O multi-homem Rubens, do Mescalines e Mustache & os Apaches, mostra suas “filantrópicas” músicas solo

O multi-homem Rubens, do Mescalines e Mustache & os Apaches, mostra suas “filantrópicas” músicas solo

9 de novembro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Provavelmente você já ouviu um pouco do trabalho de Rubens Vinícius, seja quebrando tudo com a guitarra no duo instrumental Mescalines ou se revezando no bandolim, lap steel, dobro, guitarra e voz no grupo Mustache & os Apaches. Pois agora ele está se aventurando em um projeto solo, disponível no Soundcloud, com músicas autorais como “Durepóxi” e “Existe Um Cachorro Faminto Em Minha Barriga”. “Acho que meu trabalho solo é minha essência, propriamente dita, algo que sempre me acompanhou, que gira em torno da poesia e do meu ser”, explica.

Em breve teremos o primeiro álbum solo do bandoleiro, que já também pode ser conhecido pelo nome Jack Rubens. “Vou entrar em estúdio próximo mês, acompanhado do meu violão e com esse companheiro pegar a estrada sempre que puder”, conta.

Conversei com Rubens sobre seu projeto solo, seus outros projetos, um pouco mais sobre as músicas disponíveis em seu Soundcloud e o cenário independente do Brasil:

– Como você começou sua carreira?

Lá na terra onde nasci até hoje imperam os festivais de música nativa, gaúcha. Então cresci ouvindo “La Guitarra” e Bombo Leguero. No mais, comecei a tocar junto com um tio meu que sempre levava o violão nas reuniões de família. Formei minha primeira banda de rock com uns 15 anos, se chamava Olhos Rebeldes.

– Pois é, você teve (e tem!) diversos projetos. Me fale um pouco deles.

Depois de ter passado por São Paulo a primeira vez, toquei numa banda chamada X Galinha em Porto Alegre. Depois fui pro Rio onde comecei a tocar bandolim nas ruas e recrutei uns amigos pra formar o Sopro do Inferno que depois virou Jack Rubens & os Vagabundos Iluminados. Nome inspirado nas caronas que pegava com frequência. Depois de 4 anos no Rio, vim para São Paulo, com a roupa do corpo e o bandolim, que me levou até o Mustache & os Apaches. De lá para cá, já estou na produção do 3º álbum dos Apaches , do 2º dos Mescalines, duo instrumental, e do meu 1º.

– Como as outras bandas desencadearam seu trabalho solo e como ele difere delas?

Acho que meu trabalho solo é minha essência, propriamente dita, algo que sempre me acompanhou, que gira em torno da poesia e do meu ser. No Mustache & os Apaches é polivox, cada um cumpre uma função em determinada música e é divertidíssimo, ora fazer backing, ora arranjar com guitarras e bandolins, ora cantar em uníssono, sem contar quando vamos pra rua, que é sempre uma aventura muito boa. Já nos Mescalines é um duo instrumental onde eu tenho total liberdade nas cordas e o Mario na percussão, nos permitimos a improvisar um monte, é meu trabalho mais selvagem, onde tento explorar novas caminhos dentro do Blues e das afinações abertas na guitarra.

– Me fala um pouco mais do material que você já lançou como artista solo.

Eu ainda não lancei nada de relevância, engavetei um disco ainda como Jack Rubens. O processo todo demorou muito, fiquei sóbrio e vi que não era um material bom pra se lançar. As faixas no Soundcloud são produções caseiras, coisas espontânea que compus inspirado pelo momento político de poucos tempos pra cá, como jornalismo.

Rubens

– Me fala um pouco mais de cada uma delas.

Ah, tem “Durepóxi” e “Existe um Cachorro Faminto na Minha Barriga”, canções também espontâneas pra minha musa. “Durepóxi” já vem sendo tocada nos shows do Mustache & os Apaches, e “Existe um Cachorro Faminto na Minha Barriga” provavelmente estará no meu álbum e no dos Apaches. “Existe um Cachorro Faminto na Minha Barriga” foi composta na primeira noite em que dormi com minha musa, minha barriga começou a roncar e não tinha nada pra comer em casa. “Durepóxi” veio dessa vontade de estar amarrado na pessoa amada. “Caixa de Sapato” foi de quando morava num apê de 18m² e da época de ocupação do Parque Augusta, quando veio à tona a discussão sobre especulação imobiliária. A “Febre da Burguesia” eu fiz na noite em que o Dória foi eleito e me imaginei na pele de um político empresário. “Terra de Ninguém” fala sobre reforma agrária, na época em que ouvia muito Woody Guthrie.

– Quais as principais influências musicais do seu trabalho solo?

São inúmeras as inspirações além do campo musical e da poesia, mas vão de Blind Willie Johnson, Fela Kuti, Dorival Caymmi, Atahualpa Yupanqui, Maikovski, Bolívar

– Como você definiria seu som?

Filantrópico.

– Como você vê a cena independente brasileira hoje em dia?

Eu vejo que de uns anos pra cá uma grande teia vem se construindo, unindo coletivos de capitais com interiores, também está rolando uma interação maior entre artistas de várias áreas e também entre ativistas de várias áreas, movimentos culturais, políticos etc. A ocupação dos espaços públicos deu abertura ao diálogo e ao avanço de ideias e ideais. Até as empresas, oportunistas, de uns tempos pra cá vem querendo associar suas marcas à artistas de rua, seja no grafitti ou na música de rua. O lado bom que é o financeiro, mas o perigo é que a arte pode ser adestrada.

– Esse negócio de “parada de sucessos” ainda é válido para um artista autoral que não seja focado no “pop”?

É mais válido para ver o que não fazer, do que o que fazer. Ainda temos as rádios e esse lance de listas em blogs, isso só alimenta o ego do artista e o faz se ensardinhar. Precisamos fazer música de um outro viés. Nos desvencilhamos das grandes gravadoras e dos grandes estúdios, mas esses ainda acabam sendo nossos termômetros e continuamos a repetir suas fórmulas para uma indústria falida.

– Então você acredita que a “queda” das gravadoras foi algo bom, certo?

Sim. Elas tiverem seus momentos de extrema importância, mas já não cabiam mais.

Rubens

– Quais os próximos passos desse projeto solo?

Vou entrar em estúdio próximo mês, acompanhado do meu violão e com esse companheiro pegar a estrada sempre que puder.

– Recomende bandas e artistas que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Eu tenho ouvido Tinariwen, Ali Farka Touré, ouvi um disco esses dias na Rádio Cultura, de Clima e Nuno Ramos, muy bueno!