Não é doença! O punk transexual, visceral e transgressor com Cláudia Wonder em “Meu Amigo Cláudia” (2009)

Meu Amigo Cláudia

Ano de lançamento: 2009
Direção: Dácio Pinheiro
Duração: 1h27min
Gênero: Documentário

Marco Antônio Abrão, três nomes masculinos como nome de batismo. Mas na verdade um homem, uma mulher, um transexual performista. Filha de pais adolescentes e criada por seus tios-avôs, Cláudia Maravilha, rebatizada logo após de Cláudia Wonder, é parte da maravilhosa história oitentista paulistana e ganha aqui um relato honesto não só de sua trajetória, mas de toda uma geração.

Das primeiras aparições em revista surge o contato com cinema pornô, sendo o transexual como objeto de curiosidade. Surgem porém estereótipos de travestis todos em representações eróticas ou com finalidade de alivio cômico. Com o fim da ditadura e vindouro movimento pelas Diretas, vem as primeiras vitórias políticas, a principal sendo a mudança no Ministério da Saúde, quando o homossexual deixa de ser considerado uma pessoa doente (qualquer semelhança com atual momento não é mera coincidência)

Começa então uma guerra no Estado de São Paulo, quando a policia promoveu um massacre disfarçado de “limpeza”, uma verdadeira temporada de caça contra a comunidade LGBT. Milhares de travestis são assassinados. Em outro e talvez o pior momento na classe, o documentário não faz concessões quanto aos relatos de promiscuidade e desinformação sobre a AIDS. A propagação da doença no meio, vulgarmente conhecida como a peste- gay, lança artistas como Cláudia no isolamento: “Fiquei seis anos sozinha” ela relata em certo ponto. Vem então a contestação contra os ditos bons costumes. E a resposta mais uma vez está na música, no rock and roll.

Cláudia Wonder
Cláudia Wonder

A salvação vem no punk, na subversão. A redemocratização encontra o auge do rock brasileiro. Nas apresentações em casas noturnas cultuadas como Madame Satã, Cláudia Wonder reúne toda uma geração de punks, góticos, atores, jornalistas e intelectuais para beber da efervescência cultural promovida por shows memoráveis com o “Vômito do Mito” e o “Jardim das Delícias”, culminando na antológica apresentação do espetáculo teatral “O Homem e o Cavalo” censurado desde a década de 30.

Nostálgico e revelador assim como o artigo de mesmo nome de Caio Fernando Abreu, “Meu Amigo Cláudia” é também ao mesmo tempo triste e reflexivo ao constatarmos que o mesmo momento politico que higienizou essa classe artística, pondo fim a transgressão e lançando esses artistas no ostracismo dos anos 90 parece querer fazer o mesmo retrocesso agora com leis descabidas e fomentando músicas de apelo popular e de pouco questionamento (como o sertanejo parecer crescer desses momentos!). Repleto de entrevistas de figuras carimbadas como Kid Vinil e o dramaturgo José Celso e da própria Cláudia Wonder, esse documentário está cada vez mais atual e necessário.


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