Leela prepara disco sobre o novo mundo digital enquanto tira o melhor dele no projeto #LeelaLive

Leela prepara disco sobre o novo mundo digital enquanto tira o melhor dele no projeto #LeelaLive

4 de setembro de 2019 2 Por Karinna Fiorito

O casal Bianca Jhordão e Rodrigo Brandão da banda Leela nos recebeu em seu estúdio localizado em São Paulo e em meio a muitas risadas e papo sobre música, nos contaram o que esperar do seu novo álbum, que será lançado em 2020 e relata esse novo mundo digital em que vivemos, além de falarem também sobre como é necessário interagir com o público, como ainda existe preconceito no mundo da música e muito mais:

Vocês surgiram em 2001, quando várias outras bandas surgiram. Este ano, depois de muitos anos, um álbum de rock (“Help Us Stranger”, do The Raconteurs) voltou ao topo das paradas mundiais. Vocês acham que isso vai se refletir no Brasil?

Bianca Jhordão: Eu acredito que o rock é algo cíclico, tem momentos de alta e de baixa. Ele se reinventa mesmo tendo uma tradição que começou nos anos 50 com Elvis, Chuck Berry, Little Richards. O rock é mais que um gênero musical, é uma filosofia de vida. Quem gosta de rock e de todas suas vertentes vai continuar gostando.

Rodrigo Brandão: Mas a visão pode se ampliar para chegar nas novas gerações.

Bianca: Uma banda como o Metallica, que hoje se apresenta em estádios, era uma banda de metal underground. Nirvana, por exemplo, era um nicho que fez explodir várias bandas grunges.

Rodrigo: Os Beatles, mesmo no Cavern, começaram uma cena.

Bianca: Existem essas cenas e a cada uma que explode, surgem novas tendências, novas ideias.

Rodrigo: O rock por tradição tem isso de criar novos conceitos e transformar em novas tendências. Esperamos que ele esteja se renovando.

CEHI: O público também é outro. O público não é mais aquele do Metallica e do Nirvana…

Bianca: Fazendo uma comparação com nosso filho, ele tem 7 anos e adora o Nirvana, mas será que se não fossemos seus pais ele conheceria?

Rodrigo: Nirvana é um marco, igual aos Ramones, em todos os lugares tem alguém vestindo uma camiseta do Nirvana. Talvez não conheçam as músicas, mas são marcas muito fortes da cultura pop.

Bianca: Quando uma banda de rock estoura, às vezes a marca e o estilo ficam mais famosas que as bandas em si, como o grunge com o xadrez. Quem usa uma camiseta do Nirvana pode ser que nem conheça a banda e as músicas. Isso acontece.

Então hoje em dia não existe mas essa coisa de visual de roqueiro?

Bianca: Não. Por exemplo, os músicos sertanejos se vestem de preto, jaqueta de couro, no maior estilo rock n’ roll. Com tatuagens…

Rodrigo: Dizem que o rock influencia na moda. Tem influência do rock em todos os lugares.

Bianca: Hoje não tem mais aquela barreira que você tem que ser isso ou aquilo. Eu acredito no poder de cada artista tem em se expressar. Um cara como o Jack White: ele se preocupa muito com a estética, com o timbre, com a sonoridade. Um artista tem que se preocupar com tudo isso. Hoje não temos mais quem produza a estética. Nossos álbuns não são mais vendidos nas lojas. Nós que temos que fazer tudo. Tivemos que aprender a nos reinventarmos. Somos meio David Bowie, temos que ter vários lados, o artístico, o familiar. As pessoas hoje querem acompanhar o seu “eu” pessoal e não só o “eu” artístico.

O mundo mudou. Eu sinto que com o final da MTV, as bandas de rock brasileiras perderam espaço, digamos assim. A MTV influenciava. Era onde se descobria novas bandas e etc. A música de vocês “Te Procuro”, por exemplo, entrou na trilha da Malhação depois de estourar nas paradas da MTV. Vocês sentem essa diferença?

Bianca: O Leela tocou muito na MTV. Fazíamos reportagens, tínhamos uma presença boa.

Rodrigo: Nós adorávamos ir na MTV. Fora isso, nós adorávamos assistir, influenciou muito nosso trabalho e nos ajudou muito a divulgar.

Bianca: Sem a MTV ficou uma lacuna nessa cena rock.

Rodrigo: Hoje os blogs e os portais fazem esse papel. Mas ainda assim, tinha aquele poder televisivo.

CEHF: Vocês não acham que foi substituído pelo YouTube?

