Mineiros da Pedro Bala & os Holofotes lançam disco que pode recolocar o rock no mapa da música brasileira

Mineiros da Pedro Bala & os Holofotes lançam disco que pode recolocar o rock no mapa da música brasileira

12 de março de 2020 0 Por Redação CEHF

Quarteto do sul de Minas Gerais apresenta seu homônimo álbum de estreia, eivado de psicodelia setentista e do rock rural mineiro do “Clube Da Esquina”; show de lançamento é neste sábado na Casa do Mancha, na capital paulista

Humberto Finatti
Especial para o Crush Em HiFi

Com quantas guitarras poderosas, uma seção rítmica igualmente fodona e altas doses das melhores referências do rock psicodélico inglês e americano (Pink Floyd, The Doors), além de eflúvios e ambiências da melhor MPB e rock psicodélico brazuca (Secos & Molhados, Mutantes), MPB mineira e do melhor rock rural mineiro (notadamente Clube Da Esquina, Milton Nascimento, Lô Borges etc.) se constrói um impactante e ótimo disco de estreia, que é o melhor cartão de visitas para uma banda que já existe há mais ou menos uma década mas que somente agora começa a chamar (finalmente!) a atenção de um público mais antenado (e ainda fiel ao quase morto rock brasileiro) e também do que resta de crítica e mídia especializada por aqui em rock’n’roll? Quer saber a resposta? Então se você mora em São Paulo/capital, basta ir neste sábado ao espaço alternativo Casa Do Mancha (no bairro da Vila Madalena) e assistir ao show que o quarteto mineiro Pedro Bala & Os Holofotes irá fazer por lá, para lançar enfim seu primeiro disco completo – antes o grupo já havia lançado três EPs e alguns singles. E a dica é chegar cedo ao local: serão três bandas tocando e a Pedro Bala será a primeira, com entrada prevista no palco para as nove da noite. Sendo que até esse horário a entrada é gratuita (depois morre uma merreca de vinte pilas para curtir o rolê).

Mas antes que eu me detenha de maneira mais aprofundada nos aspectos musicais do álbum (composições, melodias, arranjos, letras, produção técnica e por aí vai), preciso escrever aqui (nesse meu comeback às resenhas musicais escritas, já que desde que comecei a veicular meu canal no YouTube há um ano, deixei um pouco de lado meu fazer jornalístico musical textual, com o qual trabalhei e convivi ao longo de trinta anos de profissão) algumas linhas mais pessoais e sentimentais sobre como conheci PB&H.

Virada do ano de 2018 para 2019. Como faço há décadas passei o réveillon no bucolismo paradisíaco que é a cidade de São Thomé Das Letras, no sul de Minas Gerais (amo MG desde sempre). De lá rumei para outra cidade próxima, São Lourenço, para passar alguns dias hospedado e visitando meu amigo de longa data João Carvalho, também o editor do meu canal de cultura pop Zapnroll no YouTube. Assim em uma bela tarde durante o almoço e enquanto degustava uma saborosa macarronada preparada pelo “chef” João (a gastronomia é uma das muitas habilidades do rapaz), ele me disse: “vou colocar um som pra você ouvir. Me diz o que acha”. E as músicas começaram a tocar no celular de dom Carvalho. Ao escutar a primeira, já franzi a testa. Quando passou a segunda, parei de saborear o macarrão por alguns instantes. Ao fim da terceira canção desviei o olhar do prato, levantei os olhos em direção a João e perguntei à queima roupa: “que PORRA é essa, afinal?”. “Pedro Bala & Os Holofotes”, respondeu ele com um sorriso de triunfo nos lábios, como quando descobrimos uma ótima novidade cultural antes do resto da humanidade. Eu, novamente: “Ok. E que porra é esse Pedro Bala & Os Holofotes?”. João explicou: “Quatro moleques de Paraisópolis, também no sul de Minas. Banda sensacional. Gostou?”.

Eu tinha enlouquecido ao ouvir aquelas três músicas, claro. Um torpor que tomou conta dos meus sentidos e que eu não sentia com a mesma intensidade desde que, talvez, quando descobri o hoje consagrado Vanguart lá em Cuiabá, no já longínquo carnaval de 2005. Não perdi tempo e fui atrás de conhecer tudo do grupo, inclusive seus integrantes. Entrei em contato com os rapazes, me apresentei, expliquei como tinha conhecido o som deles e bla bla blá. Logo estreitei contatos com o baixista Pedro Alves (sendo que o line up atual do quarteto é completado pelo guitarrista e vocalista Mateus Cursino, pelo também guitarrista Caio Rennó e pelo baterista Júlio Dias), um guri de apenas 24 anos de idade e que toca baixo com a destreza de um músico rock veterano. E aí partiu dele um convite bastante amistoso: “Venha passar o carnaval aqui. Dá pra ficar em casa, você conhece a cidade e o restante da banda”.

