“O Futuro Não Demora” de BaianaSystem e a reinvenção do passado-presente

“O Futuro Não Demora” de BaianaSystem e a reinvenção do passado-presente

18 de fevereiro de 2019 0 Por Pedro Vivas

@baianasystem

Em tempos de tanto caos, barbárie e tragédia, surge a questão – o que fazer?

Quem se preocupa com os rumos e com o choro que não passa na televisão fica perdido. Quem não se preocupa continua com o seu “silêncio sorridente diante da chacina” ou imerso “na sala de jantar ocupado em nascer e morrer”. Eu acredito verdadeiramente que um dos caminhos mais produtivos, que acalentam e que dão força é procurar as origens, o que vem de longe, o que antecede.

O movimento BaianaSystem certamente concorda com isso. Na sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019, chegou às plataformas de streaming e mostrou-se ao mundo o disco “O Futuro Não Demora”. Um disco que fala do futuro, mas que pra olhar pra frente, olha para o que vem de longe, elementos que vêm de tempos anteriores. A tradição é peça fundamental.

São escolhas conscientes de um disco que representa um projeto. Um projeto que passa muito pelo sensorial. Um projeto que privilegia, também, o movimento, a dança. Acima de tudo um projeto de reverência aos mestres que antecedem. Um projeto que fala de sincretismos e encontros. Um projeto que se expressa em um álbum que conta histórias que se cruzam, se conectam.

Na primeira faixa, “Água”, participam Antonio Carlos e Jocafi, grandes referências do grupo, ao lado da Orquestra Afrosinfônica. Uma conexão simbólica, conversa do “Glorioso Santo Antônio” funkeado, um dos maiores sucessos da dupla, com a erudição pan-africanista da Orquestra Afrosinfônica. Nada mais adequado para começar o disco.

As participações e conversas, aliás, são indispensáveis para a construção do disco, de tal modo que se torna tarefa difícil enumerar todas. Alguns destaques:

Em “Redoma” participam as mulheres do Samba de Lata de Tijuaçu. Território quilombola em meio ao semiárido baiano de onde vem o samba da lata. A lata que era usada para buscar água virou instrumento de percussão, junto às palmas e aos cantos que foi morrer nesse samba lindo. Máquinas de ritmo simples e modernas.

Em “Melô do Centro da Terra” participa Mestre Lourimbau com seu berimbau estridente e sua voz profunda entoando as interrelações entre os profundos, o fundo do mar e o centro da terra. Um mantra. Um movimento que lembra Lugar Comum (1975), de Gilberto Gil e João Donato: “a beira do mar, lugar comum, começo do caminhar pra dentro do fundo azul”. A metáfora linda do fundo, do profundo, do mar, da terra. Uma das mais belas do álbum.

 

“No meio do centro da terra

No fundo do fundo do mar

No fundo o centro da terra

No meio o fundo do mar”

 

Outras figuras dignas de destaque são Edgar, Curumin, Bnegão, Manu Chao e Vandal, estes mais inclinados para a nova geração. Bnegão faz parceria com Antonio Carlos e Jocafi na faixa “Salve” e Edgar e Curumin participam juntos da faixa “Sonar”. Vandal, de Feira de Santana, assim como Russo, chega com sua rima incisiva, dura e imperdoável em “Certo pelo Certoh”. Manu Chao participa da faixa “Sulamericano”, com uma introdução que lembra um tango argentino, mas que vai morrer na guitarra baiana.

É possível dizer que a Ilha de Itaparica também é personagem importante desse disco, como mencionado por Russo Passapusso, entrevistado por Caetano Veloso na Mídia Ninja.  Há uma transposição do olhar da Cidade Alta e da Cidade Baixa do disco Duas Cidades (2016), para o olhar de longe, da Ilha situada no lado oposto da Baía de Todos os Santos. O olhar de Salvador agora torna-se um olhar mais distanciado, mais ou menos como pensou Saramago – para olhar a Ilha é preciso sair dela. A ironia é que foi feito o movimento inverso: foi-se para a ilha para olhar a Roma Negra de outras maneiras. Para olhar o que está no meio, o mar, de outras maneiras – por que não?

Mapa da Baía de Todos os Santos

Canções que outrora já haviam aparecido nas redes ou nas performances também ganharam versões definitivas. “Saci”, movimento infantil feito nos shows, finalmente pode figurar nas danças solitárias em casa ou nas danças de bailes, contando em sua introdução com vozes de crianças, como a canção pede! “Arapuca”, que já havia aparecido nas redes sociais do grupo em uma animação quase psicodélica, consolidou-se com seu funk-pagode de crítica política.

Em “Navio” os batuques conversam com Xangô, Django e a diáspora. O diálogo com Angola se faz presente mais uma vez, assim como houve com a angolana Titica em Capim Guiné (2017). “Sambaqui” e “Bola de Cristal” são grandes faixas, também – cada uma com refrãos/versos que se destacam. Na primeira, “Comendo com a boca e comendo com o olho” e “O futuro não é bola de cristal” – o simbolismo de um prato de comida e a noção de que o futuro está sob disputa, não é predefinido e pode ser reinventado.

Se no começo havia a “Água”, no final há o “Fogo”, mais uma vez com a Orquestra Afrosinfônica. A conclusão belíssima de um trabalho maravilhoso.

 

“O Futuro não demora

Já aconteceu, olha o que já aconteceu

Já aconteceu com você

Aconteceu comigo

O fogo que queima em você

Também queima comigo”

 

Na produção de Daniel Ganjaman, figura importantíssima do cenário musical brasileiro contemporâneo, Baiana System mais uma vez fez conexões, reverências e propôs sons únicos no Brasil atual. Baiana mais uma vez mostra que vem pra perdurar e continuar promovendo encontros mágicos; mostra que para olhar para o futuro é preciso reinventar e reverenciar o que há de bom no passado, no originário. A afirmação de que a resistência também é musical e filosófica.

O disco chega no momento certo: um acalento em meio a tantas tragédias ou quiçá o fornecimento de pistas e mantras para bater de frente com tempos de trevas. O futuro definitivamente não demora, mas as mudanças e reinvenções também não.

 

Referências e Links Extras: 

https://www.sambadelata.com/a-historia-do-povo-de-tijuacu  – A história do Samba de Lata de Tijuaçu

http://g1.globo.com/bahia/noticia/2014/07/tijuacu-e-reconhecido-como-territorio-quilombola.html

http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1747142-berimbau-global?fbclid=IwAR3WtqR9oJNUJE9qCP5tHyoj2GF46F4IcA26R4ve4k-DMpjaklkE0DrNOtw – O berimbau global de Lourimbau

https://oglobo.globo.com/cultura/musica/russo-passapusso-se-junta-em-parceria-antonio-carlos-jocafi-22076128 – Antonio Carlos, Jocafi e Russo Passapusso