com muita influência de Heavy Metal, Stoner e Psychedelic Rock.

– Vocês usaram o crowdfunding para realizar o disco. Acreditam que essa é uma boa forma das bandas viabilizarem seus projetos, depois da queda da indústria musical?

Sim! O crowdfunding é revolucionário. É um recurso que a internet possibilitou para a realização de uma ideia paralela aos interesses do mercado. A grande vantagem é o contato direto com o público em geral através do engajamento na campanha. Hoje em dia uma banda não precisa mais de um contrato, ou uma gravadora, para realizar o próprio projeto. E o crowdfunding oferece uma grande ideia patrocinadora. Aqui nós mesmos fizemos, tudo junto com muitos amigos que nos ajudaram.

– Então a queda das gravadoras, de certa forma, foi boa para a cena independente.

Os movimentos e iniciativas independentes, junto com a internet, deram a força necessária para que nós, artistas, que não temos apoio de grandes gravadoras, pudéssemos ter um espaço maior e um alcance digno do artista independente. Basicamente as gravadoras saíram do foco, por conta da grande quantidade e qualidade de lançamentos independentes.

The Brisantinos

– Mas você acha que falta algum veículo de mídia forte que auxilie a cena independente a atingir mais público “mainstream”, por assim dizer?

Não achamos que falte um veiculo mais forte de midia, os meios estão todos ai. achamos que o que falta é o incentivo das casas de shows a abrirem as portas para músicos autorais de pouco nome. E também a falta de interesse do publico “mainstream” por algo novo, recente e inédito. Mas percebemos que o independente tem ganhado muita força nos dias de hoje.

– Então na verdade se a divulgação já está ocorrendo corretamente, como fisgar esse público para que as casa invistam em shows autorais?

É necessário organização para produzir e divulgar uma boa música. Se pensarmos apenas na música ou apenas na estética desse produto ainda sobrará algo faltando. Hoje o Youtube e o Spotify são ferramentas interessantes para os músicos se promoverem. Mas essa auto-promoção deve ser honesta, afinal a música é para a alma. Assim como a música, os dias, e a vida, as repetições se fazem prevalecer. Então a perseverança deve caminhar junto com a criatividade.

– Quais são os próximos passos da banda?

Nós pretendemos lançar a partir dessa semana, uma arte do encarte do álbum por dia; até que dia 17 de junho o álbum esteja disponível digitalmente. Assim que os álbuns físicos chegarem, faremos a entrega das recompensas para finalizar nossa campanha de financiamento coletivo. Também vamos tocar um show de lançamento aqui no nosso estúdio chamado Soulbrado Espiral, dia 17 de junho, que será transmitido online. Depois tocamos no Stone Festival em Frutal dia 07 de julho e dia 28 de julho no SESC Rio Preto. Vamos continuar abrindo nossa casa, nosso estúdio e nosso som para novas ideias, shows e o que de bom e gostoso pintar. Inclusive temos ensaiado as composições de um outro álbum que virá na sequência, esperamos começar gravá-lo no segundo semestre desse ano. A nossa ideia é levar o primeiro álbum o mais longe ele possa ir, e tocar muitos shows.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos e todo mundo deveria ouvir!

Bom temos vários. Vamos citar Centro da Terra, Aeromoças e Tenistas Russas, Far From Alaska, Lobo Y Brujo, Bamba Bróder, Quarto Astral, Hurricanes, Cassino Queen, Boogarins, Hellbenders, Black Drawing Chalks, HammerHead Blues, que são algumas das que lembramos agora.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Mirella Fonzar, editora do Universo Retrô

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Mirella Fonzar, do Universo Retrô
Mirella Fonzar, do Universo Retrô

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, a convidada é Mirella Fonzar, editora do Universo Retrô! “PS: Todos os sons são retrô, porém atuais”, frisou ela.

Pokey Lafarge“Close The Door”

Gênero: Country Blues e Western Swing

“Conheci Pokey Lafarge por acaso, vendo o line-up de um festival que eu tinha interesse em ir nos Estados Unidos. Então, tive a oportunidade de vê-los ao vivo no Muddy Roots 2014 e confesso que viciei. Adoro essa roupagem de jazz/swing dos anos 20, com letras ácidas super contemporâneas, e uns toques de blues/hillbilly. Atualmente, a banda pertence à gravadora Third Man Records, de Jack White, e anda fazendo bastante sucesso nos EUA, mas ainda não chegou aqui no Brasil. Vale a pena conferir “Close The Door”, uma crítica super interessante sobre o sistema de saúde americano!”

