Megalomania: Emerson, Lake & Palmer – “Brain Salad Surgery” (1973)

Megalomania: Emerson, Lake & Palmer – “Brain Salad Surgery” (1973)

28 de setembro de 2017 0 Por Victor José

 

Um disco como Brain Salad Surgery” ainda faz sentido hoje? Bem… até onde eu sei, música não tem idade, e o que hoje é considerado datado amanhã será a fonte de inspiração para uma galera totalmente repaginada. E não sou eu quem está dizendo isso. Ouça os maneirismos dos anos 1980 berrando a todo vapor em produções mais recentes, como vem acontecendo de uns anos para cá em trabalhos de nomes como Daft Punk, Lady Gaga ou Rihanna. Para muita gente pode parecer que não, mas por um bom tempo – talvez por quase toda a década de 1990 e um pouco de 2000 – esses timbres que agora fazem a cabeça de muita gente eram tidos como algo ridículo, sem a mínima chance de voltar a ser moda. Pois bem, a música pop lambeu suas feridas e aí está, mais uma vez: baterias eletrônicas exageradamente encharcadas de eco, palminhas falsas, teclados a la Alpha FM e aquela frivolidade tão polêmica. Agora, dizer se isso é bom ou ruim não é inteligente, mas cabe ao artista saber inserir esses elementos, certo?

E o que isso tem a ver com Emerson Lake & Palmer? Tudo! Afinal, estou me referindo ao modo de revisitar coisas que no fundo sempre estiveram disponíveis e vivas. Basta alguém pegar uma ideia qualquer para percebermos que tudo se trata da mesma coisa.

Aliás – é impressionante pensar nisso em 2017 –, em 1973, ano em que o rock progressivo atingiu seu auge, LPs contendo faixas com quase meia hora de duração chegavam a liderar a lista da Billboard. Isso significa que as pessoas tinham saco para ouvir toda aquela complexidade em uma proporção de cultura de massa. O jeito de se curtir um som era completamente diferente: você já deve ter ouvido alguém com mais de 50 anos dizer que chamava os amigos em casa para apagar as luzes e escutar faixa a faixa de Dark Side Of The Moon”, e depois discutir aquilo como se fosse um filme.

E você se lembra do começo desse texto, quando eu disse que atualmente há um interesse no ar pela sonoridade da década de 1980? Pois veja que o ELP (sigla para o nome do grupo) passava por esse mesmo tipo de transformação, haja vista que apontavam seus interesses para a música clássica, sinfônica (o disco Pictures At Na Exibition”, de 1971, é uma releitura de uma suíte de mesmo nome, composta pelo russo Modest Mussorgsky em 1874). Isso significa que essas coisas meio “cerebrais” combinavam com a vibe de parte da galera jovem da época, que curtia um pouco de complexidade e divagações vagarosas.

A ideia por trás do trio formado por Keith Emerson (piano e teclados), Greg Lake (vocais, baixo, violão e guitarra) e Carl Palmer (bateria), embora extravagante e pomposa, nunca foi segredo para ninguém: expandir os limites do rock ‘n’ roll, fazendo música sinfônica com apenas três peças. Hoje isso pode soar meio bobo, mas deu certo e conquistou um enorme público, chegando a ser uma das bandas mais lucrativas do mundo em sua época. Emerson, Lake & Palmer foi um verdadeiro fenômeno, e “Brain Salad Surgery” foi o pico criativo do trio.

Na época de seu lançamento, em 1973, o grupo havia lançado quatro excelentes álbuns de sucesso, e este quinto LP viria a ser seu ápice estético, inserindo naquele som o que havia de mais moderno em termos de eletrônica a partir do uso e abuso de sintetizadores Moog, sendo Emerson o primeiro e único músico a utilizar o protótipo Constellation, apresentando pela primeira vez um sintetizador polifônico.

As cinco faixas do disco (sendo uma delas uma suíte de quase 30 minutos) são impressionantes. Todas apresentam uma sonoridade corajosa, tentando empurrar ao máximo os limites dessa formação de rock sem guitarra elétrica (salvo uma hora ou outra). “Brain Salad Surgery” poderia ser definido em três palavras certeiras: virtuosismo, melodia e dramaticidade.

A abertura fica por conta de “Jerusalem”, releitura completamente transformada de uma das músicas tradicionais mais famosas da Grã-Bretanha, algo que o ELP sabia fazer com excelência. O sempre belo vocal de Greg Lake contrapõe a massa sonora formada pelos sintetizadores e órgãos de Keith, enquanto que a bateria de Carl Palmer – um dos maiores bateristas da história do rock – remonta essa peça de um jeito incrivelmente inventivo. A faixa chegou a ser lançada como single, mas, embora tenha chamado atenção do público, foi muito mal nas rádios britânicas, que se recusaram a tocar esse “sacrilégio”, um verdadeiro hino tido como um patrimônio cultural remexido de modo tão fora dos padrões. Até a BBC baniu.

