“On the Corner” – as esquinas de Miles Davis, o Brasil e o “devir negro do mundo”

“On the Corner” – as esquinas de Miles Davis, o Brasil e o “devir negro do mundo”

8 de novembro de 2018 0 Por Pedro Vivas

capa do disco

Em 1972, Miles Davis mostra ao mundo suas “esquinas”. “On the Corner” é um disco que traz consigo um som urbano, rebelde, da rua e negro. Rompem-se tradicionalismos, rompe-se com um som jazzístico mais “óbvio”, dando continuidade a um processo que o artista vinha tendo de maneira mais evidente a partir do “In a Silent Way” de 1969. O flerte com o rock’n roll cada vez mais evidente, assim como com o funk de James Brown. E de fato, a maior aproximação que pode ser estabelecida a partir do “On the Corner” é com o funk americano, seus sons e sua subversão. Uma das coisas que me vem a cabeça é a performance de James Brown da “Sex Machine” no programa “Teatro 10” da TV italiana, de fácil acesso no Youtube e revelador do que foi e é um choque musical e estético para o mundo, direta ou indiretamente. Mas, é preciso dizer que apesar das conexões muito evidentes entre as esquinas de Miles Davis e a máquina libidinosa de James Brown, seria reducionismo absurdo colocar a primeira na caixinha do “funk”. “On the corner” é mais do que isso. É o desafio aos limites da “eficiência, técnica e paixão”. É provocação, é estética. É provocação estética.

No começo – “On the corner/New york girl/Thinking of one thing and doing another/Vote for miles”. Rapidamente se percebem as intenções do álbum. Não precisa estar numa viagem lisérgica para sentir os efeitos dos sons. É caótico, mas é propositivo. É o caos das relações e nas relações, como visto no título da “canção” (se é que se pode chamar assim): a esquina, a garota nova iorquina, o choque entre o que se pensa e o que se faz, e, por fim, o pedido, VOTE EM MILES. Dilemas do negro americano? Certamente. Os 19 minutos dão boas pistas de quais seriam eles. A seguir, colocaria num mesmo bloco “Black Satin”, “One and One” e “Helen Butte/Mr. Freedom X”. Na primeira a linha de baixo que vem a se repetir por um bom tempo, faz uma introdução. Na segunda ela se consolida e escancara se fazendo elemento principal da canção, o que prossegue na terceira. As três são variações de um processo comum e intencional. O sentimento que elas passam é de se estar correndo por entre as multidões para que não se chegue atrasado no trabalho ou em qualquer outro lugar de qualquer metrópole por aí. Ao mesmo tempo pode se visualizar os sons de um músico de metrô, tocando várias vezes a mesma canção em diferentes vagões de diferentes trens ao longo dia, pedindo alguns trocados. Ao mesmo tempo é a visão da ansiedade e do medo de ser assassinado por um estado genocida e racista. É a condição negra e urbana que se faz presente, em suas múltiplas contradições.

É preciso dar destaque à banda formada pelo próprio Miles Davis, Dave Liebman, John McLaughlin, o baixo de Michael Henderson, os teclados de Herbie Hancock e Chick Corea, o sintetizador de Ivory Williams, Colin Walcott e muitos outros (só na bateria são três: Al Foster, Billy Hart e Jack DeJohnette)

Gilberto Gil, no Brasil (sempre ele), se inspirou de maneira evidente e declarada na linha de baixo dessas canções: no “Refazenda” de 1975, “Essa é pra Tocar no Rádio” traz uma proposição que também é provocativa, assim como a de Miles. O baixo de Rubão Sabino se faz presente, assim como o acordeon de Dominguinhos. A influência de Miles fica mais evidente quando se escuta a versão do álbum “Umeboshi” gravado ao vivo em 1973, em versão muito mais longa e que privilegia ainda mais a linha de baixo. Um som que muito dificilmente seria tocado no rádio assim como “On the Corner”! É uma grande provocação poética e musical!