Omar Romero “Have A Ball”

Gênero: Rockabilly

“Há quem chame o Omar Romero de Elvis Presley latino. Não sei se dá pra comparar, pois acredito que os dois, apesar de fazerem rockabilly, têm pegadas bem diferentes. O Omar faz parte atualmente da gravadora Wild Records, especializada em Rockabilly e Rock ‘n Roll 50’s, e como a maioria dos contratados, ele é descendente de mexicanos e vive em Los Angeles. Ele é um dos responsáveis atualmente por ressaltar a presença latina nesse gênero que nasceu com os brancos americanos, porém dando aquela apimentada que eu, particularmente, adoro. É um som mais rápido e diria até mais selvagem que o rockabilly tradicional. Dá vontade de sair dançando!”

Jai Malano“Shuck’n’Jive”

Gênero: Rhythm and Blues

“Conheci a Jai também bem por acaso. Rolou um show dela no The Orleans, aqui em São Paulo, e uns amigos meus me chamaram para ir, pois sabiam que ela faz sucesso entre o pessoal do retrô. Ela é americana, negra e tem aquela voz poderosa que te arrepia a alma e te faz querer sair pulando. Ela canta Rhythm and Blues tradicional dos anos 50 e até hoje eu não consigo entender por que tem tão pouco material disponível pra se ouvir online, tanto no youtube quanto em plataformas de streaming musical. Foi um show inesquecível; ela é uma artista que eu realmente gostaria que tivesse mais visibilidade do que tem hoje. Portanto, mundo, ouça Jai, agora!”

Lance Lipinsky & The Lovers“So Real”

Gênero: 50’s & 60’s inpired

“Sabe aquelas bandas que são amor à primeira vista? Pois foi isso que aconteceu com Lance Lipinsky & the Lovers. Eles me seguiam no Instagram e costumavam curtir minhas postagens, já que compartilhamos o amor pelo retrô. Então, resolvi stalkear a banda. O som deles é tão variado que fica difícil colocar um rótulo de gênero. Esse som, por exemplo, que escolhi abaixo – “So Real” – te transporta pra uma Era em que reinavam Elvis Presley e Roy Orbison com suas “love songs” ricas em detalhes e super trabalhadas; são vários instrumentos clássicos, como arpa e violino, backing vocals femininos maravilhosos, além do piano, voz e toda produção impecável de Lance. Vale ressaltar que ele fez o Jerry Lee Lewis no musical “Million Dollar Quartet””.

Kitty, Daisy and Lewis“I’m Coming Home”

Gênero: Música retrô de modo geral

“Tá aí a verdadeira família Dó-Ré-Mi. Os irmãos britânicos Kitty, Daisy & Lewis, que cantam e tocam instrumentos variados (muito bem, por sinal), montaram uma banda nos anos 2000 com seus pais Graeme Durham (guitarra) e Ingrid Weiss (baixo). Eles são realmente incríveis, principalmente pra quem não curte rotular a música e gosta de experimentações. Eles tocam de blues, folk e rockabilly a funk, swing, ska e soul. Mas, infelizmente, apesar da banda já ter mais de 15 anos, ainda são pouco conhecidos na América do Sul. Quem sabe se a gente divulgar mais eles não venham se apresentar no Brasil? #Sonho!”

Bônus

Nick Curran “Kill My Baby”

Gênero: Rock ‘n Roll e Rhythm and Blues

“Como eu não ser brincar de ser concisa, tive que trazer a cereja do bolo pra finalizar: Nick Curran. Infelizmente ele faleceu em 2012 (super jovem), mas deixou uma obra incrível pra quem curte Rock ‘n Roll. Ao ouvir pela primeira vez, parece que você volta nos tempos áureos de Little Richard e os poderosos vocais de Rhythm and Blues (apesar de ser branco), mas com um som forte e moderno que não deixaria uma pista de dança parada nunca. Se você curte a garageira do Sonics e sons dos anos 40 e 50, com certeza vai amar Nick Curran”.