E assim foi: o jornalista musical ainda algo loker e eternamente rocker, além de sempre apaixonado pela estrada e por conhecer cidades interioranas minúsculas, se mandou para a cidadela de menos de 20 mil habitantes. Sendo que na minha cabeça a única Paraisópolis que eu conhecia era a comunidade homônima e pobre que existe em Sampa mesmo, espremida entre as mansões e prédios chics do bairro nobre do Morumbi (antro da zona sul reaça, burguesa e endinheirada da zona sul paulistana), e que ficou nacionalmente conhecida pelo triste episódio ocorrido lá no início deste ano onde, graças à repressão truculenta da PM idem paulista em cima dos frequentadores de um baile funk tradicional da comunidade, nove adolescentes foram pisoteados pelos demais frequentadores em fuga, que tentavam desesperadamente escapar de bombas de gás atiradas pelos PMs (além de balas de borracha e de golpes de cassetete desferidos pelos mesmos), e mortos.

Pedro Bala e os Holofotes com o jornalista Humberto Finatti

Ao longo dos quatro dias em que passei em Paraisópolis no carnaval do ano passado, pude conhecer bem a banda, além de sua trajetória e repertório. Mais do que isso: presenciei os garotos tocando ao vivo em um mini festival em outra cidade vizinha, ao mesmo tempo em que eles alternavam visitas ao estúdio Mato Records (localizado dentro de uma fazenda, na cidade de Carmo De Minas, também nas redondenzas), onde realizavam as sessões de gravação de seu disco de estreia sob a batuta do produtor e experiente músico Renato Cortez (que viveu praticamente sua vida toda na capital paulista e foi baixista de um dos melhores nomes da cena rock alternativa paulistana no início dos anos 2000, a banda Seychelles). Disco que agora finalmente está sendo lançado pelo selo gaúcho 180 e que reafirma para mim tudo o que inferi sobre a PB&H desde que escutei o som produzido pelos quatro mineiros, durante aquele almoço na casa do brow João Carvalho: o grupo produz um compêndio avassalador de rock psicodélico, combinando o mesmo com as melhores ambiências da MPB clássica e mineira setentista, aquela legada para a posteridade por nomes como Milton Nascimento e Lô Borges (este, um dos ídolos dos “Balinhas”). E tudo cantado em ótimo português, em letras que perscrutam o bucolismo pastoral, idílico, amoroso e algo melancólico que é viver entre riachos e montanhas, além de também resvalar em temas políticos e sociais, ainda que estes dois não sejam exatamente o ponto forte e o escopo preferencial e dominante dos temas – e na verdade talvez desvelem que as letras do grupo produzam mais empatia e admiração em quem as ouve quando tratam mais das já mencionadas imagens bucólicas e pastorais da vida interiorana, e quando falam de relacionamentos amorosos.

O que nos leva então à estreia em álbum completo da Pedro Bala. São dez músicas apenas. Algo ótimo e uma raridade nesses tempos de discos (apenas virtuais ou ainda em plataforma física) que têm quinze faixas ou mais, e que torram nosso saco com mais de uma hora de duração. A estreia dos mineiros é rápida e concisa como todo bom (ou ótimo) disco de rock nunca deveria deixar de ser. Já abre com guitarras em brasa (e com solos curtos mas certeiros) em “Não Vá Se Ferrar Por Aí”. E segue em alta voltagem com “Bongadance” mas com um swing algo funkeado na melodia, o que a torna muito boa pra dançar, sendo que a letra reclama que “a gente devia ter limpado o bongue” (ah, os prazeres da marijuana…), ulalá! Já “Coisas” desacelera um pouco para mostrar as primeiras evidências psicodélicas (elas irão surgir com mais apetite e força nas faixas seguintes) de um grupo que musicalmente está azeitadíssimo (duas ótimas guitarras e uma seção rítmica precisa, que dá gosto ouvir tocando), mesmo porque a formação atual está junta já há bastante tempo e a qualidade dos instrumentistas é um dos detalhes que torna a música produzida por eles extremamente bem executada e agradável aos ouvidos.

A audição do trabalho avança e não param de surgir ótimas canções. Como “Presságio”, um blues rock ainda mezzo psicodélico e que além da melodia ao mesmo tempo dolente e intensa, ainda possui arranjos e intervenções de pianos executadas por Pedro Pelotas, ex-tecladista da finada banda gaúcha Cachorro Grande. Ou então “Quebra Amar”, um dos melhores momentos de um grande álbum: em uma melodia que é trespassada por um solo do baixista Pedro e cujas guitarras constroem uma atmosfera lúdica que poderia colocar a música em qualquer trilha de fundo para a história do par romântico principal de alguma telenovela Global, a letra desvela as dúvidas, medos e inseguranças de uma relação homoerótica, como pode ser lido e ouvido neste trecho: “Diz que sim ou diz que não/Que a incerteza é ruim demais/O teu silêncio/Deixa tudo pior/Amor, nem sei de mim/Nem sei quem sou/Diz pra mim, não vou chorar/Se acaso tudo acabar”. Letra que, vale registrar, foi escrita pelo baterista do grupo, gay assumido e sendo que isso é mais um ponto a favor da PB&H, além de que seus integrantes são todos politicamente à esquerda, feministas e amantes da ótima cachaça mineira (CHEGA de bandas brasileiras de rock reaças, machistas, sexistas e com integrantes escrotos e trogloditas que ajudaram a eleger Merdanaro DESpresidente deste triste Brasil). Isso por si só torna a faixa bastante transgressora e transgressiva, e é exatamente disso que o rock nacional mais precisa nesse momento: de quem peite o status quo reacionário e conservador de direita, que tomou conta do pouco que resta na seara rock’n’roll brasileira.

