Marcelo Mara ressuscita acervo de música independente e underground no Disco Furado

Marcelo Mara ressuscita acervo de música independente e underground no Disco Furado

15 de agosto de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Desde 2011 o blog Disco Furado faz um verdadeiro serviço aos fãs de música independente e alternativa e desenterra pérolas que não são de fácil acesso desde seu lançamento. Discos raros, bandas do underground, fitas demo e vídeos de programas como Lado B e Musikaos são apenas algumas das coisas que Marcelo Mara oferece a seus leitores e seguidores do canal do Youtube do blog. “Hoje o blog tem 6 anos e mais de 500 discos disponibilizados. Ainda tenho uma boa quantidade de material para resenhar e outras coisas que procuro para por no blog e para minha coleção”, conta.

Bandas como Ack, Pin Ups, Bloco Vomit, Thee Butchers Orchestra, Bois de Gerião e Dash, entre muitas outras, aparecem no canal do Youtube do blog com discos completos que são difíceis de se encontrar na internet. “Dou preferência aos discos independentes lançados depois de 1977, o que me dá oportunidade de pesquisar vários cenários independentes, da turma do Antonio Adolfo, passando pelo pessoal da Vanguarda Paulistana, os punks, os pós punks da segunda metade dos 80, da cena independente de 1993, das fitas e fanzines, e dos anos 2000, com um cenário diverso, espalhado e, de certa forma, sustentável”. Nada contra os novos serviços de streaming, porém. “Tenho usado o Youtube com essa intenção, mas é um processo um pouco lento quando feito por uma única pessoa. Espero que em breve surja oportunidade de estrear numa plataforma de streaming”, afirma Marcelo.

Conversei com ele sobre o Disco Furado, sua coleção de CDs, K7s e vinis, o retorno das fitas K7 e os discos raros que merecem ser garimpados:

– Como começou o projeto Disco Furado?

Desde 1995 que eu me interesso por discos independentes, catálogos de selos, coisas obscuras. Com o tempo fui adquirindo CDs, LPs, K7s de bandas independentes que eu via nas revistas Dynamite, Bizz, Rock Press, Underguide e fanzines. Pensava em fazer um blog – sobre resenhas póstumas desses discos dos anos 80, 90 e 00 – desde 2009 e para começar a escrever os textos revirei todo material impresso que acumulei, escaneei tudo que interessava e ali estava o banco de dados de pesquisa para os textos. Em 2011, fiz o blog Disco Furado e o canal no Youtube. A ideia era escrever sobre os discos, ter algo de inédito no texto e disponibilizar as músicas para download. Hoje o blog tem 6 anos e mais de 500 discos disponibilizados. Ainda tenho uma boa quantidade de material para resenhar e outras coisas que procuro para por no blog e para coleção.

– Você tem ideia do tamanho da sua coleção física de CDs, discos e fitas? Tem muito material ainda pra jogar lá?

De discos independentes, que são a grande maioria, deve ter uns 3 mil títulos entre CDs e LPs. K7 deve ter uns 500 e eu estou digitalizando as K7s agora, mas estas vão só para o Youtube. A ideia é encerrar o blog quando chegar aos 1000 discos, ainda tem muita coisa para entrar, muito disco de metal, coisas extremas e MPB underground, que só não estão disponíveis em maior quantidade porque eu não tenho domínio para escrever/descrever alguns estilos musicais, daí por medo de escrever bobagens acabo deixando sempre para uma próxima. Mas a maioria dos discos que publico são coisas que eu gosto e ouço em casa, mas tem umas bizarrices, coisas horríveis às vezes, que valem a pena receber texto e estarem disponíveis gratuitamente.

– Como você faz para disponibilizar o download, já que os serviços sempre acabam tirando os arquivos do ar de tempos em tempos?

Isso é um dos maiores problemas, pois é a parte do serviço do blog. Desisti de arrumar link por link em cada postagem, ter de entrar em cada postagem e consertar o link leva muito tempo, costumo fazer isso quando aparecem pedidos nos comentário de postagens. E volta e meia tenho de encontrar servidor novo, pois os links antigos expiram. É um saco fazer isso.

Marcelo Mara, do Disco Furado

– Você já pensou em ir atrás de disponibilizar os discos em streaming? Muitas das bandas não existem mais e seria ótimo poder achar esses trabalhos neste tipo de serviço…

Sim, é mais uma plataforma para disponibilizar. Tenho usado o Youtube com essa intenção, mas é um processo um pouco lento quando feito por uma única pessoa. Espero que em breve surja oportunidade de estrear numa plataforma de streaming.

– Alguma banda já entrou em contato com você depois de seu post sobre ela?

Sim, algumas. Quando o texto não agrada as bandas, elas tendem a entrar em contato com mais frequência. Eu acho isso bem maneiro, é esse feedback que motiva a publicação. Noutros casos, algumas bandas entram em contato para que eu disponibilize o material delas, já fiz isso algumas vezes, mas ultimamente prefiro explicar que a proposta do blog é de resenhas de discos não atuais.

– Você dá preferência a bandas da cena independente da geração anterior à atual. Até que ano vão os discos que você costuma postar? Quando esta cena independente começou a se dispersar?

