“Kurious Eyes” mostra o som “pós-punklore” performático do duo La Burca

“Kurious Eyes” mostra o som “pós-punklore” performático do duo La Burca

3 de agosto de 2016 0 Por João Pedro Ramos

O “pós-punklore” performático do La Burca vem diretamente de Bauru, no interior de São Paulo, e desde 2011 mistura em seu som diversas influências de pós-punk, folk, grunge e punk rock, entre muitas outras coisas. “Tem muita coisa, porque acho que desde o que escutei na infância, tipo Balão Mágico,  me influenciou (risos)”, conta Amanda Rocha (vocais e violão), que junto com Lucas S. (bateria) já lançou três discos: os EPs “La Burca” (2013) e “She Goos to Flowers” (2015) e o recém-lançado disco “Kurious Eyes” (2016).

Sobre o novo trabalho, Amanda conta que optaram por gravar o som ao vivo. “Usamos alguns ruídos e calmarias que podem permear um show. Um exemplo é a música ‘HHH’, um improviso-hino-randômico-ao-amor feito em parceria com Marcos Tamamati (Bertran de Born, Acromo) na guitarra, que também toca na instrumental ‘Goos’”. O disco contou também com as participações de Vanessa de Michelis (guitarra) e Jiulien Regine (percussão), do Post e da banda de Sara Não Tem Nome, na música “She Thrills”. As faixas contam com temas como o amor entre mulheres, preconceito, empoderamento e muito mais.

Conversei com Amanda sobre a carreira da banda, o “pós-punklore”, o machismo no meio musical e suas inspirações musicais:

– Como a banda começou?

Começamos em 2011. Eu pensava em algo mais acústico, meio neo folk… Tinha muito som parado e tava incomodada de não mostrar. Aí demos um break,  mudei de cidade e o Lucas se enrolou… Voltamos no final de 2012, ensaiamos uns 2 meses e gravamos ao vivo. Curiosidade: o primeiro show foi em fevereiro de 2013 com o lançamento do disco “La Burca”, D.I.Y. Antes de chamar o Lucas tentei algo cênico com um maluco, mas surtamos no primeiro ensaio e não rolou. Ia ser um acústico violento (risos).

– E porque “La Burca”?

Hmmmm… Foi tudo meio instintivo… Fiz um som instumental com esse nome e um desenho – que seria a capa do disco com o nome “La Burca”. Tem a ver com libertação/opressão/se salvar de si mesma. O nome da banda foi uma consequência ao que já tinha feito, “batizado”.

– E porque mudou de estilo? Como você definiria o som da banda?

Não cheguei a mudar, sé adaptei mais, porque tudo se comunica,  tenho sons mais pro folk e outros que ganharam peso com bateria. Aliás, bateria que passo mais ou menos o que quero e ele adapta. Então, pensei no termo post-punklore, porque são as misturas sonoras mais significativas pra mim: post punk, punk e folk.
Só faltou o grunge (risos). Eu escutei um som que o cara falava “this is punklore”, ou eu acho que escutei isso e ficou martelando… Porque casava com o que fazia/faço.

– Quais são as principais bandas e artistas que influenciaram o La Burca?

Vixe, tem muita coisa, porque acho que desde o que escutei na infância, tipo Balão Mágico,  me influenciou (risos). Escutei e escuto muito post punk, MercenáriasHermeto Paschoal,  música clássica surrealista… Ravel, Satie, Debussy… punk… Subhumans, Germs, Ramones, Slits, Husker Du, Minutemen, mas Dead Moon, Wipers e Hazel moram no coração… Fora o grunge, claro, afinal sou dos anos 90. Outra coisa que amo muito escutar é Durutti Column e… “Neil Young é meu pastor e nada me faltará!” Também curto muito no wave, Lydia Lunch, Mars, James Chance… Krautrock – Can, Faust, Amon Dull… Lucas escuta muita coisa também, Novos Baianos, hardcore,  big band orquestras… Ufa! Sou fotógrafa, e vou parafrasear um fotógrafo – Duane Michals – com esta frase: “Eu sou um reflexo, musicalizando outros reflexos com seus reflexos”.

La Burca

– A música ainda é um meio muito machista? Como você vê isso?

Sim,  a sociedade é machista e o rock não fica de fora. Acho que o tempo todo somos postas à prova.  Tipo “será que ela sabe tocar?”, “Vamo ver qualé dessa mina”. Ssei que é um pensamento corrente em mentes estúpidas.  Toco há 20 anos no underground e não estamos isentas num nicho a priori “libertário e alternativo”. Muitas barreiras vêm sendo quebradas nesse meio musical, sejam eventos voltado às minas, só com bandas de mulheres ou majoritamente, há um fortalecimento e empoderamento necessário em andamento, mas é uma luta constante contra o machismo. Às vezes penso que é infindável. O rock é um reflexo da sociedade, um produto dela e temos que reverter esse “produto” em algo igualitário, condizente com a realidade das mulheres que produzem, tocam, cantam.  Enfim, (r)existimos.

– Fale um pouco mais sobre o material que a banda já lançou.

