OK OK OK, Gilberto Gil: contraintuitivo e político, Gil está tinindo

OK OK OK, Gilberto Gil: contraintuitivo e político, Gil está tinindo

30 de novembro de 2018 0 Por Pedro Vivas

Depois de alguns meses após o lançamento do disco, Gil sai em turnê nacional de mesmo nome – “OK OK OK”. Seria extremamente conveniente manter-se parado, estacionado no pódio da Música Popular Brasileira, mas Gil optou por dar a cara a tapa e continuar produzindo. Ainda bem!

O repertório do show segue essa linha. Ao invés de tocar (mais) um show de sucessos, tocou praticamente o disco todo (vale dizer que mesmo o show de sucessos de Gil não é tão óbvio). Apenas ficaram de fora “Tartaruguê”, uma das parcerias com João Donato no disco e “Pela internet 2”, essa última faixa bônus. No que tange a primeira, acredito que foi uma posição de “segurança”, tendo em vista que a letra se faz em cima da saudação (polêmica) “anauê”. Na resenha completa do disco debato mais essa música em específico: acredito que é uma provocação e uma tentativa de ressignificação do termo engendrada por Donato e Gil. Eles estão longe de serem ingênuos, sabem bem o que o termo significa e o que ele representa. Fato é que os tempos se tornam cada vez mais complexos e as provocações tem que ser cada vez mais pensadas. Sinceramente nenhuma das duas fez tanta falta assim.

A turnê estreou em Belo Horizonte no dia 24 e Mauro Ferreira, do G1, cobriu. Em comparação com o show de lá pouca coisa mudou no repertório, apenas foram acrescentadas “Kalil”, em homenagem ao cardiologista mais renomado do Brasil (Dr. Roberto Kalil) que tratou das enfermidades de Gil, “Jacinto”, homenagem ao amigo centenário e no hall das músicas da velhice e, por fim, a já figurinha repetida dos “bises” “Maracatu Atômico” de Jorge Mautner.

No repertório comum aos dois shows é preciso dizer – ainda bem que ele tocou o disco (quase) todo! É um registro importantíssimo. Já no que tange aos sucessos, é preciso dizer: são contraintuitivos e extremamente bem encaixados. “Lugar Comum” do disco de mesmo nome vem depois de “Uma Coisa Bonitinha”, as duas parcerias com João Donato. “Pai e Mãe” se encaixa perfeitamente no roteiro e no contexto extremamente familiar dentro do disco e do show. “Se Eu Quiser Falar com Deus” sucede “Prece”, última música do “Ok ok ok” e que tem um teor exatamente de introspecção e prece. Há todo um diálogo muito bem construído e interessante entre todas elas.

“Marginália II”, de Torquato Neto, é recuperada mais uma vez depois de ter figurado no show “Dois amigos um século de música”, no show-parceria de Gil e Caetano. A letra-sátira-crítica acerca do Brasil se faz presente mais uma vez e logo após vem justamente “Kalil”. Do Brasil que é afirmado como o “fim do mundo” e “país das bananas” para o Brasil da “gente inteligente e competente”. Contradições que de fato se fazem de maneira cada vez mais intensa neste país.

“Seu Olhar” do disco “Diadorim Noite Neon” também é recuperada. Uma grata surpresa e que se encaixa muito bem na parte mais agitada do show em que Gil pega a guitarra e manda bala.

Outra surpresa muito bacana foi a versão de “Pro Dia Nascer Feliz”, que Cazuza cantava em 1985 no Rock In Rio na véspera do findar da ditadura e que hoje tem um lado propositivo e simbólico muito interessante frente aos acontecimentos recentes. Outra versão que se faz presente é “Nossa Gente (Avisa Lá)”, do Olodum. Essa já figurinha repetida, mas extremamente bem vinda, embora com um arranjo que tirou um pouco o suingue da música.

O show fecha com “Extra” que segue a tendência de crítica política. Todo o show traz no seu bojo um teor político nas escolhas musicais e artísticas, mas, dessa vez tudo se faz de maneira mais evidente: “ET e todos os santos, livrai-nos valei-nos desse tempo escuro!” “Racha os muros da prisão”. Lembra alguma coisa?

O cenário, por sua vez, traz diálogos memórias com o da turnê “Dois amigos um século…” e propõe uma abundância de cores e sentidos bem brasileira.

Algumas últimas coisas que é preciso dizer –

. A voz do protagonista está tinindo!

. O show é repleto de histórias extremamente pessoais, espontâneas e engraçadas.

. Boa parte do público pareceu levemente insatisfeito com a ausência de sucessos mais “marcantes”. Não somo esse coro. É preciso ir além de “Toda Menina Baiana”, “Palco” e afins, embora pelo menos uma dessas fosse bem vinda no roteiro do show, quem sabe.

É um privilégio ver Gilberto Gil com tanto vigor, tanta disposição, tanta vontade de falar. Certamente essa noite e todas as demais da turnê vão ser marcantes e especiais.

“OK OK OK” – SÃO PAULO – 29/11/2018 – TEATRO BRADESCO – aproximadamente 1h40min

Banda: Gilberto Gil

Bem Gil (guitarra), Domenico Lancelotti e José Gil revezam na bateria e percussão, Danilo Andrade (teclados), Thiagô Queiroz e Diogo Gomes no sax, nas flautas e afins, Nara Gil (vocais) e, por fim, Bruno Di Lullo no baixo.

Direção artística – Bem Gil e Gilberto Gil

Cenário – Luiz Zerbini

Roteiro:

. OK OK OK . Quatro Pedacinhos . Sereno . Uma coisa bonitinha . Lugar Comum (Lugar Comum, 1975) . Lia e Deia . Pai e Mãe (Refazenda, 1975) . Yamandu . Prece . Se eu quiser Falar com Deus (A gente precisa ver o luar, 1980) . Sol de Maria . Jacinto . Na Real . Seu Olhar (Dia dorim, noite neon, 1985) . Tocarte (Trinca de ases, 2017) . Pro dia nascer feliz (Barão Vermelho) . Nossa gente (avisa lá) (Olodum) . Marginália II (Torquato Neto) . Kalil . Ouço

Bis: . Afogamento (Roberta Sá e Gil) . Extra (Extra, 1983) . Maracatu Atômico (Jorge Mautner)

links:

https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2018/11/26/gilberto-gil-estreia-turne-nacional-do-show-ok-ok-ok-com-hits-dos-grupos-barao-vermelho-e-olodum-no-roteiro-essencialmente-autoral.ghtml 

RESENHA COMPLETA DO DISCO: http://crushemhifi.com.br/gilberto-gil-e-ok-ok-ok-oke-oke-oke/