O trio de queercore Hayz destila suas raivas e frustrações no EP “Não Estamos Mais em Casa”

O trio de queercore Hayz destila suas raivas e frustrações no EP “Não Estamos Mais em Casa”

19 de março de 2019 0 Por João Pedro Ramos

O trio de queercore paulistano Hayz acaba de lançar seu primeiro EP, “Não Estamos Mais em Casa”. Com sonoridade que transpira influências de bandas como Longstocking, Third Sex e Team Dresch, o álbum foi gravado ao vivo em sete horas no Estúdio Papiris, em São Paulo, e mixado e masterizado por Caio Monfort. O lançamento é feito em parceria com os selos Efusiva e Howlin’ Records, e a arte da capa foi produzida pelo artista Jorge Kuriki, que já criou capas para a banda Shed.

Foi trocando cartas nos anos 90 que Josie Lucas (voz/guitarra) e Roberta Bergami (bateria) se conheceram. Desde então, se admiravam musicalmente à distância. Josie conheceu Bruna Provasi (baixo/voz) nos anos 00, quando foi convidada para tocar em um festival feminista organizado por ela. Somente em 2018 que Itapevi, Brasília e
Juiz de Fora realmente se conectaram, dando origem à Hayz. Em suas seis faixas, “Não Estamos Mais em Casa” aborda sensações de deslocamento, não pertencimento e caos interior, como na música “Não-Lugar” (“Não houvesse vida pra esquecer / Fosse só um número pra riscar / Mas há marcas de sangue ainda no chão / Nunca esteve lá, não pôde ver”). O nome do EP veio de um verso da faixa “Dorothy”, que subverte a música homônima da banda Alkaline Trio, colocando a protagonista com as rédeas de sua vida nas mãos.

– Me conta mais do EP que vocês acabaram de lançar!

Bom, a banda existe há pouco mais de 6 meses e a gente quis registrar as primeiras músicas, pra ter o que mostrar pras pessoas saberem qual é nossa proposta. O EP tem 6 músicas. 3 delas (“Dorothy”, “Kings” e “Pax”) já estavam prontas antes da banda existir, por isso uma pegada mais hardcore, em alguns momentos. A outras 3 tem mais a ver com a identidade que a gente acha que a banda tá criando. O EP saiu bem rápido. Gravamos os instrumentos ao vivo em umas 4 horas, mais ou menos. A ideia era soar como nos shows. Durante a pós produção criamos uma parceria com os selos Efusiva (RJ) e Howling (SP) que tão ajudando na divulgação e outros corres. O EP tá, desde o dia 8 de março, disponível nas plataformas digitais de streaming. Ah, as músicas foram gravadas em janeiro!

– Essas músicas que já existiam eram de quem? Como está sendo o processo de composição em grupo?

Então, essas 3 músicas eram minhas. Quando eu resolvi voltar a tocar em 2016, eu comecei a escrever músicas e essas puderam ser aproveitadas. Como a minha ideia de banda sempre foi punk, elas são assim (risos). Quando começamos a tocar juntas (Bruna, Beta e eu), conversamos sobre como queríamos soar e compomos a partir de um riff que alguém mostra. Uma cria um riff a outra ja pensa na base, a Beta já vai montando a bateria. E as outras 3 músicas saíram dessa forma, colaborativa, por assim dizer. As letras nesse EP foram escritas por mim, mas sempre tem uma ideia ou outras que elas contribuem, tipo “essa palavra não é legal e se você usasse essa outra?”. É tudo muito simples nas composições, nenhuma de nós tem formação musical. Quer dizer, a nossa formação é da prática. Das bandas que a gente foi tocando desde a adolescência.

– Vocês são uma banda recém formada. Como serão seus próximos passos?

A gente quer tocar. Temos shows em Brasilia e Goiânia esse fds, e semana que voltamos pra tocar em SP. A ideia é tocar em todo lugar que for possível, e ao mesmo tempo vamos compondo novas músicas (já temos músicas novas inclusive). Queremos gravar um disco cheio em 2020. Mas é só a ideia ainda.

– Me conta mais sobre essas músicas novas!

Temos uma música pronta que já estará no set dos nossos próximos shows. Ela chama “O Que Nos Assombra” e é sobre como todos temos alguns medos e que às vezes, o único medo de uma mulher é andar sozinha a noite. E temos outras duas que ainda nos falta tempo pra finalizar, já que temos nossos empregos e estudos etc.

– De onde surgiu o nome da banda?

