O retorno de saturno de “Loveless”, do My Bloody Valentine

O retorno de saturno de “Loveless”, do My Bloody Valentine

5 de novembro de 2019 0 Por Luiza Padilha
Há 28 anos, no dia 04 de novembro, era lançado o disco que ocupa o topo do pilar do shoegaze: Loveless”, de My Bloody Valentine. Não há o que se possa discutir sobre a soberania desse álbum pois ele é, de fato, o principal disco do movimento, que transmite o estilo e que influenciou inúmeros outros álbuns que vieram posteriormente.
Levando-se pelo sentido literal, pode-se dizer que o shoegaze nasceu muito antes, pois muitos são os introvertidos que tocam olhando para os pés. Mas o marco inicial do movimento se deu quando o My Bloody Valentine lançou seu primeiro álbum, “Isn’t Anything”, de 1988, que não conseguiu ter o mesmo sucesso que seu sucessor, lançado em 1991.


Em “Loveless”, o grupo irlandês mostra fortemente suas influências: soa como se uníssemos o Jesus and Mary Chain ao Cocteau Twins. Muito barulho, muita distorção e vocais melódicos carregados de reverb, o que impossibilita de entender o que está sendo cantado (a não ser que você tenha um ouvido absurdo, o que, nesse nível, é totalmente admirável).


Usar o barulho como arte, como melodia, era algo estudado pelos eruditos – assim como o silêncio total, vide a peça “4’33””, de John Cage. O barulho também pode ser usado como maneira de manifestar sentimentos, de ocupar, de fazer barulho a fim de causar incômodo. Dentro da música pop, mesmo que o Jesus and Mary Chain tenha lançado o “Psychocandy” em 1985, é nítido que o barulho melódico destacou-se a partir do “Loveless”.


Nunca vou me esquecer da sensação que tive quando ouvi esse álbum pela primeira vez: era como se eu tivesse sonhando, como se sentisse saudade de algo que nunca vivi, mas que era quase palpável. Muito disso se explica quando observamos a forte influência do dreampop dentro do álbum.

Obsessividade também define o nosso querido disco da capa rosa, que foi gravado em quase 20 estúdios e que custou quase 250 mil libras, o que levou a gravadora Creation à falência. Foram semanas dedicadas apenas a um riff e horários bizarros para as gravações. Mesmo assim, toda obsessão de Kevin Shields se transformou em uma peça icônica, que dificilmente será superada por outro álbum pois, de certa maneira, fez-se pioneira. Vida longa ao Loveless, ao barulho e às diferentes maneiras de compor melodias.