Para não dizer que há apenas elogios rasgados para a estreia em disco cheio da Pedro Bala & Os Holofotes, vamos dizer que há pequenos deslizes aqui e ali, sendo que estes ocorrem mais em função de algumas letras pueris e simplórias (como as de “Você Não é Minha” e “Fundo do Poço”, os dois momentos mais fracos da obra, textualmente falando), algo que pode ser melhor trabalhado e mais aprimorado em futuras novas canções. Ou ainda quando o viés político soa algo forçado ao se manifestar no texto cantado pelo vocalista Mateus – e um bom exemplo disso está na já citada “Fundo do Poço”, onde um excelente e potente trabalho instrumental quase sucumbe ante versos ginasianos como “Vou pra chuva me molhar/Vamos nos unir/A revolução começa aqui/Agora quem brilha de novo/É o povo!”.

Mas enfim – e repetindo novamente, isso é o mais importante no álbum de estreia da banda – o trabalho possui um desempenho sonoro acachapante. Um desempenho que nos leva ao final magnífico com “Seres Vivos” e “Nanazé”. A primeira é literalmente uma viagem entorpecedora de psicodelia inebriante, com quase sete minutos de duração e cujo instrumental de guitarras em loops agressivos e lisérgicos (ao melhor estilo Pink Floyd fase Syd Barrett e circa “Interstellar Overdrive”) faz jus a dar suporte a uma curta porém igualmente alucinada letra, que faz alusão (ainda que de maneira não explícita) a uma viagem de ácido: “O sol brilhará e você não vai mofar/Fungos crescerão entre troncos e alecrins/A chuva acabou, a montanha umedeceu/Que bom, assim vou colher seres vivos pra você”. E a segunda, que fecha de fato o trabalho, é quase uma vinheta (com pouco mais de um minuto e meio de duração) delicada, tramada apenas com violões, vocais e efeitos sonoros concebidos pelo produtor Renato Cortez. A letra fala de escapismo, de “embrenhar-se pelo mato” e dar um “foda-se pra essa porra toda”. E é mesmo isso que volta e meia sentimos vontade de fazer, nesse país de sociedade cada vez mais selvagem e medieval.

A banda se apresentando no SESC em 2019

É um discaço no final das contas. E por ser essa obra concisa e gigante ao mesmo tempo (e que cresce muito a cada nova audição), é que o título desta resenha atenta para um fato já inquestionável pelo menos para o autor deste texto: Pedro Bala & Os Holofotes, da miúda Paraisópolis, é nesse momento (e ao lado de Jonnata Doll & Os Garotos Solventes) a banda que pode de verdade recolocar o rock nacional no mapa da música brasileira, e de onde ele foi literalmente expulso pelo funk, pelo axé burrão e pela praga sertanoja evangélica/reacionária. Se ainda houver alguma justiça nesse triste Brasil com sua cultura arrasada pelas hordas bárbaras boçalnaras, isso irá acontecer. Assim espero.

O quê: disco de estreia do grupo Pedro Bala & Os Holofotes

Com: Pedro Bala & Os Holofotes (Mateus Cursino, Caio Rennó, Pedro Alves e Júlio Dias)

Gravado e mixado no estúdio Mato Records, em Carmo De Minas, ao longo de 2019. Produzido por Renato Cortêz.

Selo: 180 (Porto Alegre)

Quando: A partir desta sexta-feira, 13 de março, em todas as plataformas digitais (Spotify, Deezer, YouTube etc.)

Cotação (de 1 a 5) do Crush Em HiFi: ****

*** A banda faz show de lançamento do álbum neste sábado, 14 de março, às 21 horas, na Casa Do Mancha (rua Felipe de Alcaçova, 20, Vila Madalena, São Paulo/SP, infos: 3796-7981 ou https://www.facebook.com/events/484883758857334/). Até às 9 da noite a entrada é gratuita.

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Humberto Finatti é jornalista de cultura pop (especializado em música e em rock’n’roll) há 30 anos. Passou pelas redações da Folha De S. Paulo, Estado De S. Paulo, IstoÉ, Bizz, Gazeta Mercantil e Rolling Stone Brasil. Atualmente produz eventos culturais para o SescSP, participa de curadorias para a Secretaria Estadual De Cultura/SP e também produz e apresenta o canal Zapnroll, no YouTube.