List-O-Mania #4 – As 4 canções mais dramáticas da carreira solo de Morrissey

List-O-Mania #4 – As 4 canções mais dramáticas da carreira solo de Morrissey

17 de novembro de 2015 0 Por Daniel Feltrin

List-O-Mania, por Daniel Feltrin

Está para acontecer. Depois de muita especulação e cancelamentos haverá mais uma rodada de show do Morrissey no Brasil. O cantor de Manchester chega ao Brasil aos 56 anos com uma carreira consolidada tanto na sua ex-banda, os Smiths, como em sua carreira solo e canta hoje e sábado em São Paulo, na próxima quarta no Rio e em Brasília dois dias depois. Cantando melodias inteligentes com sua voz de barítono, aliadas a danças frenéticas recheadas de trejeitos, além do famigerado humor inglês tão mordaz quanto direto, Moz é conhecido pelas letras dramáticas, supostamente autobiográficas.

Da época dos Smiths temos maravilhas como “Bigmouth Strikes Again”, sobre alguém que fala demais e acaba sempre pagando por isso culminando no sentimento melodramático de saber “como Joana D’Arc se sentiu quando as chamas subiram até seu nariz romano e seu walk-man começou a derreter”; ou a deliciosa “Stop Me If You Think That You Heard This One Before”, em que o eu-lírico de Moz diz que “nada mudou, ainda te amo, apenas um pouco, só um pouquinho menos do que eu costumava, meu amor…”.

Em sua carreira solo Morrissey também não perdoa e temos músicas como “Irish Blood, English Heart” que invoca a tradição rebelde irlandesa e toda verve antimonárquica de Moz tão bem conhecida desde os tempos de “The Queen is Dead”. Porém, uma das coisas que mais me chama a atenção na carreira solo do ex-Smiths é a dramaticidade progressiva dos nomes de seus discos: “Bona Drag”, “Your Arsenal”, “Ringleader of the Tormentors” e “Year of Refusal”, etc. que parecem reafirmar que ele só melhora com a idade.

É interessante pensar que apesar de a letra de “Suedehead” gritar a plenos pulmões “I’m so sorry”, Moz não parece querer diminuir a dramaticidade charmosa de suas canções que produz refrões deliciosos. Para a gente se preparar para os shows, aqui vão 4 delas:

  • “The First Of The Gang To Die”. Essa é a história de Hector, provavelmente um marginal das ruas que foi o primeiro da turma do jovem Morrisey a ser preso, a ter uma arma e a morrer tragicamente. O narrador o trata como um herói, que roubou o coração de todos com seu estilo de Robin Hood blasé. Hector tbm é Heitor o primogênito de Troia morto por Aquiles antes dos Gregos (a cultura dominante) destruírem Troia (a cultura assimilada). Como num filme da nouvelle vague misturada às tradições de narrativas orais irlandesas, Moz canta sobre a vida de Hector sobre o ritmo de uma batida envolvente em que aborda os temas comuns de sua obra em que discute a paixão inevitável por figuras carismáticas e cinematográficas e sua mordaz crítica de quem conhece na pele os estratos da sociedade inglesa. Vindo de uma cidade como Manchester, industrial e com suas camadas sociais impostas pelo status quo britânico tão certo de si mesmo que chega a ser opressor só pela polidez, Morrissey conhece os tipos e os “marginais” heroicos tão tradição romântica da qual bebe fundo. Em sua Autobiografia (que dramaticamente exigiu que fosse publicada pela Penguin Classics, divisão da famosa editora que apenas publica autores mortos como seu “beloved Wilde“) o cantor relembra com a dramaticidade necessária as ruas e as pessoas dessa cidade tão emblemática.