Velvet Goldmine enche a tela de glitter em um panorama não-oficial do glam de Ziggy Stardust

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Velvet Goldmine

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Velvet Goldmine (Velvet Goldmine)
Lançamento: 1998
Diretor: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes e James Lyons
Elenco Principal: Ewan McGregor, Jonathan Rhys Mayers, Toni Collette e Christian Bale

Recomendações…

O glam rock da década de 70: marcado por guitarras distorcidas dum jeito que até o Hendrix se tivesse visto ia olhar feio, glitter no ar misturado com o O2, sapatos plataformas que levavam pra ainda mais longe as cabeças dos popstars e uma androginia que enojava os velhos caretas esforçados em esconder as ereções que o pau bombava quando passavam os proto-Bowies pela rua. Foi o movimento performático que ,dando o próximo passo na rebeldia roqueira, inventou o comportamento desregrado, romântico e desesperado que gritava nas noites como um beatnik bêbado mandando o refrão “paz & amor (inc.)” pra tonga da mironga do kabuletê, do qual participaram Brian Eno, T-Rex, David Bowie, Iggy Pop, Sweet, Lou Reed, Suzi Quatro, New York Dolls e mais uma galera aê.

O glam é também o protagonista do filme “Velvet Goldmine”, de 1998. A história, que segue um modelo de investigação jornalística com referência à “Cidadão Kane”, é sobre um jornalista que, dez anos após o falso assassinato do popstar Brian Slade (Jonathan Rhys Meyersdurante um show, é convocado pelo editor-chefe pra fazer uma matéria sobre o cantor: o que aconteceu com ele? Por que forjou a própria morte? Onde tava?.

O jornalista Arthur Stuart, interpretado pelo Christian Bale (sim, é o Batman), através de entrevistas com pessoas que fizeram parte do passado do “morto”, vai montando a história do cara e lembrando de sua própria ligação com o universo do glam: a rebeldia contra os pais caretas, a fuga de casa quando os mesmos o descobrem gay, sua fissura pela figura do popstar sobre o qual está escrevendo, seu convívio com personagens importantes da cena da época, a homofobia regente versus a androginia do movimento, etc.

(Um parênteses: homofobia esta que até hoje ainda é a mesma, que ainda mata e contra a qual é necessário manter uma luta constante, do modo que cada um puder, em função dum dia onde ninguém acorde com medo de beijar um namorado (a) em público, devido à possibilidade de apanhar dos tacos de neo-nazis escrotos)

Voltando aos primeiros parágrafos sobre a história, vale dizer que vários dos personagens que aparecem, são referências explícitas à músicos e pessoas que fizeram parte do movimento cultural.

Brian Slade: David Bowie (na fase Ziggy; o falso assassinato no palco é uma referência ao momento em que durante um show, Bowie declarou que aquele seria o último do Ziggy Stardust, o que todos entenderam como “é o meu último show”).

Curt Wild: Iggy Pop

Mandy Slade: Angela Bowie

Jerry Devine (o empresário): Tony Defries (empresário da companhia que representava o Bowie e o Iggy)

Jack Fairy: Brian Eno

(fonte pra lista e lista mais detalhada: http://www.5years.com/velvetfilm2.htm)

Bom, agora já tendo dito um pouco e talvez até mais que se devesse a respeito do enredo, sigo para entrar no assunto que deveria, quem sabe, ter sido o foco desde o início: a trilha sonora. Embora Brian Slade seja fortemente baseado em David Bowie, o próprio Bowie não gostou do roteiro e vetou a proposta de que suas músicas aparecessem no filme. A trilha sonora é absurdamente boa e é um elemento essencial ao filme (sério?), que junto com o figurino (indicado ao Oscar em 1999) e os cenários compõe a energia roqueira andrógina que o filme passa não só no nível do roteiro. Ela inclui músicas de glam rock e faixas influenciadas pelo glam.

