O Nó une psicodelia, rock progressivo e influências de música brega em seu primeiro EP

O Nó une psicodelia, rock progressivo e influências de música brega em seu primeiro EP

18 de janeiro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

No final de 2015, o grupo O Nó lançou seu primeiro EP, “EP1”, inspirado no rock progressivo nacional dos anos 70 e na música pop brega de rádios como a Alpha FM e Antena 1. Nas cinco faixas do lançamento, ouve-se ecos de bandas como O Terço, Tame Impala, Casa das Máquinas, Milton Nascimento e King Crimson, além da presença de synths histéricos e das guitarras épicas comuns em músicas consideradas “cafonas”.

Formada por Alexandre Drobac (guitarra), Matheus Perelmutter (sintetizadores), Rodolfo Almeida (baixo) e Mateus Bentivegna (bateria e MPCs), a banda assume sem medo esse seu lado “brega”. “Nós temos como visão de brega aquele rock de pai dos anos 70/90, algo ali entre Journey e Rush, de solos exagerados e brilhantes, capas esvoaçantes, luzes estroboscópicas e máquina de fumaça ou aquele soft rock de Antena 1. Não são coisas intencionalmente bregas, mas que hoje a gente consegue escutar e achar engraçado de tão histérico e dramático que era, mas ainda assim gostar ao mesmo tempo, porque crescemos ouvindo isso e tem um apelo muito forte”, explica Rodolfo. ” Queremos fazer uns shows com capa e glitter”.

Conversei com a banda sobre seu EP e a carreira do grupo, além da sua inusitada mistura de estilos e influências:

– Me falem um pouco mais sobre o novo EP.

Rodolfo: Esse EP é fruto de um processo de quase um ano ensaiando, experimentando e definindo a identidade do nosso som. Nós compomos razoavelmente devagar porque sempre fazemos tudo junto — levamos as ideias de riffs e progressões pro estúdio e vamos avançando na música aos poucos ao invés de alguém já chegar com uma composição pronta e a gente arranjar — então essas cinco músicas foram o resultado desse processo longo de experimentação e refletem mais ou menos a visão que temos pra banda até agora.

– De onde surgiu a ideia de unir rock progressivo com música brega/cafona? O que os estilos têm em comum?

Rodolfo: Acho que com um olhar de jovens nascidos nos anos 90, muita coisa. A abordagem que entendemos como brega não é tanto o brega nacional de Odair José e Amado Batista, daquela figura do cafajeste romântico de um Sidney Magal (que nós nem vivenciamos ou conhecemos muito). Mas sim a visão que nós temos de brega como aquele rock de pai dos anos 70/90, algo ali entre Journey e Rush, de solos exagerados e brilhantes, capas esvoaçantes, luzes estroboscópicas e máquina de fumaça ou aquele soft rock de Antena 1.

Não são coisas intencionalmente bregas mas que hoje a gente consegue escutar e achar engraçado de tão histérico e dramático que era, mas ainda assim gostar ao mesmo tempo, porque crescemos ouvindo isso e tem um apelo muito forte. E acho que os timbres que usamos, os synths e principalmente a roupagem estética que demos ao EP (as cores da capa, o brilho) embalam a música com esse exagero que fica inserido dentro das outras referências que temos, de música eletrônica, synthwave, jazz, enfim, internet. Queremos fazer uns shows com capa e glitter.

– Como a banda começou?

Rodolfo: A banda começou pelo nosso gosto em comum por música psicodélica e indie. Eu e o Alexandre conversávamos direto em festas sobre formar uma banda e já tínhamos tocado algumas vezes juntos. Ele chamou o Mateus pra tomar conta das baterias, eu comprei um baixo e começamos a tocar. No começo estávamos bastante voltados pra um som mais sessentista tradicional, tocávamos uns covers de Milton, Paul Mccartney e também Tame Impala, que era o som que estava mais próximo de nós que mantinha esse espírito. Lançamos uma “demo” (que na verdade são gravações de celular dos ensaios) e chamamos o Matheus pra tomar conta dos synths. A partir daí abriu uma infinidade de possibilidades que nós curtíamos e o som começou a ter a cara que ele tem hoje, com os synths exercendo um papel muito grande nas músicas. Começamos a escutar mais também do prog nacional de Karma, O Terço, Casa das Máquinas, etc. e vimos que se tinham bandas aqui fazendo músicas com umas estruturas muito esquisitas a gente também podia e aí misturamos isso com todas as coisas que escutamos.

Alexandre: A banda começou no final de 2013 comigo, o Rodolfo e o Mateus. Nós três já nos conhecíamos por frequentarmos muitas vezes os mesmos rolês. Aí logo em seguida que a gente começou a ensaiar surgiu uma chance de tocar no Espaço Cultural Walden, ali na República. Meio na pressa a gente criou umas cinco músicas a partir de algumas ideias e de algumas letras que já tinhamos escrito. Esse nosso primeiro show se resumiu à essas músicas que acabaram se tornando a nossa primeira demo, muito diferente do nosso primeiro EP. Quando o Matheus entrou na banda – no segundo semestre de 2014 – a gente decidiu deixá-las de lado e criar coisas novas, por que não fazia sentido tentar adaptar um novo instrumento dentro daquilo que a gente já tinha feito.

