Lâmina mostra que o movimento riot grrrl continua com os dois pés na porta no disco “Manifest”

foto: Vini Bock

Graças à Kathleen Hannah e seu Bikini Kill o quarteto Lâmina surgiu. A banda coloca para fora seus ideais e protestos, falando sobre feminismo, política e questões sociais em suas letras e discurso. As principais influências, além da banda que simboliza o movimento riot grrrl, são L7, Runaways, Babes In Toyland, Sonic Youth e Nirvana. Em meados de 2003, Pryka Almeida (vocal) e Thais Regina (guitarra) começaram o grupo, que se estabilizou na formação atual em 2005, com Dailla Facchini no baixo e Vanessa Ribeiro na bateria. Em 2008, o quarteto entrou em hiato, voltando em 2014 e gravando 2 anos depois seu primeiro EP, “Roll”.

Neste ano lançaram mais um trabalho, “Manifest”, com sete músicas, iniciado com uma gravação no estúdio Family Mob durante o Converse Rubber Tracks e finalizado com uma nova gravação em um estúdio por canal realizada ao vivo e masterizadas por Hugo Silva. Agora, a banda prepara clipes para as músicas “Entertain You” e “Magazines” e a gravação de 5 outras músicas que já estão prontas. Conversei com a vocalista Pryka sobre a carreira da banda, sua ideologia, o disco “Manifest” e os planos para o futuro:

– Como começou a banda?

Por volta dos 13 anos, quando eu comecei minhas primeiras aulas de bateria, formei a banda Princesas Podres com colegas da escola e amigas do prédio, mas a banda não durou muito. Já começando a frequentar festivais e shows, queria muito montar uma banda que participasse dos rolês que eu curtia. Em 2003, juntamos um pessoal para fazer um som na Choque Cultural (que na época ainda estava virando a Choque Cultural. Ensaiávamos lá pois o Jotape, filho dos donos, tinha uma bateria) entre amigos, cada um tocando um instrumento, eu ainda na bateria, e mais ou menos alguns possíveis integrantes pra virar Lâmina. Nessa jam, em um momento assumi o microfone em alguma música do Bikini Kill, e eu nem nunca tinha cantado (risos). Mas todos insistiram que eu tinha que cantar também, porque a minha voz tinha tudo a ver com as músicas que queria fazer. Já tínhamos uma vocalista, então ficamos com duas, eu e a Livia. Daí nosso amigo Henrique assumiu a bateria. Tínhamos a Giuliana no baixo e Pedro e Renata nas guitarras. Uma big band (risos)!

– E de onde surgiu o nome Lâmina? Aliás, adorei o nome Princesas Podres!

Olha, não sei direito, viu (risos). Mas como eu estava atrás de nomes com a pegada punk, me veio Lâmina como algo que cortasse , que ferisse a sociedade sabe? Tipo mostrando as verdades (risos). E sim! Quem sabe um dia remonto uma banda com esse nome!

– Quais são as principais influências da Lâmina? (Além do Bikini Kill, que quase que foi a força propulsora, né.)

Sim, Bikini Kill foi o princípio de tudo (risos). Mas tem muito de Babes in Toyland, Lunachicks, L7, Runaways, Nirvana (que foi onde eu cheguei no Bikini Kill).

– Vocês já tem um trabalho lançado, é isso mesmo?

Isso, levou anos! Mas saiu finalmente nosso primeiro CD, “Manifest”.

– Me conta mais sobre ele!

Quando a banda voltou a se reunir em 2014, o intuito era gravar um CD, mas mil coisas rolaram e não conseguimos. Daí em 2016 conseguimos um dia de estúdio no Family Mob através da Converse Rubber Tracks. Como fazia parte da “promoção”, essa parte durou 1 dia de gravação, que nos rendeu 3 músicas: “My Air”, “How About” e “8 de Março”. Lançamos como o EP e corremos atrás pra gravar mais músicas para poder completar e fazer um CD. Daí só em abril desse ano conseguimos uma graninha pra fazer uma gravação que “cabia no nosso bolso” ao vivo e por canal. Gravamos mais 9 músicas, porém a qualidade que o estúdio nos entregou mixada não foi satisfatória, o que fez com que selecionássemos 4 músicas para o engenheiro musical Hugo Silva, da Family Mob, finalizar. Então tem mais 5 músicas aqui na gaveta pra assim que tivermos uma graninha extra finalizarmos.

