O transcender do habitual de Marina Iris em “Voz Bandeira”

O transcender do habitual de Marina Iris em “Voz Bandeira”

26 de dezembro de 2019 0 Por Vítor Henrique Guimarães

Não é comum ouvir um violoncelo insurgindo nos primeiros minutos de um samba. Quando rola uma dessas os olhos arregalam na hora. E logo logo você entende a que a proposta dos minutos que se seguem (são 33 deles) é realmente essa: transcender o habitual. Até porque também não é habitual ouvir Elisa Lucinda citando trecho de “Quarto de Despejo”, um dos livros mais importantes da Literatura Brasileira, da autora Carolina de Jesus, nem mesmo uma música com poema autoproclamado de Conceição Evaristo.

“Voz Bandeira”, lançado pela Joia Moderna, é o terceiro disco da sambista carioca Marina Iris, o segundo em dois anos (ano passado ela lançou o Rueira). É o nome também da primeira faixa do álbum. É também a definição que um Leandro Vieira, carnavalesco da campeã Mangueira nesse ano, deu à voz da cantora há alguns meses: “Nada nem ninguém falta na ‘voz bandeira’ de Marina Íris. Em sua dicção está o Brasil. Mora no som que suas cordas vocais emitem os pretos e as pretas, os manos e as manas, o asfalto e a favela, a dor e o carnaval. O bonito e o feio, Em sua voz mora um grito de mulher. Em sua voz potente habita a voz de tantos”. Para ele, é como se a voz de Marina fosse força que carregasse as vozes que precisam ser escutadas nesse momento sociopolítico brasileiro. “Voz Bandeira” é, portanto, um disco político, como tantos outros sambas de grande importância pro povo marginalizado.

A voz ganha corpo e referenciais geográficos em “Travessias”, que aponto aqui como uma das melhores e mais importantes músicas do ano. Mais abraçado pelo samba triste e com percussão menos pulsante, Marina fala de corpos periféricos que estão sempre na necessidade de movimento, sempre na iminência do perigo; corpos que não podem sentir o pesar, pois estão sempre vulneráveis, mesmo que não tenham escolhido isso. “Não chora / querer não queria / mas a travessia é nosso lugar”. É nessa música que Elisa Lucinda surge com sua voz rouca e acolhedora citando Carolina de Jesus: “Nós, quando estamos no fim da vida, é que sabemos como a vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro”. E se você já tava triste antes por causa do arranjo, agora você contraria Marina e, de fato, chora. Porque vida de preto é essa eterna travessia feita à força, tal qual 200 anos atrás.

Uma outra força literária foi convocada pra esse álbum. Ana Maria Gonçalves, autora do romance “Um Defeito de Cor”, cita o trecho de sua obra que narra o conflito do nome na vida de Luisa Gama / Luisa Mahín / Kende, percursora da literatura e do feminismo negros. O fato de Luisa ser o nome aceito pelos brancos e Kende ser o nome que ela chamava a si mesma acaba por fazer refletir muito sobre as expectativas e as realidades em relação ao um corpo negro, algo que perdura até os dias de hoje. “Mesmo quando adotei o nome de Luiza por ser conveniente, era como Kende que eu me apresentava ao sagrado e ao secreto”, ela usa pra fechar o interlúdio.

Fabiana Cozza é a convidada da quarta faixa, “Velha Senhora”, uma homenagem à orixá Nanã Buruquê. Depois de três pancadas, a devoção acaba por trazer leveza tanto na homenagem quanto na sonoridade digna de música da Luedji Luna. Já em “Carnaval de Rua”, o samba volta firme e volta dengoso, cheio de amor pra declarar. Pandeiro e violão fazem o casal perfeito para a perfeição enxergada pelos olhos de Marina: “Você / meu gole de cerveja / meu pedaço de samba esquecido na boca” – não dá pra ser muito melhor que isso.

E daí Marina nos rende com uma agradável surpresa: uma versão de estúdio e fora-da-Sapucaí de “História pra Ninar Gente Grande”, o samba campeão da Mangueira de 2019. E como em serviço não se brinca, a convidada da faixa foi a Leci Brandão. As duas alternam belamente as vozes contrastantes e lembram porque esse é o Novo Hino Nacional Brasileiro, com lembranças de sobra a Marielle Franco.

Mais um interlúdio vem com “Da Calma e do Silêncio”, poema de Conceição Evaristo, declamado pela própria. Um texto que fala do que vem antes da voz, de onde ressona a memória, do que motiva o andar. Acaba que ela introduz bem a faixa que segue, “Oito Fitas”, música de Fatima Guedes e que já tem performance até de Elis Regina. “Esses tempos não tão pra ninharia / Não fosse a vez daquele outro ia”, diz a música permeada por religiosidade e carregada de tristeza, tão atual quanto a verdade que segue não rimando.

Elisa Lucinda volta ao disco lembrando Nelson Mandela – em “Mandiba”, apelido do ex-presidente sul-africano, logo antes de duas das faixas mais políticas do disco. “Mana que Emana”, com participação de Marcelle Motta, fala da beleza da sororidade negra: “a mana que emana o cheiro e a pele brilha / de longe sou jangadeira e ela é uma ilha”, canta Marcelle, enquanto Marina brada “dança enluarada / mana, você espalha o sal pro mel nascer”. Já a abertura de “Pra Matar Preconceito” vem com pé na porta falando de racismo e hipersexualização da mulher negra: “Na rua me chamam de gosta / e um gringo acha que eu nasci pra dar / no postal mais vendido em qualquer loja / tô lá eu de costas contra o mar”. E da mesma forma que abriu o disco levantando sua voz bandeira, ela assim termina lembrando de tantas outras que vieram antes e renasce tantas em uma só voz.

E é lindo ver isso por diversos motivos que vão além da demonstração do talento de tanta gente preta envolvida. Porque talento a gente tem e a gente sabe disso. Mas é bonito ver algumas narrativas sendo contadas com tanta sinceridade e poesia; é lindo ver gente preta valorizando trabalho de gente preta, todo mundo subindo junto, bem ubuntu. É emocionante, mesmo que também de uma maneira triste, ver algumas verdades infelizes estampadas em músicas. Logo a música que conecta tanta gente, que ajuda a passar tanta mensagem foda. Logo o samba, música tão preta. E talvez por isso tudo seja tão importante ter Marina Iris como uma de suas vozes bandeira.

O disco faz parte do projeto Joia Ao Vivo (@joia.aovivo), curado pelo DJ Zé Pedro e pelo Marco Debellian, onde os discos são gravados em estúdios e depois os shows são transmitidos pela internet. Fiquem ligados nas redes sociais pra saber o que mais vem por aí – posso garantir que vai vir coisa boa!