Kurt Cobain, 50 Anos de Música (Uma Eulogia)

Kurt Cobain

Poptopia!, por Daniel Feltrin

Poptopia
Morre uma lenda.

Há exatos 50 anos nascia Kurt Donald Cobain na cidade de Aberdeen, Washington, no noroeste americano. Kurt cresceria nos arredores de Seattle para se tornar um dos expoentes do chamado Seattle Sound, também conhecido como grunge. Há menos de 23 anos, em 5 de abril de 1994, o frontman do Nirvana era encontrado sem vida em sua casa num bairro de Seattle. Morto aos 27 anos de idade, Cobain acabou se tornando uma das últimas lendas do rock.
A morte de Cobain, assim como sua vida, se traduz não só pela brusquidão da brevidade, mas sim pela longevidade do seu impacto. Uma época em que o rock cresceu se desenvolveu e morreu.

O grunge, encabeçado pelo Nirvana de Kurt foi uma retomada do hard rock dos anos 70, dos cabelos compridos e da filosofia humanista oprimida na violência das suas letras e raiva de suas guitarras. A banda de Seattle, com as letras amargas, muitas vezes sem sentido e o instrumental mais simplista beirando o punk rock denotavam uma espécie de deboche à tudo que o rock criou e exauriu.

Fede a espírito adolescente.

Exemplo de contracultura desde seu início nos anos 50, o rock tinha se tornado justamente o contrário do que pregava. Um estilo formatado e representante do status quo no final dos anos 80. O hard rock e o metal não traziam nada de novo e o punk dependia muito da cena política conservadora que já vinha soltando as amarras com a decadência das Thatchers e Reagans.

Nesse contexto, o grunge floresceu nas partes mais frias da América e com o Nirvana explodiu mundialmente. O já citado deboche e as canções com refrões nervosos e contagiantes conquistaram o público de uma forma inesperada. O sucesso foi imediato. O clipe de “Smells Like Teen Spirit” começou a passar continuamente na MTV e de um dia para o outro todo mundo conhecia o Nirvana e o grunge com seu estilo icônico de calças jeans rasgadas no joelho e camisas flanela.

Essa talvez tenha sido a perdição de Cobain, pois, nunca soube lidar com o status de celebridade e as exigências impostas pela viciada indústria musical inflada da indústria da qual fazia parte agora. O peso da sua própria persona o esmagava e seu vício em heroína, que usava para fugir de si mesmo, aumentava.

Muito se tenta explicar sua personalidade conturbada. Há documentários (entre os mais famosos o recente “Montage of Heck” e o clássico “Kurt & Courtney”) e biografias (a mais famosa “Heavier Than Heaven”), pois é claro que o sucesso e atenção teve um peso enorme na saúde mental do músico. Mas é sempre visível uma dualidade de trevas e luz na vida de Kurt.

Luz e Trevas

O ano de 1967 foi marcado como o ano da psicodelia na música. No lado iluminado da força “Sgt Peppers” dos Beatles. No lado negro da força, “Piper at the Gates of Dawn” do Pink Floyd. O mundo precisava dizer algo através da quebra de convenções, da liberdade da imaginação e do uso do rock e das drogas. Seja pelo lado otimista e inspirado da melhor fase de Paul McCartney ou pela já decadente genialidade de Syd Barrett, a contracultura que bateria forte no mundo no ano seguinte já se levantava pela voz jovem da cultura pop.

Essa dualidade é traduzida perfeitamente no primeiro disco de um cantor que se lançaria ao mundo nesse mesmo ano de 1967. David Bowie que, apenas três anos depois, lançaria um dos discos que mudariam a vida de Cobain exibindo suas longas madeixas da capa de “The Man Who Sold the World” cuja canção título seria gravada e imortalizada por Kurt no acústico do Nirvana em 1993.

A ambiguidade de Bowie sempre foi reconhecida na própria ambiguidade de Kurt. Pessoa gentil e que possuía tanto amor e compreensão do mundo ao mesmo tempo em que essa vontade enorme de abraçar o mundo o levou a autodestruição antes mesmo da fama.

Bowie seria o exemplo de artista perfeito para Kurt, decisivo e de personalidade forte, o cantor inglês demonstra sem medo toda a gama de criatividade refletida na sua ambiguidade sexual, musical e artística.

Há o mesmo tour de force criativo na personalidade de Cobain. Uma mistura de luz e trevas através do viés potente da música pop e distorcida do rock. De certa forma, Cobain é uma espécie de Bowie do fim dos tempos, com a mesma verve pela inquietude artística, mas oprimido pela sua própria limitação auto-sabotadora.

Terminal

Em 5 de abril de 1994 para muitos morreu o rock com Kurt. O grunge teve todo o seu poder, pois evocava tudo aquilo que o rock tinha sido até então num movimento poderoso, mas fadado ao fim. Estava tudo ali: punk, metal, progressivo, pop, gótico, folk, indie, etc. Como numa convulsão o grunge explodiu para o mundo e rapidamente esvaneceu após a morte de Cobain. Como o próprio diz em sua carta de despedida: “É melhor queimar do que desaparecer”.

O grunge explodiu com o Nirvana e morreu com ele, mas o que morreu de fato foi o rock no mainstream. O rock como estilo de massas, como grande lotador de estádios. Das cinzas restaram as bases mais fundadas com o rock alternativo que por si só é a contracultura em essência. As bandas que influenciaram Kurt como Sonic Youth, Pixies e Meat Puppets solidificaram-se ainda mais como representantes do que rock significava de verdade, e delas todo um conceito de música alternativa e independente (o famigerado indie) se consolidou e cresceu de forma multifacetada.
Seria muito fácil terminar esta eulogia reforçando a imagem de mártir de Kurt Cobain, porém, dificilmente essa seria sua vontade. Não consigo imaginar um Kurt de 50 anos se preocupando com mártires e ícones que são utilizados como capital ao vender uma imagem estacionária e irreal dos músicos que representam. Prefiro pensar num jovem senhor cuja vontade de se reinventar permaneceria, mesmo depois de crises e crises, assim como a contracultura que se fortalecia quando ele nasceu.

Prefiro celebrar os 50 anos de Kurt celebrando a contracultura de qual ele fez parte e se criou, celebrando 50 anos de música que fez de Cobain um dos maiores artistas dos nossos tempos.


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