  • “Alma Matters”. Morrissey é o rei do duplo sentido. Típico da poesia inglesa o simbolismo é muito importante para Moz, sempre dono de uma sexualidade polemicamente não definida. A sexualidade e o amor, o corpo e o espírito são o tema de Alma Matters. Ironicamente brincando com o academicismo que Alma Mater sugere (além das milhões de associações freudianas possíveis), Moz bate na hiporcrisia puritana da sociedade que o define como algum tipo de estereótipo sexual desde que apareceu no cenário musical desfilando canções tão enigmáticas sobre a sua sexualidade quanto sinceras ao expressar que de fato, isso não importa. A letra enfatiza a importância do espírito e inexorável inseparabilidade deste com o corpo. De forma elegante, Moz é direto no verso dizendo que a vida que escolheu é apenas dele para arruinar da forma que quiser, até porque “para alguém, em algum lugar” a “alma matters (alma importa)” na mente, no corpo e na alma “in part and in whole (na parte e no todo)” deliciosamente metaforizando ena própria estrutura e dinâmica letra/música da canção o conceito de forma e conteúdo. E é claro que o fato de a palavra whole ser homófona de hole não é mera coincidência.

  • “You Have Killed Me”. Que Morrissey ama cinema europeu do século XX não é segredo para ninguém, mas nesta canção ele atinge o ápice da dramaticidade. Com refrão grudento e um riff inteligente que lembra as melhores canções de britpop, You have killed me fala sobre um relacionamento desigual entre as partes. Na letra, Morrissey compara filmes italianos e seus personagens para definir os envolvidos. Na primeira estrofe ele se autoproclama Pasolini e nomeia o interlocutor de Acattone, o primeiro filme do diretor italiano e a sua transição da literatura para o cinema, talvez sugerindo uma experiência amorosa inédita ou um primeiro amor. O cunho sexual, mas também espiritual (não podemos abandonar os duplos sentidos de que falamos na canção anterior) é enfatizado no verso “Eu não entrei em nada, e nada entrou em mim, até que você veio com a chave” assim como a sugestão de uma primeira experiência da qual a pessoa envolvida não é ou não fez o suficiente e, apesar de ter “feito seu melhor”. Assim como garante o refrão contagiante,  essa pessoa deixou Moz tão mal que a sensação é de ter morrido em vida a tal ponto de ele se ver representado na Piazza Cavour perguntando a si mesmo de que serve sua vida, o que talvez uma referência ao filme La Luna de Bertolucci cujo protagonista, um jovem filho de mãe solteira busca suas raízes numa figura paternal, e uma das cenas de estranhamento se passa num cinema desta praça em Roma. No entanto, a segunda estrofe é a que acho mais interessante. Nela Morrissey se compara a Visconti, porém a seu interlocutor é recusado o papel de Anna Magnani, a esposa do diretor que tanto representou o papel da mulher comum que sempre se sacrifica pela família, algo tão presente em culturas católicas. Essa estrofe me faz pensar que Morrissey está se referindo a relacionamentos entre pessoas de modo geral suas primeiras experiências e os traumas provenientes destas que nos “matam” pouco a pouco e não há nada a se fazer a não ser filmes italianos ou canções dramáticas, ou como o próprio protagonista diz: “Não tem sentido em dizer isso de novo, mas eu lhe perdoo, sempre lhe perdoo.”

  • “Everyday is like Sunday”. Essa balada é uma das mais conhecidas de Moz. É impossível não cantar o refrão a plenos pulmões. Fala sobre o tédio engatilhado por um domingo qualquer numa cidade de interior cheia de história como as pessoas que vagam sobre ela, mesmo que estas não signifiquem nada, apenas lembranças, afinal como diz o narrador a cidade “se esqueceu de fechar” e morrer, assim como quem canta essa canção. A depressão que causa o tédio e a ansiedade em Morrissey não é menos dramática no seu pedido pré-refrão: “Venha Armaggedon” canta o narrador, como se implorasse por algo mais significativo que um simples domingo que quando menos se espera se torna todo dia. Parece uma balada comum, mas a dramaticidade se torna tão imensa se pensarmos que é tão real para tanta gente. Morrissey é simples e direto da forma que só ele sabe ser, sem precisar de grandes referências ou truques como nas canções acima, deixa na boca um gosto melancólico de – para usar uma linguagem internética, tentando (e falhando) uma ironia Morisseyana – #dramasreais.