Lisergia, experimentalismo e minimalismo musical com Raf F. Guimarães e Amigas de Plástico

Raf. F. Guimarães

A independência prolífica de Raf F. Guimarães rendeu uma discografia diversa e interessante cheia de experimentalismo e lisergia, além de sua paixão pelo minimalismo. Com ou sem a banda Amigas de Plástico, ele continua trabalhando em sua música tratando-a como ela deve ser tratada: como arte.

Seu mais recente trabalho, “Phase 3”, saiu em CD e vinil e mostra um pouco do conceito de desconstrução da música que o artista seguiu, com minimalismo e noise em quase todas as faixas. Agora Raf prepara seu segundo trabalho solo, sucessor de “Lofi em Mono”.

Conversei com ele sobre seus trabalhos, influências e sua desesperança na cena independente:

– Como você começou sua carreira?

Momento viagem no tempo… No início das Amigas de Plástico, a banda estava mais interessada em criar um “caos organizado”, muito orientada pela desconstrução da música que o Einsturzende Neubauten fazia. Isso era ’98. A banda foi meu primeiro projeto musical que foi concebido em não ser “hobby”, mas a ideia girava muito em torno de criações espontâneas… Meia dúzia de “temas/riffs” e muita improvisação… Não havia o menor interesse em gravar nada. Era meio “o que ficar nas nossas cabeças e na memória das pessoas é o que interessa”. Isso explica o porquê do lançamento tardio do primeiro disco. Só após a primeira (de muitas) diluições de formações é que eu comecei a digerir a ideia de gravar. Esse hiato durou alguns anos, enquanto isso eu fiz trilhas, produzi alguns amigos, fiz engenharia de áudio para outros…

– Já que você falou dele, me conta mais sobre o primeiro disco!

Ele tinha tudo para não acontecer! No “Tschüss” (‘adeus’ em alemão, que por um erro de grafia arte da capa virou “Tchuess”) a idéia da gravação final veio de uma conversa minha com o Will Sergeant (do Echo and the Bunnymen) sobre gravar uma música por dia e só voltar para a mesma quando fosse mixar. Foi o que aconteceu: uma música por dia, gravação em rolo, tudo gravado no primeiro take! Várias coisas naquele disco eu não tenho ideia de como apareceram na fita, várias músicas terminaram totalmente diferentes do que eram, pela atmosfera q foi criada na hora… Muita coisa foi improvisada (e errada) na hora também. Era um modo de manter a ideia da espontaneidade viva… Eu acabei voltando a esse “método” de uma música por dia quando gravei meu primeiro solo, o “Lofi em Mono”. Quando todo o instrumental estava pronto, eu estava bem desanimado com o meio musical em si… A ideia de ajudar a todos e ninguém ao menos perguntar como você esta segurando a barra. Eu não tinha a menor força para gravar os vocais, mas o selo que ia distribuir o CD estava super animado. “Não importa, nós vamos lançar ele assim como está, está perfeito…E vamos fazer um poster: the greatest unfinished album ever released!” E foi o que fizeram! (risos). Eu estava imerso em uma psicodelia pesada na época, muita gente fala pra mim que o disco quem algo de shoegaze/dream pop… Mas o que eu acho mais sensacional é como ele involuntariamente conta a estória de um relacionamento. Ele começa por “Oi”, passa por “Este é o meu novo amor”, a coisa desanda em “13 mentiras” e termina com um “Adeus”. Acabou que eu curti bastante o “exercício” que o Will me propôs como solução pra um disco que não saía do mundo das idéias e desde então eu comecei a tratar todos os álbuns como uma relação entre uma conceito de tema e uma metodologia de gravação específica… Acho que tem dado bons resultados até agora.

– Aí depois veio o “Nada”, né. Como foi a produção desse trabalho?

Isso! Na época do “NADA!” o Diego tinha voltado para o projeto… como o “Tschuess” foi bem solto e tem uma atmosfera um pouco, digamos, romântica, eu pensei em ir ao extremo oposto… Em trabalharmos a gravação como control freaks e o conceito seria algo como “o lado sujo/grotesco do amor” (Na época eu, particularmente, estava metendo o pé na jaca com sintéticos em geral)… Acho genial o disco começar daquela forma. Você sabe o que é um “68”? “Você me chupa e eu te devo uma”. E é unissex, nem podem me chamar de misógino. É uma musica sobre sexo oral e dominação.

Raf F. Guimarães

– E depois veio “Ipanema”, já com outra pegada.