Os músicos ingleses que tocaram sob o nome de The Venus in Furs na trilha sonora foram Thom Yorke e Jonny Greenwood, do Radiohead, Clune, da David Gray Band, Bernard Butler, do Suede, e Andy Mackay, da Roxy Music. Os músicos americanos que tocaram como o Wylde Ratttz (a referência aos Stooges) de Curt Wild na trilha sonora foram Ron Asheton dos próprios Stooges, Thurston Moore e Steve Shelley, do Sonic Youth, Mike Watt, do Minutemen, Don Fleming, do Gumball, e Mark Arm, do Mudhoney. Além dos clássicos do glam, a trilha sonora apresenta novas músicas escritas para o filme do Pulp, Shudder to Think e Grant Lee Buffalo.

Os três membros do Placebo também apareceram no filme, com Brian Molko e Steve Hewitt como membros da Flaming Creatures (Malcolm e Billy, respectivamente) e Stefan Olsdal como o baixista da Polly Small.

Seguem os links pro filme e pra trilha sonora em playlist no YouTube:

Filme:

Trilha: 

Assistam, dancem, ouçam e curtam pacas!

Mulheres no comando: L7 – “Bricks Are Heavy” (1992)

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Bolachas Finas, por Victor José

L7 foi talvez a banda inteiramente feminina mais importante dos anos 1990. Isso por si só faz desse grupo interessante. Na primeira metade de 1992, no auge da onda Nevermind”, Donita Sparks (vocal e guitarra), Suzi Gardner (vocal e guitarra), Jennifer Finch (baixo e vocais) e Demetra Plakas (bateria e vocais) apresentaram ao cenário grunge seu terceiro álbum e mais emblemático: Bricks Are Heavy”.

Embora a banda californiana tenha em suas raízes mais básicas o punk e o hardcore, neste disco elas colocam a estrutura do heavy metal na linha de frente, o que era de praxe naquela fase do rock. Dessa forma, o L7 conseguiu se aproximar da linguagem de contemporâneos como Soundgarden, Mudhoney e Nirvana, conseguindo um som pesado e ao mesmo tempo “radio friendly”.

Um dos aspectos que certamente fez a diferença no resultado final foi a escolha de Butch Vig (Nirvana, Smashing Pumpkins, Sonic Youth e Garbage) como produtor, que além de saber como fazer uma banda soar como um grunge mainstream sem perder a compostura, o hype em torno dele estava bastante alto. Fica bem evidente a mão de Vig em “Pretend We’re Dead”, o hit do LP. Uma produção caprichada, que empurra a potência da banda até um limite ainda não explorado por elas, com ênfase nas melodias e nos riffs mais cadenciados. Acabou se tornando um dos maiores clássicos de uma época.

Mas é claro que o tradicional ar punk do L7 – ainda que haja guitarras com timbre de heavy metal – ganha corpo ao longo de “Bricks Are Heavy”, como se percebe nas faixas “Slide”, “Mr Integrity”, “Shitlist” e na ótima “Everglade”, esta última sendo outro single de destaque do disco.

Por outro lado, as faixas “Wargasm”, “Diet Pill” e “Monster” (outro clássico alternativo dos anos 1990) se rendem à atmosfera do metal com muita personalidade e sem medo de soar acessível. Aliás, esse trabalho tem toda uma tracklist convidativa: cheia de melodia, riffs pegajosos, ritmos básicos e excelente qualidade. Na cena grunge, enquanto um monte de marmanjo adorava choramingar suas desgraças – o que não deixa de ser um recurso interessante –, o L7 decidiu trilhar um caminho mais coeso, direto, sem um pingo de frescura.

Depois de todo esse tempo, ao ouvir hoje “Bricks Are Heavy” e todas as suas ótimas 11 faixas, percebo como é difícil pensar em algum disco desse período que seja tão redondo como este. É certamente um dos melhores momentos do rock dos anos 1990, que mesmo não sendo pioneiro em algo específico mostrou o rock de uma perspectiva feminina. E isso se mostrava ainda mais intenso no palco, com shows cheios de energia, numa cena inegavelmente predominante de homens. A banda, feminista atuante, sempre deixou clara sua posição sobre o assunto e fazia questão de ressaltar isso em algumas letras. De fato essa não é uma banda “quadrada”, como sugere a gíria que dá título à banda.

“Bricks Are Heavy” foi um sucesso de crítica e público, alcançando o número 160 no Billboard 200, algo extremamente louvável para uma banda vinda do underground. Fizeram uma extensa turnê mundial e vieram parar aqui no Brasil no início de 1993, no fatídico Hollywood Rock. Abriram para o Nirvana com um setlist maravilhoso e ainda no fim tiveram a ousadia de tirar a roupa enquanto o show estava sendo transmitido ao vivo pela Globo.

