Mais madura, Adele diz “Hello” à música pop

Mais madura, Adele diz “Hello” à música pop

23 de outubro de 2015 0 Por Daniel Feltrin

Toda canção pop carrega uma carga de dramaticidade inerente. Faz parte do gênero o exagero comum à música popular desde que esta se conhece por gente. Na verdade, desde que a música de concerto foi “inventada” nas cortes europeias em algum momento do milênio passado, o que diferenciava a música popular da que hoje chamamos um tanto pejorativamente de “erudita” era a presença de letras predominantemente e os temas caros à população em geral. Qualquer semelhança com as canções do século XX e XXI não é mera coincidência.

Nessa toada (no pun intended) Adele é uma das mestras contemporâneas. O exagero e a dramaticidade de suas canções tem produzido standards da música popular que não apenas funcionam perfeitamente como hits comerciais, mas estabelecem a continuidade com a tradição popular. A música pop é referencial e, como não podia deixar de ser, a canção nova apresentada pela cantora inglesa hoje vem carregada dela.

A primeira coisa que deve ter vindo à cabeça de todos ao ouvir “Hello” foi Lionel Richie. A famigerada canção lançada em 1984 foi topo das listas da Billboard em três categorias, sem contar que foi primeiro lugar na lista de singles britânica, terra natal de Adele. Carregada na dramaticidade clássica do R&B, Hello foi acusada de plágio pela cantora Marjorie Hoffman White alegando a cópia de sua canção “I’m Not Ready To Go”, o que prova o quanto a referencialidade da música pop é inerente, assim como sua carga dramática.

Mas não só de primeiras associações se faz uma Adele. É claro que pensamos logo de cara na canção do ex-Commodores – eu pessoalmente fiquei imaginando como Adele conseguiu construir o resto da música sem cantar o “Is it me you’re looking for?” logo depois do primeiro verso – mas “Hello” está cheia de autoreferências da própria Adele e essas vem da sua influência do R&B que Richie também bebeu.

É uma canção clássica de Adele. Refrão marcante, letra catártica (com um aceno à “California Dreaming”) e o piano tão característico da cantora. No mais, podemos esperar de “25” um disco que segue a própria trajetória de Adele sem muitas firulas ou inovações, no entanto, sinto uma simplicidade no arranjo desprovido de muitas orquestrações ou ritmos. Uma simples batida como o simples pedido de desculpas que a letra da canção faz. Adele parece querer demonstrar uma sonoridade mais despida de sofisticações como se quisesse dizer que aos “25” não precisa provar mais nada.

Nesse sentido, temos uma canção pop simples e direta que dialoga com a carreira da cantora ao mesmo tempo em que tenta chegar ao âmago do seu projeto musical sendo simples e direta. Temos uma Adele mais madura que domina a arte de fazer canções para as grandes massas com personalidade.