“O rock precisa ficar estranho novamente e se desenvolver longe dos holofotes”, diz o duo The Midnight Barbers

The Midnight Barbers

“Eu não acho que o rock’n’roll deve estar sempre no topo”, diz a dupla The Midnight Barbers, de Chelmsford, Inglaterra. Para o duo Ben Rowntree (guitarra, gaita e vocal) e Jack Pepper (bateria), é hora do rock se esconder em alguma caverna, brincar com as sombras e se reinventar, ou como eles definiram, “ficar estranho novamente”. A banda começou a se apresentar em 2015 e já lançou três músicas: “Business”, um indie rock clássico, “Damascus”, um pouco mais lúgubre e sombria (que ganhou um clipe) e “Oh Maddie”, mostrando que os rapazes também sabem se divertir. E já começaram bem, ganhando uma bela frase cunhada pela NME sobre eles. “Rock encharcado de whisky”, disseram. Hoje, Ben e Jack trabalham em seu primeiro disco, gravado nos lendários Abbey Road Studios.

Conversei com a novíssima banda sobre sua carreira, o rock fora das paradas de sucesso e suas músicas:

– Como a banda começou?
Nós estávamos fazendo uma jam com um tom quebrado e uma guitarra barata. Nos divertimos tanto que decidimos que é assim que deve ser. Era estranhamente libertador trabalhar com esses elementos básicos.

– Por que o formato duo é tão popular no rock hoje em dia?
Para nós ele é mais livre e divertido. Nós somos amigos desde que éramos crianças, sempre fazendo música, então crescemos juntos musicalmente e temos o nosso próprio idioma praticamente, o que torna muito mais fácil do que se estivéssemos em uma banda com alguém que não fosse assim tão próximo. Isso também significa que a nossa música não é comprometida como poderia ser se houvesse quatro ou cinco pessoas, todas puxando em diferentes direções.

– Falem um pouco sobre o material que vocês já lançaram até o momento.
Até agora lançamos apenas três faixas, duas (“Business” e “Damascus”) como singles e uma (“Oh Maddie”) para download gratuito. O escopo das canções era o mais importante. Nós não queríamos ficar rotulados, de modo que cada uma tem uma sonoridade bastante individual. “Business” é o mais tradicional indie. “Damascus” é um pouco mais escura e mais pesada, com um pouco de Nick Cave ou Tom Waits, enquanto “Oh Maddie” registramos para rolar pouco de diversão. Nós tínhamos ouvido Kanye West e queríamos fazer algo estranho como “Black Skinhead”. Basicamente, queríamos nos manter livres de restrições o tanto quanto possível, especialmente com nosso LP de estreia gravado na Abbey Road estando ficando tão bom.

– Como vocês definiriam seu som?
O único fator limitante real são os instrumentos que tocamos – bateria, gaita, vocais e guitarra – mas metade da diversão está em ver o que podemos fazer com essas ferramentas simples e muito usadas. É um pouco como Lego – a partir de um punhado de blocos podemos construir o que queremos, e o que queremos é geralmente enérgico, um pouco estranho, com letras que muito frequentemente contam uma história.

The Midnight Barbers

– Quais as suas maiores influências musicais?
Há fundações musicais que você não pode escapar se você está vivendo nesta cultura. Blues. Música pop. Hip Hop. Todas essas coisas boas. Mas o que nós tendemos a pegar vem a partir das pessoas que admiramos, pessoas como Bob Dylan, Leonard Cohen ou mesmo Kendrick Lamar, é uma abordagem para fazer música talvez, mais do que um literal ‘eu quero copiar esse som’ e esse tipo de coisa. Esses caras parecem destemidos. Eles fazem o que precisam fazer, o que devem fazer.

– Qual é o melhor e a pior parte de ser uma banda independente?
A liberdade é a melhor coisa. O pior, que é uma faca de dois gumes, é não ter a instituição ou mesmo o dinheiro atrás de você para levar a sua música para tantas pessoas quanto você gostaria.

– Recomendem algumas bandas e artistas (especialmente independentes!) que chamaram sua atenção recentemente.
Embora não seja estritamente independente, a nossa amiga Misty Miller está lançando seu primeiro álbum em menos de quinze dias. Fomos em turnê com ela no ano passado que foi muito divertido. No lado independente das coisas há algumas bandas locais que definitivamente valem a pena dar uma olhada. Mandeville são um quarteto de garage rock. Fomos ao casamento de Jack (vocal/guitarra) e Caroline (bateria/vocal) há algumas semanas e a banda tocou na recepção e Caroline tocou de vestido de casamento, o que foi muito legal. Muertos são uma banda de garage psych com quem temos tocado um monte de vezes e eles são um grupo ótimo. Eles têm um novo single chamado “Black Box”.

– Por que é rock tão longe de paradas de sucesso hoje em dia?
É possível que a indústria tenha sofrido uma batida na confiança e não tenha devidamente se recuperado do impacto da revolução digital e como isso mudou os hábitos de consumo e seus modelos de negócios. Um resultado disso é que as empresas são menos propensas a assumir riscos sobre as pessoas e desenvolver vozes originais e, portanto, o que está rolando hoje poderia ser visto como seguro e sem inspiração. Quem vai ajudar uma banda ou artista arriscado e estranho quando é muito mais fácil de agarrar alguém que fez uma bem-sucedida cover no Youtube de uma canção da Adele, por exemplo, onde há muito menos risco e as estatísticas são boas? E não é apenas no rock. Mas a música – música de verdade, rock ou não – é vocação. Você faz isso porque você deve, não porque é uma forma particularmente sensível para ficar rico, famoso ou estável.

The Midnight Barbers

– Como o rock and roll pode chegar ao topo de novo?
Eu não acho que o rock’n’roll deve estar sempre no topo. Realmente ele deve ir para o fundo da caverna e brincar com fogo e sombras, ficar estranho novamente e encontrar algo novo e vital dentro de si mesmo ao invés de copiar a última estética que se tornou popular. Ele precisa fazer algo novo e se desenvolver longe dos holofotes pode não ser uma coisa tão ruim. Por outro lado, há muito a ser encontrado fora do rock’n’roll, com a mesma energia que o rock já teve, o que dá às pessoas uma sensação de liberdade e alegria.

– Como é o seu processo criativo?
Você faz música de que você está sentindo com mais intensidade no momento. Então você desenvolvê-la, tocar ao vivo, fazer uma demo, esquecê-la, recordá-la, e continuar pressionando. Estar confortável é uma coisa perigosa. Você pode nunca estar totalmente satisfeito com o que você fez ou criou. Como um tubarão, você deve se manter nadando.

– Se você pudesse trabalhar com qualquer um na indústria da música, quem seria? Por quê?
A Orquestra Juvenil da Venezuela. Poderia fazer algo divertido com isso. Produzido por Terrace Martin, que fez ‘To Pimp A Butterfly’, com as cordas arranjadas por Owen Pallet, que fez as cordas para o mais recente disco do Last Shadow Puppets. E se pudéssemos colocar Pharrell e Josh Homme na mesma sala, excelente.


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