Sim… “Ipanema” era uma musica bem do inicio da adp…anos 90, baseada em uma historia real…a ideia era ter um 12″ com o single de “Ipanema” (e umas sobras da gravação do “NADA!”) de um lado e um EP (“Não Existe Fudeca em São Paulo”) do outro. Este era basicamente cordas e sintetizadores, falando sobre relacionamentos à distância. Nessa época estávamos a todo vapor, tínhamos sido convidados pra tocar no programa de entrevistas do Marcelo Yuka… Estávamos já trabalhando o que seria um próximo álbum (“Without Teeth” referencia ao NIN, com o Tião Macalé na capa, óbvio)… Mas o Diego deu uma mega sumida já com bastante material gravado (para depois anunciar seu desligamento), eu já estava sacando que tinha algo errado enquanto não conseguia falar com ele e coloquei a ideia do “Lofi em Mono” em prática, para não ficar parado… Voz e guitarra, só, usando o amplificador como instrumento. Sem pedais, sem pós produção. novamente tudo em fita. Quando o “Lofi…” ficou pronto, eu tive o mesmo grau de realização que tive quando o “Tschuess” saiu. Pra mim foi um disco bem intenso e, em termos, era a semente do que eu desenvolvo hoje.

– E depois veio um EP com poucas músicas.

Depois do “Lofi…” eu ainda não estava totalmente pronto para a ideia de deixar de lado (mesmo que por um tempo) a Amigas de Plástico. Então fiz uma série de 4 singles mensais, e o lado negro da força (digo, do minimalismo) foi tomando conta cada vez mais de mim! (risos)

– E foi daí que surgiu o “Phase 3”, que saiu até em vinil.

Sim sim… Nesta época dos singles eu tinha que bater ponto aí em SP uma vez por mês, basicamente. Conheci o Ricardo Garcia do Fita Crepe e combinamos de fazer uma apresentação lá, que seria um estudo preliminar do que viria a ser o “Phase 3”. Na época eu ainda tinha a mentalidade deadhead de distribuir ácido nos shows, então você pode imaginar… De certa forma, ali eu comecei a desconstruir os elementos da música e trabalhar com cada vez menos variáveis …A ideia de La Monte Young de que o minimalismo é música feita com o mínimo de recursos possíveis foi algo como a interseção entre meu trabalho solo até então e todo o percurso da Amigas de Plástico de apresentar conceitos/práticas do avant garde de forma digerível ao publico “não iniciado”.

– E o “Phase 3” te rendeu um ótimo retorno, né?

Foi surpreendente e ao mesmo tempo desanimador (risos). Mas os bons momentos fazem valer a pena, tipo quando o Rosco (ex-Spacemen 3/The Darkside) veio falar super bem do álbum (ainda rolou um escambo de discos…)

– Desanimador porque?

Então…eu costumo dizer que hoje em dia não existe “cena” em lugar algum. Existe “panela” e existe bastante “fogo amigo”. Sabe, eu não suporto o Renato Russo, mas ele tem uma frase que é sensacional. Ele fala que o problema das pessoas é que elas brigam pela luta errada. Você não pode brigar pelo espaço do outro, você tem que lutar por um espaço para você! Mas a maioria das bandas pensam que realmente é uma competição, e as pessoas te boicotam de 300 formas. Basicamente você acha que tem amigos, mas só tem filhos da puta. Coisas da vida. Mas se você pensar que são males que bem para o bem, é tudo lucro. Mas o álbum vai muito bem em streaming, as pessoas começam a achar que você está em outro nível quando você fala que tem um vinil…

– Então sua opinião geral sobre a cena independente hoje é negativa.

Definitivamente. grande parte das plateias em show independentes/undergrounds são músicos que estão ali por que querem roubar a ideia do set up do seu som e/ou falar que faz melhor… Não existe um apoio fraterno sem um interesse obscuro no que você tem a oferecer.

– E você acha que o vinil está voltando à ativa entre quem realmente gosta de música?

Olha, em números da Associação Internacional as vendas de vinil voltaram ao nível que estavam no início dos anos 90… Acredito que grande parte seja hype, mas levando em conta o fato de que uma boa loja de discos hoje trabalha com LPs, acho que grande parte dos reais fãs consumidores de música, opta por CDs em edições especiais ou pelo vinil… O grande público mesmo não consome música.

– O grande público consome o que a mídia e o mainstream oferecem.

Até mesmo o publico “alternativo”. Eles baixam mp3 mega comprimidas pra escutarem em seus iPhones com fones de ouvido de 5 reais…

– Como você definiria o som do Amigas de Plástico?

Eu tenho duas boas definições. Música para você se sentir bem em ser um merda. Música elegante para pessoas vulgares (ou o contrário). Mas talvez essa segunda se adeque mais aos discos solo.

Raf F. Guimarães

– Quem você citaria como maiores influências pro Amigas de Plástico?

Neubauten, Glide (o projeto solo do Will Sergeant), Death in June, minimalistas em geral (Glass, Cage, Riley, Young), Psychic TV

– Quais os próximos passos da banda?

Bom… A Amigas de Plástico está em um hiato estratégico, como fala o próprio encarte do “Phase 3”, e eu estou seguindo solo… Acabei de lançar um EP “Gitanes et Toréros”, que foi composto e gravado em coisa de uma semana no inicio do ano, vou continuar seguindo em frente como essa espécie de Don Quixote e espero lançar um novo álbum no final do ano. Esse deve sair em uma edição mega limitada, entre 20-50 vinis.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes!) que você ouviu nos últimos tempos e chamaram sua atenção.

Wolvserpent, mono, Boris, Phurpa, Phallus Roi, T.G. Olson


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