O Brasil será indadido por Wild Billy James, uma raivosa “monobanda” de folk blues do Uruguai

O Brasil será indadido por Wild Billy James, uma raivosa “monobanda” de folk blues do Uruguai

24 de outubro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Sozinho, o uruguaio Wild Billy James faz uma barulheira com seu blues/folk/rock infernal. Munido de violão, gaita, percussão e um loopstation, ele mostra ao vivo todo seu talento em versões que incorporam espontaneidade e improviso aos sons de seu EP “Going Home”, lançado em 2015, além de novas músicas que em breve estarão presente em um novo lançamento.

Em novembro o dono da “monobanda” estará por aqui em sua primeira turnê brasileira. “Recentemente, tive a ideia de fazer uma turnê em diversas cidades brasileiras e aqui estou planejando minha primeira turnê no Brasil. Eu já estava em contato com algumas pessoas da cena underground, comecei a escrever e entrar em contato com mais pessoas. Todo mundo estava disposto a ajudar, de uma forma ou de outra, eu acho que é uma maneira de ser do brasileiro e é realmente grandiosa. Vai começar no dia 12 de novembro, em São Paulo, no festival “Sinfonia de Cães”. Eu vou estar tocando até o final de novembro no estado de São Paulo e então irei para o Sul, em cidades dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Será divertido!”, diz o uruguaio.

Conversei com ele sobre sua carreira, seus imprevisíveis shows, a turnê pelo Brasil e o EP “Going Home”:

– Quando você começou sua carreira?

Eu não vejo a música realmente como uma carreira, é um modo de viver para mim. Sim, eu a levo a sério, mas sem perder o divertimento. A música tem sido uma vida pra mim, na minha casa havia música sempre. Minha mãe estudou piano. Na casa da minha avó, havia um piano. Meu tio é um músico local com quem sempre aprendi muito, ele toca muitos instrumentos, eu acho que a partir daí que eu pensei na “one man band” de alguma forma. Eu ganhei minha primeira guitarra aos 16 anos depois de acidentalmente encontrar um documentário sobre Jimi Hendrix que me deixou atordoado. Assim começou minha pesquisa lá atrás, nos pântanos de blues. Peguei emprestado o álbum “20 Classic Blues” do Muddy Waters e lá eu comecei a ouvir e colecionar discos e sons primitivos de blues, rock and roll, jazz. Eu tentei formar várias bandas, mas nunca funcionou além de alguns ensaios. Lá eu percebi que tinha um longo caminho a percorrer, então eu troquei minha guitarra elétrica por um violão e gaita, comecei a tocar folk e delta blues e todos os gêneros derivados. Imediatamente eu comecei a tocar e toquei nesse formato onde eu conseguia, em minha cidade local, na rua e em pequenos lugares para poucas pessoas. Às vezes eu usava um pandeiro para acompanhar com o pé. Em 2012, quando eu tinha ainda 20 anos eu estava apenas com um violão e uma mala de viagem para Buenos Aires e lá eu continuei a melhorar o meu estilo. No final de 2013, fui convidado para abrir para uma banda em um pequeno bar e dentro de uma semana eu comecei a tocar como Billy James & his One Man Band, desde aquela apresentação não parei de tocar como uma banda de um homem só, tentando melhorar o meu estilo sempre. Há alguns meses, eu mudei o nome para Wild Billy James e a história continua…

– Quais as suas maiores influências musicais?

Deixe-me ver… Tem muitos… Todos os artistas Delta Blues: Charlie Patton, Son House, Lightnin ‘Hopkins, Bukka White, Big Joe Williams, Mississippi Fred McDowell, para citar alguns. Piedmont blues: Rev. Gary Davis, Mississippi John Hurt. Também os clássicos, você sabe: John Lee Hooker, Hound Dog Taylor, Howlin ‘Wolf, Muddy Waters… A lista é longa. O estilo de bluesman “north Mississippi hill country blues”: RL Burnside, Junior Kimbrough, Robert Belfour. Artistas da África como Ali Farka Touré, Bombino, Tinariwen. Gravações de Alan Lomax: ”Field Recordings”. Primitive rock and roll, soul music, gospel. E sobre alguns artistas mais atuais, teria de dizer Guadalupe Plata, Lonesome Shack, Tom Waits, Seasick Steve, Soledad Brothers, Dan Melchior, Billy Childish. E também artistas da cena “monobanda”, eu tento ouvir a todos.