O termo é da astrologia. (grosseiramente explicando) quer dizer que um planeta está na posição mais favorável possível para que suas características se revelem em determinado signo.

– E o horóscopo é algo importante para vocês?

Olha, não posso negar que acho a astrologia interessante, mas não é algo de que eu me ocupe muito. O nome da banda a gente escolheu porque achou que seria um bom nome, nem tanto pelo significado. A baixista da banda é mais ligada a essa questão. A baterista da banda odeia a astrologia.

– Como vocês se conheceram?

Eu e a Roberta nos conhecemos na adolescência, nos anos 90. Ela morava em Brasilia e eu em Itapevi/SP. Eu tinha uma banda punk e ela fazia fanzines e começamos a trocar cartas. Somos amigas desde então. A Bruna eu conheci em 2009 quando ela organizou em Juiz de Fora um festival chamado “Mulheres no Volante”. Ela convidou a banda que eu tocava na época pra tocar lá. Em 2018 eu chamei a Bruna pra tocar comigo e a Roberta, e foi assim que as duas se conheceram.

– Como você vê a cena independente, especialmente a punk, hoje em dia?

Eu acho que o punk hoje tá sendo movimentado pelas mulheres. O punk sempre foi sobre transgressão e resistência porque era uma manifestação dos jovens das periferias; a partir do final dos anos 90 o mercado engoliu o punk e começou a vender um monte de moleque branco classe média totalmente descolados dessas duas ideias (transgressão e resistência). O público mudou também. Hoje temos bandas importantes de homens e de mulheres que resistiram as investidas do mercado, mas quem mais tem ao que resistir são as mulheres, porque mesmo nos meios ditos libertários as mulheres ainda precisam se defender de posturas machistas, então isso acaba sendo tema pras músicas, essa é a resistência. Tem bandas incríveis de minas pelo Brasil todo (nos anos 90 quando comecei a tocar tinha meia dúzia). A maioria das bandas que a gente ama hoje em dia é formada por mulheres, ou tem mulher na formação como o Rastilho e o Manger Cadavre (SP). No Ceará tem a Afronta, em Alagoas a Räiva, em Minas Gerais tem as Miêta e as Bertha Lutz. Tem também as bandas de São Paulo que são amigas muito queridas (Bioma, Sapataria, Ratas Rabiosas, Cosmogonia, In Venus e Bloody Mary Una Chica que é a Mari Crestani que também é guitarrista das Mercenárias – banda paulistana muito importante pras minas todas). A internet tem ajudado as bandas a lançarem e divulgarem o próprio material, hoje o rock não é mais atraente pro mercado e acaba que quem tá nessa hoje tá pela ideia; pelo amor que sentem pela música e pela vontade de transmitir alguma coisa positiva. Por fim, posso dizer que a cena das minas está incrível, hoje temos mulheres muito próximas que nos inspiram a tocar. Antes a gente pensava em guitarristas legais e pensávamos sempre em algum homem, geralmente da gringa. Hoje minhas ídolas são pessoas com quem posso tomar um suco antes do show. Amamos esse momento.

– Que artistas e bandas você citaria como influências no seu som?

Longstocking e Team Dresch são nossas maiores referências. Na verdade, acho que as bandas dos selos Chainsaw Records e Kill Rock Stars são nossas maiores referências pra fazer música. Mas gostamos individualmente de determinadxs artistas que nos influenciam em cada instrumento. A Roberta e eu viemos de uma tradição hardcore que não conseguimos muito esconder (risos). Gostamos bastante de Boysetsfire, Alkaline Trio e Mineral. A Bruna vem de uma linha mais “bandas de minas anos 90”, ela gosta muito de Hole e sobretudo de Sleater Kinney.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Gosto muito de algumas cantoras que não tocam punk, mas que pra mim são punks na postura, como a Luiza Lian e a Iara Viana (Quintal de Iaiá e Bloco Siga Bem Caminhoneira). Além das bandas que citei quando falei da cena punk, gosto muito da Marina e os Dias (Sorocaba), Sisters Mindtrap (Donna Kether é uma das minhas guitarristas favoritas da vida), gosto das Paltax, da Argentina; gosto muito do Mudhill, uma banda bem , anos 90 (risos), que nasceu de outra banda que eu amava na adolescência, o Shed. Inclusive, o Jorge Kuriki, que assina a arte da nossa capa, também fez capa pro Shed. É uma honra. Gosto de Horace Green, Xavosa, Trash no Star, Olympia Tennis Club e Clandestinas (Jundiaí).