Depois disso o L7 experimentou um pouco da fama e continuou lançando álbuns até 1999. O grupo parou em 2000 e voltou a se apresentar somente em 2014, com a formação clássica. Hoje o L7 é reverenciado como um ícone importante da força da mulher na música, sendo que poucas vezes se viu no rock um grupo feminino com tanta estatura. “Bricks Are Heavy” é um disco obrigatório.

RockALT #15 – Garage Fuzz, Leonardo Panço, eliminadorzinho, The Kooks e The Horrors

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RockALT

RockALT, por Helder Sampedro

A Coluna RockALT volta após um breve hiato: meu irmão Jaison e eu fizemos uma pequena viagem por terras estadunidenses e não conseguimos preparar nada para a coluna durante nossa ausência de Terras Brasilis. Ainda naquele clima de desfazer as malas minha postagem de hoje será mais curta e objetiva, separei alguns sons que embalaram a minha viagem e me ajudaram a passar o tempo nos aeroportos e estações de trem por onde passei.

Garage Fuzz“When No One is Around”
É sempre bom falar daqueles que estão na estrada há décadas e pavimentaram o caminho para tantas outros no cenário nacional. O Garage Fuzz certamente é uma das bandas mais influentes do país, tendo nascido na efervescência do início dos anos 90, época incomparável para o underground brasileiro, e estando na ativa até hoje. A extensa discografia dos santistas é sempre merecedora de uma atenção maior. Fica aqui a minha provocação pra você que é fã de rock alternativo, há quanto tempo você não escuta Garage Fuzz? A hora é agora!

Leonardo Panço“Desorgulho”
Falando em underground brasileiro e de mais um grande nome dos anos 90, Leonardo Panço é ex-integrante da banda carioca de hardcore Jason. Leonardo é uma figura muito interessante pois não só fez parte de uma banda que rodou o mundo mas também por ser um artista que não se limita apenas à música, seus trabalhos autorais mesclam sua música com os livros que escreve e com suas fotografias, como no recente “Superfícies”, de 2016. Sempre bom acompanhar a caminhada e a obra de nomes importantes e pratas da casa como o Panço.

eliminadorzinho“das vezes que conversamos na cama e acabamos dormindo”
Nós do RockALT sempre comentamos sobre a ampla variedade de gêneros que temos no cenário underground nacional e os paulistanos do eliminadorzinho são exemplos de uma cena que reflete o lado mais sensível e contemplativo do rock, ao menos em suas letras. Influenciados pelo gorduratrans, que por sua vez se inspiraram no Ludovic, o trio de “rock triste jovem”, como diz sua bio no Facebook, mostra em seu EP ‘nada mais restará’ a barulheira característica do noise caseiro e letras que nos fazem lembrar como nosso cotidiano pode ser pesado e cansativo às vezes. A música tem essa mania de refletir o mundo no qual vivemos, certamente eliminadorzinho poderia ser a trilha sonora da nossa sociedade atualmente.

The Kooks“Be Who You Are”
Talvez mais conhecidos pela música “Naive”, os britânicos do The Kooks são um exemplo de banda que atingiu um certo sucesso comercial mas não emplacaram tantos hits quanto outras bandas do mesmo movimento. A banda é muito mais eclética do que a maioria imagina e seus trabalhos passeiam pelo rock, britpop, e até reggae e ska. Em turnê comemorativa de 10 anos a banda lançou material novo, uma ótima oportunidade para ouvir mais e conhecer melhor o trabalho dos rapazes de Brighton.

The Horrors“Still Life”
Mais uma música que ficou na minha cabeça embalando a minha viagem e assim como o The Kooks, o The Horrors surgiu durante o revival pós-punk que ocorreu na Inglaterra durante os anos 2000. Mas as similaridades com seus conterrâneos acabam por aí, o som do The Horrors é mais conciso em suas influências e abrange estilos mais similares como garage rock, punk, goth rock, shoegaze além do já mencionado post-punk revival. Aclamados pela crítica, os quarto LPs da banda mereciam ser ouvidos por um público muito mais do que o inicialmente alcançado na ocasião de seus lançamentos. Vale a pena dar uma garimpada na obra deles.