Em seguida vem “Toccata”, outra releitura, desta vez do argentino Alberto Ginastera (que aprovou a versão, dizendo pessoalmente a Keith Emerson que eles haviam capturado a essência da composição ‘como ninguém jamais havia feito’). Caótica, frenética, urgente e intensa. É uma verdadeira porrada na cabeça. Um peso real sem guitarras. Sim, esse é um som muito nerd, mas é impressionante… lembre-se que são três caras fazendo essa barulheira (e reproduziam a mesma coisa ao vivo). Há espaço para um baixão espetacular, sintetizadores com sons de trompete, solo de tímpanos e uma parte bizarra – que chega a ser cômica – de bateria, onde Carl Palmer utiliza programação eletrônica de sons MIDI para criar um ambiente sci-fi, algo quase impensável na época. É a vanguarda flertando com o rock em um nível controverso. Dá para fazer um nó na cabeça com esse som.

Como era praxe nos álbuns anteriores, Greg nos dá uma trégua e apresenta uma daquelas indescritíveis baladas que ele fez. “Still… You Turn Me On”, guiada por um belo violão, é um daqueles momentos memoráveis dos anos 1970, quando era comum se deparar com melodias de cair o queixo aliadas a uma inocência típica daquela fase. Se alguém soube fazer bem isso, esse alguém foi Greg Lake, dono de uma voz incrível e também de grande esperteza: todo mundo sacava que ter essas baladas entre esse monte de maluquice sonora também garantiria um grupo de pessoas a fim de escutar algo romântico. Deu muito certo.

“Benny The Bouncer” traz ao LP um pouco de descontração, com aquele som de piano de bordel, uma pegada meio jazzy e um vocal escrachado. A letra fala de Benny, um segurança de balada que, ao se encontrar com Sidney, o beberrão, entra em uma briga e é morto por um golpe na cabeça. No céu, arranja um bico como segurança de Jesus.

O lado B inteiro é dedicado àquela que talvez seja o maior feito artístico da banda: “Karn Evil 9”. Dividida em “First Impression”, “Second Impression” e “Third Impression”, esta suíte vai além dos limites de uma composição de rock. Fico imaginando como foi possível eles juntarem tudo aquilo e lembrar como se toca ao vivo (vale destacar que existem imagens disponíveis do trio ensaiando essa música para ser gravada, o que, para os músicos que estão lendo isso, é um documento fascinante). “Karn Evil 9” emociona, empolga, intriga, irrita, acalma, mete medo e euforia. Keith Emerson mostra todo seu brilhantismo e versatilidade no Moog, no piano, órgão Hammond; Greg Lake, sempre muito seguro, toca um baixo incrível e depois vai para a guitarra, fazendo solos dignos daquele período com tantos guitar heroes; Carl Palmer praticamente reinventa o modo de tocar bateria em uma banda de rock, seu estilo é único. Ali tudo funciona do jeito mais ELP de ser: megalomaníaco. É nesta faixa que está o verso “Welcome back my friends to the that never ends”, obrigatória na abertura das apresentações do grupo.

Também vale a pena falar da arte da capa, desenvolvida pelo artista plástico H. R. Giger, famoso por desenhar nada mais nada menos que o visual do filme “Alien – O Oitavo Passageiro”.

“Brain Salad Surgery” fez grande sucesso, tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, o que resultou em uma turnê mundial. Com o passar dos anos, o desgaste do sucesso e a mudança de comportamento do público em geral, o Emerson, Lake & Palmer foi decaindo até praticamente não fazer mais sentido. Novas vertentes, principalmente o punk, meteram o pé na bunda da maioria dessas bandas hoje consideradas “cabeças-de-chave” daquele período. Da mesma forma, a sonoridade e a proposta artística daquilo que ofereciam foi simplesmente deixada bem lá no fundo do baú dos excessos, mofando ao lado de muitas outras coisas que tiveram o mesmo destino, como as bandas de new romantic dos anos 1980.

Neste momento que estamos vivendo uma ebulição de bons e maus ressurgimentos, creio que seja questão de tempo ver novas bandas com essa proposta repaginada. Por enquanto, o que resta é esse fóssil do rock ‘n’ roll, com o atual status de fascinantemente inadequado e que já chegou a soar como as trombetas do futuro. Queira ou não queira, o ELP é gigante na história.