– De onde surgiu o nome O Nó?

Rodolfo: Cara, o Mateus queria que chamasse Zahir por causa do conto do Borges, eu queria que chamasse Casa Tomada, por causa do Cortázar, e entre mil e um nomes numa conversa de facebook chegamos n’O Nó por unanimidade, provavelmente por causa da sonoridade, só por isso. Agora o artigo confunde as pessoas que querem chamar “A Nó” ou “Banda Nó” mas tudo bem, todos os jeitos tão certos (risos).

Alexandre: O nome O Nó surgiu na véspera do nosso primeiro show em 2013. A gente precisava de um nome pra poder tocar lá no Walden. Aí cada um da banda começou a sugerir um monte de nome e no fim chegamos à esse. No fim, gostamos do nome pelo fato de ser legal de trabalhá-lo gráficamente e também pela facilidade da sua pronúncia.

– Quais são suas principais influências?

Rodolfo: Olha, a gente é meio rato de soulseek e escutamos muita coisa. Agora o que disso se traduz no nosso som provavelmente são coisas como Tame Impala, Neon Indian e Milton Nascimento, eu acho.

– A música pop hoje em dia é brega? Com artistas em alta que bebem muito da fonte de Amado Batista, Genival Lacerda e Odair José, podemos considerar que o brega hoje é chique?

Rodolfo: Acho que a música pop é brega no sentido de brega que ela sempre foi. Sentimental, exagerada, dramática. Mas acho que esses artistas que bebem dessa fonte, sei lá, a Bárbara Eugênia, tá mais interessada em ressignificar esse universo do que fazer uma homenagem ou um revival. Acho que o brega hoje é ouvido assim como se escuta o que é mais cabeçudo, hermético e experimental e isso é ótimo. O pop tem produzido muita coisa boa e não tem que ter vergonha de ser brega.

– O Brasil já teve diversas bandas de rock progressivo e psicodélico ótimas desde os anos 70, mas nenhuma estourou. Porque vocês acham que isso ocorreu? Hoje em dia existe essa possibilidade?

Rodolfo: Hm, não sei dizer. Por um lado o Milton é um exemplo de alguém com uma carreira que partiu do prog, entra na MPB e em mil e uma coisas diferentes e que nem precisa dizer que é um ícone musical pro país. O Alceu também, os Mutantes a mesma coisa. Existem casos de bandas que estouraram e acho que isso é sim possível de acontecer hoje em dia, como rolou com o Boogarins, que alcançou um puta prestígio internacional. Acho que aquelas bandas mais obscuras, sei lá, Recordando o vale das maçãs, Ave Sangria, etc. hoje tem um nicho que ainda segue e músicos que continuam muito respeitados e não tiveram um sucesso mainstream porque talvez nem fosse a intenção deles. E se fosse, acho que só hoje pra músicas de 8 minutos com estruturas bem quebradas alcançarem um sucesso razoável no mainstream.

O Nó

Foto: João Pedro Nogueira

– O rock no Brasil é considerado um nicho difícil de se trabalhar, hoje em dia?

Rodolfo: Em termos de trabalho é difícil dizer, até porque não vivemos disso e temos outras ocupações, estudos, enfim e também porque O Nó é uma banda de rock por acidente. Não nos vemos como rockeiros e escutamos o máximo daquilo que esteja fora desse universo. Mas eu pessoalmente tenho a impressão de que já foi mais difícil. Até no mainstream, coisas como Superstar, banda Malta, Scalene, etc, querendo ou não acostumam o publicão a ter contato com rock. E no independente então nem se fala, o tanto de coisas acontecendo, de selos, de casas de show, de circuitos abrindo espaço pra bandas de todos os tipos (e aí é até legal que o rock as vezes seja secundário porque tem muita coisa mais interessante rolando em outras áreas) facilitam muito o trabalho de quem quer fazer música por trabalho ou por hobby.

– Quais são os planos d’O Nó para 2016?

Rodolfo: Queremos nos dedicar um pouco mais no processo de composição pra fechar no primeiro semestre uma quantidade de músicas pra pensarmos em álbum. Se tudo der certo fazemos uns shows pra levantar uma grana pra gravar no segundo semestre e no meio do caminho fazemos uns clipes, soltamos uns singles, não sei. Queremos seguir.

– Indiquem bandas e artistas (se possível, independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Rodolfo: A gente curte muito o Boogarins, o Cidadão Instigado, que pra mim pessoalmente é uma puta referência, a Ava Rocha diva, toda a galera da Vanguarda paulista, o Quarto Negro, Séculos Apaixonados, Bike, Terno Rei, Raça, enfim, esse ano foi foda de música boa, especialmente nacional. Tudo chama a atenção.