– Opa! E o que pode adiantar sobre essas 5 músicas que ainda vão sair?

Temos 3 músicas antigas e 2 músicas que fizemos nesse nosso retorno. Mas elas são tocadas nos shows sempre.

– E como estão sendo os shows? Como está sendo a recepção desse trabalho?

Eu tive um imprevisto que foi quebrar o tornozelo, o que nos deixou de molho já tem 3 meses. Mas que também foram necessários pras meninas da banda que estão em trabalhos de conclusão de curso ou na correria de trampo de fim de ano. Como ainda não tô 100% estamos preferindo esperar um pouco… Porque não adianta, na hora da música a gente se empolga, pula… E pra quem quebrou tornozelo agora não é uma boa (risos). E nós mesmo não temos a proposta de fazer muitos shows quando voltamos, pois com os outros afazeres da vida, embola um pouco tudo. Deixamos o lançamento ser um tanto mais orgânico, mas está tendo um alcance bacana, as próprias meninas inseridas no riot grrrl nos ajudam a divulgar e isso vai fazendo o CD chegar pro nosso público.

– Como você vê essa ascensão conservadora e misógina que tem acontecido nos últimos tempos?

A gente fica chocada como as coisas não vão pra frente. Eu comecei com banda em 2003, tem bandas com integrantes mulheres que tão na estrada antes disso e que não pararam de tocar e ainda assim a gente sofre preconceito. O rock é mega machista, começando no rótulo de colocar mulher como groupie. Mas tamo aí sempre mostrando que a mulher pode ser protagonista da história e que a música não é esse bicho de 7 cabeças. É foda ser chamada pra evento e se tem banda de cara, ter que estudar as outras bandas e o público, porque a gente não quer ir em lugar pra passar raiva e ser a minoria que é apedrejada e sacaneada, sabe. Acho super válido tocar em festivais que não sejam só de minas, mas a gente sabe que tem rolês que pode ser que vá pra passar dor de cabeça.

Pryka Almeida, do Lâmina
foto: Bruno Dicolla

– Essa luta feminina na música permanece forte faz tempo. Dá pra ver que nos últimos tempos, mesmo com todo esse povo misógino, a luta tá sendo ganha cada vez mais, não? ?

Tá super! Hoje em dia temos muita banda com mulheres, uma super diversificada. Lá atrás, quando comecei, tinha bastante banda, mas sempre as mesmas. Hoje a gente faz festival e dá uma super diversificada no line up, isso é incrível. Muita menina tocando e aprendendo a tocar. Hoje em dia tem o Girls Rock Camp também, que faz esse movimento se fortalecer e tanto voluntárias quanto campistas se empoderarem.

– Quais os próximos passos da banda?

Nós estamos com 2 roteiros de vídeos mais ou menos prontos que gostaríamos de filmar e esse CDzinho que dá continuidade pra lançar, mas não temos nem prazo pra isso, tudo no papel ainda.

– Clipes do primeiro disco?

Isso! Tem dias músicas desse cd que tão com roteirinhos sendo trabalhados, a “Entertain You” e “Magazines”. Vamos ver se vai rolar sair do papel, né. Mas a ideia é que role!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Tem a Charlotte Matou Um Cara e In Venus que estão com CDs recém lançados. O The Biggs de Sorocaba que tá faz tempo na estrada, que faz um rockão maravilhoso. A Bloody Mary Una Chica Band, que toca sozinha bateria, guitarra e ainda canta. Katze Sound de Curitiba. Miêta de BH, que faz um rockão maravilhoso. Las Fantásticas Pupés da Argentina que faz um som psycho/garagem sensacional.
Ema Stoned que faz um som experimental incrível. Ah, tem a Weedra também, que é a junção da banda Wee com a Hidra, das antigas, e voltou a tocar após uns 10 anos parada. E tem muito mais (risos), então desculpa, que não ter banda com mulheres não existe!


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