– Como você decidiu que seria uma one man band?

No meu caso eu não decidi, foi algo que se deu naturalmente. Eu comecei a tocar quase imediatamente quando eu mudei a guitarra elétrica para o violão e uma gaita. A ideia de ter uma banda foi excluída da minha cabeça naquele momento… Eu percebi que não tinha necessidade de contar com mais pessoas para fazer a música que eu queria e levar as minhas ideias ao público. Isso foi em 2010, 2011. Eu já sabia do movimento de One Man Bands e em 2012 isso foi fundamental para eu conhecer e assistir ao vivo The Amazing One Man Band, uma referência na cena. Quando falei com ele, disse que eu estava tocando blues e folk e ele me incentivou a colocar um bumbo e ir em frente com isso. Tocar juntos pela primeira vez no domingo, 23 de outubro, no Uruguai. No final do mês tocamos no Festival Monobanda do Uruguai que estamos organizando, somos 6 “monobanders” incluindo a The Amazing One Man Band. A ideia ficou na minha cabeça até Novembro de 2013, quando me apresentei como One Man Band/Monobanda pela primeira vez em Buenos Aires. De lá eu continuei por esse caminho, só adicionando mais e mais coisas e ideias para o meu show. Tocar como One Man Band não têm limite. É a maior expressão da liberdade no mundo do rock de hoje. Ninguém diz o que você tem que fazer, quando e onde; você faz se quiser e quando quiser, essa é a atitude de um monobanda, mas sempre, sempre avançando e evoluindo. Você tem que sempre ir para a frente, sozinho diante do público. Tentar surpreender o público é um plano comum e um desafio para mim como One Man Band. Tocar com os outros é bonito, mas também se torna difícil. Não depender dos humores dos outros membros de uma banda pode ser benéfico.

– Me fala um pouco sobre o material que você já lançou!

Bem, é um EP com 5 músicas. Foi gravado no Velozet Estudios em Buenos Aires em dezembro 2014 por Dylan Lerner em uma sessão de uma tarde, ao vivo no estúdio, tentando capturar o mais fiel possível ao som de shows ao vivo, tocando todos os instrumentos ao mesmo tempo, sem excesso de gravação e edição, um ou dois takes por música e predominando o primeiro. Foi lançado oficialmente em janeiro de 2015 no programa de rádio “Get Rhythm” do Radiolux (França) com o single “Highway 51”. Além disso, o EP também tocou em algumas estações de rádio independentes do Reino Unido. “Highway 51” foi incluída em uma compilação de monobandas, “Invasione Monobanda” (Itália), lançado por um netlabel italiana, “In Your Ears”, o disco pode ser baixado no site do selo. A sessão de gravação foi filmada, mas no youtube há apenas um trailer. Alguns contratempos atrasaram a publicação de toda a sessão, mas em breve estará disponível no meu canal do Youtube. Ele também foi eleito um dos melhores EPs de 2015 pelo site Zambombazo! Este EP tem me dado muitas alegrias, suas músicas ainda são tocados ao vivo e ele define meu estilo, mas o show e formato evoluíram, estou cada vez mais em expansão. Agora comecei a usar um loopstation, com o qual eu jogo sons já gravados, também gravo coisas e reproduzo ao vivo, agreguei mais percussão (surdo e tom-tom), maracas, conseguindo um show mais interessante na minha opinião, realizando o que eu imaginava em minha mente.

Wild Billy James

– E já está trabalhando em novas músicas?