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Cantarolando: o Sex Pistols pós-punk de “Religion II” (1978), do PIL

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PIL

Cantarolando, por Elisa Oieno

Essa canção provavelmente seria dos Sex Pistols, caso eles tivessem continuado. Foi escrita por John Lydon – o então Johnny Rotten – durante a turnê dos Sex Pistols nos Estados Unidos. Naquele ponto, pouco antes de a banda se separar no auge do sucesso comercial, eles já estavam minguando sem interesse de debuçarem em novas composições.

Os versos revoltados de “Religion II” são resultado de um período altamente criativo que acometeu Lydon durante aquela época, e que seria posteriormente direcionado para o PIL:

Vitrais mantém o frio lá fora enquanto os hipócritas se escondem dentro

Com as mentiras de estátuas em suas mentes

Onde a religião cristã os deixou cegos

Onde eles se escondem e rezam para Deus de uma cadela escrita ao contrário [dog], não por uma raça, um credo, um mundo, mas por dinheiro. Eficaz. Absurdo!

O único Pistol que se mostrou entusiasmado com a canção foi Sid Vicious, mas antes que fosse possível concretizar sua primeira contribuição criativa ao lado de Rotten, ele mergulhou fundo demais na heroína desembocando num estado caótico e o trágico resto da história vocês já sabem.

Após o fim dos Pistols, quebrado, John Lydon conseguiu reunir Keith Levene, um dos fundadores do Clash, na guitarra, o fã de rock progressivo Jah Wobble no baixo, e Jim Walker na bateria. Essa foi a primeira das inúmeras formações do PIL, mas pode-se dizer que é a formação “clássica”, já que as contribuições dos três membros para dar suporte à voz e aos versos incisivos de Lydon foram essenciais para o desenvolvimento da identidade sonora da banda.

A ideia era romper definitivamente com a experiência dos Sex Pistols enquanto banda, e ao mesmo tempo se aproveitar dela. A capa do disco, remetendo a uma capa de revista estampando o conhecido rosto de John Lydon, com um escrito enorme “imagem pública”, é certamente uma referência ao que os Sex Pistols se tornaram para ele, com a ajuda de Malcolm McLaren: uma questão de imagem, fama, moda. Ele dizia que estavam virando um Kiss. Essa provocação também está no próprio nome da banda, “Imagem Pública Ltd.”, parecendo a razão social de uma empresa, escancarando o que uma banda de rock realmente é, meio que como uma meta-crítica, para romper com qualquer discurso de hipocrisia.

O som desse primeiro disco do PIL é muito simbólico quanto à transição do Sex Pistols para essa outra coisa, mais experimental e artística. Uma transição do punk para o que seria chamado de pós-punk. Aliás, é um registro muito preciso do nascimento desse novo estilo que seria um dos mais importantes dos anos 80.

A faixa “Religion II” é um belo exemplo disso. Escrita com a pungência lírica de um Johnny Rotten dos Sex Pistols, irritado com a hipocrisia da Igreja Católica, especialmente no contexto do extenso e sangrento conflito civil entre Reino Unido e Irlanda, o resultado é o de uma canção incisiva, impactante e extremamente consciente, que nos entrega um John Lydon do PIL: a banda com um som completamente novo e experimental.

“Sou e continuarei sendo resistência no rap e na música, campo minado de machista”, brada a rapper BrisaFlow

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BrisaFlow
BrisaFlow

Filha de chilenos e nascida em Belo Horizonte, Brisa De La Cordillera é conhecida como Brisa Flow e apesar de se focar no hip hop, tem uma musicalidade livre, misturando em seu caldeirão sonoro música latinoamericana, rap, reggae, eletrônica e até pitadas de punk rock. Sua carreira começou em 2010, participando da cena cultural mineira, mudando-se em 2012 para São Paulo, onde participou de diversos projetos e eventos relacionados a música e aos direitos das mulheres. Sua música “As de Cem” ficou entre as virais do Spotify em 2015 e ela recebeu o prêmio Olga “Mulheres Inspiradoras”.