Dou preferências aos discos independentes lançados depois de 1977, o que me dá oportunidade de pesquisar vários cenários independentes, da turma do Antonio Adolfo, passando pelo pessoal da Vanguarda Paulistana, os punks, os pós punks da segunda metade dos 80, da cena independente de 1993, das fitas e fanzines, e dos anos 2000, com um cenário diverso, espalhado e, de certa forma, sustentável. Não consigo analisar um cenário independentes como um todo, ele passa por transformações que são seguidas pelo meio em que se propaga o cenário, a mudança de mídias, a derrocada de algumas plataformas e ascensão de outras. Separo os cenários em marcos de início e fim, às vezes seguidas por novos cenários ou por hiatos pouco classificáveis.

– O que você acha deste retorno das fitas K7? Tem banda fazendo lançamento em K7 hoje em dia, além da grande redescoberta de fitas (demo ou não) que estavam encostadas por aí…

Acho muito bom. Apesar de as fitas agora não desempenharem a mesma função de antes: quem se atreveria a fazer uma mixtape em K7 hoje em dia? Elas são uma ótima plataforma para ter um trabalho disponível em formato físico. Uma pena não se poder fazer isso com um custo mais baixo, e nem que todos consigam ouvi-las em boa qualidade, mas funciona. Para quem gosta de discos, colecionadores velhos e jovens, a fita tem bastante importância. Gostaria de ter mais discos nesse formato.

– Você também pretende postar discos que estão disponíveis somente em vinil? (Ou já fez isso e eu não me liguei?)

Sim, tem várias discos no blog que só existem em vinil. Daí eu ripo o LP para mp3, às vezes fica bom.

– Fala uma lista de 5 discos que você subiu no canal que são indispensáveis, na sua opinião, e porque.

Tá, vamos lá.
Fellini, “Amor Louco” – o quarto disco do Fellini, o melhor produzido, tem ótimas letras e uma pesquisa de ritmos e timbres que valorizam muito a produção.
Júpiter Maçã, “A Sétima efervescência” – um dos principais discos psicodélicos brasileiros, letras divertidas, arranjos fantásticos. Esse disco beira a perfeição.
Patife Band, “EP” – é o primeiro disco da Patife Band, tem 6 músicas, incluindo as clássicas “Tô Tenso” e “Pesadelo”, além de uma versão bem legal para a jovem guarda/brega “Tijolinho”.
V.A. “Não São Paulo Vol. 1” – Coletânea linda com quatro post punks paulistanos, dos experimentos jazzisticos/kraut do Akira S & As Garotas Que Erraram, passando pelo trip hop do Chance, pelo som denso do Muzak e pelo quase pop Ness. Um disco bastante diverso, que cobre muito bem um cenário marcado no tempo.
Vellocet, “Demonstration Tape n.01” – um EP-demo do Vellocet que tem “Inside My Mind (Again)”, música que roubou os corações e ouvidos de muita gente ligada nos sons do underground brasileiro por volta de 1999/2000.

– Muitas vezes o Disco Furado é o único lugar onde podemos encontrar muitos discos e EPs que não estão disponíveis em nenhum outro lugar. Como você se sente sobre isso?

Penso “que bom que ninguém disponibilizou isso antes”, o que garante um ineditismo para o meu trabalho e um pouco mais de visitantes. E olha que é grande a lista de coisas que não estão na rede.

– Porque você acha que tantas boas ótimas acabaram “sumindo”, ou pelo menos seu material dando essa desaparecida?

Difícil de saber, mas ou é porque o disco tem poucas unidades (às vezes mil discos é pouco e a distribuição falha), ou porque quando lançado o disco acabou sendo pouco ouvido, daí quando é redescoberto vira uma caça ao tesouro perdido (gosto mais desses segundos casos).

– Além dos discos, você também coloca no Youtube apresentações de bandas e entrevistas em programas como o Lado B da Mtv, pérolas que muitos achavam que estavam perdidas com o fechamento da Mtv Brasil da Abril. Você tem um acervo disso? O que você acha desse fechamento da Mtv Brasil e a virada pra esta nova Mtv que mal fala de música?

Eu gravei muita coisa em VHS entre os anos de 1998 e 2005, peguei coisas fantásticas como o Musikaos, Turma da Cultura e programas de Mtv, mas naquela época eu não dava muita atenção a qualidade das cosias que gravava e para aproveitar bem as fitas acabava gravando muita coisa que ficava com a qualidade ruim, se eu soubesse que um dia isso iria sair das minhas VHS para o youtube, teria gravado melhor. Mas eu fiz isso para ouvir música e conhecer bandas, não imaginava algo como o Youtube. Creio que o modelo de music television se esgotou, e não é nem culpa da Mtv Brasil, a Mtv gringa já tinha outro formato, com programas mais voltados para comportamento e entretenimento jovem, com menos espaço pra música. O modelo chegou ao brasil com um pouco de resistência, mas se “consolidou”, teve aceitação. Logo a velha fórmula do music television caiu, VJs envelheceram rápido, e veio Marcos Mion, Adnet, uma turma que em nada tinha a ver com a proposta da emissora nos seus primeiros 10 anos. A nova MTV não tem preocupação com música, mas a tendência é esses espaços unicamente musicais na TV perderem espaço frente a autoprogramação, a possibilidade de assistir o que quer na hora que quer. O Youtube é a televisão de quem se interessa prioritariamente por música.

– Recomende bandas e artistas independentes que você descobriu nos últimos tempos e todo mundo deveria ficar de olho.

Puxa, como não estou por dentro das coisas recém lançadas, vou citar dez nomes que sempre me interesso por saber o que estão fazendo: ruído/mm, Loomer, Valv, Plato Divorak, Stela Campos, Kingargoolas, Test, Leptospirose, Anvil FX e Curumin. Ufa! (risos)