Umeboshi – Gilberto Gil – 1973

Já em um olhar mais contemporâneo e de volta ao contexto americano é interessante olhar para “On and On” de Erykah Badu. Acredito que a música não tem esse título por acaso. Seria diálogo com “One and one”? No disco “Erykah Badu LIVE” de 1998, no ano seguinte ao “Baduizm” de 1997 (de onde se origina a música) ela abre com “Rimshot”, com influências claras de “So What” de Miles. É possível afirmar com tranquilidade que Badu bebe muito na fonte de Miles. Voltando a “On and On” fica mais clara uma possível conexão quando se observa o clipe, uma sátira da condição afroamericana. No campo musical se faz uma fusão do jazz, do soul, do hip hop e do funk. Em uma rápida análise da letra, a denúncia da desigualdade e de suas chagas. Em tradução livre ela afirma: “Estou me sentindo chapada, meu dinheiro sumiu, estou sozinha, muita coisa a se ver, o mundo continua girando. Que dia, que dia!”. Nesse sentido, lembra muito “Inner City Blues” de Marvin Gaye (“dinheiro, nós fazemos, antes que a gente o veja você pega!).

Jay-Z, paralelamente, traz “The Story of O.J.”, um rap denso lançado neste ano, com várias camadas e provocações. Acima de tudo é uma afirmação da universalidade da condição desgraçada da negritude. Mesmo que de maneira desesperada tente se colocar uma “máscara branca” na “pele negra” (como O.J. Simpson – “não sou negro, sou O.J”), ainda se é “nigger” (a polêmica palavra que vale outro texto) ou em tradução livre “crioulo”. O clipe, assim como o de “On and On” traz diversas provocações estéticas e proposições, sátiras, dessa vez com o recurso das animações e do desenho animado. O fato é que Jay-Z, assim como Miles, dialoga com as Esquinas e afirma, em tradução livre: “Negro da casa, não foda comigo! Eu sou um negro da plantação com “talheres” brilhantes […] Eu vou para as esquinas onde os malandros estão”. A letra é reveladora e reafirma as tensões do movimento preto americano.

Mas o que une todos esses sons citados? É possível afirmar que as estéticas são diferentes, mas, ao mesmo tempo, trazem consigo muitos pontos em comum. O caos propositivo de Miles Davis se faz presente no hip hop de Erykah Badu e de Jay-Z assim como se fez na provocação lírica de Gilberto Gil no Brasil. Pode se dizer que o que universaliza todos esses diálogos é um ponto principal – as reflexões sobre a condição negra, principalmente no que tange à urbana. Uma condição doída, complexa, efeito de um “devir negro” do mundo, com contradições similares de uma modernização racista no Brasil, na África, em Nova York e no Oriente. O que universaliza é a condição desajustada, sofrida e que tende a se expandir cada vez mais em um mundo regido por princípios que colocam toda a responsabilidade do sucesso ou do fracasso no indivíduo, transmutado em empresa e posto em uma condição cada vez mais solitária. Mas, como um mantra, é preciso afirmar como dizia um velho pensador francês por aí – “onde há poder, há resistência”. E a resistência, obviamente, é também musical. Nas esquinas instrumentais de Miles Davis, no rádio “procurado” por Gilberto Gil, na denúncia de um estado que saqueia e mata os negros em Marvin Gaye e Erykah Badu ou nas esquinas rimadas do hip hop de Jay-Z.

Em meio a tantas correlações, volto a “On the Corner”, a gênese de todo o debate desse texto. No momento certo e de mente aberta escute esse álbum pensado para o negro americano do início da década de 70, influenciado pelo pan-africanismo (como se vê na capa), por James Brown, pelos movimentos dos direitos civis, pelos Panteras Negras, e que, certamente influenciou toda uma geração de negras e negros em escala global. Em um contexto de reacionarismo cada vez mais preponderante se faz necessário beber de todas as fontes possíveis no que concerne à resistência e a proposição de novas alternativas estéticas, novas visões de mundo, outras propostas de um mundo mais igualitário, cuspindo e satirizando um estado racista e uma globalização racista. É preciso olhar atento ao passado para que se entenda o que fazer diante de um presente tão complexo e desafiador. Foi sem entender toda a importância por trás do disco que boa parte da crítica detestou o disco à época – e isso contribuiu para que o disco vendesse pouco. É entendendo tudo o que foi e é contexto externo naquela época e nos dias atuais que se entende o verdadeiro potencial e revolução da obra.

Ouça:

Referências e diálogos:

https://www.allmusic.com/album/on-the-corner-mw0000197892

https://en.wikipedia.org/wiki/On_the_Corner

https://www.youtube.com/watch?v=K3d_9TkZkcU&t=180s O som do vinil com Charles Gavin – Trilogia RE: minuto 17:19

https://www.letras.mus.br/jay-z/the-story-of-oj/traducao.html

https://www.letras.mus.br/erykah-badu/401367/

https://www.letras.mus.br/marvin-gaye/643838/traducao.html

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2018/04/o-devir-negro-do-mundo.shtml