Bianca: O YouTube tem aquilo: você esta assistindo um vídeo de gatinho, depois de um foguete indo para o espaço.

Rodrigo: Crianças abrindo brinquedos ou jogando vídeo game. Esses vídeos concorrem com a música. Apesar que segundo as estáticas, a maior parte da audiência do YouTube é musical. Mesmo tendo esses youtubers, esses vídeos tutoriais, a música ainda sustenta o maior número de visualizações.

Bianca: Estamos vivendo um momento histórico. Nunca tivemos tanto acesso à música. É uma fartura. Você pode ouvir a música que quiser, aonde quiser e na hora que quiser. Em 1979, quando foi lançado o walkman, foi uma revolução. Você podia ouvir o K7 onde estivesse e individualmente. Dava uma sensação de liberdade. Agora em 2019 com os streamings musicais, sua trilha sonora está com você onde você estiver, tudo em um só aparelho. É tanta fartura que você não sabe nem o que ouvir. Você tem acesso à música o tempo inteiro no seu aparelho de telefone. Até no avião você pode ouvir música. Tem as playlists que você pode dar um play e conhecer coisas novas. E os podcasts sobre música, que são ótimos.

Esse novo álbum que já conhecemos cinco música será lançado ainda este ano?

Bianca: Não. Será lançado em maio de 2020. A previsão é de lançar esse álbum após termos lançado todas as músicas como singles. E o lançamento do álbum vai ser em conjunto com o lançamento de um curta metragem ficcional  onde todas as nossas letras vão permear essa história.

Então será trilha sonora de um curta metragem? Como o álbum “The Wall” do Pink Floyd?

Bianca: Exato. Estamos lançando a trilha sonora de um curta metragem.

Rodrigo: E estamos lançando dez vídeo clipes.

Bianca: Sim. Os clipes contam as histórias uma a uma. Estamos adorando lançar single por single, porque nos outros álbuns tínhamos que eleger uma ou duas músicas de trabalho e só falarmos sobre daquelas músicas. Dessa vez, podemos nos aprofundar em cada uma delas. Tratar cada música com o carinho que ela merece. Compôr uma música é muito complexo, dá muito trabalho. As pessoas não dão tanta atenção para todas as músicas quando são lançadas  de uma vez só.

Rodrigo: As pessoas e os críticos musicais estão acostumados a resenhar álbuns que são lançados por completos. Nós não causaremos esse impacto, essa surpresa, quando nosso álbum chegar aos formadores de opiniões. Mas não há tanto problema. Nós temos muito para expressar.

Bianca: Com o lançamento do álbum e do curta, vamos abrir uma discussão sobre o impacto causado pelas redes sociais na sociedade. Então a ideia é fazer palestras e workshops sobre esse tema. Debater como a era digital muda as relações. Eu estava lendo um livro de 2009 em que só falávamos de Myspace e Torrent. Em 1999 falamos do Discman. Agora em 2019 do Facebook, YouTube, Instagram, Spotify. Do que estaremos falando em 2029? Será que terão hologramas? É viver o agora e deixar para as próximas gerações como tudo foi construído. É uma reflexão do momento que vai além da música.

Como surgiu essa ideia de te lançar vídeo por vídeo?

Bianca: “YouTube Mine” surgiu nessa necessidade de ter um YouTube. Nós vimos que nosso YouTube estava abandonado, não sabíamos tanto sobre como era ter um canal e resolvemos fazer uma música sobre isso. Já “Fanáticos Online” fala sobre vídeo game, porque por muitos anos eu apresentava um programa sobre games na PlayTV. Os vinte um jogos cantados no refrão da música eu jogava. Sempre falamos sobre assuntos que nós conhecemos, como hoje as redes sociais. Nós vivemos isso.

Quando vocês começaram a produzir esse novo álbum?

Bianca: Em novembro de 2018 nós lançamos “YouTube Mine”, em dezembro “Fanáticos Online”, fevereiro de 2019 lançamos “Momento Presente”, em abril “Cada Vez Mais”, julho “Fome de Viver”, em outubro lançaremos “ScarFacebook’ e em dezembro será lançada nossa primeira música em inglês, “Lost in You”. Em 2020 serão lançadas as outras: “Dirty Jokes”, “Amor Aplicativo” e “Seven Stars”. Se tivermos tempo, pode ser que incluiremos uma música inédita para o lançamento do álbum.

Esse novo álbum terá participação do Fausto Fawcett. Terá outras participações?

Bianca: O Fausto cantou com agente em “Fome de Viver”, mas ele é um parceiro nosso desde o primeiro álbum.

