Odiando a polícia com o Mudhoney em “Hate The Police” (1990)

Mudhoney
Mudhoney

Cantarolando, por Elisa Oieno

Todo adolescente que se preze odeia a polícia. Numa análise imediata e superficial, o arquétipo da polícia logo de cara remete a autoridade, vigilância, opressão e o combate à delinquência, ou seja, basicamente tudo aquilo que o adolescente mais detesta. Talvez seja por isso que era tão satisfatório para mim cantar aos berros essa música no colegial.

Abrindo um parênteses aqui, é engraçado que raramente o paradigma de polícia nos faz lembrar de segurança – pelo contrário, né? É como naquela famosa dos Titãs: Dizem que ela existe prá ajudar/Dizem que ela existe prá proteger/Eu sei que ela pode te parar/ Eu sei que ela pode te prender!

Na verdade, se levarmos em consideração o que alguns caras como Michel Foucault pensam sobre isso, dá para concluir MUITO SIMPLIFICADAMENTE que a delinquência é de fato fabricada, criada pela própria estrutura que a condena – e mantida através da difusão do medo da criminalidade – , exatamente com o objetivo de ser combatida e, assim, demonstrar a necessidade social do poder da polícia, consequentemente validando toda a estrutura que legitimou este poder.

Mas nem é preciso exercitar toda essa reflexão para um indivíduo não morrer de amores pela autoridade policial – e o que ela representa. Sabemos que a truculência, a simpatia pela violência e o racismo não raramente afloram através da polícia. E é sobre esse aspecto que a canção cantarolada de hoje diz respeito.

“Hate The Police”, originalmente gravada pela banda punk The Dicks em 1980, conta a historia de um jovem adulto que acaba de entrar para a polícia, e chega em casa para contar a novidade para seus pais orgulhosos.

Ele se sente poderoso carregando uma arma, se exibindo para sua mãe, mostrando o quão intimidador ele pode ser:

Mamãe, mamãe, mamãe
olhe para o seu filho
você pode ter me amado,
mas agora que eu tenho uma arma, é melhor você sair do meu caminho
Eu acho que tive um dia ruim
Eu tive um dia ruim

E conta ao seu pai sobre as aventuras de seu novo trabalho:

Papai, papai, papai
Orgulhoso de seu filho
Conseguiu um bom emprego
Matando pretos e mexicanos
Eu vou te contar uma coisa, é verdade
Você não encontra justiça, ela é que te encontra.

 

A canção ficou mais conhecida por sua versão do Mudhoney, que está no disco – na verdade é um EP e uma compilações de singles – “Superfuzz Bigmuff” (1990), entitulado em homenagem ao icônico pedal de fuzz usado e abusado pelo guitarrista Steve Turner, marca registrada do som da banda.

Se quase 10 anos após o lançamento da música pelos The Dicks, a canção ainda fazia sentido a ponto de ter estourado através do Mudhoney, hoje, 30 anos depois, ela ainda está atual, e pode muito bem servir para as particularidades da nossa polícia por aqui.

De qualquer forma, mesmo se você não sofre de tanta antipatia pela instuição policial, todos havemos de concordar que a presença da polícia nas nossas vidas geralmente não é agradável. A idéia é que alguma coisa está errada. É esse sentimento que torna a “Hate The Police” tão atraente para os jovens ouvidos – e para aqueles ouvidos que se recusam a envelhecer.


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