Em 2016 lançou seu primeiro disco completo, “Newen”, de forma independente. O trabalho, com direção musical de Dia Chocolate Studio, mixagem de Givnt e masterização de Luis, da Flapc4, apareceu nas listas de melhores discos do ano do Estadão, Brasileiríssimos e Noticiário Periférico. Agora, Brisa prepara um novo projeto para os próximos meses. “Quero misturar os instrumentos que toco com meu som e mais uns parceiros”, conta. “Quero usar o que estou aprendendo na facul pra mesclar com o rap”.

Conversei com ela sobre a mulher no universo do hip hop, o disco “Newen”, o rap no topo das paradas e mais:

– Como você começou sua carreira?

Comecei cantar pequena como diversão, transformava umas músicas em rap e gostava de pegar os rap e cantarolar. Aos 13 me envolvi com a cena underground de BH, punk e rap. Tive uma banda, fiz parte de grupo e coletivo. Comecei a cantar rap sozinha aos 19. Passei por várias quebradas pelo Brasil e aos poucos minha carreira solo criou asas.

– Quais as suas principais influências musicais?

Minhas influências são diversas e mutantes. Escuto muita música latinoamericana de protesto: fui criada ouvindo Mercedes Sosa, Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Victor Jara, Bob Marley, The Doors, Janis Joplin. Lauryn Hill, Badu e Sade fizeram minha cabeça e ainda fazem desde a adolescência. Atualmente tô viajando ouvindo o novo do Kendrick, o disco “Djonga”, a Sza, psicodelia e uns discos de jazz. Amo muito a Alice Coltrane, ela pra mim é uma grande inspiração, compositora braba e infelizmente pouco conhecida por ter sido casada com o Coltrane. Recomendo o “Journey to Satchidananda”, discaço!

– Me fala mais sobre o trampo que você já lançou.

Ano passado lancei o “Newen”, disco com referências ameríndias e bases que misturam boom bap trap e música eletrônica. O Dia Chocolatee Studio foi o diretor musical, o Givnt fez a mix e o Luis da Flapc4 a master. Eu tentei juntar beatmakers que eu curtia espalhados pelo Brasil e minhas letras sobre a liberdade de poder ser quem somos, sendo mulheres e sendo plurais. O disco está disponível para download gratuito no site do One Rpm e pra ouvir em todas plataformas digitais.

– A internet hoje em dia é uma grande força para MCs e rappers independentes. Como você vê isso?

Acredito que com a internet podemos divulgar melhor nosso trabalho e nossa luta não é tão censurada e barrada por macho como antigamente, quando não tínhamos internet.

BrisaFlow

– Tenho visto um levante feminino no rap, um estilo que, como muitos outros, é conhecido por ter uma grande carga de machismo. Como é isso pra você?

Fui, sou e continuarei sendo resistência no rap e na música em geral, campo minado de machista!

– Como é seu processo de composição?

Depende do tipo de composição. Quando tô com a energia em baixa e sinto que preciso escrever, me fecho um pouco na minha casa, passo o dia na quebrada, ligo uns beats, instrumentos, briso na brisa. Tem dia que a música já vem com a bala na agulha, é só começar escrever que sai umas letras loucas, às vezes a beat no meio da rua ou no metrô/busão…

– Porque as letras mais politizadas e com posição não chegam tanto ao mainstream?

Letras politizadas fazem as pessoas refletirem. Imagina a rádio e a TV propagando discurso de desconstrução contra algo que eles mesmos construíram. Revolução pero no mucho. Porque será que eles não tão afim que essa mensagem chegue muito?

– Como você vê o rap voltando ao topo das paradas nos últimos anos?

Rap merece o topo. Música completa pelo tráfico de informação, fácil comunicação, cultura ao mesclar samples de outros estilos musicais e por aí vai. Fico feliz, a cultura hip hop tem muito a conquistar.

BrisaFlow

– Quais seus próximos passos?

Músicas novas estão pra sair logo mais no Spotify e tô com um projeto de misturar os instrumentos que toco com meu som e mais uns parceiros. Logo mais, novidades! Quero usar o que estou aprendendo na facul pra mesclar com o rap. Sigam o Instagram que lá rola vários livros desse projeto no embrião!

– Recomende artistas e bandas (de preferência independentes!) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Gosto de manas atuais da nossa cena que estão fazendo um lindo trabalho: Anna Trea e Tati Botelho!