Rodrigo: Ele participa de sete músicas. É o álbum que terá o maior número de parcerias com o Fausto. Ele abraçou essa temática do álbum. Mas temos outras participações.

Bianca: A Miranda Kassin em “Seven Stars”, a Barbara Eugênia em “Cada Vez Mais”, a Letrux em “Scarfacebook” e o George Israel (Kid Abelha) em “Amor Aplicativo”.

Rodrigo: Fora os músicos, porque quando começamos a gravar esse álbum não tínhamos uma formação fixa na banda.

A formação do Leela mudou?

Rodrigo: Sim. Dos quatro cabeças só ficamos eu e a Bianca. Nós somos os únicos que estamos em todas as formações.

Bianca: A formação atual conta com o Fabiano Paz na bateria e Guilherme Dourado no baixo. Eles estão desde o começo do ano tocando com agente. Tanto no #LeelaLive, como nos nossos shows.

Rodrigo: Como estamos gravando esse álbum tem mais de um ano, outros músicos participaram da gravação.

Bianca: Mas as duas músicas que faltam gravar, “Seven Stars” e “Amor Aplicativo”, gravaremos com o Guilherme e com o Fabiano.

Vocês tem um programa semanal no YouTube chamado #LeelaLive. Como é esse programa? Como surgiu essa ideia?

Bianca: O #LeelaLive surgiu dessa necessidade de ter uma constância online. Nós ficamos bastante tempo sem lançar nenhuma música, desde o nascimento do nosso filho. Então criamos esse programa para ter essa interação, para podermos tocar ao vivo, para podermos convidar os amigos. E isso retrata muito a cena atual de parcerias. E nós queríamos um tema para os nossos programas. Começamos celebrando os 50 anos de álbuns que adoramos.

Rodrigo: Depois passamos a celebrar, 40/30/20/10 anos…

Bianca: Sim. Mas não queríamos fazer um programa aleatório. Nosso tema são celebrações de álbuns clássicos de rock e claro, tocar nossas músicas do Leela, nossos novos singles…

Rodrigo: Aniversário dos nossos discos.

Bianca: Temos essa licença poética, mas quando temos convidados, nós procuramos sempre celebrar esses álbuns que nos influenciaram e também para mostrar para essas novas gerações que talvez não conheçam. Essas celebrações são importantes.

Rodrigo: Os programas nos dão bastante trabalho para serem produzidos. São dois ou três dias por semana que trabalhamos só nisso.

Vocês ensaiam com o convidado antes do programa ao vivo?

Bianca: O convidado chega umas duas horas antes para ensaiarmos, ajeitarmos o som, o retorno, para fazermos os arranjos. Mesmo porque temos que ajustar o tempo da música, quando um entra, quando termina, quem vai começar cantando. Geralmente dividimos as estrofes das musicas.

Rodrigo: E fazemos tudo sozinhos, das transmissões, ajustes de luz e etc. São muitos detalhes técnicos.

Além do Leela e do #LeelaLive vocês tem outros projetos?

Bianca: Nós temos nosso estúdio, nós produzimos outros artistas. Temos que ter outros projetos para poder viver de música. O Rodrigo toca com a banda do Daniel Peixoto. Eu toco com a Gang 90, eu canto no Hotel Básico, que é um projeto paralelo do Fê Lemos (Capital Inicial). E nós adoramos, adoramos parcerias, a união fortalece.

Nesses vinte anos e depois de sete anos de hiato: mudaram as influencias musicais de vocês?

Bianca: A sonoridade mudou bastante. Eu via o Leela como uma banda de indie rock orgânico. Hoje usamos bases mais eletrônicas.

Rodrigo: Bastante. Antes nós pensávamos “vamos pesar no nosso som” e hoje não, hoje pensamos “vamos dançar”. Passamos a compor não só com a guitarra e no violão, mas também com o computador, o que nos abriu infinitas possibilidades.

O que vocês andam ouvindo? O que não saí da playlist de vocês?

Bianca: Depende do que vamos tocar no #LeelaLive. Essa semana eu dissequei o “London Calling” do The Clash.

Rodrigo: Depende. Para criar o álbum era um tipo de audição. São outras influências que não são do #LeelaLive. Mas realmente, o #LeelaLive tem dominado nossa audição. Mas quando estávamos criando esse novo álbum, estávamos ouvindo Hot Chip, Sound System, Franz Ferdinand, White Stripes.

Bianca: Blondie, PJ Harvey maravilhosa, The Kills. Nenhuma banda muito nova.