Lançamos o primeiro álbum em 2013, o homônimo “La Burca”, no esquema do it yourself. Gravamos em um estúdio em Agudos e produzimos e distribuímos nós  mesmos. Lançamos ele junto ao nosso primeiro show.
São 9 sons que mostram essa pegada “post-punklore” com sons mais sussa e acelerados. Gosto muito dele porque foi tipo uma libertação pra mim, em vários sentidos.  Enfim. Lá tem “Similar” e “Diário de uma Sombra”, opostos que se comunicam.  Punk grungístico e som instrumental. Adoro musica instrumental-minimal. Esses dois sons tem uns clipes maneiros no nosso canal do YouTube (“maneiros”, gíria idosa). É um disco especial que já mostramos os lados que curtimos. Como “Kid Kid Kid”,  balada post punk “psicodélica” e “Excuse from the Universe”. São sons que eu tinha “empoeirados”,  guardamos desde 2001… que se misturaram e deram nele. Os desenhos do encarte desse disco foram influenciados pela HQ “Bloody”. Gosto muito de HQS literárias e tals…  O clipe de “Diário de uma Sombra” também tem uma pegada Sandman. Eu usei imagens do meu livro “A Imagem no Museu do Sonho – Uma Visão Imaginária de Sandman”. Lancei o clipe junto com o livro em 2014. Na real tento unir as artes que faço,   som e imagem. Já o EP “She Goos to Flowers” que antecede o “Kurious Eyes”, a capa foi feita por minha namorada Aline, que também é fotógrafa. Lançamos 3 sons nesse: “Goos”“Flowers of Romance” e “She Thrills” – esta música gravada com a Post Vanessa de Michellis na “outra” guitarra e Jiulian Regine na percussão, ensaiados uma hora antes de gravar e rolou. O nome-frase do disco é um analogia aos sons. Elas também tocam com a Sara Não Tem Nome. Ah, gravamos tudo ao vivo sempre, exceto a voz nesse segundo que preferi regravar separado. “Goos” também teve participação na guitarra com o Marcos Tamamati, que também toca em um duo, Bertran de Born. Lançamos tudo por nosso selo, punklorecords! “She Goos to Flowers” é do final de 2015. Agora em julho lançamos o álbum completo “Kurious Eyes”, também com 9 sons. Tamo aguardando pra setembro o vinil pela Lombra Records, de Brasília. Capa e arte também assino. Foi um disco mais trabalhoso, um parto, mas nasceu saudável (risos). A gente tava muito ansioso pra mostrar sons novos… Tocamos eles já faz um tempo em shows, com exceção de algumas.

– O que você acha da atual cena independente no Brasil?

Acho que existem várias cenas, é bem amplo o aspecto de cenário brasileiro. Ficamos mais na região sudeste, centro oeste paulista, então a percepção daqui é uma… Fomos agora pro DF lançar o disco novo, baita rolê lindão, diga-se, e vimos bandas tão distintas e tão próximas também entre elas… Há um emaranhado sonoro complexo de bandas instrumentais ótimas, por exemplo, post punk, sludge doom.. tanto daqui quanto dali. E os duos também, há uma cena incrível de duos espalhada… Tipo Sulfúrica Billi do Maranhão, Cassandra de Curitiba, Post de Belo Horizonte, Magnetita e Projeto Trator de SP, Muñoz de MG, Betran de Bauru… O problema é ficar ensimesmado e não ter troca, ficar fechado numa cena só de uma cidade… Na panela gordurosa. Aí não vira. Há muita música acontecendo.

– Você falou sobre duos. Porque este formato ficou tão popular depois dos anos 2000?

Não sei ao certo, mas pra mim foi pela facilidade de tocar, estava já meio esgotada do formato quarteto ou trio.  Menos é mais, às vezes (risos). Menos gente, menos problema. Como pensava em algo mais intimista e minimal,  o duo foi uma solução já pronta.

– E você acha que a cena do rock pode algum dia sair do underground e voltar às paradas de sucesso, como já rolou nos anos 90?

Vixe,  quem sou eu pra responder,  né?  Creio que todxs do meio  gostariam de ouvir algo decente nas rádios e não o lixo que desce ondas abaixo.  Tudo o que é novidade vende.  O grunge foi assim e além de ser novidade na época era e é boa música.  Havia um contexto cultural efervescente e dinâmico de bandas,  produtores. Hoje há apenas o mercado e sem qualidade,  ficamos restritos a um cenário que “celebra a si mesmo”.  Acho difícil,  hoje tudo é nicho.

La Burca

– Mas você acha que isso é culpa da internet e a queda da cultura do álbum, da Mtv Brasil e do fácil acesso aos singles em streaming ou algum outro fator? A culpa é do público ou do mercado?

Tá todo mundo acomodado!  A culpa é do governo (risos). Hoje é outro contexto de se ouvir  música.  São novos tempos e creio que estamos em fases de adaptação.  Mas prefiro a velha escola.  Vinil,  K7, CD.

– Quais os próximos passos do La Burca em 2016?

Divulgar o novo disco – “Kurious Eyes” – onde pudermos, ir pra outros Estados, ampliarmos os palcos. E tamo aguardando o vinil pela Lombra Records também,  vai rolar show em SP em setembro possivelmente com o lançamento.

– Recomende bandas e artistas (de preferências independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Os duos Luvbugs e Fronte VioletaLiniker e os Caramelows, Sociopata, Mais Valia, Sara Não Tem Nome, Gattopardo, Jussara Marçal, Giallos, Post, Krokodil, Rakta! Porno Massacre também é louco. Glassbox. Tem muita banda que escuto randomicamente… Inclui Blear!  Tô pirando com o novo,  foda demais. Acho legal falar de bandas antigas também que cresci ouvindo e ainda ouço: Pin Ups, Brincando de Deus, Snooze, Eddie, Second Come… Isso graças aos zines que chegavam, tipo o Scream & Yell… Época linda e ingênua, sem a precocidade imediatista de sucesso da internet.