Sim, eu estou trabalhando há vários meses. Levou tempo para montar tudo de novo, me deu um trabalho usar o loopstation para o que eu imaginava, mas está saindo bem, percussão é fundamental. Agora, a mudança de nome para Wild Billy James tem muito a ver com isso, precisamente os shows são mais selvagem e intensos. Será interessante entrar em estúdio novamente. A minha ideia é sempre a surpreender o público, os shows ao vivo nem sempre são iguais, dando origem a espontaneidade e improvisação. Muitos arranjos de canções geralmente saem dos shows, é realmente lá  onde tudo acontece. Bem, para alcançar essa independência os ensaios são essenciais também. Eu parei de tocar ao vivo há algum tempo, vários meses para tentar reunir tudo isso. Agora estou de volta com toda a energia, eu quero tocar o máximo que puder.

– Como é um show de Wild Billy James? Descreve pra quem ainda não teve a oportunidade de ir.

Bem, eu não quero para estragar a surpresa, mas usa muitos recursos… Por exemplo, eu entro no público com a percussão, é como uma espécie de “rito” simbólico e é um jogo. Faço solos de gaita através de um megafone, costumo abrir meus shows com isso, eu gosto de aparecer do nada e levar o público para o palco. As canções passam e as pessoas dançam, movem-se, gritos, aplausos. Aí a forte batida da bateria, eu chutando o hi-hat com o pé de vez em quando. Alguns barulhos de guitarra propositadamente, “slide guitar solos” inevitáveis, silêncios inesperados. Um show para dançar e pensar.

Wild Billy James

– E como rolou essa turnê pelo Brasil?

Estar constantemente em turnê e atingir o maior número de lugares possível com a minha música é um dos meus objetivos, e estou nele. Brasil, sem dúvida, é um destino bastante interessante, e está ao alcance. Recentemente, tive a ideia de fazer uma turnê em diversas cidades brasileiras e aqui estou planejando minha primeira turnê no Brasil. É um grande país e seu povo faz dele grande. Eu já estava em contato com algumas pessoas da cena underground, comecei a escrever e entrar em contato com mais pessoas. Todo mundo estava disposto a ajudar, de uma forma ou de outra, eu acho que é uma maneira de ser do brasileiro e é realmente grandiosa. Estou muito grato a todos que tem ajudado a fazer isso funcionar. Vai começar no dia 12 de novembro, em São Paulo, no festival “Sinfonia de Cães”. Eu vou estar tocando até o final de novembro no estado de São Paulo e então irei para o Sul, em cidades dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Será divertido!

– Como é a vida de um artista independente hoje em dia?

Requer esforço, você tem que lidar com muitas coisas e fazer tudo sozinho. Muitos dizem que é difícil lidar com tudo sozinho, mas acho que é o caminho. Não é nada difícil, tudo é possível se você colocar sua mente realmente nisso. Pode ser cansativo às vezes, mas a satisfação é maior. Você tem que dedicar tempo a isso, e eu dedico minha vida. Dedicação é a coisa mais importante para o que você faz. Se você quer algo, faça-o.

– Quais os próximos passos de Wild Billy James?

Agora, o que segue é a turnê no Brasil em novembro e dezembro, eu respiro isso todos os dias. Vai começar no dia 12 de novembro, no “Festival de Cães” em São Paulo no período da tarde e à noite eu vou estar na primeira edição do Muddy Roots Brasil. Então eu volto para o Uruguai, onde vou continuar a tocar em janeiro. Estou pensando em gravar novo material, ainda não sei quando. Eu também estou pensando em fazer uma turnê pela Europa em 2017. Portanto, há muitas coisas ainda pela frente!

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos

A maioria dos artistas que eu gosto são independentes: Guadalupe Plata (Espanha), Sarcofagos Blues Duo e Gualicho Turbio (Argentina), La Big Rabia (Chile), Lonesome Shack, Daddy Long Legs, Mr Airplane Man, Soledad Brothers, Flat Duo Jets (EUA), C.W. Stoneking (Australia).