Rodrigo: Outra coisa que influenciou é essa coisa mais falada, que vem do hip hop que tem feito muito sucesso atualmente. Colocamos textos mais falados em nossas novas músicas, tinham mais melodias agora nos misturamos. Nós achamos que com esse tema da era digital, com o nosso lado mais eletrônico, dançante… apesar de gostar muito disso, esperamos também atingir essa nova geração. Vamos ver…

Bianca: Não seguimos um só conceito nem musicalmente nem visualmente. Como no vídeo de “YouTube Mine”, que é bem anos 90, em “Fome de Viver” eu sou uma vampira super bem produzida, em” Momento Presente” estou no meio do mato sem maquiagem, então não temos uma linha um conceito e isso é muito rico.

O que podem nos contar sobre a gradavora de vocês?

Bianca: Nós temos um selo chamado Music Bunker. Nós inicialmente criamos esse selo para lançar nossos trabalhos com o Leela.

Rodrigo: Na verdade nós tínhamos o estúdio e um agregador nosso nos deu a ideia do selo para nos mesmos lançarmos as produções do Leela e de outros artistas que produzimos. Nosso primeiro lançamento foi o Daniel Peixoto, o rapper Fino Dflow, uma banda de rock pesado que eu faço parte E Mais Dez Territórios a Sua Escolha.

Bianca: Tem músicos que chegam com uma letra e ajudamos a compor a música. Nossa ideia é ajudar novos artistas, fortalecer a cena. E sem ter preconceito musical ou de gênero. Outro dia uma mulher apareceu no nosso estúdio nos contando que tinha mandado o material dela para outras três gravadoras e nenhuma deu resposta por ela ser mulher. Queremos atender a todos, não importa. Ainda tem aquele preconceito de bandas serem formadas por homem e cada gravadora tem uma vaga para uma banda de garotas, por exemplo. Nós queremos atender a todos. Não só mulheres, nem homens, nem só um estilo musical. Que todos tenhamos espaço e estejamos em todos os lugares, que tenham mulheres na produção, na iluminação, com nossa visão feminina.

Financeiramente falando, os artistas não recebem mais por suas obras. As pessoas não pagam por música ou pagam muito pouco por esses serviços de streaming. Para vocês como músicos isso não é ruim? Não atrapalha?

Bianca: Depende. Agora democratizou, uma banda nova tem suas músicas na mesma plataforma que as bandas famosas. Tanto os Beatles como nossa banda Leela estão no Spotify, por exemplo. Se você fosse em uma loja de discos você encontraria os álbuns dos Beatles, mas será que encontraria os do Leela?

Rodrigo: Outro exemplo são os artistas novos que estamos lançando pelo nosso selo estão lá dividindo o espaço com os Beatles.

Bianca: Agora dentro dessas plataformas, os artistas tem que trabalhar muito para as pessoas clicarem em suas músicas.

Rodrigo: É primeira vez estamos lançado nosso trabalho por essas novas plataformas. É nossa primeira experiência. Essas cinco músicas que lançamos recentemente, algumas entraram em playlists outras não. A importância que se estar nessas playlist é enorme. É onde você será encontrado, onde esse novo público vai conhecer seu trabalho. E para estar nessas playlists você tem que se destacar ou então no YouTube, mas para ser destaque por lá tem que pagar para ter mais visualização. É complicado para quem não pode investir nisso competir com esses artistas maiores.


É tudo tão digital que perdemos a excitação de abrir um disco, pegar, sentir, ver o encarte. Ouvir o chiado dos discos em vinil. Não sentem falta dessas sensações?

Rodrigo: Sim. Tanto que o vinil esta retornando. Tem muitas pessoas que são apaixonadas por vinis e colecionam… Aliás, nunca deixaram de colecionar. Não é na dose industrial que foi até os anos 90, mas tem quem queira essa cópia física.

Para viver de música hoje é preciso se reinventar? Fazer mais shows?

Bianca: Sim, fazer shows, mas não só isso. Ter uma presença online, o tempo todo.

Rodrigo: Expondo sua intimidade também. Os artistas estão se expondo como personalidade e como pessoas. Todo mundo tem feito. Pessoas como a Annita, Ivete Sangalo por exemplo, elas mostram o dia a dia delas. Quando tem um artista que não quer ter essa interação, ele sai perdendo.

A banda Leela se apresentará nessa próxima quinta-feira: 05/09 ás 22:00 no FFFront, Rua Purpurina, 199 – São Paulo – SP.
#LeelaLive inédito é transmitido todas as terças-feiras ás 19:00 horas, pelo Youtube. Acompanhem a banda também no Instagram  e  no Facebook.

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